NETOS

NETOS

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

REMARKABLE PEOPLE



FERNANDO PESSOA

(Lisboa, 1888 - 1935, Lisboa)


"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


************
"I am nothing.
I will never be anything.
I cannot want to be anything.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."

or...

"I am not nothing.
I will never be nothing.
I cannot want to be nothing.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."


(Álvaro de Campos in "Tabacaria")




LISBOA - Chiado

LISBOA - Chiado
"Fernando Pessoa" by Lagoa Henriques. The place: "Café A Brasileira" (Brazilian Café) - 1905.

PLAYLIST TODAY




MUSIC IS THE PASSION REPORT



♥ ♥ ♥


PLAYING SOFTLY WHILE SOMEONE SANG THE BLUES



Saturday, Jul 22, 2017 - 17:57





SALVADOR SOBRAL - NEM EU [DORIVAL CAYMMI]



YouTube – "Salvador Sobral"





ANTONY HEGARTY + LEONARD COHEN - IF IT BE YOUR WILL [COHEN]



YouTube – "Oggmonster"





CHAN MARSHALL (CAT POWER) - I'VE BEEN LOVING YOU TOO LONG [OTIS REDDING]



YouTube – "anaruido"





JANIS JOPLIN - ME & BOBBY MCGEE [CHRIS CHRISTOPHERSON]



YouTube – "ThE DuCk"





JEFF BUCKLEY - LILAC WINE [JAMES SHELTON]



YouTube – " roberta panzeri"





DAVID BOWIE - WILD IS THE WIND [JOHNNY MATHIS]



YouTube – "Peter Music HD"







_____________________


LEANING INTO THE AFTERNOONS by PABLO NERUDA

«Inclinado en las Tardes»



YouTube - "FourSeasons Productions"






CHANGING BATTERIES - OSCAR WINNING ANIMATED SHORT FILM



YouTube - "Bzzz Day"





DIALA BRISLY - A BEAUTIFUL YOUNG LADY

(a huge thanks to my daughter who e-mailed this video to me)



BBC Newsnight

«Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman - artist Diala Brisly - who is trying to make life that little bit more bearable for Syria's kids.»

Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman -...

Publicado por BBC Newsnight em Domingo, 20 de Março de 2016






A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT

A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT



FLYING A SECRET



I got here to hide. From equations and patterns. From repetition, after all.
Closed the door and got me a special place where I thought I could
somehow sit close to the stars. But I soon found out that the sky was
still opaque, no matter what the steps. And so I left. Again.

I thought, then, I could build me a different ceiling, a new-coloured scrap
of highness. And then make it work. Where I could dream, more than I sleep.
I have long decided that sleeping is overrated - that I know for sure. So I
take that time instead to travel the night alone and in the meantime I allow
myself to fly, unlike stated before... Yes, I like playing with paradox, to
expose the inside of words and the revelation of writing down the voice of a
silence. My adventurous, ever-walking silence.

So I came back. Here, within this quiet world, I intend to gather all my
things usually kept hidden or inactive. They are here to speak.

And since the future is a stand-by secret, I want to live by a precocious
clock, at every running instant of every entering second.

And I will not slow down until my "future exists now" - kind of reverse
quoting Jacob Bronowski.


Ana Vassalo
in my site "CAFEÍNA"(former "No Flying Allowed")
Nov 11, 2010 - 11:54




THE WALK OF TIME

THE WALK OF TIME
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segunda-feira, 23 de maio de 2011

