NETOS

NETOS

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

REMARKABLE PEOPLE



FERNANDO PESSOA

(Lisboa, 1888 - 1935, Lisboa)


"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


************
"I am nothing.
I will never be anything.
I cannot want to be anything.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."

or...

"I am not nothing.
I will never be nothing.
I cannot want to be nothing.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."


(Álvaro de Campos in "Tabacaria")




LISBOA - Chiado

LISBOA - Chiado
"Fernando Pessoa" by Lagoa Henriques. The place: "Café A Brasileira" (Brazilian Café) - 1905.

PLAYLIST TODAY




MUSIC IS THE PASSION REPORT



♥ ♥ ♥


PLAYING SOFTLY WHILE SOMEONE SANG THE BLUES



Saturday, Jul 22, 2017 - 17:57





SALVADOR SOBRAL - NEM EU [DORIVAL CAYMMI]



YouTube – "Salvador Sobral"





ANTONY HEGARTY + LEONARD COHEN - IF IT BE YOUR WILL [COHEN]



YouTube – "Oggmonster"





CHAN MARSHALL (CAT POWER) - I'VE BEEN LOVING YOU TOO LONG [OTIS REDDING]



YouTube – "anaruido"





JANIS JOPLIN - ME & BOBBY MCGEE [CHRIS CHRISTOPHERSON]



YouTube – "ThE DuCk"





JEFF BUCKLEY - LILAC WINE [JAMES SHELTON]



YouTube – " roberta panzeri"





DAVID BOWIE - WILD IS THE WIND [JOHNNY MATHIS]



YouTube – "Peter Music HD"







_____________________


LEANING INTO THE AFTERNOONS by PABLO NERUDA

«Inclinado en las Tardes»



YouTube - "FourSeasons Productions"






CHANGING BATTERIES - OSCAR WINNING ANIMATED SHORT FILM



YouTube - "Bzzz Day"





DIALA BRISLY - A BEAUTIFUL YOUNG LADY

(a huge thanks to my daughter who e-mailed this video to me)



BBC Newsnight

«Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman - artist Diala Brisly - who is trying to make life that little bit more bearable for Syria's kids.»

Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman -...

Publicado por BBC Newsnight em Domingo, 20 de Março de 2016






A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT

A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT



FLYING A SECRET



I got here to hide. From equations and patterns. From repetition, after all.
Closed the door and got me a special place where I thought I could
somehow sit close to the stars. But I soon found out that the sky was
still opaque, no matter what the steps. And so I left. Again.

I thought, then, I could build me a different ceiling, a new-coloured scrap
of highness. And then make it work. Where I could dream, more than I sleep.
I have long decided that sleeping is overrated - that I know for sure. So I
take that time instead to travel the night alone and in the meantime I allow
myself to fly, unlike stated before... Yes, I like playing with paradox, to
expose the inside of words and the revelation of writing down the voice of a
silence. My adventurous, ever-walking silence.

So I came back. Here, within this quiet world, I intend to gather all my
things usually kept hidden or inactive. They are here to speak.

And since the future is a stand-by secret, I want to live by a precocious
clock, at every running instant of every entering second.

And I will not slow down until my "future exists now" - kind of reverse
quoting Jacob Bronowski.


Ana Vassalo
in my site "CAFEÍNA"(former "No Flying Allowed")
Nov 11, 2010 - 11:54




THE WALK OF TIME

THE WALK OF TIME

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

RECONSTRUÇÃO DESPEDIDA



















Reconstrução despedida


La solitude, ça n’existe pas…”

(Gilbert Bécaud)
 

As palavras do meu tempo

correm muito devagar:

buscam a luz dos recantos

onde a paz mais verdadeira

só se encontra em solidão...

As palavras do meu tempo

amam todas as palavras

que se reconhecem belas,

mas caminham solitárias

como quem não quer chegar!...

Porque chegar é partilha

e as palavras do meu tempo...

querem somente calar.


Ana Vassalo
13-10-2009
Posted 13-10-2009

Origem das Imagens: site Webshots - "Solitude"

equívocas lonjuras...




Domestic Violence, in alexandriava.gov site


equívocas lonjuras…
(a uma amiga 'sequestrada'...)
nesse espaço intergaláctico
onde te adensas sem guia
e bates a porta sem estrondo
no infinito do erro,
vejo-te ao longe, lunar
por entre sóis já perdidos
em buracos do negro, vazio
da verdade que não vês,
ruindo no tempo a linha
traçada a lápis de afectos
num plano bidimensional
que a memória já rasgou…
em nula gravidade eternizas,
pairando em azuis do nada,
um silêncio de injustiça
sobre a cidade, fechada…

o amor?...
ah… esse…
o amor é mais!…

mais do que estrelas sem fim,
é olhos… para acendê-las…


Ana Vassalo
17-10-2009 – 14:41
Posted 17-10-2009
(directamente para o Brasil, quando foi escrito).

Mais uma Ponte no Atlântico

Atlantic Ocean looking South, near sunset




Mais uma Ponte no Atlântico


amigo é mais vida,
é luz na jornada,
um pai-alvorada
que é canto de abrigo…

e é mar de saída,
o trilho-paisagem
da ternura em viagem
na flor que é do trigo!

é o olhar na lonjura
buscando a doçura
para nos contentar

e traz um sopro divino
num vento menino
com asas de amar…



Ana Vassalo

23-10-2009 – 12:05H

Origem das imagens: site Webshots.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

NO LADO CERTO DO ESPELHO...

 








René Magritte,

Portrait d'Edward James


















 No Lado Certo do Espelho…

Sorrias um olhar manso, em trechos breves de ternura

P’la brisa morna em brancas tardes de ausência,
Onde eu retratava acertos de paz
Numa quietude de risos desprendidos
Que soltavas em demanda por mundos calados…
E eu, prisioneira de ti, assim,
Eu viajava planetas, na palavra sugerida nos teus lábios…
Eras… eras paisagem e desassossego…
Um toque de distraído requinte
No andar despojado de quem peleja universos
Sem nunca despir o casaco.
Eu… Eu partia, aqui e ali, pelo roteiro vago
Dessa cidade escondida,
Ás vezes, tantas vezes, minha aliada…

Desbravei terras perdidas no mapa
Por caminhos de terra solta e respeitáveis fragas
Que tu me apontavas em dias de descoberta,
Progredindo no mato
A cortes de catana e rastejar de grutas
Onde antigos medos, de uma escuridão de muros
Que a minha mão tremia, logo se apaziguavam
No ombro que me estendias.

