NETOS

NETOS

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

REMARKABLE PEOPLE



FERNANDO PESSOA

(Lisboa, 1888 - 1935, Lisboa)


"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


************
"I am nothing.
I will never be anything.
I cannot want to be anything.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."

or...

"I am not nothing.
I will never be nothing.
I cannot want to be nothing.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."


(Álvaro de Campos in "Tabacaria")




LISBOA - Chiado

LISBOA - Chiado
"Fernando Pessoa" by Lagoa Henriques. The place: "Café A Brasileira" (Brazilian Café) - 1905.

PLAYLIST TODAY




MUSIC IS THE PASSION REPORT



♥ ♥ ♥


PLAYING SOFTLY WHILE SOMEONE SANG THE BLUES



Saturday, Jul 22, 2017 - 17:57





SALVADOR SOBRAL - NEM EU [DORIVAL CAYMMI]



YouTube – "Salvador Sobral"





ANTONY HEGARTY + LEONARD COHEN - IF IT BE YOUR WILL [COHEN]



YouTube – "Oggmonster"





CHAN MARSHALL (CAT POWER) - I'VE BEEN LOVING YOU TOO LONG [OTIS REDDING]



YouTube – "anaruido"





JANIS JOPLIN - ME & BOBBY MCGEE [CHRIS CHRISTOPHERSON]



YouTube – "ThE DuCk"





JEFF BUCKLEY - LILAC WINE [JAMES SHELTON]



YouTube – " roberta panzeri"





DAVID BOWIE - WILD IS THE WIND [JOHNNY MATHIS]



YouTube – "Peter Music HD"







_____________________


LEANING INTO THE AFTERNOONS by PABLO NERUDA

«Inclinado en las Tardes»



YouTube - "FourSeasons Productions"






CHANGING BATTERIES - OSCAR WINNING ANIMATED SHORT FILM



YouTube - "Bzzz Day"





DIALA BRISLY - A BEAUTIFUL YOUNG LADY

(a huge thanks to my daughter who e-mailed this video to me)



BBC Newsnight

«Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman - artist Diala Brisly - who is trying to make life that little bit more bearable for Syria's kids.»

Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman -...

Publicado por BBC Newsnight em Domingo, 20 de Março de 2016






A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT

A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT



FLYING A SECRET



I got here to hide. From equations and patterns. From repetition, after all.
Closed the door and got me a special place where I thought I could
somehow sit close to the stars. But I soon found out that the sky was
still opaque, no matter what the steps. And so I left. Again.

I thought, then, I could build me a different ceiling, a new-coloured scrap
of highness. And then make it work. Where I could dream, more than I sleep.
I have long decided that sleeping is overrated - that I know for sure. So I
take that time instead to travel the night alone and in the meantime I allow
myself to fly, unlike stated before... Yes, I like playing with paradox, to
expose the inside of words and the revelation of writing down the voice of a
silence. My adventurous, ever-walking silence.

So I came back. Here, within this quiet world, I intend to gather all my
things usually kept hidden or inactive. They are here to speak.

And since the future is a stand-by secret, I want to live by a precocious
clock, at every running instant of every entering second.

And I will not slow down until my "future exists now" - kind of reverse
quoting Jacob Bronowski.


Ana Vassalo
in my site "CAFEÍNA"(former "No Flying Allowed")
Nov 11, 2010 - 11:54




THE WALK OF TIME

THE WALK OF TIME

quarta-feira, 28 de julho de 2010

INCONHECIDO ("Searching for Seashells")



"YOUNG GIRL SEARCHING FOR SEASHELLS"



Inconhecido

("Searching for Seashells")



Se estivesses aqui, não estarias mais do que agora.
Porque desvendarias a possibilidade.
Sonhos, são versos adiante na esfera do improvável.
(Quero somar para descontar) . O que faço de ti,
não sei. Não estás aqui. Mas a interrogação que insinua
ponto por ponto o perímetro dos meus passos informa
que é bom não estares. Não me interessa descobrir
que não subsistes, para lá da minha projecção de ti.
E as alamedas largas, gigantes de todo o mistério,
continuarão como as sei, plenas de salgueiros e de deuses,
talvez até de fontes, porque não?, de nascentes
que não descem para já, de florestas impenetráveis
de sempre até ser hoje, da (in)transcendência dos milagres.
De contradição e absurdo. De pontos de exclamação
clamando por admirar. Assim.
Então, poderei caminhar mais sonhos. E a circunstância
de não estares, enforma a viagem de lonjura – perfeição
de inquiridores...
Um dia, claro que vou parar. No parágrafo mais amorfo
e repetente, paradigma da inevitabilidade que as pontuações
de caminhar conhecem, eis a chegada.
Morrerei na curva de perguntar.
Até lá, tudo é chuva e arco-íris...



Ana Vassalo
27-07-2010 – 23:17

Origem das Imagens: Site Tampabay.com (Unknown Reader)

segunda-feira, 26 de julho de 2010

MAR DA ALMA








































Sea of the Soul (detail), by Anne Cameron Cutri





Mar da Alma


Mar da Vaga
Mar de ensejos

Mar da Saga
De mil beijos

Mar da vela
Segue a estrela
Mar Sargaço de segredos

Mar de dores
Por amores
Mar tão farto de degredos

Mar do Fim
Mar encontrado
Caos por sedas navegado
Pranto que foi do marfim

Mar marinheiro

Mar caravela
De aventureiro
Mar da canela

Cais da rebenta
Cabo de naus em Tormenta
No mar que é do coração

Mar de aflição
Mar de outros deuses

Mar de Mundos
Mais profundos
De outras vezes

Mar em Lisboa
Só de passagem
Mar ... oh Mar!

Que és de Pessoa
A voz Mensagem
Do Mar amar

Mar da paixão ...
Solto na margem
De ser perdão

Oh Mar de mim!

- Mar de calar
Águas sem fim...



Ana Vassalo

24-07-2010 - 10:19

Origem das Imagens: fine art america.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

POR MARES DE ERA UMA VEZ...


Poema escrito para dedicar a alguns amigos escolhidos da arte de navegar, amigos pessoais antigos e para as minhas filhas, a real (Natacha) e a de brincar (Marisa), todos inseridos no universo HI5, com um beijo de gratidão, por serem assim, especiais como são. E agora vamos lá, contar “Histórias de Verão, Contos de Inverno”. (1)

Porque todos os dias são retalhos de brincar...




POSEIDON

Deus Supremo dos Mares - Mitologia Grega



POR MARES DE ERA UMA VEZ...