TEXTURA AMORFA




































DIÁRIO SEM COMPROMISSO


22-Maio-2011



TEXTURA AMORFA


Afinal não há infinito. Li eu, num compêndio de certezas. Há o abismo, e há conflito, e o lado mesmo das pontes aqui, um nunca acabar dos iguais, a volta feita chegada, o acerto do procurado, a distância de qualquer meta, os sonhos feitos de sono. E mora tudo aqui, já tão perto, numa porta escancarada de paredes.
Parece que sim, confirma-se que a terra é redonda, por mais que nos confirme também o tédio. Já me tinham dito, no cruzamento de todas as águas que quis beber: subiam, ao invés de descer, não para a foz, antes para a vida. Mas era óptica, mera jornada de ver, onde a ilusão ordena. Essa tal incongruente física, de imagens virtuais, invertidas, a mostrar que o mundo mente.
Este meu, aqui guardado, com ousadias de origem, diz-me que está, sim, tudo aqui, no caos da palavra agora. E estou eu, vestígio de navegante, que pensei a vontade indómita numa vaga além do Tempo, a criar lugares sem espaço, irreverentes de afirmação.
Seria eu, então, o vector ausência na Lei Causal, por não saber coisas de Sempre. Contínua e paralela, de algo por descobrir, da realidade em trânsito. Eu recta. Como quem diz avanço, sem fim ou destino, marcando o lugar a cada passo intentado, testemunho de andamento. O rasto de continuar, no caminho que teria um nome, e saberia que fui eu, sem lugar, a cada lugar.
Mas não, não há infinito. Apenas um resto de mar, paisagem e fotografia. Às mãos do mundo, portanto - nada de meu.
Podia eu ter inventado um futuro. Feito de mim, do que pergunto e do que reconheço, marca de mim sem refúgios - do tanto que me quero só, e não sei porque preciso. E assim pensando, podia ter sido raiz. Da palavra a clamar por voz – ou por vós. Do grito que rasga a garganta para não mais ser ferida em processo. Da música por saber, soando o que a alma arrisca desde que sabe quem é.
E afirmação, também, não fosse esta residente negação da legitimidade de ser. Que não me valida. Porque não me construo. Sou lava, sem noção de gravidade. Ardo no tecto a vida em chamas, arrasto de libertação, e por lá me consumo, sem o alívio de ter chão.
Porque não há infinito.
E o que persigo sem trégua, e me levaria além-montes, estagna na base, onde cresce a certeza Outra, sem gavinhas. Permanece. E não escala o lado oculto, que toma por conhecido. Não há coerência nos lugares de pensar, não há quorum - incentivo, muito menos. Mas há compêndios.
E é na sua lógica de certezas que me sento, com lugar. Porquê paragem? Porquê corrida? Porquê mais porquê?
Se o infinito dançasse saberia que não há ritmo. Que os tambores estão para sempre calados. Que do outro lado, o mato, só já chega a parca imitação dos sons que a alma saberia improvisar. Nem guerra, nem “ronco”(1), nem paz.
Tudo se arruma num lugar de conforto útil. Onde o dia já não sofra da resposta que não chega. E a dúvida se aquiete. Onde a ferida saiba a cura.
E onde não dói, não resiste infinito. O tempo morre sem lado.
E eu, adormeço arrumada. Sem ritmo. Sem tambores. Ou poesia.
E não, não há exclamações, dúvida pontuada, ou sugestão interrompida, neste texto. Há somente a textura amorfa dos tempos que sabem lugar.


Ana Vassalo
22-05-2011 – 23:17

Origem das Imagens: site "Microscopy-uk.org".

(1) "Ronco" palavra crioula para significar a festa, em toda a sua envolvência, desde a música, a dança e o canto, aos enfeites, acessórios, as pinturas no corpo, etc.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

DO TEMPO QUE DESAPRENDI...




Françoise Hardy, caminhando o Tempo.






[Exclusivamente escrito com os amigos em mente (onde se inclui
a minha extensa e querida família), reais ou virtuais, que, tal
como eu, sabem muito bem quem são, com mais ou menos

distância, presença ou "discordâncias" passageiras.

A transparência é um "asset" que, neste caso, será apreciado e

praticado pelas partes. Tal como disse, vou, mas volto um dia

destes, menos cansada, esperançosamente reformulada.]





Do Tempo que Desaprendi...


O Tempo não conhece a piedade, a compaixão, o "chá". O Tempo

segue, numa indiferença total que não perdoaríamos a nenhum

humano. Às vezes quero pará-lo, a reter um momento de sabor.

Outras, empurro-o de aflição, por uma aberta para respirar.

Julgamos saber o que somos, ou fomos, temos uma ideia muito
aproximada do que ainda queremos ser, mas o Tempo...

comanda.



