NETOS

NETOS

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

REMARKABLE PEOPLE



FERNANDO PESSOA

(Lisboa, 1888 - 1935, Lisboa)


"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


************
"I am nothing.
I will never be anything.
I cannot want to be anything.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."

or...

"I am not nothing.
I will never be nothing.
I cannot want to be nothing.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."


(Álvaro de Campos in "Tabacaria")




LISBOA - Chiado

LISBOA - Chiado
"Fernando Pessoa" by Lagoa Henriques. The place: "Café A Brasileira" (Brazilian Café) - 1905.

PLAYLIST TODAY




MUSIC IS THE PASSION REPORT



♥ ♥ ♥


PLAYING SOFTLY WHILE SOMEONE SANG THE BLUES



Saturday, Jul 22, 2017 - 17:57





SALVADOR SOBRAL - NEM EU [DORIVAL CAYMMI]



YouTube – "Salvador Sobral"





ANTONY HEGARTY + LEONARD COHEN - IF IT BE YOUR WILL [COHEN]



YouTube – "Oggmonster"





CHAN MARSHALL (CAT POWER) - I'VE BEEN LOVING YOU TOO LONG [OTIS REDDING]



YouTube – "anaruido"





JANIS JOPLIN - ME & BOBBY MCGEE [CHRIS CHRISTOPHERSON]



YouTube – "ThE DuCk"





JEFF BUCKLEY - LILAC WINE [JAMES SHELTON]



YouTube – " roberta panzeri"





DAVID BOWIE - WILD IS THE WIND [JOHNNY MATHIS]



YouTube – "Peter Music HD"







_____________________


LEANING INTO THE AFTERNOONS by PABLO NERUDA

«Inclinado en las Tardes»



YouTube - "FourSeasons Productions"






CHANGING BATTERIES - OSCAR WINNING ANIMATED SHORT FILM



YouTube - "Bzzz Day"





DIALA BRISLY - A BEAUTIFUL YOUNG LADY

(a huge thanks to my daughter who e-mailed this video to me)



BBC Newsnight

«Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman - artist Diala Brisly - who is trying to make life that little bit more bearable for Syria's kids.»

Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman -...

Publicado por BBC Newsnight em Domingo, 20 de Março de 2016






A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT

A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT



FLYING A SECRET



I got here to hide. From equations and patterns. From repetition, after all.
Closed the door and got me a special place where I thought I could
somehow sit close to the stars. But I soon found out that the sky was
still opaque, no matter what the steps. And so I left. Again.

I thought, then, I could build me a different ceiling, a new-coloured scrap
of highness. And then make it work. Where I could dream, more than I sleep.
I have long decided that sleeping is overrated - that I know for sure. So I
take that time instead to travel the night alone and in the meantime I allow
myself to fly, unlike stated before... Yes, I like playing with paradox, to
expose the inside of words and the revelation of writing down the voice of a
silence. My adventurous, ever-walking silence.

So I came back. Here, within this quiet world, I intend to gather all my
things usually kept hidden or inactive. They are here to speak.

And since the future is a stand-by secret, I want to live by a precocious
clock, at every running instant of every entering second.

And I will not slow down until my "future exists now" - kind of reverse
quoting Jacob Bronowski.


Ana Vassalo
in my site "CAFEÍNA"(former "No Flying Allowed")
Nov 11, 2010 - 11:54




THE WALK OF TIME

THE WALK OF TIME
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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

metáfora
































metáforas são código,
lugar de todos, que nos fecharam

a chave é tão universal
como o pensar da luz na sombra


e a porta...
é de mão própria, talvez incerta
ora se abre em clara vida às alamedas
ora se fecha num beco antigo descido à morte
 

Ana Vassalo
08-Jan-2013
in facebook too

domingo, 6 de janeiro de 2013

contos do fim do mar

[words are special... some people too]


Eu tinha aqui este écran
De histórias sem rumo
… A passar...