ERA UMA VEZ... UM OUTRO DIA A SER CANÇÃO
NUM CERTO FAZ DE CONTA DE SER OS MARES
MARéS DE OUTRO CéU COM LUARES DE ARRASTÃO
POSEIDON ANCORADO NUM SORRISO DE BRINCAR

O SOL À PRESSA, P’LAS DUNAS ENSONADAS
PINTAVA AZUL O FUNDO DA MADRUGADA
E OS POETAS FEITOS SÁBIOS DE ENCANTAR
REUNIRAM NUMA PRAIA POR ACHAR

E ERA MAIS UM VENTO QUE ACENDIA
COISAS DE SEMPRE E NOVO DIA
PÁTRIAS DE GENTE SUAVE ABRIGO
SOPRANDO NOVAS DE SEU AMIGO

FOI ENTÃO QUE O SOL MAIS BRILHO
DE OUTRAS CORES QUE NÃO HÁ
SE SENTOU NO MEIO DO TRILHO
DO SONHO QUE ERA POR LÁ

NO ESPAÇO DO TEMPO QUIETO
A VOZ DO CANTO EMERGIA
E A PALAVRA ENTÃO NASCIA
DE UMA ALMA A DESCOBERTO

TRAÇAVA ROTAS DE SEDA
NA MÃO QUE OUTRA MÃO APERTA
DA TERNURA QUE SE ACERTA
NUM VÔO PRA LÁ DO MEDO

DESFILARAM TERRAS OUTRAS
DE AMORES GRATOS DE DAR
REIS, DRAGÕES E COISAS LOUCAS
MAIS O QUE É BOM DE INVENTAR

UMA FLAUTA EM HARMONIA
UM CRAVO DE LUZ QUE É GUIA
A GUITARRA QUE NÃO CHORA
A VOZ QUE OUTRAS VOZES MORA

E UMA ASA QUE LEVANTA
A VELA A QUERER MARINHAR
NA PARTIDA QUE SUPLANTA
OS SONHOS DE TUDO OUSAR

E EU POETA NAVEGANTE
POR COISAS DE MAR AMAR
TRAGO NO PEITO UM SEXTANTE
DE ESTRELAS POR VELEJAR

GUARDO UM TEAR FANTASIA
UM ESPELHO DE ALCANCE ETERNO
TEÇO AMORES POR GOVERNO
MIRO AS TERRAS DE UTOPIA

SÃO FLORES QUE ARRANCO AO FRIO
NOS MEUS OLHOS DE AVENTURA
E É POR VÓS QUE TRAGO UM RIO
A CORRER PELA TERNURA...

ERA UMA VEZ O ETERNO AGORA
SENTADO À MESA DO TEMPO
NUM ABRAÇO SEM TER HORA
QUE É MEU E SEGUE NO VENTO


...

E O VOSSO HÁ-DE ENCANTAR
QUANDO ERA UMA VEZ FOR O MAR...



Ana Vassalo
10-07-2010 – 04:55




(1) Autor: David Lodge.

Origem das Imagens:
www.mlahanas.de/Greeks/Mythology

sexta-feira, 4 de junho de 2010

VIRTUALMENTE INCOMPETENTE!



 

Virtualmente incompetente!

Não sei porque me procuro nas esquinas, no revés de todas as rectas. Ou o que faço aqui, nesta suposta ronda de amigos, onde a matéria é incorpórea e os sentimentos nos chegam por éter. Seguramente terá muito q ver com aquele meu escuso lado aventureiro, uma sede antiga de conceber impossibilidades.

Tenho esta espécie de traço genético em mim, que larga o riso com gosto e navega na gargalhada de outros, que exibe a naturalidade de todas as estrelas alinhadas em céus nocturnos e se mexe com aparente descontracção nos corredores da sociabilidade.

Mentira, tudo isso. Não que a valide, há de facto um lado de mim que é exteriorizante e quer ver-se encontrado com outros exteriores diversos. Mas... seria necessário que todos os interlocutores fossem, também eles, algo de timidez escondida em extroversão, para que as sensibilidades se tornassem ajustáveis e comunicar constituísse, então, a grande festa alternativa para os sequestrados do lar. E eu?... Eu sou toda a palavra que urge por ser dita, mas sou também e talvez mais este silêncio dos que receiam a dor.

Bato à porta, peço licença de entrada neste mundo de intromissão, onde o meu temor de ser excesso em alguém - aquele ponto de saturação de todos os concentrados - acaba por me condicionar o prazer da aquisiçao.

Tenho o cuidado milenar dos penhascos a espreitar o abismo, naqueles exactos momentos em que de mim, incompreensivelmente, se esperam coragens de bodyjumping. Sou o exemplar às avessas do mundo em que se move.

E no entanto, lá estou. Antecipando a companhia da surpresa, essa incansável mensageira da novidade, de todos os não expectáveis aqui, dos surpreendíveis de lá.Entretém-me, este inventar-me a cada dia nos caminhos da história que é a minha, mas que igualmente me conduzem por outros, desejadamente profícuos e criativos.Porque eu não sou a realidade unívoca, desmontável em linha, classificável nas constantes da normalização. Eu, sou mais um de tantos mas diversos microuniversos de convicções suadas e de humanas contradições também, porque me movo nos terrenos da questão.

Porque é por aí mesmo que sempre quero caminhar, a descodificar mais troços de novo rumo. Nada é eternamente certo e reconhecível, assim tenho aprendido e nem sempre pelo método mais simples.


E é assim que sou feliz, exactamente por isso!
Depois, regressada de cogitações, lá dou por mim em meandros de procuras circulares: serão então as questões que, de tanto as perseguir, lavram em mim a incerteza de permanecer? De ansiar sempre mais pelo passo que vem depois?

Há lugares aonde sinto que pertenço. São poucos, mas estão por aí. Porquê, então, lamentar pelos outros onde não preconizo qualquer ideia de conforto?

Se eu visasse somente acomodar-me em qualquer e cada uma das aldeias concordantes, jamais avançaria desse seguro posto de controlo do futuro. Seria uma estaca inamovível no solo eleito das minhas vitórias. Provisórias, é certo, mas que no seu tempo de acção alargam o meu espaço de conhecido e o tornam sempre mais reconhecido.

Largo-me ao acaso, então, abandonando as zonas de conforto tão depressa as conquistei e espero – ou indago – por outras a desbravar na periferia do meu mundo conhecível.


Porque, para avançar na construção paciente da minha felicidade pessoal, eu tenho de arriscar, se pretendo conhecer. E conhecer é dar significância ao que antes nem sabia existir e no entanto completa e refaz a curiosidade de novas partidas, mesmo agora acabada de saciar.