Eram uns dias de amores, abraçados e doídos,
Perdidos pela literal floresta que os dias verdejava,
Conquistando respostas nas perguntas do tempo…
Historiando arqueologias, no cansaço doce
Das tardes alentejanas…

Fomos rocha, um do outro, mensageiros de uma entrega
Desmedida nas causas, no sonho, em amor…
Fomos passado em revista na construção do futuro,
Equipa e semente nos terrenos da partilha
E ancorámos em versos no porto da nossa diferença.
Palmilhámos muito rumo
Onde o olhar se esquecia das horas que o tempo tem
Vadiando pelos cantos
Que o cheiro da terra nova
E a luz presa dos vitrais
Gravavam na tela em branco do nosso espanto em passeio!...

Eram uns dias de apego, vitais de sonhos lunares,
Um silêncio catedral onde as almas reuniam.
E o final de um dia entregue ao respirar de uma vida
Sabia a coisas de mel
Nos sonhos que adormeciam…



Calou-se o teu piano para mim.
Chopin e Elis fechados nos teus dedos
Não mais soaram Olimpos e… o que restou
Foi um silêncio de pausas demoradas…

Calou-se o tempo.

Ficou por lá, meu amor, num sorriso que é andado…


--------

18 anos de caminho e  partilha, carregados de sombras. Que apaguei um dia, no momento mais que certo. Finalmente, 12 anos depois, é chegado o momento de acolher a paz: a minha.
Assunto encerrado.


Ana Vassalo
03-10-2009 - 13:10

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

SILÊNCIO A DOIS TEMPOS

DIÁLOGOS POÉTICOS COM O MEU AMIGO "TOTA"
(do lado mais doce do Atlântico...)



John Henry Fuseli - Silence


Silêncio a Dois Tempos



Sabe, amigo…

Há as palavras que vêm,

As mesmas que também vão…

Mas o momento do adeus,

Esse momento fica

E permanece cortante

Pelos passos de uma vida

Que essa criança que somos,

Camponesa de utopias,

Plantou de risos, um dia,

De intenso sabor feliz

como um jardim dos abraços

sossegado nos aromas da ternura.

Mas eis que as palavras passam

e indiferentes se afastam

como um sopro pelo tempo…

E o dia que vem depois

É mais um espinho de aviso

Que fere de morte, em silêncio…


Ana Vassalo

28-08-2009 – 14:04H


Origem das Imagens: site Luminescências.

NOTÍCIAS DO FUTURO

 
NO WALLS!, Ana Vassalo - digital drawing experiences :)


 
notícias do futuro

hoje não há acidentes
- li eu, no jornal sem letras…
apenas as velharias
de repetição já segura:
nada de terra, ou de cosmos,
nem rasgos de firmamento…
o irremediável vazio
habita no imprevisto

tudo antigo e bolorento
na vida posta em clausura,
os homens cumprem-se iguais
em rasura e indiferença,
levando o brio da nascente
às águas do esquecimento…

alinhados na parada
das apostas calculadas,
certos se acham na pista
das corridas que outros vencem
sem pontos de referência
na cega estrada do tempo…
sentimentos arquivados
na fila dos melhores dias
transbordam de pragmatismo…
vence a razão, de cadeira,
e o amor? não é oportuno!

sei que estou eterizada,
bêbeda de tantos anos,
vã de toda a surpresa,
morta, na semelhança…
sei que ao raiar da manhã
outra de mim, paciente,
repetida e linear
no caminho reinará,
sábia de muitos hábitos,
diligente na missão
de imitar integrações!

serei um ser engrenado,
elo perfeito em cadeia,
retrato na galeria
dos lugares preservados
ao sol da alienação…
serei gente que progride
no tempo de resignar
os sonhos que um dia ousaram!

mas hoje e agora, aqui estou
de olhar preso ao nevoeiro,
rompendo por um sentido
que valha o trabalho de ver
- amanhecendo vontades
no entardecer de um grito!

sou a essência evaporada
que um dia já teve griffe…
estou ancorada num instante
tão breve quanto a garrafa
que encerra os néctares de tudo
e bebo em menos de nada!

fui antes esboço de gente,
mulher da vida de alguém
- que de um sopro me matou!…
tive os homens que desbravei
e em mim morreram de véspera…
fui grito, sim, declarado
de um amor eterno… agora!

e eis que agora é andado
e o dia me bate à porta
neste peito que não sente
nunca mais o que é verdade…
estou de mansinho expectante,
aquietada em tantas breves
certezas do que já fui
e insisto em resgatar!

qual quê!…
sei que não há invenção…
o jornal não saiu hoje
por falta de letra impressa
nos tipos da novidade:
terra e cosmos estão inertes
nos seus movimentos perpétuos
de gerar uma equação…

só eu, disfarçada de sonhos
ainda creio a mudança
num amanhã de conquista
nas luas da maré viva!
pobre de mim… viajante
de insólitas fragas de abismo
suspensas sobre o futuro…
a vida nunca saltou
e o tempo não sabe a nada!
- mas o jornal diz que sim,
que há sabores na rotina…

aqui, de onde me escondo,
só há saídas da bruma
pela escada da mentira…

e o futuro? ri de nós?...


Ana Vassalo

24-08-2009 – 22:57H


Origem das Imagens: Ana Vassalo.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

AMIGOS DE MARINHAR






Amigos de marinhar


Num mundo de faz-de-conta
Encontrado além do mar
Onde a mão agarra a onda
E a distância não tem lar,
Nos caminhos de outra estrela
Que acende à noite uma vela,
Guia dos medos sem fim
Onde tu lutas por mim,
Nessa alvorada de azul,
Que persigo a norte e sul,
Para contigo acordar
Esse futuro de amar
Nas gentes que já não vejo
E a quem recuso o meu beijo,
De que me guardas, amigo,
No teu cavalo de abrigo…
Na planície que hoje abraço
E a saudade grita o espaço,
Onde ser livre é verdade
P’lo chão da tua cidade,
Amigo de marinhar,
Nessas andanças de amar
Como só amigo sabe
E no peito o mundo cabe,
Sei!
Sei de uma certa guitarra
Onde dedilhas amarras
De um amor que é desejado
Na margem de um outro fado
Sei…
Sei que me inventas pessoa
Mais alta do que merece
Mas que por ti acontece
Um dia novo, a onda boa
Amigo…
De horas perdidas
Luas fugidas
Canções de dar
Prantos de mar…
Sei de ti doce paisagem
Construída p’la viagem
De sermos voz derradeira
Do outro a paz verdadeira
Caminhando
Nos abismos da tristeza
De mãos dadas, sendo fé,
Que a solidão já não é
Soberana à nossa mesa!
Somos galope e subida
Juntos somos cavalgada
À conquista da jornada
Que despede a despedida.
Amigos que o tempo segue
E ampara na corrida
Sempre mais alta de vida
Na luz que o olhar persegue…
Sei de ti… como de mim,
Sei que os atalhos são nulos,
A estrada morre em entulho
A empatar o devir…
Mas as horas nunca cansam
E até parece que dançam
De flores de céu a abrir…
Em ti, em mim,
Amigos maiores que o fim
Duma noite que se acende
E de nós a alma aprende!