E nelas um traço génio
Que ligava a luz do sol
Nas esquinas sem morada
Dos encontros por haver

Tu lá seguias
Na fila dos sonhos adiante
Com os gnomos e os sábios e as sereias
Num conto mistério a morar o tempo
Da colisão de estrelas sem mar

Era um país de nascer
Sem contas de calcular
Onde a minha mão erguida
Acenava a partitura
Da música que eu desenhei

E nesse sal de outros vinhos
Vindimados por afectos
Corria uma asa em nós
Que se soltou lá dos céus
Pra voar dentro do peito

Eu tinha mãos de aguarela
Sujava o mundo de azul
Com dedos de ser menina
E gargalhada de flores



e tu
chegavas ...
de branco calado

eu conhecia-te o vulto
e as sombras de ti oculto
falavam do teu recado
...

eu não sabia escrever
dos nortes que descobria
quando a voz que te dizia
soava dentro de mim

mas eram versos de correr
no coração sem ter fim
ou esquadro, lei ou compasso...

só sei
que um beijo de mar no regaço
nascia ao fim dos cansaços
e se abraçava à ventania


explode-me o céu de mudança
nas mãos cheias de horizontes
e o que há para lá dos montes
diz que és o sal de temperança

grito, corro, aceno aos deuses
agarro a pele em suor
águas de chuva em amor
num lugar de tantas vezes
...

mas
trago sempre o meu chapéu
velhinho de ser adeus

sou filha do vento de ir
que eu do mar... sei o partir


Ana Vassalo
06-Jan-2013

Imagem: “White sail”, Leonid Afremov.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

sequestrados do Tempo




 
 
ainda não sei quem estou
cresço no Outro em círculos
a minha própria aceitação
e nada em mim seguro do que Sou
liberto-me na revolta
nuns dias em que sozinha habito o mundo
e então vivo do verbo Ser
onde os ecos são longe e sem força de projecção
mas há um fosso intransponível
que me sitia
entre o que me penso e o que estou
uma diferença perdida entre a cabeça e a vida
que às vezes trago da luz e vence todos os censores
perfilados à porta da dor antiga
mas logo descanso os olhos a salvo da nitidez
que me fixa...
nasceu lá atrás
no princípio dos tempos que empurrei do caminho
a força maior das buscas que me compõem
e das lutas que me deformam
um querer tocar a perfeição sem estrela-guia
e lutar depois insanamente contra ela
tecendo ponto por ponto
a malha de cada lágrima
em inabaláveis estruturas de imperfeito
e abraçada paralisação dos sentidos
cegar calar ensurdecer
e dormir
dormir os tempos
para não saber
as eternidades que me separam de tudo o que preciso ser
para me validar
para estar quem Sou
nuns dias de pássaro
depois locomotiva
tantos outros silêncio
e o mais deles canção
entre o pensar-me e o saber-me
existe o fumo das ausências que me pressentem viagem
e os ferros da prisão que me formatam paragem
sou livre quando adormeço
de pé
nos sonhos que pinto para me emprestar
com o olhar da vontade que me pertence
mas nada em mim seguro do que Sou
chego todos os dias
numa manhã farta de névoa
carregada do verbo estar
para morrer a cada madrugada
num beco da consciência
lotado de escuridão
onde me largo aos contentores
dos que se respiram por hábito
alma descalça em corpo nu
abrigados no vento contra a vida

Ana Vassalo
19-Dec-2012 – 18:30

(Imagem: "Fallen nude", Heather Marie Craft, USA)

domingo, 16 de dezembro de 2012

casa de lua



entrei a noite
aqui
pela porta mais estreita
do medo
sigo tempo em formação
agora
num desvio de curso certo
ergo os braços
escada ao infinito
o breve
espectro de alcance
ruído do coração
em marcha
fantasma da pele
em contacto
a chama
do corpo tornado mais leve
o golpe terno
a enseada
o sono dos inocentes
orvalho pela manhã
e sou o dia
movimento
edifício e lugar mais perto
da lonjura
acalmo os instantes
de sede
o sonho
na estrada mais escura
sem rosto
de histórias antigas
nascendo à lareira
as sombras como guia
na memória
o vinho
a flor
cigarros trocados
a espera
o beijo
depois cerco e tomada
palácio de estrela
o céu do olhar
e a coragem
na encruzilhada
o anúncio da noite aberta
o teu caminho
no chão da viagem
e eu
caminho teu
e barca
e rio no mar
horizonte
eu em perfeito total
agarrando a casa
dessa lua toda cheia
que um dia roubaste para mim

e lembro então
que sou vida quando és
sou o lugar
de quando estás
foste sempre tu
a palavra de mim
primordial
solta pelos ventos
o rumo aberto
universo em mãos
asa e saudade
tu...