E por tudo isto e o mais que fica por dizer, relativizo qualquer réstea de timidez ou dificuldade de interacção, que impositoriamente vivem comigo, até que o hábito por repetição acumulada suceda na empresa e acabe por me adaptar.
Preciso de conhecer mais, nas imediações possíveis do disponível para conhecimento, para poder o sorriso que quero na minha vida.
Ana Vassalo
04-06-2010 – 02:56H

Origem da Imagem: site da Revista "Construir Nordeste".

Sem Vento, no Mar dos Sargaços



Triângulo das Bermudas - Atlântico Norte (Mar dos Sargaços)


[Hope is the thing with feathers
That perches in the soul,
And sings the tune without the words,
And never stops at all…


Emily Dickinson

(Esperança é aquela coisa com penas
Que se pendura na alma
E canta a melodia sem as palavras,
E jamais se detém...)]





Sem Vento, No Mar dos Sargaços



e se a minha,
a alma que me adoptou,
se descobrisse, afinal,
viagem deserta de pássaros?

e não contente de vazios,
se quisesse achar também,
num desapego de fins
esquecida de toda a música?

e se nada, nada mais resistisse
na minha casa da memória
que um indiferente sinal
de trânsito interrompido?

e se todos os solos da vida,
a guitarra embriagada
nos dedos a que se entrega,
se calassem desolados
na amnésia do tempo?

e se ao acordar de alvoradas
já mais nada em mim soasse
que a voz fraca e indigente
dos inquilinos da poeira?

e se os meus olhos de ler
que não aprenderam poemas
fossem somente naufrágios
neste mar sargaceado
que me fez desaparecer ?

e se todos os futuros
que me inventei pelo sonho
me acenassem acordados
ruindo na noite eterna?

e se dos mundos que anseio
e pinto em manhãs de branco
escureceram entretanto
as tintas que eram da luz?

e se na palma das mãos que cerro,
estas minhas, tão vazias,
por tanto tempo de vidas
estendidas para a surpresa,
se esmagasse o dia novo?

tenho essa tal, sem as penas,
que julgo ainda ser minha,
numa pausa de compassos
e tempos em desacerto
de canção inacabada

vou... acender um deserto
onde me perca no vento
a buscar lugares de nunca
nesse além que abriga o nada
pra cá de coisa nenhuma

sou... esse vulto perfeito
que se move pela bruma
onde o nome dos sem jeito
perfeitamente se arruma

sou a própria:
um certo andar navegado
sem carta, ou céu adiante

ausente de todo o medo
refugiada em degredo
numa gruta marinhante...

afagada pela saudade
num beijo cheio de mar

que não me canso de ousar...


Ana Vassalo
03-06-2010 – 05:28


Origem das Imagens: site Webshots.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

CRATO




António Zambujo, "Trago Alentejo na Voz"



(Já eu, trago Alentejo em mim...)



Crato



E então a noite chegava, no desencontro das estrelas, e eu sabia que ali morava uma parede de céu forrada de preto e prata, que sempre me consolara.

Ficava ali, nas minhas horas de esquecer, a ensaiar a fuga real que vivia nos meus sonhos. E os olhos fugiam a rasar a planície escondida de escuro, onde as estrelas ajudavam. Ajustava os binóculos, a desenhar a Lua perfeita, gigante e de branco, como a via na vontade. E em tamanha ambição, seguia pelo contraste para depois a desfocar, tornada em plano irreal, onde me apetecia entrar.

Naquela terra, sonhar era uma possibilidade presente, potencial nosso em formação pelo interior do silêncio.

Amanhecia. Rumar ao mosteiro era um presente matinal que me concedia. Instalava-me no Bar, vazio e imponente, catedral da paz no espírito mais desencontrado. Em fundo, Madredeus soavam, correndo arcadas, vitrais, rosáceas, a lembrar um encontro com os anjos, a pedido, de Segunda a Domingo.

Era feliz, entre a memória dos ritos, a altivez das colunas, e a música, a agarrar o passado num dia fora de tempo.

Vinha de lá, daquelas ruas caiadas de branco e estreiteza, canteiros suspensos e janelas pequenas, onde o bom gosto soletra a simplicidade, pórticos restaurados na pedra picada por artesãos aprendizes, de outros, ancestrais artistas da obrigação onde o talento vencia!

Vinha dali, de um lugar onde o sino repicava as cinco da tarde, do alto do campanário de uma igreja sem idade, entre o cemitério calado e a planície atrevida, registando proximidades. A lembrar como é real a união das almas no universo da ideia, seja na vida ou na morte.

Sei que o meu tempo ali se entendia. E estendia, para lá do relógio ensinado, e ganhava corpo e voava pela terra dos sentidos, elevando pelos céus uma outra vida que a memória genética parece já ter esquecido.

Apercebia, enfim, a imaginação como um poderoso alucinogéneo, capaz de criar horizontes fora de contexto logo que nos propomos lançar o olhar, despojados de pré-noções sobre o que deve ou não estar certo no seu devido lugar.

Não existe um lugar para as coisas da memória. Temos de ser nós arquitectos, de uma cidade de recantos por achar, inventores de mais céu no fim do mar, para que as asas batam luares e a vida seja, por fim, a viagem a cumprir do olhar insatisfeito.

Lá, o poente é uma tela impressionista, em que o azul perdeu a sua importância de céu.

Do alto de qualquer torre, escadaria de jardim, ou miradouro natural desavisado, a cor brinca com o olhar em tons difusos e dispersos, como crianças brincando um sonho que nunca havíamos sonhado, mas gravam no céu poesia que desprevenidamente carregávamos dentro de nós.

Porque o silêncio inspira as almas achadas no desencontro do ruído inexpressivo e é nele, silêncio maior, que a natureza se aplica a revelar o que de nós é essência. Somente no centro do nada que o desconhecido representa pode despontar aquele todo que somos nós antes de nos dispersarmos pelas avenidas do progresso.

Lá, onde o tempo não se mede, acorda um dia de horas plenas, que habitam dentro de nós.



Ana Vassalo
22-Abril-2010 – 22:35H

Posted: 2-Maio-2010

quinta-feira, 29 de abril de 2010

DO TEMPO QUE É NAVEGANTE















(A Via Láctea - região centro)
(Milky Way Galaxy Center)



Do Tempo que é Navegante


[Para alguém, com quem nunca me encontrei, mas que há-de cruzar o meu tempo e entendê-lo para mim…]

Se um dia eu fosse um passo certo na jornada, tu serias o caminho na descoberta do meu tempo.

Mas esqueci o trilho, limpei, da memória que sou, essa rota dos enganos. Aqui, neste agora que me acolhe, sou a poeira que resta de um vôo que despenhei, na vertigem de chegar. E nessa pressa de ser, matei os meus dias de vir e estou por aqui, sem morada, ancorada num silêncio demandado, onde me escondo das horas que deixei por navegar.