Ana Vassalo

11-07-2009 14:37
Posted 11-07-2009


Origem das Imagens: Photobucket.

VERSO SOLTO IV

Matrix



Verso Solto IV


Somos filhos das horas de todas as grutas
enlaçados em dores que a noite não ouve…

Passeamos o tempo, que não lembra o que soube
e traçamos no vento os caminhos de sal
que os prantos mais velhos lavaram do mal.

E então despertamos no ensino das lutas…

Que o tempo a estrear os dias não cede
ao lamento de horas mortas em branco
nem se detém a saber da paragem
no curso de tanta porta encerrada...

caminhar é… sem regras…

porque há sempre um outro dia que mede
os passos afoitos tentados p'la margem...

Fosse a festa da cor alvorada
o rasto aberto dum trilho mais franco!...

Mas… somos réstea, e penumbra
num rosto de luz ardido
dançando no riso a sombra
de um olhar interrompido.

E as vagas do tempo acordam
do sol o beijo, a nota breve,
ensaio de um passo em greve
num baile antigo, que abordam...
Velamos num mar de ocasos
ao leme de um outro dia
e somos do sal regaços
acolhendo a maresia…

E a saudade, que então mora
em estrelas que não sonhámos,
no céu do meu porto chora
esse azul que não pintámos…


Ana Vassalo
22-Jun-2009
Posted 22-06-2009


Origem das Imagens: Webshots.

VERSO SOLTO III

  

Saimi in the Meadow, by Eero Erik Nikolai Järnefelt - 1892

um chá... na planície
um ribeiro de Agosto
breve o sussurro dos mitos
no cantar de folhas mansas
o prado
e a preguiça
as mãos
empurrando os céus
um levantar de perdizes
no restolho do silêncio...
um tiro morrendo a paz.
 
Ana Vassalo
22-Jun-2009
Posted 22-06-2009

VERSO SOLTO II

 



 Solitude, by lady amarillis


verso solto II


raiando em versos de frio
tarda o meu canto bravio

a rasgar sulcos no chão
lançando farpas da mão,

ideais, forjando a luta
de vantagens impoluta

num país nado emoção
onde se beija a razão…

e, guerreiros retornados,
sermos do pó levantados

a construir a justeza
de sermos mais que leveza

e abrigo da verve mansa,
posta em suave tardança
no coro da noite alada...

e voem livres os sisos
no balançar dos sorrisos
trocados…
escrito no livro das horas
um verso que à noite mora,
recados,
de flores tão prenhes de cheiros,
do correr da pena, do morango a cor,
da saudade plena, da arma o estertor
derradeiro,
do global o verbo
que em tão vasto acervo
à noite é romeiro…

paixão das horas de não saber
o amor cansado, do entardecer…

da sede um grito, inanição,
escuro,
o esplendor da solidão!...



Ana Vassalo

24-Abr-2009
Posted 24-04-2009

VERSO SOLTO I

piano rose



verso solto I


sagrados destinos,
um laço
atando na viagem
um espaço
de ser mais do que milhagem
pra ser canto em desatino
e no encontro das mãos
que teclam tudo o que são
ser um lugar clareado
por cada tempo cantado!...

de ser palavra no espanto
urdindo praias de encanto
nos teares da fantasia,

sendo depois Prometeu,
margem da noite que ardeu
no raiar da utopia…

e chega um tempo que é cedo
ao tardar da madrugada,
mãe do silêncio, arcada
na engenharia do medo...



Ana Vassalo

19-Abr-2009
Posted 19-04-2009


Origem das Imagens: Webshots.

MAR ATLÂNTICO


























Oceano Meu,
querido Mar, encapelado,
divinizado e ateu…
Bravio, ou encarcerado
entre os mundos e as marés,
és das gentes que abrigaste
pela fuga protegida,
de outras, que condenaram
à dignidade esquecida,
ou de a quem relembraste
a liberdade perdida…
és meu, de aguarelas, nosso,
de nossos males és poço,
mas só dos que não te usaram
pra servir o que não és!...

Oceano Meu,
Querido Mar dos amanhãs
que guardam em nós a fé!
Onde os homens que navegam
procurando o mais do Mundo,
confiantes, se aconchegam…
Que por seres tão profundo,
é por ti que o mundo É!



Ana Vassalo
Outubro-2000
Posted 05-04-2009

HOMENAGEM... A UM ANÓNIMO





Dionísia Bento




A um Anónimo



Meu grande, grande amor

Decidi hoje que não quero, nunca mais, que tudo aquilo que representas e representaste para o mundo continue anónimo.

Decidi ainda que não te vou deixar partir sem que se saiba que és uma Diva, e que mesmo com tudo o que te foi negado conseguiste, involuntariamente, construir a tua celebridade, feita de memórias quentes no coração de homens e mulheres que contigo se cruzaram.

A tua voz única, sofrida, bela, poderosa, conjugada com os teus olhos de açúcar, verdes, do verde marinho, viajou da tua pequena vila até muitos sítios.

Vou no táxi, entediada no inferno de trânsito desta minha encantada Lisboa, reconheço aquele sotaque cantante e doce, questiono a origem; “sabe, é engraçado, mas a minha mãe é sua conterrânea” – “atão miga, diga lá quem é que é a sua mãezinha a ver se a conheço” – “é a Dionísia” (digo assim, A Dionísia, com o indisfarçável orgulho que a experiente certeza de que será imediatamente reconhecida me dá) – “ a Dionísia que cantava o fado???” – “sim, essa mesmo…” (quero-lhe pedir que me fale dela, naquele glorioso passado, mas ele não me dá tempo) – “belos tempos, da nossa juventude, que alegria!, a sua mãezinha era uma linda mulher, sabe?, e depois a gente vinha subindo aqueles caminhos da estação até à vila e quando ela dava aqueles espectáculos na praça principal, a voz dela ecoava por aqueles cabeços e a gente chorava, sem saber como nem porquê, e era como se Deus falasse com a gente…” (vira rapidamente a cabeça para trás, para me olhar bem) – “ai a vida, o mundo é tão pequeno!...”