na noite que se aconchega
sou o abraço teu de muitas idades
e a música passa
baixinho
no intervalo de nós
fechando o espaço das horas

Ana Vassalo
16-Dec-2012 – 00:42


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

sedas no vento



 

quem sabe,
as farpas encostam num lugar de paz
e a doce ternura em retiro
arrisca um passo de luz...
e eu
travestida de risos dança manhã
ouso a paisagem sem queda
esse toque de uma vida
enfim liberta de infernos...
sabes,
há uma saudade de ti
escondida nos poros
guardada em raiz
de mim
de ti quando eras de mim
uma saudade do que floresço
quando me abrigo da nua claridade
e arrasto da memória
todo o amor
que deixei ficar em ti.
o espaço fechado entre nós
dos olhos que se respiram mutuamente
guarda a imagem saudade
de eternidades que se tocam.
a dança das mãos
regaço de cúmplices
tomando a madrugada
que chove do frio a cor
e um frenesim de lua cheia
no céu melhorado da “noite americana”...
a estação deserta num silêncio de geadas
e o comboio que nos dorme os abraços
até à morada final da culpa...
a noite profunda do sono que se despede
e inventa o regresso que se esquecera
num lugar do tempo fechado


quem sabe,
a farpa que me tornaste
se cobre em raiz de seda
por um breve instante de luz...
e agarra a escarpa desse tempo
num quieto toque de fé
por um salto
que se rasga em vento na pele
como sopro de um céu sem rede...

Ana Vassalo
01-Dez-2012 – 21:00

Imagem: Foto "Há palavras que nos beijam", António Simão Meira.

domingo, 28 de outubro de 2012

HISTÓRIAS DO FUTURO DAS FLORES


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
não sei do que vem aí,
ou mesmo se há que saber
no pack de horas extra de uma vida.
sei q não tenho aqui a esperança
e os dias podem ser arrastados
como fardos de segundos.
havia antes uma certeza tácita
de que o corpo obrigado a movimento
mesmo que arrancado, involuntário, sacrificial,
saberia lembrar o passo de abertura
ainda que o sonho se sobrepusesse
a uma espécie de vigília demissionária...
e no entanto, de algum modo a memória vencia
e reensinava a tentativa,
erro e repetição,
mais um cigarro e o café e a teimosia
de continuar vivo a qualquer preço
porque há os dias que merecem!

Hoje, que somos mundo de pregão em hasta pública,
há um rasto de cansaços ganhando o chão:
no aeroporto, na tabacaria, no desemprego,
na planície, no comboio de todos os dias, no mar,
na mercearia, a escola, a montanha,
no cheque da reforma, no amargo comprimido,
na fila do combustível, a faculdade, o balcão,
na cantina social, no abrigo da ponte, no povoado,
na casa que é do banco até ao virar da vida... e da morte,
no sorriso amante,
no olhar da pele,
na poesia...
a descritiva da dor sem o pendente nem escriba,
somente o registo prático e a cópia virtual, em depósito
na Torre da Era do Tombo:
a morte instantemente anunciada,
o suicído de massas executivamente induzido.

diz que hoje não há palhaços
e ainda bem, digo eu
- nunca lhes ri a alma
de tão doída me parecer
- mas a dúvida persiste
e eu acho que se enganaram...

seja lá como for, reparei há pouco

que faltam hoje muitas coisas de continuar:
agora também não há lua
e a fé da noite sucumbiu
ao apagão solar sem aviso.
e damos por nós assim, apenas coisa interrompida
sem saber nome de luz, de calor...
e a união que um dia nos aqueceu,
seja lá solidariedade ou uma qualquer letra do Amor,
quebra, sem vergar,
ainda que essa força nos mostre que parece tão pouco
aquele tanto que se pode...

soam por fim os gritos,
surdos e presos nas fileiras do atraso.
e já morremos outrora, muito antes de acordar,
até chegarmos aqui, continuando,
lugar de hoje sem agenda
anotado à margem de futuros sem lugar,
sabendo quase nada desse nada que nos contempla:
pagamos sem haver
jejuamos sem poder
falimos sem gastar
e partimos sem voltar
certos de que morremos, por querer,
desertores e nus
do dia que já não merece.

e é só por isso, seja lá um pouco ou seja muito,
que me sento aqui como pedreiro,
martelando a palavra de amanhãs,
como pai e como mãe, como filhos, como avós,
honra e trabalho, coração, respeito,
que saibam de coisas de nome e de coisas de luz,
grandes, pequenas, de amor e combate,
de gentes, coragem e orgulho,
e um calor de flores no peito.

que a dignidade não verga nem quebra,
e o meu País também não!