Tu, és aquele que transporta o vento e a estrela, a vela, que hão-de saber o meu mar…




Ana Vassalo

29-Abril-2010 - 21:16 

Origem das Imagens: Wikimedia Commons.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

ACABARAM-SE AS CANÇÕES...



Sunrise at 30K Feet




acabaram-se as canções...


vivo na sombra dos dias
naquele buraco mais negro
das existências perdidas
que se arrastam pela vida
a cumprir um velho uso…

sou fogueira de um passado
onde a chuva ganhou espaço
e me afogou na paragem

agora…

sou pausa eterna de mim…
por mais que o sol das manhãs
se aventure pelas janelas
ferem-se os olhos na luz
que jamais deixei entrar

espreito as frestas de mil portas
que entreabri no silêncio
e nesses rastos cansados
que vislumbro pelas nesgas
num raiar desencontrado

respiro um pouco de sol
o tanto que me consinto
para rumar tão mais certa
escondida dentro de mim
à noite, que me entontece

sou a miragem esquecida
força detida no tempo
que se retrata nos becos
onde as horas se aconchegam
pra não terem de passar

e se um dia me acordar
de um certo rasgo de esperança
a tactear-me o encontro

certamente que estes olhos
ancorados na ausência
p’los passos da demissão
se hão-de esquecer do caminho
que sabe a luz nas veredas

não…

não é na sombra dos dias
neste avesso onde me agarro
que hei-de saber de voltar

de tanto me escurecer
sei lá se morri há muito
e me esqueci de notar…


Ana Vassalo

7-Abril-2010 – 13:06H

Origem das imagens: site Webshots

segunda-feira, 22 de março de 2010

BARCA DO TEMPO DE LONGE ...


























Lonely Ship

by


4Seasons





barca do tempo de longe…


eu queria… conhecer a fé perfeita
do lado avesso das flores
que esconde do sol temores
e em inocência se deita!
e queria… numa pátria do amor,
que um sabre de luz rompesse
e nos olhos já sem cor
janelas de brilho ardesse…

acho-me por aí, nos quintais
onde os sonhos se adormecem
- sementes do dia, vitais,
que pela noite se tecem…

e eu colho, e corro o mundo,
e volto no mar mais profundo
sem ponte nem cais de abrigo!
terra à vista, por lá sigo…
não me encontro na cidade
- é sempre velha a saudade
dos campos fartos de gente
que o silêncio não consente…

Lisboa de mim, que amei,
meu Tejo da ventania,
tanto verso em vós chorei
sem saber o que doía!
não, não creio ser desamor
o que de mim vos calou:
é que a paixão que queimou
morreu num grito de dor
que a espera desencantou!
e se hoje sou este peito
deserto de coração,
é que vos sonhei perfeitos
no bater da emoção,
mas…

sei que mais do que é previsto
vence o sangue que é mais quente!
por ti, cidade, persisto,
és mais estrada que o presente…
e o rio, esse meu rio, adiante,
sabe de mim o instante
em que o tormento já morre,
e vem…
tão certo de mim, ele corre
a levar-me contra o vento…
ao largo,
onde se agita, mirante,
a tal barca que é do tempo…

lá, onde as águas se abraçam,
eu sei de cada lugar,
fossos e grutas de encanto,
sereias, “meninas do mar”!
encontro-os em sonhos que passam
a lembrar cada recanto
deste velho navegar…

eu queria…
ser esse conto de fé
no livro que escreve a vida
a voar tudo o que é!



Ana Vassalo
22-03-2010 – 01:48H


Origem das Imagens: site RedBubble.

sábado, 30 de janeiro de 2010

ÁGUAS DE AMIGO

Friendship Arch: Ukraine and Russia

People's Friendship Arch - Kiev, Ucrânia



Existe um Grupo no Hi5 que, como tantos outros, reúne pessoas com algumas afinidades e que gostam de conviver. Mas este, encontrado para lá da distância, une palavras e também corações, dos dois lados do Atlântico.

Partilhamos carinho, dons, tristezas, vitórias, abraços. Alguns já nos conhecemos, outros não, porque a longa distância física dificulta o processo, mas... encontramo-nos pelos caminhos da alma e gostamos de nos saber companheiros na jornada. Que dúvidas não restem sobre isso!

A contento de todos, porque a Liberdade respira-se e a Democracia constroi-se, foi escolhido para esta comunidade de gentis-almas o nome de CORAÇÕES DO ATLÂNTICO. Os seus membros activos ofereceram-me amor no dia do meu aniversário. Quis retribuir como podia e sabia. Escrevi este poema por volta das 4 da madrugada, já as manifestações de carinho dos meus queridos companheiros de tertúlias várias iam largas e bonitas.

Quero agradecer-lhes, um a um, pela espantosa novidade que gravaram na minha vida. É que há quase 1 ano que perdi o norte à palavra SOLIDÃO. O meu dicionário privado não a recorda. Por isso, pelas noites caiadas de versos, pelo ombro emprestado, pelas manhãs de sossego e alegria, pela música mensageira dos afectos, por esse Mar dos Abraços que tudo nos aproxima, eu estou-vos grata.

Alice Pedro, Anna Clara, Carlos Costa, Cristina Bastos, Mari Baltazar, Marisa Guia, Milton Lourenço, San Padovani, Susana Azevedo, Teresa Nicolau e Vítor Pereira - veteranos, temporariamente ausentes, recém-chegados, recém-regressados, amigos pessoais, Brasileiros, Portugueses, mas todos reunidos, hoje e aqui, que o presente é agora e as horas não sobram.

Beijos mil, queridos Amigos!!!




ÁGUAS DE AMIGO

Eu sei… de um certo rio…
Do amor o tempo,
O espaço imenso,
A mão fechada
na mão que abriga,
Do riso aberto
- janela do encontro…
A palavra desenhada
no futuro que se crê
E a distância sem tamanho…
porque saiu da lonjura!

Eu sei…
Tantas, mas tantas Histórias
do sol e de branco, aqui…
Cantares do mundo inquieto
em sossegos emprestados,
Da folha breve de outono
que afinal estiou em flor,
Horizontes já perdidos
que a ternura nos fez perto
E o meu mar largo de instantes
em praias outras achado…

E sei muitas coisas de saber!
Da palavra que se entrega
pelas noites apagadas
tornando mais branca a luz
no olhar da alvorada…
Sei do ombro que ameniza
o frio cárcere de outro peito,
sussurro amigo da vida
que o medo nos afugenta.
Sei sim,
sei o que sei! …


E muito mais que essa tela
desenhada nos meus dias,
Neves e fragas que venço
nos versos que me defendem,
Mais esse mar acordado
onde me escondo de sonhos
E a canção que interrompi
mas ‘inda grito, baixinho,
SEI!!!,
Que amigo é muito mais estrada
pelas rotas da conquista,
Regresso ao centro da vida
onde já foi só final
E a aventura de um sorriso
no trilho que era do pó!