Foi uma breve passagem das muitas idênticas que vivi na tua amada terra, algumas mais em Lisboa, em Portalegre e outras paragens, por ali.

Contaram-me também que depois veio o reconhecimento internacional na forma de um contrato, que nunca foi assinado – os brandos costumes da “casa” não permitiam tal vida a uma mulher, ainda menos a uma menina de 18 anos…

E ainda que nunca ganhaste nada com isso, pois tudo o que ganhavas com os espectáculos entregavas - disseram-me mesmo que os Bombeiros da tua terra, entre outros, te deviam bastante. Tal e qual, assim. Seria já uma bela história de vida, para contares aos teus netos e bisnetos, mas não, não ficou por aqui.

Deste tudo, tanto, sempre embrulhado em amor, a tudo e todos que encontraste. Esbanjaste o teu sorriso lindo por essa vida. Na Guiné eras a “siô boa”, sempre generosa e criativa na forma de te dares com e aos outros.

Tudo aprendeste sozinha e sempre foste (eras, até há bem pouco), uma mulher informada, dinâmica e um ser extremamente social.

Davas-me cabo da cabeça com a tua inesgotável fonte de opiniões que, agora, eu tanto queria conhecer, mas... não temos tido oportunidade, certo?

Sempre achei que, a todos os Anjos, devia Deus ter dado as asas – em vez de serem privilégio somente dos aprovados por entidades falíveis. Mas não faz mal, Ele e o teu mundo conhecem-te e sabem exactamente o que conseguiste : voar a Vida.

Por tudo o que viveste, sofreste, amaste, engoliste em seco, abdicaste, aprendeste e ajudaste, minha Princesa de branco na alma, não existe, neste mundo de oferendas vãs, algo suficientemente grandioso para te compensar.

Por isso, só posso o que o coração me pede : fazer com que o mundo, embora apenas este pequeno fio da Rede, te conheça e testemunhe pelo teu exemplo que a Vida só vale a pena quando se faz a diferença, quando se aquece pelo menos uma alma das muitas que cruzamos no nosso caminhar.

E tu, minha Querida, acariciaste e aconchegaste a Vida de todos, porque cedo percebeste que o mundo não é maniqueísta, monocromático, não foi Criado para julgar e menos ainda para condenar. O mundo tem dias, só isso.

Que posso eu dizer-te mais, meu Amor, que tu não saibas já ?...

Como refere a tua querida Natacha, que roubou ao poeta o seu modo de vida, "(...) Porque a vida só se dá p'ra quem se deu/ P'ra quem amou, p'ra quem chorou, p'ra quem sofreu", a grande verdade de tudo isto é que, para ti, a coisa DEU-SE.

Até já, MÃE.


Ana Vassalo

16-10-2008 - 11:33H
Posted 16-10-2008


Origem das Imagens: fotos pessoais.

DÚVIDAS DE LISBOA




Lisboa - Centro Cultural de Belém,
Jardim das Oliveiras



Se o céu se entreabrisse
e um corredor de descanso
me desse, para que eu saísse
deste rumar sem avanço,
saberia eu caminhar
e em tempo perceber
o que encontrasse ao chegar?

E nesse azul que alimenta,
como o mar me representa
a minha urbe encantada,
saberia qual a estrada?

Das barcas, que sempre partem
para um destino que anseio,
olho as velas que rebatem
a ventania em passeio
e o meu olhar se acende
na sede da plenitude.
Mas se o coração atende,
jaz na alma a inquietude…

Se a tua mão desejada
no meu sonho repousasse
e de mim tudo aceitasse
sem inquirir da cruzada,
seria então esse amor
capaz de me descobrir
neste universo da dor?

Nos cenários que revivo
e de sentir me atormentam,
como quem conhece o livro
mas de o ler não se contenta,
soubera eu dominar
(à força de o repetir)
essa vontade que tenho,
que este maldito existir,
de tão longo perdurar
me aguçaria o engenho!...

Mas se os olhos não alcançam
o tudo que a alma vê,
as imagens não descansam
até saberem porquê:
é uma questão de vivência,
onde não mora a paciência!

Se eu ousasse recrutar
dos minutos o esperar,
certamente saberia
desbravar no azul a vida,
para nela me embrenhar
e acordar leve, num dia
ao encontro da saída…

E que ao cabo da jornada
p’la cidade demandada,
fosse o meu amor Lisboa
e como eu, viajante!
E que ela fosse bastante
Nos olhos de outra pessoa!...



Ana Vassalo
1999
Posted 05-04-2009


Origem das Imagens: Webshots.

DA NOITE...

alfama night (watercolor filter)
Alfama



da noite…


no meu olhar cabem estrelas
que me acendem de janelas
nesse meu céu viajante

- despedido, sempre adiante…

mais aqui, guardo um cantar
de águas mansas de luar,
meu mar eterno de medos

onde me acolho em segredos,

Cais da Tormenta, já breve,
que se aquieta em sono leve
como quem mata o momento

de ser fúria, mais que o vento…

acordada em nevoeiro,
canto, de amores, o primeiro
que gravei no livro em branco

escrito em passos que hoje arranco!

eram meus versos de então
folhas ternas de algodão
que, macias, se ofertavam

nos laços que em mim voavam…

evadida… selo os dias,
calo na pele as mãos frias
e desse frio me aqueço

no sol em que me escureço…

sei lá eu do amor dizer,
da luz, o que me entardeceu,
das asas que fiz descer!...

sei que a noite feita eu
mora aqui… e aconteceu…


Ana Vassalo

21-05-2009
Posted 15-06-2009


Origem das Imagens: Webshots.

RECADOS DA TERRA CANSADA










Vincent Van Gogh - Siesta



Recados da Terra Cansada

EU QUERO!

Do tudo, o que me é urgente!

De face aberta acolher

as horas cheias do haver

e receber

dessas promessas de céus

e de anjos mil providentes

negligentes do que é meu!

Que me atrasam de futuros

e me sitiam de muros,

me presenteiam de amores

que me assassinam de dor

em experimentados requintes

de madrugadas por ter...

palmilhando tanto chão

evidentemente vão,

cliente da espera, ouvinte,

respirando o quero nada

a soletrar existir.

Roubando à palavra dada

uns rasgos de resistir...

E QUERO!

Do tudo, o que ousei perder!

E das perdas aprender

em que passos

da jornada

me despedi dos abraços

pra me tornar este ser

já só poeira de estrada!...



Ana Vassalo

Dez-2008
Posted 15-06-2009

DO QUE NÃO DIGO...