Recentemente, recordei Françoise Hardy, "menina" de doce

encanto e mítica elegância, que passeava a voz da serenidade

como sua e escrevia poemas para canções à margem de qualquer

crítica, por mais exigente que se apresentasse a origem. E bela,

ainda por cima, de um bom gosto a toda a prova. Lembro-me da

sua tentativa de suicídio, das notícias que davam conta da sua

extrema magreza, levantando questões que hoje se prendem

com a anorexia. Vivíamos um Portugal solitário, entre outras

coisas que me escuso agora de invocar, e as notícias, as meninas

da minha idade iam buscá-las ao "Salut les Copains" e mais

raramente ao "Jours de France". Não era por acaso: o Francês

era obrigatório desde o 1º ano do Liceu, e uma coisa levava à

outra.



Nesta minha incursão ou revisitação por tais paragens do tempo,

com saudade genuína e legítima - quero lá saber do que se

engendra por aí sobre a saudade, se ela existe, cresce e caminha

por entre e dentro de nós - dei um pulinho a Brel, para sempre

encantada pela genialidade da sua dor, bati à porta de

Brassens, Moustaki, Réggiani e Ferré, e depois pensei:

porque me falta sempre uma mulher nestas minhas

preferências? E claro que, na memória sem

aviso, surgiu de imediato a figura de Hardy. Nestas minhas

deambulações, lembro-me de ter reconfirmado não serem os

temas mais óbvios, de sucesso eterno, os que me encantam, mas

os outros, talvez mais privados, suavemente intimistas, como

"L'amitié" ou "Fais-moi une place", este último verdadeiramente
insuperável, para mim.



O YouTube tem essa característica especial de nos devolver o

Tempo, um certo tempo a contento, da música que soubémos

viver na romagem. Procurei, por entre o encantamento, e lá fui
encontrando diversas prestações, para os mesmos temas, da

minha (e de tantos outros) companheira antiga de momentos

especiais. Foi então que a encontrei, por lá, no Tempo que é hoje,

ou quase hoje - irrelevante... Ainda bela, a voz plena e suave de

sempre, mas fatalmente cheia de Tempo. Cada ruga, cada marca

no seu rosto, aquietado mas dorido, fala do que o Tempo esconde

mas não apaga.



Sonhar, algo a que nos referimos ligeiramente, todos os dias do

Tempo, aqui, e ali, no café, no blogue, na rede, em casa dos

amigos, mas que é muito mais do que uma citação autorizada

pelo génio que escolhemos para dentro das nossas aspas.O sonho
comporta passos de uma vida que talvez nunca venham a ser

caminhados, mas que no momento em que o aventuramos se

acredita como parte dela, dessa vida não andada, ainda, que nos

acena com um saco a abarrotar de promessas. Sonho é a fé da
possibilidade, que inventámos e inventariámos no livro do Deve

e Haver do Tempo. Somos marcha, sempre adiante, marcha

audaz e planetária, no mundo de acreditar.Chamamos-lhe sonho,

como se o pesadelo não ousasse sequer o nome.



E um dia, Tempo andado, cumprido, desalvorado ou prisioneiro,

feliz por momentos, perdido na eternidade, damos por nós assim,

a mentir alegrias que não soubémos. A inventar a felicidade, na

máscara que passeamos no dia a dia da insensibilidade, também

ela travestida de scraps de vida e sabedoria. Porque há que

sobreviver o naufrágio das ideias, a morte da criatividade para a

vida, a subtil passagem do Tempo, obscenamente indiferente,

pelos nossos sonhos.



Num mundo em que ser hipocritamente realizado é chancela de

sucesso garantido, que fabrica heróis desprovidos de neurónios

actuantes mas emissários do discurso aprovado, ser genuíno

quanto a frustrações e passo perdido é registo proibido, sob pena

do Senhor das Categorias, que organiza o sacrossanto "mundo

dos sucessos" de hoje, nos estampar na testa a palavra proibida

- e para sempre nos definir.