Ana Vassalo
27-Outubro-2012 – 19:03

sábado, 19 de maio de 2012

DE VIAGENS QUE NÃO FIZ







Waiting
by

Winslow Homer



De viagens que não fiz



Esperei por ti

na volta dos salgueiros

onde o silêncio marca o lugar

do segredo que será voz.

Às cinco da tarde de uma tarde em ponto

exactidão de um abraço interrompido

que regressa em motim

pela retoma dos atrasos.

Esperei o tempo dividido

com todas as declarações do prado

perfeito e aritmético

previsto, como o bater das horas:

no duche das rãs

no uivar da folhagem

no restolhar da cobra

ou final do canto ribeiro

feliz por saber a casa.

E com eles contei tempo

que era de mim e de ti

compasso em descoberta

4 por 4

ou 3 por 3

sei lá, que importa,

acertando pelas pausas

1-2-3, 4 segundos magia

em cânon, harmonia, a voz

o rasgo triunfal da tua presença enfim

no fogo ateado em sinfonia

O passo feito mais perto

que o coração adivinha

sinal de ti a chegar

E o olhar solta a distância

a vertigem de sentir

o beijo a beber da boca

plena de água de saudade


E afinal não vieste.


Segui o rasto universal

como um anúncio de ti

e no entanto perdi-te

a meio de um sul ausente

no sentido das promessas.

De ti chegaram os vultos

certos da escuridão:

o sonho mal acordado.

Sombras apenas...

Em ti a penumbra

do amor que não partiu.


Não vieste, afinal...


E hoje lembro-te assim

itinerário completo

mar, deserto, cristal, vulcão

de viagens tantas que depois não fomos.


Ana Vassalo

18-05-2012 – 23:42

sexta-feira, 30 de março de 2012

PAIXÃO








Highstreet

by

Kevin Sonmor















paixão

eu queria a espada ou a pluma
dos dias delicadamente imperfeitos
que só por ti raptam a luz.
rasgar do olimpo outro mar
que em ti se fez o amor,
tropeçar o céu que ensina o salto
a voar fronteira e dúvida
que se inscreveram no trilho
da pegada que era a tua.
eu queria o asfalto quente
para nele deitar em mim
o sono acordado dos teus braços.
e com ele riscar a noite
que não dormiu os teus passos
no ouvido do meu quarto
rasgado de janelas a nascente,
caladas por mil trancas
emboscadas
na porta dilacerada de ocasos.
eu queria saber-te a rua minha,
a calçada,
talvez abismo,
de quedas livres sem amparo,
ou marginal minha de afectos
com mergulho de asa à vista.
ora aluvião, a tormenta,
água fria, monção de verão
chovendo a guerra de um tempo
que já se veste de ter pressa.
e então água dos olhos
que lava o coração de mundo,
a pulsar por fim a trégua.
tratado de paz depois
amarrotado e quente
no bolso antigo dos abraços.
eu queria ter-te assim, bebido
o poema dos lábios, da estrela a festa
ou o inferno que em mim acendas
e arda de raiva o meu nome.

mas jamais a erosão.
nunca o deserto fúnebre
do peito que se calou.

Ana Vassalo
14-Fev-2012 – 23:15


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

POR UM DIA







"Thin Air", Mark Heine, Canada




por um dia

fiz-me em cidade a termo certo
e sempre com olhos meios,
uma metade em abraço, já outra cortada em fuga
afrontando burocracias p’lo topo esquerdo do ombro
onde morava certa janela de Tejo preso à camisa.
mas demorei no cansaço por um eterno dia a mais.

inundei a minha casa de recantos
como quem parte do frio sem volta
resgatei-me de ribeiros e de sede
por um sketch de amor na vida filmada a lápis de sonhos
e acreditei as alturas rasgando o céu de futuros!
mas voei todas as cores por um incauto dia a mais.

de volta à rua antiga, de portas fechadas
vidros fumados e olhos meios
permiti nuns dias de alma e regresso
uma outra placa, um outro nome de endereço
para cartas de amor virado ao Tempo com vista para a verdade.
mas o relógio dormiu e a cidade não
e eu acordei no lado que não raiou ficar.
e ainda assim lá escrevera, por um único, arrastado dia a mais.