Do que não digo…


Na palavra cerceada,

De sopro forte e latente

Em alquimias goradas

No cruzamento das mentes,

Há um cantar de Janeiros

Que a brisa quente ignorou

E em seu chegar derradeiro

De sonhos findos me achou…

Na palavra que me calo

Paira um deserto em demora

De um certo tempo de amoras

Que o oásis não logrou…

Há uma lembrança de cheiros

Nos campos do Outubro frio…

Frondosa a mata, em roteiro,

Num deslizar de arrepios!

E existe um olhar achado

Nas manhãs de terno abrigo,

Praça do adeus desbravado

Num galopar sem castigo!

Há ribeiros de água solta

Nessa palavra que habito,

Mantos de prata que agito

No despojar da revolta.

Há uns dias em que parto

Nas palavras de sair

E vagueio na paragem…

Sou luz breve da certeza

De um fogo de ser intenso

Que em sequestro me detém.

Cego eu de paixão vítrea!

Na febre de ser mais dias

Que um viver de dias farto

E errâncias por definir,

Perco-me lá… pela margem

Sentando a vida em leveza,

Num torpor liso, de incenso,

Que pairando me sustém!...

Sei da noite inquestionável,

Desdobrada à minha frente,

A que um dia me rendi

Em cocktails de gente,

Na rasura descartável

Dos fracassos que bebi!

Havia nela um princípio

Sem fogo, mas de artifício,

Nos abraços de néon…

Estampando telas de olhar

Por entre orgias de som,

Calava um grito de mar

Na vida que tinha sede…

Das alturas, não da rede!

Sento-me aqui, penso o mundo…

É denso o mato, em ocaso,

Onde me embrenho, lunar…

De encruzilhadas me afundo,

Veludo em teias de acaso,

Presas do tempo a chorar!

Lembro as tardes do dizer,

Abraços de um tempo a ferver

Acordes de água em marulho!

Deito o meu olhar vazio

No lençol de toque frio,

Versos-cama em que mergulho.

Falo de mim… e da espera,

Nela me acho sem terra…

Nesse partir já corrente

Sou o rompante, sem brio,

De uma alvorada em desvio

Que de mim o caos ressente.

Quisera eu ser metade

De um sonho a parir verdade

E assim mesmo, já bastante!...

Mas… sou de feitos tardia…

Só me encontro, já distante,

No silêncio que há nos dias…


Sou carta de marinhar,

Farol de estrelas que arrisco

E pela saudade me abismo…

Morro no chão de voltar!


Que me cansei de nascer

Na palavra que não digo!


Sou sempre a nau de saída

Que navega a despedida

Nos olhos fartos de ver!...


Ana Vassalo

25-05-2009
Posted 25-05-2009


Origem das Imagens: Webshots.

OS TEMPOS






Os Tempos

Um pretérito assombrado
cria uma vida interdita.

Interrompi o sentido
de caminhar sem ter olhos
e não me perdi sem saber
mas antes por assim querer.
Fiz uma alma de pano,
chorei cada desengano
como se fosse o primeiro.
Nada aprendi, no desvaire,
somente reincidi:
cada tempo pioneiro,
do que era antes esqueci.
Sem desculpa, nem desconto,
cada dia conto um conto
que revivo sem remorso
neste a-viver-de-parecer,
por cada hora que torço
como quem vai aprender.
Mas que haverá para saber,
Deus meu, que me provocas,
sempre que em mim invocas
essa vontade de ser?
Ser o quê e para quem?
Sei lá do que vem por bem!
Que mais posso recriar
neste mundo a desfilar
e eu a ver,
deixando-o de mim correr?
Quem fez o mundo redondo
sempre igual nesse voltar,
circular,
mais que hediondo,
de falso se entregar?
Alguém que queria passar
essa ideia desalmada
de que a morte despedida
não se faria encontrada!...
Ah, ah, rio-me eu,
abro os olhos a compasso,
três por quatro, a acertar;
sabe-se lá porque o faço,
neste inferno de aceitar
uma existência mentida
- a minha, tão desmedida!

Era uma vez um algoz
que não se fez conhecer
mas de mansinho se pôs
na minha alma a roer.
Foi aí que percebi
o quanto ria de mim
- eu, cansada, a reprimir-me,
a consciência a despir-me
os mil erros assumidos
que ninguém me apontou!
Foram os outros de mim,
mil demónios feitos anjos,
morais de outros arcanjos
sem deterem qualquer fim,
que me marcaram a vida
numa agenda repetida.
Eis que de santos me farto!
- nem sei onde os encontrar
quanto mais de os respeitar…
Esvai-se-me a vida por normas,
de na desnorma viver!
Certa ela, é o acolher
das emoções qu’ inda ouso
pra depois logo esquecer
de que vida queria o gozo…
Estamos aqui, tribunal,
togas, bíblia e jurados,
todos juntos pra julgar
do meu presente os passados.
Não devemos lá chegar.
Provavelmente adiamos,
e o juramento de amar
perder-se-á pelos anos.
Quero, contudo, marcar
da minha vista o (des)ponto:
não há que renunciar
a ser livre devagar
só porque a pressa chegou
e abreviando o assunto,
de velhos nos rotulou.
Se algo quero alongado
é o meu futuro ensinado
por todo o tempo que eu Sou!

Ana Vassalo

1997
Posted 15-06-2009


Origem das Imagens: Ana Vassalo.

VÉU DAS AMARRAS




Véu das Amarras

Tenho um véu aprisionado
nas correntes desta história
que me vela, tudo tolda
e sussurra uma memória...
quero usá-lo, vê-lo branco,
recriá-lo neste pranto,
arrancar, mudar, nem sei...
reformar o mal sentido
em risonho...
Neste sonho não me oponho!
Quero gozar esta página,
que se alterne em fantasia!,
ou magia...

Mais magia!

Há um canto de temores,
almas mil aparecidas...
vou jogar no nó do azar
e trazê-las já vencidas!
A viver canções, jogral,
vou sem tréguas,
já sem barras,
pelas naves da emoção
que me abrigam do real.

Sem amarras...
só deixar tocar guitarras!

Tenho um véu aprisionado
no olhar, não sei chorar.
Serro grades, colo asas,
vou p'ro longe de encantar...
trago o tempo, levo a sorte
e uma vela navegante.
Vou-me achar tão perto, agora,
que o longe nem é distante...

Que o longe não é distante!

 
Ana Vassalo
1995
Posted 05-04-2009

Origem das Imagens: Webshots.