Amigo é prólogo… e arranque,
É caminho!
É asa voada no chão da subida
e é o olhar encantado
na luz que outrora cegámos!

É um castro, a fortaleza!
E é construção em processo
num estado-maior general
onde nascem os começos!!!


Amigo?

Amigo é …
o rosto nosso em imagem…
nas águas de um rio Melhor!


Ana Vassalo

20-Janeiro-2010 – 04:29

Origem das imagens: site webshots.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

RECONSTRUÇÃO DESPEDIDA



















Reconstrução despedida


La solitude, ça n’existe pas…”

(Gilbert Bécaud)
 

As palavras do meu tempo

correm muito devagar:

buscam a luz dos recantos

onde a paz mais verdadeira

só se encontra em solidão...

As palavras do meu tempo

amam todas as palavras

que se reconhecem belas,

mas caminham solitárias

como quem não quer chegar!...

Porque chegar é partilha

e as palavras do meu tempo...

querem somente calar.


Ana Vassalo
13-10-2009
Posted 13-10-2009

Origem das Imagens: site Webshots - "Solitude"

equívocas lonjuras...




Domestic Violence, in alexandriava.gov site


equívocas lonjuras…
(a uma amiga 'sequestrada'...)
nesse espaço intergaláctico
onde te adensas sem guia
e bates a porta sem estrondo
no infinito do erro,
vejo-te ao longe, lunar
por entre sóis já perdidos
em buracos do negro, vazio
da verdade que não vês,
ruindo no tempo a linha
traçada a lápis de afectos
num plano bidimensional
que a memória já rasgou…
em nula gravidade eternizas,
pairando em azuis do nada,
um silêncio de injustiça
sobre a cidade, fechada…

o amor?...
ah… esse…
o amor é mais!…

mais do que estrelas sem fim,
é olhos… para acendê-las…


Ana Vassalo
17-10-2009 – 14:41
Posted 17-10-2009
(directamente para o Brasil, quando foi escrito).

Mais uma Ponte no Atlântico

Atlantic Ocean looking South, near sunset




Mais uma Ponte no Atlântico


amigo é mais vida,
é luz na jornada,
um pai-alvorada
que é canto de abrigo…

e é mar de saída,
o trilho-paisagem
da ternura em viagem
na flor que é do trigo!

é o olhar na lonjura
buscando a doçura
para nos contentar

e traz um sopro divino
num vento menino
com asas de amar…



Ana Vassalo

23-10-2009 – 12:05H

Origem das imagens: site Webshots.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

NO LADO CERTO DO ESPELHO...

 








René Magritte,

Portrait d'Edward James


















 No Lado Certo do Espelho…

Sorrias um olhar manso, em trechos breves de ternura

P’la brisa morna em brancas tardes de ausência,
Onde eu retratava acertos de paz
Numa quietude de risos desprendidos
Que soltavas em demanda por mundos calados…
E eu, prisioneira de ti, assim,
Eu viajava planetas, na palavra sugerida nos teus lábios…
Eras… eras paisagem e desassossego…
Um toque de distraído requinte
No andar despojado de quem peleja universos
Sem nunca despir o casaco.
Eu… Eu partia, aqui e ali, pelo roteiro vago
Dessa cidade escondida,
Ás vezes, tantas vezes, minha aliada…

Desbravei terras perdidas no mapa
Por caminhos de terra solta e respeitáveis fragas
Que tu me apontavas em dias de descoberta,
Progredindo no mato
A cortes de catana e rastejar de grutas
Onde antigos medos, de uma escuridão de muros
Que a minha mão tremia, logo se apaziguavam
No ombro que me estendias.

Eram uns dias de amores, abraçados e doídos,
Perdidos pela literal floresta que os dias verdejava,
Conquistando respostas nas perguntas do tempo…
Historiando arqueologias, no cansaço doce
Das tardes alentejanas…

Fomos rocha, um do outro, mensageiros de uma entrega
Desmedida nas causas, no sonho, em amor…
Fomos passado em revista na construção do futuro,
Equipa e semente nos terrenos da partilha
E ancorámos em versos no porto da nossa diferença.
Palmilhámos muito rumo
Onde o olhar se esquecia das horas que o tempo tem
Vadiando pelos cantos
Que o cheiro da terra nova
E a luz presa dos vitrais
Gravavam na tela em branco do nosso espanto em passeio!...

Eram uns dias de apego, vitais de sonhos lunares,
Um silêncio catedral onde as almas reuniam.
E o final de um dia entregue ao respirar de uma vida
Sabia a coisas de mel
Nos sonhos que adormeciam…



Calou-se o teu piano para mim.
Chopin e Elis fechados nos teus dedos
Não mais soaram Olimpos e… o que restou
Foi um silêncio de pausas demoradas…

Calou-se o tempo.

Ficou por lá, meu amor, num sorriso que é andado…


--------

18 anos de caminho e  partilha, carregados de sombras. Que apaguei um dia, no momento mais que certo. Finalmente, 12 anos depois, é chegado o momento de acolher a paz: a minha.
Assunto encerrado.


Ana Vassalo
03-10-2009 - 13:10

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

SILÊNCIO A DOIS TEMPOS

DIÁLOGOS POÉTICOS COM O MEU AMIGO "TOTA"
(do lado mais doce do Atlântico...)



John Henry Fuseli - Silence


Silêncio a Dois Tempos



Sabe, amigo…

Há as palavras que vêm,

As mesmas que também vão…

Mas o momento do adeus,

Esse momento fica

E permanece cortante

Pelos passos de uma vida

Que essa criança que somos,

Camponesa de utopias,

Plantou de risos, um dia,

De intenso sabor feliz

como um jardim dos abraços

sossegado nos aromas da ternura.

Mas eis que as palavras passam

e indiferentes se afastam

como um sopro pelo tempo…

E o dia que vem depois

É mais um espinho de aviso

Que fere de morte, em silêncio…


Ana Vassalo

28-08-2009 – 14:04H


Origem das Imagens: site Luminescências.