caminhei mais silêncios a madrugar
abortei eclipses na rota das estrelas
comprei o bilhete de volta com a moeda da sorte
que no anverso gravava os começos
e que eu guardava criança desde a origem do coração.
segui primeiro o baraço
retomei depois a funda pegada minha
de uns dias certos de sol que às vezes soubera acender

e dei por mim já em casa, de volta aos abrigos de guerra.
o cheiro doce da memória guardado em amores celebrados com moldura
e arcas velhas com tranca segurando a fuga dos encantos.
arejei a vida e rendi-me à saudade desse beijo
que assina a eternidade e queima no lábio a promessa.
mas foi casa... sucede que lá morei por um único, negligente dia a mais.

memorizei todos os trilhos
fiz-me à estrada da mudança
fixei-me Alentejo de sonhos
reincidi respirei reacendi
pousei a mala e a espada
e tomei a vila por fora dos olhos meios.

e vi poente o sol aceso
noite em luar lavado de escuridão
céu picotado de branco na luz que retorna ao peito
e encantamento tímido tacteando entre as ameias.
Madredeus no convento, bar, capitéis e gin tónico,
cantar dos anjos sitiando o ouvido, e tardes novas sem guarda,
um conforto milenar de sinos, roubando ao silêncio o eco da planície.
por um, e apenas um, inocente dia a mais.

então, sou hoje a cidade. de vez, a cidade. de uma certa vez que não arde.
e nos olhos que eram meios, passam em fuga lampejos
de uma escuridão em marcha.
cedo me farei noite:
vesti-me de continuar
por um, somente um, estático momento, esse indolor dia mais.

que vai longe um tempo outro
do nome teu que me gravei
a ferro e fogo, num lugar de adeus.
da letra o rito
na cerimónia do fim, sem paramentos.
e em gótico solene
a carta lavrada em poema exangue,
esse, sim, em que me despedi.

talvez sonhando-te apenas
quem sabe
numa paz certa e branca de pássaros,
estes meus olhos meios rasguem o inteiro do vento
e o andarilho que sou, fugitivo que me vence, neles se mire enfim
por um só, aventurado dia a menos...


Ana Vassalo
20-Fevereiro-2012 – 16:55

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

ESTRELA

 
 
[Porque eu sou muito feliz no Natal, alegre como os meninos, mesmo por entre as tristezas dos natais que hoje são, gostava muito que todos fossem, embora saiba que não é assim... Quem me conhece sabe que todos os anos eu vivo esta febre, que eu própria não sei explicar, uma certa luz que volta a mim e eu não consigo nem quero apagar. Quero apenas dividi-la... E grande seria a prenda, se por um bocadinho, que fosse, eu assim o conseguisse. Feliz Natal, meus Amigos ♥ ]

 
Christmas Hope by Tim Haydon
 
 
 
Estrela

Natal é isto... de ser menina...
É tudo o que sei viver
quando me dispo da Vida.
Estas fitas de cetim
suspensas da alma em festa
no afago de penteá-las
como novas de aprender...
A cada sonho por ser
que me acena uma outra vez
são olhos de casa quente
estes que trago em Dezembro
quando nasço outro lugar
E a cada luz que me acendo
na árvore que se escondia
em pó dos tempos que limpo
mora um princípio de mim
estrela presa ao meu caminho
que antes fora luz do fim
E é nessa estrada do encontro
o adeus que despede o frio
que nasce um futuro certo
da rosa a crescer em branco
na neve que conquistou
Natal é isto... onde me aqueço
de ser criança sem morte
galopando o céu eterno
num cavalo faz-de-conta
que salta ao mundo sem rede
pela janela fechada
Sento-me aqui, pequenina
tenho embrulhos de surpresa
nas mãos que abrem saudade
papéis rasgados na pressa
de sinos p’la madrugada
Lá dentro toco infinitos
do que não sei da promessa
mas trazem cheiro de novo
perfume de um dia aberto
a nascer devagarinho
no presépio da esperança
Procuro os olhos de mel
e a mão segura de céus
que são do amor mais velho
Abraço o fruto do ventre
que me devolve à lembrança
certo dia para sempre
do tempo a nascer feliz
E corro no trilho célere
dos que são continuação
bebo as suas gargalhadas
de quem tem no bolso a vida
que vai buscar o Natal
E é no frio estéril lá fora
na casa dos sem-abrigo
que a alma veste de fé
o que os olhos não aceitam
Aqui onde me acolho
ternura presa ao luar
filho de um eco mais quente
sou esse dia que creio
luz acesa da mudança
Natal é isto... é o que sonho...
Uma carícia de fé
que arde em fitas de cetim
o amor antigo de vidas
a crepitar de amanhãs
E a Justiça que é criança
a pulsar contentamento
no coração desta Noite
há-de ser Estrela maior
que nasce de bater certo
o peito abrigo do Mundo!