VULTOS NA MEMÓRIA

POEMA CAPA DA SEMANA EM FOTOPOESIA.BR, DE 26-ABRIL A 02-MAIO-2009



Dan Heller, "Nite-tree-shadows (2)"


vultos na memória

do outro lado da praça, as vozes
brandidas no retomar das poses,

em arrepios de permutas falsas,
abrandam ao render das garças

e chegam roucas, morrendo devagar
em leves ressonâncias de abetos,

erectos,
ali mesmo, tão concretos

e no entanto, são vultos lunares
desviando paralelos no olhar...

que doutros olhares se despede
e pelos ecos se perde

vagueando, sem ter rede...

Ana Vassalo

20-Abril-2009
Posted 21-04-2009


Origem das Imagens: Google.

domingo, 30 de agosto de 2009

A OESTE O SOL DESCANSA

deep red sunset



A Oeste o Sol Descansa

(ou diário de uma separação)


Gritos na pele, arrepios
De um silêncio inacabado

Habitat de noites frias
Que não nasci a teu lado

De todas as maresias
Que não sorvi em abraços

Da suave brisa morna
Sibilante nos meus traços

Do teu mar que em régias vagas
Logo quieto ao fogo torna

Da rebelde pátria tua
Caminhando a minha rua

Cais dos receios que apagas
No toque das mãos urgentes

Do sol o breve, o olhar ardente
Perdido o céu fulgindo em ti!...

E no entanto, és já poente
E eu jamais te conheci…
Ana Vassalo
30-Abril-2009
Posted 30-04-2009


Origem das Imagens: Photobucket.

GOLPE DE ASA

Like A Seagull -- Song by Peter


Golpe de Asa


De sonhos a fazer dia
Nos vôos a que me entrego,
Olho-me nele utopia,
Logo nasce outro sossego:
Onde um anjo se passeia
E a vela acesa persiste,
E a floresta desenleia
Silvados de rosa triste…
E os homens entoam hinos
E se revêem meninos,
E a asa do medo se abre
A largar ventos de sabre,
Qual sopro de brisa quente
Guiada até à nascente:
Água-coragem que arrasta,
De um rio a buscar a fé,
Outras luas na maré
Em que o mau tempo se afasta

E se aconchegam os abraços,
O ombro empresta segredos,
As mãos se afagam de laços,
Os olhos de afectos chispam
E acalmam de riso os medos,
Que derrotados se avistam…
E as margens já se reúnem,
E os poderes não sucumbem,
O princípio segue liso,
A estrada tem paraísos
E a criança corre solta
Ruas da vida sem escolta!
E ser pai é ser mais gente,
Ser mãe, a fonte luzente
P’los dedos que agarram estrelas
Na luz que os olhos ateiam
E fulgindo se passeiam
A rejubilar de vê-las…

E num cantar de universos
Em glória, de amar alguém,
Ser nave que abraça o mar
E a viagem desenhar
Em planisférios de versos
De um poeta sempre além!
A dor já tem terapia,
O ódio morre a agonia,
A raiva fugiu de casa,
A ganância bateu asa,
E eis que o céu é pai gigante
Que guia o seu filho adiante:
Saudade na alma, apenas
A que em nós remove as penas,
As harpas dedilham ninfas
Que do peito a mágoa limpam
E o tempo adormece cedo
De um certo cansaço ledo!


Pois que esta sonata ecoe
Pela nota que destoa!
E o sonho se cumpra em frente
Sendo no outro semente
De vida a sulcar, bravia,
Os terrenos da alegria!
E o homem morra de pé,
Como que árvore secular,
De crescer em digno andar,
Doando tudo o que é!

E daqui desta tribuna
Onde vos lembro um amor,
Seja o meu mundo o cantor
E em poema os sonhos una!...

Ana Vassalo

04-Agosto-2009 – 15:46H
Posted 04-08-2009


Origem das imagens: site webshots.

MÃE






Mãe

Rasgo na manhã, notícia,
pasma o silêncio, estropício!

Um bloqueio na corrente
da ideia, em desalinho,
da percepção sem caminho,
tropel sem freio da mente.


Insustentável ruído,
abominável paragem
de um estrondo da alma ouvido,
de um dia que abortou viagem.
E a recusa balbucia, em negação,
lancinante o grito, no arrasto da ilusão.
Já depois, outro acordar,
de consciência sem lar,
num certo partir, que não é,
a morrer quase, de pé,
sem aterrar na verdade
que a manhã do silêncio invade
e de noite veste a razão...
Que se agarra ao coração
a retalho, sem compasso
e a somar tanto cansaço,
de ser só continuação.

Mas seguimento que é Gente!
Onde a vida, se esmorece,
lá permanece e pressente
que o tempo não conta idade:
há que insistir, mesmo ausente,
p’la viagem que não esquece.
E persiste, ancorada à teimosia,
entre um sopro de ansiedade
e outro de galhardia,
que há que ser mais que doente
para almejar ser poente...
E presa por fino elo,
num invencível duelo,
dá a mão à liberdade,
lado a lado com a vontade
despedindo a despedida.
Mulher, que em armas erguida,
já me antecipa a saudade,
por ser mais Alta que a vida!



Ana Vassalo

Mar-2009
Posted 15-06-2009


Origem das Imagens: fotos pessoais.

ACONTECEU




Aconteceu


A toda a espera avisada,
e no erro eternizada!
A todas as artimanhas
dos mil dias deste tempo
que ignora vidas tamanhas
de caminho, ao pó tornado
por vindouros contra-sensos
que à memória não dão brado!
Informo, por fim, pausada,
que me alistei voluntária
nas fileiras alargadas
da dissidência sumária.

Aos trovadores da palavra
que no peito a esperança lavra
bela, de mentira crua e vã
- quais pedreiros de amanhãs,
em escombros de glória ardidos -
que em rios de sonhos traídos
pedem mãos à concordância,
ocorre apenas lembrar
que dessa aridez, secular,
jamais brotou militância …

Pois se hoje já me contento
de intervenção por defeito,
é que, afinal, sucumbi,
de descrença enchi o peito.
Mas dói-me a fé, que perdi,
por minha terra em tormento.

Um Viva por quem venceu,
que de vencer se mereça!
Pouco resta – aconteceu…
E no que prevaleceu,
não há vida que amanheça…


Ana Vassalo
Janeiro-2009
Posted 29-01-2009


Origem do Video: YouTube.

AMIGO...


kandinsky25
Vassili Kandinsky




Amigo…


É o passo entre a distância
E a ponte que se cria

É um sonhar de matrizes
Na forja da sincronia

Um semear dos encontros
Nas oficinas do adeus

Ser da terra o garimpeiro,
Dos mares fazer seu Deus!

É folha branca ansiando
Pelo toque da palavra

É ser galope e torrente
No caminhar que se trava!