NOTÍCIAS DO FUTURO

 
NO WALLS!, Ana Vassalo - digital drawing experiences :)


 
notícias do futuro

hoje não há acidentes
- li eu, no jornal sem letras…
apenas as velharias
de repetição já segura:
nada de terra, ou de cosmos,
nem rasgos de firmamento…
o irremediável vazio
habita no imprevisto

tudo antigo e bolorento
na vida posta em clausura,
os homens cumprem-se iguais
em rasura e indiferença,
levando o brio da nascente
às águas do esquecimento…

alinhados na parada
das apostas calculadas,
certos se acham na pista
das corridas que outros vencem
sem pontos de referência
na cega estrada do tempo…
sentimentos arquivados
na fila dos melhores dias
transbordam de pragmatismo…
vence a razão, de cadeira,
e o amor? não é oportuno!

sei que estou eterizada,
bêbeda de tantos anos,
vã de toda a surpresa,
morta, na semelhança…
sei que ao raiar da manhã
outra de mim, paciente,
repetida e linear
no caminho reinará,
sábia de muitos hábitos,
diligente na missão
de imitar integrações!

serei um ser engrenado,
elo perfeito em cadeia,
retrato na galeria
dos lugares preservados
ao sol da alienação…
serei gente que progride
no tempo de resignar
os sonhos que um dia ousaram!

mas hoje e agora, aqui estou
de olhar preso ao nevoeiro,
rompendo por um sentido
que valha o trabalho de ver
- amanhecendo vontades
no entardecer de um grito!

sou a essência evaporada
que um dia já teve griffe…
estou ancorada num instante
tão breve quanto a garrafa
que encerra os néctares de tudo
e bebo em menos de nada!

fui antes esboço de gente,
mulher da vida de alguém
- que de um sopro me matou!…
tive os homens que desbravei
e em mim morreram de véspera…
fui grito, sim, declarado
de um amor eterno… agora!

e eis que agora é andado
e o dia me bate à porta
neste peito que não sente
nunca mais o que é verdade…
estou de mansinho expectante,
aquietada em tantas breves
certezas do que já fui
e insisto em resgatar!

qual quê!…
sei que não há invenção…
o jornal não saiu hoje
por falta de letra impressa
nos tipos da novidade:
terra e cosmos estão inertes
nos seus movimentos perpétuos
de gerar uma equação…

só eu, disfarçada de sonhos
ainda creio a mudança
num amanhã de conquista
nas luas da maré viva!
pobre de mim… viajante
de insólitas fragas de abismo
suspensas sobre o futuro…
a vida nunca saltou
e o tempo não sabe a nada!
- mas o jornal diz que sim,
que há sabores na rotina…

aqui, de onde me escondo,
só há saídas da bruma
pela escada da mentira…

e o futuro? ri de nós?...


Ana Vassalo

24-08-2009 – 22:57H


Origem das Imagens: Ana Vassalo.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

AMIGOS DE MARINHAR






Amigos de marinhar


Num mundo de faz-de-conta
Encontrado além do mar
Onde a mão agarra a onda
E a distância não tem lar,
Nos caminhos de outra estrela
Que acende à noite uma vela,
Guia dos medos sem fim
Onde tu lutas por mim,
Nessa alvorada de azul,
Que persigo a norte e sul,
Para contigo acordar
Esse futuro de amar
Nas gentes que já não vejo
E a quem recuso o meu beijo,
De que me guardas, amigo,
No teu cavalo de abrigo…
Na planície que hoje abraço
E a saudade grita o espaço,
Onde ser livre é verdade
P’lo chão da tua cidade,
Amigo de marinhar,
Nessas andanças de amar
Como só amigo sabe
E no peito o mundo cabe,
Sei!
Sei de uma certa guitarra
Onde dedilhas amarras
De um amor que é desejado
Na margem de um outro fado
Sei…
Sei que me inventas pessoa
Mais alta do que merece
Mas que por ti acontece
Um dia novo, a onda boa
Amigo…
De horas perdidas
Luas fugidas
Canções de dar
Prantos de mar…
Sei de ti doce paisagem
Construída p’la viagem
De sermos voz derradeira
Do outro a paz verdadeira
Caminhando
Nos abismos da tristeza
De mãos dadas, sendo fé,
Que a solidão já não é
Soberana à nossa mesa!
Somos galope e subida
Juntos somos cavalgada
À conquista da jornada
Que despede a despedida.
Amigos que o tempo segue
E ampara na corrida
Sempre mais alta de vida
Na luz que o olhar persegue…
Sei de ti… como de mim,
Sei que os atalhos são nulos,
A estrada morre em entulho
A empatar o devir…
Mas as horas nunca cansam
E até parece que dançam
De flores de céu a abrir…
Em ti, em mim,
Amigos maiores que o fim
Duma noite que se acende
E de nós a alma aprende!

Ana Vassalo

11-07-2009 14:37
Posted 11-07-2009


Origem das Imagens: Photobucket.

VERSO SOLTO IV

Matrix



Verso Solto IV


Somos filhos das horas de todas as grutas
enlaçados em dores que a noite não ouve…

Passeamos o tempo, que não lembra o que soube
e traçamos no vento os caminhos de sal
que os prantos mais velhos lavaram do mal.

E então despertamos no ensino das lutas…

Que o tempo a estrear os dias não cede
ao lamento de horas mortas em branco
nem se detém a saber da paragem
no curso de tanta porta encerrada...

caminhar é… sem regras…

porque há sempre um outro dia que mede
os passos afoitos tentados p'la margem...

Fosse a festa da cor alvorada
o rasto aberto dum trilho mais franco!...

Mas… somos réstea, e penumbra
num rosto de luz ardido
dançando no riso a sombra
de um olhar interrompido.

E as vagas do tempo acordam
do sol o beijo, a nota breve,
ensaio de um passo em greve
num baile antigo, que abordam...
Velamos num mar de ocasos
ao leme de um outro dia
e somos do sal regaços
acolhendo a maresia…

E a saudade, que então mora
em estrelas que não sonhámos,
no céu do meu porto chora
esse azul que não pintámos…


Ana Vassalo
22-Jun-2009
Posted 22-06-2009


Origem das Imagens: Webshots.

VERSO SOLTO III

  

Saimi in the Meadow, by Eero Erik Nikolai Järnefelt - 1892

um chá... na planície
um ribeiro de Agosto
breve o sussurro dos mitos
no cantar de folhas mansas
o prado
e a preguiça
as mãos
empurrando os céus
um levantar de perdizes
no restolho do silêncio...
um tiro morrendo a paz.
 