Mas, pergunto eu, interessada: o que conta mais, realmente,

uma vez no fim da estrada? As vitórias por fora de nós ou os

sonhos abandonados em favor delas? Ainda não encontrei a

resposta. Continuo, empenhada e esperançosa, a tentar

acreditar e comprovar na prática que a asserção, supostamente

límpida, da máxima "A vida é bela" será sinónimo do sim à

primeira hipótese, mas... não consigo despedir essa ideia

impertinente e impositória de que tudo o que se passa por fora

de nós tem essa particularidade exacta, a de não nos pertencer

jamais, ainda que o nosso sangue esteja lá, na luta insana que
combatemos para o conseguir.



O meu Tempo é todo aquele em que estou. Certo.



Mas este, este é aquele que me lembra que o saldo é decrescente

e tem pressa. Eu, tenho pressa: de ser o meu Tempo inteiro.



E quando a oiço, agora e de novo, do longe dos meus sonhos

efabulados de menina - dos quais cumpri a maioria, pois foi, e

então? - entoando "Fais-moi une Place", não consigo evitar

interrogar-me: onde está ele, o meu lugar? Será que é uma
inevitabilidade humana quem muito procura tardar em achar?

Talvez. Como vou saber? Só tenho este Tempo aqui, a jusante

das respostas.



E com ele caminho. Um dia, bastará - talvez. Por ora, preciso de

mais do que rugas e fronte grisalha - inevitavelmente escondida

- para me cumprir. Dele, do Tempo, quero os dias de claridade,

que acontecem pelo Sol que sei ter sido capaz de acender na

maioria das madrugadas.



Quero o saldo, positivo.



Retiro-me agora, em silêncio, a rever os livros há muito fechados,

de uma contabilidade inexacta. Quando voltar, tudo estará certo

de novo, inequivocamente exacto, porque do Tempo (des)aprendi

eu o essencial: por mais cruel que se apresente, não se toca, não

se arrepende, será sempre assumidamente inconveniente.



Saudade? Tenho sim, e muita: da "Tentação da Inocência", que

ele, Tempo sem referências, nos vai retirando sem, ao menos, a
dignidade de um pré-aviso.



"Fais-moi une place dans tes urgences..."



Falta-me um marcador... É isso, uma agenda e um marcador!



Alguém tem por aí um bloquinho de post-it's?





Ana Vassalo
in facebook notes
20-02-2011 - 00:08



Origem das Imagens:

Young Françoise - Blog "Poliglotanalfabeto" (blogspot.com)

Françoise Today - Site "All-over-the-world.com/Françoise Hardy".

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

QUATRO SILÊNCIOS DE MIM


[Porque este é o meu poema de sempre, aquele por que tenho mais carinho, e

anda tão arredado do tempo, lá para os confins do 'blog', recupero-o para aqui,

para este hoje mais feliz que aprendeu o passo calmo e o sorriso, ainda que a

estrada seja mais solitária agora. É "frondosa", não muito larga, de curvas

sinuosas, mas caminha sem complexos, sempre adiante, conhecendo algumas

certezas do ponto de chegada, que é tanto mais belo e acolhedor quanto

melhor nele me souber cumprir. E cada árvore, altiva, íntima do céu que

consegue tocar, projecta sombras na noite, que intimidam e desafiam a um

tempo, mas que jamais deixarei de trilhar. Como aquela, estrada de boa

memória, que num tempo diferente e único da vida, venci todos os dias,

entre Portalegre e Crato. Quem a conhece, sabe que a "noite" sem mistério

não se cumpre inteiramente.]




Quatro Silêncios de Mim

Por quatro estradas eu fui
procurando o conhecer
e quatro janelas se abriram
a fingir o renascer.
Por quatro mares vaguei
sem ter onde aportar,
foram quatro, tantas portas
que no silêncio fechei.

Quatro miragens eu tive
julgando que revivia,
quatro, também, os cansaços
na vida que perseguia
e a seguir quatro sorrisos
p’ra com ela me encantar
de quatro maneiras diferentes,
ainda por inventar.

Foram quatro, quatro quedas
de um andaime por cumprir,
quatro vertigens no vácuo
por não ter onde cair;
desistência acelerada
por quatro rodas fatais,
num querer voltar sem ter asas,
em quatro vôos finais.