E é desenhar orientes
Despojados da doutrina

E ser do outro a verdade
Quando a vontade termina...

É o beijo repetido
Que a face não experimentou

E um afagar sem aviso
Da alma que se aleijou

É fraga, é sé, capital
Nas avenidas do amor

Um caminhar a desoras
Nos desencontros da dor

Amigo é mais, universo
Nas conquistas do horizonte

É o mapear dos olhos
Em arco-íris dos montes

É pão, e é luz e remanso
Nos empurrões da jornada

Amigo é sala de espera
Na escuridão madrugada

É mão da carícia, encanto
No gargalhar das meninas

É um raiar de açucenas
Na vida que urdiu ruínas

Amigo vai, deixa a dor
Saudade a romper, depois

Cai o céu na despedida
E o que era um fez-se em dois

Desenha a flor do lilás
nas voltas que um dia tece

E tem o passo acertado
Pelo chão que o mundo aquece...

Um não-sei-quê de ternura
Que nos guarda do lamento,

Amigo…

É água fresca das fontes
A jorrar contentamentos!

Ana Vassalo

31-05-2009
Posted 01-06-2009


Origem das Imagens: Site Webshots.

MENSAGENS DA AREIA






Mensagens da Areia


Fui lá ver

- diz que não,

não era nada...


Talvez somente a incúria

nos vestígios da penúria,

pegadas de ingratidão

e um edema de torpor

num rasto de lassidão,

nas marcas do impudor...


Em remansa placidez

de sonhos silenciada,

em casa, tudo pisava

o chão que o poeta fez...


E diz que não...

não era nada...

Apenas um coração

que não se aprende feliz

e já não bate o meu país...
 
Ana Vassalo
 
02-Agosto-2009 - 16:00Posted 02-08-2009
Origem do Video: YouTube.

SOU DO MAR




    Photo by Pratosh Dwivedi




Sou do mar...

Do mar…

Eu nunca saí do mar…


Em tempos, nasci por lá,
Onde a certeza não há,
Nuns dias de musa e naus,
Em que fui também sereia,
Risco do mar, andarilho
Que assim estende a sua teia.

E na tormenta fui caos
E de estrelas doei brilho
E às vezes me achei gaivota
Cruzando nos céus temores,
Neles desenhando portas
Que se abrissem de outras flores,

Mas…
Eu nunca larguei o mar…


Parti.

De quando em sol, fui verdade
Que nas águas cedo flui.
Por terras de então corri
De algumas sei do que vi
Mas cedo me fiz saudade
Do voltar que sempre fui.

E no virar das marés,
Fui na vaga de inquirir
A desenrolar porquês
Tão longe quanto o devir…

Eis que me achei de segredos
Olhei do mundo os degredos
E não gostei do que vi...
Dei por mim já romaria
E a dez mil ondas me uni,
adentro o mar, que sorria…


E pousei…

Por tantas luas, me achei
Do rochedo a eternidade,
Penteava os meus cabelos
Tão longos, do navegar,
Enleados em novelos
De tanto mar abraçar!...

E o meu sorriso inteiro
Em oração se rasgava,
Os deuses, espreitando o cais
De mão firme, a teia erguida
Amparando vôos mais…

De minhas praias fugida,
Fui, sim, gaivota em perguntas
De viagens tão rotundas
Que ao meu mar sempre ancorei
A asa em que me tornei.


Se desse mar me aturdi,
Nele, sempre me acolhi…
Em ventanias de gelos
E trovoadas de medos,
Ou arco-íris de fogo!

E espuma, somente a espuma
De algas tantas, sendo uma,
Brotando certa, tão logo
A vaga que em mim morresse
Do meu mar a vida erguesse…

Quedo-me nele, re-nascendo,
Remotos os tempos, depois
Sou velha de tanto mar
E a cada dia, luar
Das noites longas que ateio
Pra guiarem os meus braços

Cumprindo o céu, horizontes
De voltarmos sempre dois,
Mar e eu, jorrando as fontes,
Já só um… enternecendo
De gargalhada em passeio,
No mergulho dos abraços.


Do mar…
Eu nunca saí do mar…

Ana Vassalo

Abr-2009
Posted 09-04-2009

O CABO DO TEMPO





O Cabo do Tempo


De volta ao cabo do tempo
- sei que está organizado
mas nele não me oriento –
há um mundo acelerado,
que me eteriza os sentidos
e suspende o pensamento.
E é nesse instante aturdido,
de quem se encontra perdido,
que me sento, que me oculto,
num reviver tão doído
que o peito se me arrebenta…
E penso nos outros, tantos,
pais do tempo em que me agito,
quando a palavra era um grito,
um lamento e até um basta,
mas jamais um frio tipo
largado sem arrepio
por folhas de prosa farta.

Eram os homens reais,
uns da luta, outros de abrigo,
e outros tantos de castigo
por cantarem ideais!
Mais ao norte desse tempo,
homens havia, literatos,
que por isso recriavam
de outros dias a palavra;
que não era um argumento,
nem estava em causa o talento
e assim mesmo, então crescia.
Não se moviam pela fama
- que da letra pouco clama
e da vida gasta o fôlego.
Traziam nos ombros arte,
elevada, p’ra seguir
e no Saber perseguir
do passado a sua parte.

Diziam-se então aprendizes
e como tal se entendiam;
e aos vindouros ofertavam
as águas que removiam;
vejo hoje tantos mares
que de saudade transbordam
e nestes tempos se acordam
para se afogar em bares…
onde nos refugiamos
e de acre malte inundamos
as respostas que não temos
nos livros que não abrimos.
‘Inda me hei-de achar um dia
- que agora não me conheço -
pelas horas desse norte
que o relógio não sabia,
e hei-de saber dos sinos
que regulavam os homens.

Tempo da igreja – diziam –
ignorantes, até escravos,
mas que de sê-lo sabiam…
É que hoje, somos libertos
de correntes e grilhetas;
mas neste presente omisso,
a fingir estamos despertos
- sem nunca ter acordado –
arrastando-nos, submissos,
pela vida, de estafetas.
Representamos a luz,
em velocidade contada,
somos linha dedicada
que, virtual, nos conduz;
somos éter viajante
e comunicamos p’los dedos
que, antes, só afagavam
ou demandavam segredos.