Ana Vassalo
22-Jun-2009
Posted 22-06-2009

VERSO SOLTO II

 



 Solitude, by lady amarillis


verso solto II


raiando em versos de frio
tarda o meu canto bravio

a rasgar sulcos no chão
lançando farpas da mão,

ideais, forjando a luta
de vantagens impoluta

num país nado emoção
onde se beija a razão…

e, guerreiros retornados,
sermos do pó levantados

a construir a justeza
de sermos mais que leveza

e abrigo da verve mansa,
posta em suave tardança
no coro da noite alada...

e voem livres os sisos
no balançar dos sorrisos
trocados…
escrito no livro das horas
um verso que à noite mora,
recados,
de flores tão prenhes de cheiros,
do correr da pena, do morango a cor,
da saudade plena, da arma o estertor
derradeiro,
do global o verbo
que em tão vasto acervo
à noite é romeiro…

paixão das horas de não saber
o amor cansado, do entardecer…

da sede um grito, inanição,
escuro,
o esplendor da solidão!...



Ana Vassalo

24-Abr-2009
Posted 24-04-2009

VERSO SOLTO I

piano rose



verso solto I


sagrados destinos,
um laço
atando na viagem
um espaço
de ser mais do que milhagem
pra ser canto em desatino
e no encontro das mãos
que teclam tudo o que são
ser um lugar clareado
por cada tempo cantado!...

de ser palavra no espanto
urdindo praias de encanto
nos teares da fantasia,

sendo depois Prometeu,
margem da noite que ardeu
no raiar da utopia…

e chega um tempo que é cedo
ao tardar da madrugada,
mãe do silêncio, arcada
na engenharia do medo...



Ana Vassalo

19-Abr-2009
Posted 19-04-2009


Origem das Imagens: Webshots.

MAR ATLÂNTICO


























Oceano Meu,
querido Mar, encapelado,
divinizado e ateu…
Bravio, ou encarcerado
entre os mundos e as marés,
és das gentes que abrigaste
pela fuga protegida,
de outras, que condenaram
à dignidade esquecida,
ou de a quem relembraste
a liberdade perdida…
és meu, de aguarelas, nosso,
de nossos males és poço,
mas só dos que não te usaram
pra servir o que não és!...

Oceano Meu,
Querido Mar dos amanhãs
que guardam em nós a fé!
Onde os homens que navegam
procurando o mais do Mundo,
confiantes, se aconchegam…
Que por seres tão profundo,
é por ti que o mundo É!



Ana Vassalo
Outubro-2000
Posted 05-04-2009

HOMENAGEM... A UM ANÓNIMO





Dionísia Bento




A um Anónimo



Meu grande, grande amor

Decidi hoje que não quero, nunca mais, que tudo aquilo que representas e representaste para o mundo continue anónimo.

Decidi ainda que não te vou deixar partir sem que se saiba que és uma Diva, e que mesmo com tudo o que te foi negado conseguiste, involuntariamente, construir a tua celebridade, feita de memórias quentes no coração de homens e mulheres que contigo se cruzaram.

A tua voz única, sofrida, bela, poderosa, conjugada com os teus olhos de açúcar, verdes, do verde marinho, viajou da tua pequena vila até muitos sítios.

Vou no táxi, entediada no inferno de trânsito desta minha encantada Lisboa, reconheço aquele sotaque cantante e doce, questiono a origem; “sabe, é engraçado, mas a minha mãe é sua conterrânea” – “atão miga, diga lá quem é que é a sua mãezinha a ver se a conheço” – “é a Dionísia” (digo assim, A Dionísia, com o indisfarçável orgulho que a experiente certeza de que será imediatamente reconhecida me dá) – “ a Dionísia que cantava o fado???” – “sim, essa mesmo…” (quero-lhe pedir que me fale dela, naquele glorioso passado, mas ele não me dá tempo) – “belos tempos, da nossa juventude, que alegria!, a sua mãezinha era uma linda mulher, sabe?, e depois a gente vinha subindo aqueles caminhos da estação até à vila e quando ela dava aqueles espectáculos na praça principal, a voz dela ecoava por aqueles cabeços e a gente chorava, sem saber como nem porquê, e era como se Deus falasse com a gente…” (vira rapidamente a cabeça para trás, para me olhar bem) – “ai a vida, o mundo é tão pequeno!...”

Foi uma breve passagem das muitas idênticas que vivi na tua amada terra, algumas mais em Lisboa, em Portalegre e outras paragens, por ali.

Contaram-me também que depois veio o reconhecimento internacional na forma de um contrato, que nunca foi assinado – os brandos costumes da “casa” não permitiam tal vida a uma mulher, ainda menos a uma menina de 18 anos…

E ainda que nunca ganhaste nada com isso, pois tudo o que ganhavas com os espectáculos entregavas - disseram-me mesmo que os Bombeiros da tua terra, entre outros, te deviam bastante. Tal e qual, assim. Seria já uma bela história de vida, para contares aos teus netos e bisnetos, mas não, não ficou por aqui.

Deste tudo, tanto, sempre embrulhado em amor, a tudo e todos que encontraste. Esbanjaste o teu sorriso lindo por essa vida. Na Guiné eras a “siô boa”, sempre generosa e criativa na forma de te dares com e aos outros.

Tudo aprendeste sozinha e sempre foste (eras, até há bem pouco), uma mulher informada, dinâmica e um ser extremamente social.

Davas-me cabo da cabeça com a tua inesgotável fonte de opiniões que, agora, eu tanto queria conhecer, mas... não temos tido oportunidade, certo?

Sempre achei que, a todos os Anjos, devia Deus ter dado as asas – em vez de serem privilégio somente dos aprovados por entidades falíveis. Mas não faz mal, Ele e o teu mundo conhecem-te e sabem exactamente o que conseguiste : voar a Vida.

Por tudo o que viveste, sofreste, amaste, engoliste em seco, abdicaste, aprendeste e ajudaste, minha Princesa de branco na alma, não existe, neste mundo de oferendas vãs, algo suficientemente grandioso para te compensar.

Por isso, só posso o que o coração me pede : fazer com que o mundo, embora apenas este pequeno fio da Rede, te conheça e testemunhe pelo teu exemplo que a Vida só vale a pena quando se faz a diferença, quando se aquece pelo menos uma alma das muitas que cruzamos no nosso caminhar.

E tu, minha Querida, acariciaste e aconchegaste a Vida de todos, porque cedo percebeste que o mundo não é maniqueísta, monocromático, não foi Criado para julgar e menos ainda para condenar. O mundo tem dias, só isso.

Que posso eu dizer-te mais, meu Amor, que tu não saibas já ?...

Como refere a tua querida Natacha, que roubou ao poeta o seu modo de vida, "(...) Porque a vida só se dá p'ra quem se deu/ P'ra quem amou, p'ra quem chorou, p'ra quem sofreu", a grande verdade de tudo isto é que, para ti, a coisa DEU-SE.