E quatro foram as lágrimas,
milhões de quatro, a sorrir,
bocas cansadas de água
de em quatro fontes beber
e, a temperar tanta mágoa,
quatro sais de resistir.
Foram quatro mil eventos
todos gastos, nos intentos…

Quatro estacas, quatro espinhos,
todos ferem, muitas matam
e das dores que resgatam
fica o detalhe mesquinho
em quatro memórias feridas,
à força de repetidas,
na celebrada insistência
de quatro escolhas perdidas!

Quatro por nada, uma vida,
que a viver não se contenta…

Ana Vassalo

1999

Posted 13-03-2009


Origem das Imagens: Glimboo.com

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Sem título







Estás aí?...


É que não te vejo pela minha casa de recurso há muito tempo... Poderias, sim, andar pelo mundo, ocupado, mas também não te tenho visto por lá,
até onde esta alma alcança...

Estou contigo, agora... Ainda. Por isso estou aqui. No tempo que vale um momento... Pelo muito, triste tempo de eternidades, que não estive.

E vou-te sentindo, em pedaços sem aviso, o que os torna mais credíveis, mas...

Sabes que vou e venho. E que fujo, de ti como de tudo, de ser e não ser, no pleno deste talento raro que me concedeste e uso sem cerimónia nem gozo. Jamais aprendi a ficar. Tu sabes.

Será? Poderás reconhecer a angústia de Ser não sendo, tu que não És, porque ser somos nós da tua omnipotente criação, a quem inventaram uma gramática sagrada? Ou não? Não... Distrais-te, sim?

E afinal, estou sim, ausente de ti. Por ora. Sabes que voltarei, tens a chancela do inevitável. E de pai. E eu amo todos os meus pais, sim, os terrenos imperfeitos e tu, que inventaste a perfeição. Há muito que não sei nada dela, também não tenho visto por cá os emissários da dita, sabes?

Estou assim, inacabada pela tua mão.

Depois... Bem, depois não há como sair, conheço mal as tuas portas.

Esquecia-as há muito tempo. Saí uma vez, tão criança e revoltada, e andei pelo mundo concreto, sem rasgos de criação. Fui muito mais infeliz, assim - acho que te empenhaste. E de repente, muitas, tantas luas depois, voltei, inapelavelmente, pelo silêncio da tua cumplicidade numa igreja bela e fria, tão altivamente só quanto eu. Não te falei,
mas tu escutaste-me... Senti-te por lá, numa leveza invisível que toca o ar que choramos...

Como te senti tantas outras vezes, em alívio sussurrado na minha mente que informava "não, ainda não é agora"... No hospital, na escola, no mar, e de novo na escola, na maternidade, na estrada... Tão perto e tão longe, não é? Pergunto-te muitas vezes porquê, mas não é suposto questionar insondáveis desígnios, esperançosamente Maiores... que o quê?...

Queres-me cá, mas não sei bem se te percebo... Sabes que preciso da minha casa, aquela que nunca encontrei... que sabe e ensina o sorriso que perdura, a espera e a paz... Sabes mais, que aprendo pouco, que me perco no caminho, pela sede, pela fome de encontrar o que ainda não tem nome por não saber o que procura, mas sabes também que eu acredito que está lá e talvez, apenas talvez, seja só minha a inépcia, no desencontro.

Ou tua a indiferença, medito. Crueldade, será o termo? - já que eu dou às coisas o nome que as coisas têm...

Insistes em abrir uma nesga de outras portas, das tantas que te entreténs a entornar pelo caminho. Onde me sei feliz na entrada, mas donde só enxergo a saída pela fuga, escusa e apressada, tão vertiginosa às vezes, que o estrondo é assustador. Não para ti, que, sentado, deves observar tudo isto com a bonomia de trindade que te assiste.

É que não te entendo, lá está. É muito espírito santo para mim, já sabes que sim - digo-to vezes sem conta mas tu ris-te e viras-me as costas. Depois voltas, mas nunca explicas porquê. Fico-me, então, pelo pai e mais ainda pelo filho. Esse eu reconheço, soube de tudo o que há para Ser e como nós, quase desistiu.

Vejo-te assim, os dois somente um, e imagino-te um poder conquistado pelo conhecimento do infinito, a unidade que se toca, e que é volátil...

E penso-te assim, enorme num Saber de Templo que já foi Carne. E é por isso que voltas. Ou é por isso que eu volto...