Ana Vassalo
  20-12-2011 – 01:19
in facebook, meu Grupo "Atlântico Bar-Clube"
20-12-2011 - 15:37

Imagem: "Christmas Hope".

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

NAVEGAR










Claude Monet,
 "Impression,
Sunrise"














Navegar


Volátil, a margem que me detém

neste resto de escarpa que resiste

à erosão do olhar.

Agarro lianas de salto

no salto que me esqueceu,

sou ave, recurso e viagem

e o tudo que não me sei

mas se acredita na origem.

Há princípios em desfile

na contradição dos mares,

procuro-me em enseada

que às vezes me reconhece...

Não tenho porto,

sou nau deriva,

busco o ensino das estrelas,

reconheço-me luar

na noite cravada a luz.

E quando cantam os cedros

notas salgadas de vento

a golpear os silêncios

na canção de marinhar,

volto barca, sou destino,

astrolábio e carta ao sul,

vela hasteada em surpresa

que é voz do tempo

em alto mar.


Ana Vassalo
09-Out-2011 – 21:45

Origem das Imagens: Oil Paintings Art Gallery - Claude Monet (Google.cz)

LUZES




"Though I know noone can see (me)"...

Cat Stevens, Sad Lisa













Luzes


 
o mar vai frio
corroi a pele
arrefece as pontes.
acolho o impasse

numa indecisão antiga de neons
fogo da noite intermitente.
aperto o casaco
bem junto ao corpo
trémulo de geadas
como se me abraçasses
no cais certo da esperança
onde sempre te encontrei
e venço o espaço
desta avenida calada
que projecto
num olhar que não me soube.
entre a dúvida do costume
e o costume a que me escuso
opto por desfocar-te
em mim
dessa imagem que foi rio
mergulho dentro do peito
onde até sempre te guardo.
sei as portas
rota em saída
que trespasso pelo frio
um gelo azul
do vento que é teu.
entre o poente e a chama
a noite não paga nada
rompe os bolsos
com auroras virtuais
e é contínua
e em mim escurece
o vulto da luz com nome
que às vezes chama por ti.
segue-me adiante
o passo que era promessa
mas não me pertence ainda
que me empurra
e marca a pele
e amanhece já saudade
num velho lugar sem verbo.
toco as asas
todas minhas
perdidas de vento e norte
fracas e sujas de dor
e no entanto
arrumo lá fora a vida
como um descanso de rua
a pairar sobre a cidade.
eu o risco, flash, o raio
movimento do silêncio
um quase nada de tempo
depois gaivota
no céu da vontade presa
por um rasgo desse olhar.
tu poema
marca de fogo
na voz da noite
piano breve
bocado essência
perto de mim
onde me deito na paz
e acordo feita de guerra.
sento-me aqui
à beira deste prelúdio
quente da escuridão
e embriago-me do neon
que caminha ... por aí.
dos meus dedos saem letras
dançando na escuridão
o livro que era o teu rosto
e aconchego-me de lã
prendo-a junto ao coração
que se arrependeu de mim.
escondo-me assim
num traço de lua nova
em deslize pelas estrelas
e acredito o teu mar
baía do teu abraço
que me esqueci de acordar.

quase adormeço depois
longe longe
no cruzamento acidente
do nosso tempo
sem data
e arrumo as mãos que te sabiam
num dia que não raiou.
fecho os olhos
devagar
como quem pinta nas sombras
o teu corpo de papel
a rasgar-se junto ao meu.
e durmo a palavra morta
porque hoje digo-te adeus
numa avenida da noite
que ardeu em gás de neon.
Ana Vassalo
17-Set-2011 – 20:35

Origem da imagem: ISS -
site “Lights in the dark.wordpress”.
(International Space Station during the STS-129 shuttle mission).