Até já, MÃE.


Ana Vassalo

16-10-2008 - 11:33H
Posted 16-10-2008


Origem das Imagens: fotos pessoais.

DÚVIDAS DE LISBOA




Lisboa - Centro Cultural de Belém,
Jardim das Oliveiras



Se o céu se entreabrisse
e um corredor de descanso
me desse, para que eu saísse
deste rumar sem avanço,
saberia eu caminhar
e em tempo perceber
o que encontrasse ao chegar?

E nesse azul que alimenta,
como o mar me representa
a minha urbe encantada,
saberia qual a estrada?

Das barcas, que sempre partem
para um destino que anseio,
olho as velas que rebatem
a ventania em passeio
e o meu olhar se acende
na sede da plenitude.
Mas se o coração atende,
jaz na alma a inquietude…

Se a tua mão desejada
no meu sonho repousasse
e de mim tudo aceitasse
sem inquirir da cruzada,
seria então esse amor
capaz de me descobrir
neste universo da dor?

Nos cenários que revivo
e de sentir me atormentam,
como quem conhece o livro
mas de o ler não se contenta,
soubera eu dominar
(à força de o repetir)
essa vontade que tenho,
que este maldito existir,
de tão longo perdurar
me aguçaria o engenho!...

Mas se os olhos não alcançam
o tudo que a alma vê,
as imagens não descansam
até saberem porquê:
é uma questão de vivência,
onde não mora a paciência!

Se eu ousasse recrutar
dos minutos o esperar,
certamente saberia
desbravar no azul a vida,
para nela me embrenhar
e acordar leve, num dia
ao encontro da saída…

E que ao cabo da jornada
p’la cidade demandada,
fosse o meu amor Lisboa
e como eu, viajante!
E que ela fosse bastante
Nos olhos de outra pessoa!...



Ana Vassalo
1999
Posted 05-04-2009


Origem das Imagens: Webshots.

DA NOITE...

alfama night (watercolor filter)
Alfama



da noite…


no meu olhar cabem estrelas
que me acendem de janelas
nesse meu céu viajante

- despedido, sempre adiante…

mais aqui, guardo um cantar
de águas mansas de luar,
meu mar eterno de medos

onde me acolho em segredos,

Cais da Tormenta, já breve,
que se aquieta em sono leve
como quem mata o momento

de ser fúria, mais que o vento…

acordada em nevoeiro,
canto, de amores, o primeiro
que gravei no livro em branco

escrito em passos que hoje arranco!

eram meus versos de então
folhas ternas de algodão
que, macias, se ofertavam

nos laços que em mim voavam…

evadida… selo os dias,
calo na pele as mãos frias
e desse frio me aqueço

no sol em que me escureço…

sei lá eu do amor dizer,
da luz, o que me entardeceu,
das asas que fiz descer!...

sei que a noite feita eu
mora aqui… e aconteceu…


Ana Vassalo

21-05-2009
Posted 15-06-2009


Origem das Imagens: Webshots.

RECADOS DA TERRA CANSADA










Vincent Van Gogh - Siesta



Recados da Terra Cansada

EU QUERO!

Do tudo, o que me é urgente!

De face aberta acolher

as horas cheias do haver

e receber

dessas promessas de céus

e de anjos mil providentes

negligentes do que é meu!

Que me atrasam de futuros

e me sitiam de muros,

me presenteiam de amores

que me assassinam de dor

em experimentados requintes

de madrugadas por ter...

palmilhando tanto chão

evidentemente vão,

cliente da espera, ouvinte,

respirando o quero nada

a soletrar existir.

Roubando à palavra dada

uns rasgos de resistir...

E QUERO!

Do tudo, o que ousei perder!

E das perdas aprender

em que passos

da jornada

me despedi dos abraços

pra me tornar este ser

já só poeira de estrada!...



Ana Vassalo

Dez-2008
Posted 15-06-2009

DO QUE NÃO DIGO...





Do que não digo…


Na palavra cerceada,

De sopro forte e latente

Em alquimias goradas

No cruzamento das mentes,

Há um cantar de Janeiros

Que a brisa quente ignorou

E em seu chegar derradeiro

De sonhos findos me achou…

Na palavra que me calo

Paira um deserto em demora

De um certo tempo de amoras

Que o oásis não logrou…

Há uma lembrança de cheiros

Nos campos do Outubro frio…

Frondosa a mata, em roteiro,

Num deslizar de arrepios!

E existe um olhar achado

Nas manhãs de terno abrigo,

Praça do adeus desbravado

Num galopar sem castigo!

Há ribeiros de água solta

Nessa palavra que habito,

Mantos de prata que agito

No despojar da revolta.

Há uns dias em que parto

Nas palavras de sair

E vagueio na paragem…

Sou luz breve da certeza

De um fogo de ser intenso

Que em sequestro me detém.

Cego eu de paixão vítrea!

Na febre de ser mais dias

Que um viver de dias farto

E errâncias por definir,

Perco-me lá… pela margem

Sentando a vida em leveza,

Num torpor liso, de incenso,

Que pairando me sustém!...

Sei da noite inquestionável,

Desdobrada à minha frente,

A que um dia me rendi

Em cocktails de gente,

Na rasura descartável

Dos fracassos que bebi!

Havia nela um princípio

Sem fogo, mas de artifício,

Nos abraços de néon…

Estampando telas de olhar

Por entre orgias de som,

Calava um grito de mar

Na vida que tinha sede…

Das alturas, não da rede!

Sento-me aqui, penso o mundo…

É denso o mato, em ocaso,

Onde me embrenho, lunar…

De encruzilhadas me afundo,

Veludo em teias de acaso,

Presas do tempo a chorar!

Lembro as tardes do dizer,

Abraços de um tempo a ferver

Acordes de água em marulho!

Deito o meu olhar vazio

No lençol de toque frio,

Versos-cama em que mergulho.

Falo de mim… e da espera,

Nela me acho sem terra…

Nesse partir já corrente

Sou o rompante, sem brio,

De uma alvorada em desvio

Que de mim o caos ressente.

Quisera eu ser metade

De um sonho a parir verdade

E assim mesmo, já bastante!...

Mas… sou de feitos tardia…

Só me encontro, já distante,

No silêncio que há nos dias…


Sou carta de marinhar,

Farol de estrelas que arrisco

E pela saudade me abismo…

Morro no chão de voltar!


Que me cansei de nascer

Na palavra que não digo!


Sou sempre a nau de saída

Que navega a despedida

Nos olhos fartos de ver!...


Ana Vassalo

25-05-2009
Posted 25-05-2009


Origem das Imagens: Webshots.