E a palavra, que era errante,
na incerteza fluía
e o que o homem produzia
tornava-o em soberano
- por duvidar que sabia…
Do cabo ao norte dos tempos,
vejo-me assim, solitária
sem saber o que é sentir
neste presente arrogante
que se arroga de devir!
Sei que as dores, antes dores,
hoje se calam de si
p’ra se tomarem de amores
de outros termos que aprendi.
E nada se reconhece,
as máscaras riem de nós,
tudo o que não é parece
quando nos olhamos, sós…

Era lágrima, hoje é gota,
só palavras… retocadas,
a fingir de outra cultura…
e a paixão é hoje a fúria,
o lamento foi lamúria,
riso à solta era risota.
São todas murmúrios secos
que na retórica escondem
o medo, que as denuncia.
Somos dos tempos ecos
que, afinal, nada respondem
ao que a morte prenuncia…
Queria eu, sem mais remendos,
dizer dos males que guardo
como são, como eu os sinto,
em vez de me aprisionar
neste velho labirinto
de que não sei regressar!...

E volto ao norte dos tempos,
lembro, neles, um saber…
mas permaneço ao relento
num vadiar sem prazer,
por este cabo atender.
Perdendo as horas de ensino,
que aproximam horizontes,
fecho os trilhos, ergo os muros,
a defender meus castelos
sitiados além-montes;
e porém, dias tão duros
- não fora eu, desatino… –
ao céu se recolheriam
e a buscar o sol iriam
p’ra poderem voltar belos…
Mas… já não oiço a poesia,
das terras de sonho, o apelo,
estou surda de fantasia!

Só sei de um tempo real
que, do bem, logrou o mal
e dele me contagia;
e avisto, bem perto, o dia
que arribará sem sinal
a mostrar que é só final!
Mas se algo sei, que aprendi
- seja o que for que assumi –
é que os tempos não se enjeitam,
não se escolhem, não se prendem:
somos nós, os que dependem
mas de firmeza se enfeitam,
quem dos tempos se arrepende
porque neles não se entende.
O nosso tempo não é
um relógio, um calendário,
ou prontuário da fé
num amanhã refractário…

É a vida, que não temos;
é um fenecer de pé
por, no fundo, percebermos
que no virar da maré
seremos só inventário…
E eu, que roubo os dias
das noites vistas do avesso,
só me encontro nesse olhar
que desisti de encontrar,
mas a vontade me guia
aos caminhos de regresso!...
Tanto medo despedido…
dá-me as costas, indiferente,
e retorna engrandecido!...
Tantas palavras reditas,
amargas, determinantes:
são gritos de dor, aflitas,
de mágoa invariantes.

Queria eu cantar o amor…
só sentir, sem ter razão:
foi-se-me a veia, o fulgor,
partiram com a ilusão!...
Perdi o norte ao dizer,
falta-me alma, para Ser!


Ana Vassalo
Junho-2000
Posted 04-Maio-2009

Origem das Imagens: Photobucket.

RISO

Young wonderful ballerina photo



Riso

o teu riso…
de sobreaviso,
sorriso extenso de espuma,
de um certo tempo de mar…
e eu, navegante à bolina,
no meu sorriso de escuna,
rota de enganos, menina,
perdida no velejar…
pairando, qual guardião,
numa temperança de rio
que não voga o coração
do tanto que já está frio
- teu freio
de enleios,
galopante,
mimetado,
dissolvido
em vagas de marear
desse tal tempo de mar
retumbante,
de viagens travestido -
chovias, no sol dos meus dias,
inundando-o… de mãos frias...
re-pousadas
num qualquer plexo solar
onde a luz esconde o luar,
e os lábios morrem no beijo
que se esqueceu do desejo,
e o silêncio tranca o verso
que de encanto anda disperso,
e os ventos uivam promessas
de sentidos, às avessas,
e os amantes choram ventos
que albergaram sentimentos,
meninos dormem sem lar
num chão de manhãs por chegar,
e os deuses surdos da dor
protegem contratos de amor,
e os reis ensaiando tronos
da verdade se crêem donos,
e os mares, erodindo abraços
que ao ódio cedem regaços,
e a terra parindo lutas
de causas irresolutas,
e o homem, que soletra o longe
do mais perto, que lhe foge…
mais eu, paragem, mãos frias
cortadas de pelejar,
segurando, incerta, os dias
que em mim escolheram lugar,
fui grito, de lança cortando véus,
mais alto que o frio de um vento que ardeu
por tanta recusa em que me retratei,
farpas a poderes que ousei sitiar,
por todos os sins em que me ancorei
e juntos voltaram para me inundar;
berrei um silêncio agarrado à garganta,
eco desnudo de um tempo em mudança
que esparsos e tímidos passos de dança
bailaram num rumo, que, enfim, se suplanta!
Já meu mar, tão marejado
por certo olhar de mentir,
noutras auroras navega
e ousa dias de rir…
mas quando esquece o orvalho
nas manhãs qu’inda se elevam
a recriar do passado
ensaios de um riso, retalho
de meu novo tempo de amar,
monto aos céus, cruzo oceanos,
e sopro a nau que rasga a bruma.
Que de tanto vogar p’los anos,
aprendi!, e mesmo escuna,
sei hoje a vida entornar
nestes olhos que, por fim,
num sorriso de marfim,
sabem velejar o mar!

Ana Vassalo

16-Mar-2009
Posted 18-03-2009


Origem das Imagens: site 123RF - Serguey Kovalev.

QUATRO SILÊNCIOS DE MIM


Quatro Silêncios de Mim
 
Por quatro estradas eu fui
procurando o conhecer
e quatro janelas se abriram
a fingir o renascer.
Por quatro mares vaguei
sem ter onde aportar,
foram quatro, tantas portas
que no silêncio fechei.

Quatro miragens eu tive
julgando que revivia,
quatro, também, os cansaços
na vida que perseguia
e a seguir quatro sorrisos
p’ra com ela me encantar
de quatro maneiras diferentes,
ainda por inventar.

Foram quatro, quatro quedas
de um andaime por cumprir,
quatro vertigens no vácuo
por não ter onde cair;
desistência acelerada
por quatro rodas fatais,
num querer voltar sem ter asas,
em quatro vôos finais.

E quatro foram as lágrimas,
milhões de quatro, a sorrir,
bocas cansadas de água
de em quatro fontes beber
e, a temperar tanta mágoa,
quatro sais de resistir.
Foram quatro mil eventos
todos gastos, nos intentos…

Quatro estacas, quatro espinhos,
todos ferem, muitas matam
e das dores que resgatam
fica o detalhe mesquinho
em quatro memórias feridas,
à força de repetidas,
na celebrada insistência
de quatro escolhas perdidas!

Quatro por nada, uma vida,
que a viver não se contenta…

Ana Vassalo


1999
Posted 13-03-2009

Origem das Imagens: "The dark window" by Sirfer.