Estás aí? Ainda?...

Sei que sim, e não quero saber, entendes? Não te quero no meu mundo, com a tua mão experimentada de acenos, brandindo a luz, a queda, a esperança ou a escuridão... São muitas coisas que pões na mesa do jogo, baralhas e partes, mas não dás. Mandas escolher, em liberdade, como a que é livre nuns olhos vendados...

E por fim, daqui te digo que hoje, em horas demais contado, a tua luz já não me ilumina. Estou presa na noite, onde me perdi há uma vida... Em busca do descanso. Da casa que me falha. Que tu tens fechada e encerra
a resposta, que me escondes. Fico a pensar-te...

Como raio posso eu Ser sem descobrir o que sou? Ou o que quero para Ser?
Revelações... Tens?

Eu não, mas não é suposto. Volto depois, um dia destes, com menos desencanto. Sei que estarás aí, como estás sempre. Só não sei se sou eu que te invento... ou se gostas que pense que sim.

Sei que amanheço, depois. E que o meu peito voa, quando falamos os dois...



Ass.: apenas eu.

02-09-2010 - 15:25

sexta-feira, 4 de junho de 2010

VIRTUALMENTE INCOMPETENTE!



 

Virtualmente incompetente!

Não sei porque me procuro nas esquinas, no revés de todas as rectas. Ou o que faço aqui, nesta suposta ronda de amigos, onde a matéria é incorpórea e os sentimentos nos chegam por éter. Seguramente terá muito q ver com aquele meu escuso lado aventureiro, uma sede antiga de conceber impossibilidades.

Tenho esta espécie de traço genético em mim, que larga o riso com gosto e navega na gargalhada de outros, que exibe a naturalidade de todas as estrelas alinhadas em céus nocturnos e se mexe com aparente descontracção nos corredores da sociabilidade.

Mentira, tudo isso. Não que a valide, há de facto um lado de mim que é exteriorizante e quer ver-se encontrado com outros exteriores diversos. Mas... seria necessário que todos os interlocutores fossem, também eles, algo de timidez escondida em extroversão, para que as sensibilidades se tornassem ajustáveis e comunicar constituísse, então, a grande festa alternativa para os sequestrados do lar. E eu?... Eu sou toda a palavra que urge por ser dita, mas sou também e talvez mais este silêncio dos que receiam a dor.

Bato à porta, peço licença de entrada neste mundo de intromissão, onde o meu temor de ser excesso em alguém - aquele ponto de saturação de todos os concentrados - acaba por me condicionar o prazer da aquisiçao.

Tenho o cuidado milenar dos penhascos a espreitar o abismo, naqueles exactos momentos em que de mim, incompreensivelmente, se esperam coragens de bodyjumping. Sou o exemplar às avessas do mundo em que se move.

E no entanto, lá estou. Antecipando a companhia da surpresa, essa incansável mensageira da novidade, de todos os não expectáveis aqui, dos surpreendíveis de lá.Entretém-me, este inventar-me a cada dia nos caminhos da história que é a minha, mas que igualmente me conduzem por outros, desejadamente profícuos e criativos.Porque eu não sou a realidade unívoca, desmontável em linha, classificável nas constantes da normalização. Eu, sou mais um de tantos mas diversos microuniversos de convicções suadas e de humanas contradições também, porque me movo nos terrenos da questão.

Porque é por aí mesmo que sempre quero caminhar, a descodificar mais troços de novo rumo. Nada é eternamente certo e reconhecível, assim tenho aprendido e nem sempre pelo método mais simples.


E é assim que sou feliz, exactamente por isso!
Depois, regressada de cogitações, lá dou por mim em meandros de procuras circulares: serão então as questões que, de tanto as perseguir, lavram em mim a incerteza de permanecer? De ansiar sempre mais pelo passo que vem depois?

Há lugares aonde sinto que pertenço. São poucos, mas estão por aí. Porquê, então, lamentar pelos outros onde não preconizo qualquer ideia de conforto?

Se eu visasse somente acomodar-me em qualquer e cada uma das aldeias concordantes, jamais avançaria desse seguro posto de controlo do futuro. Seria uma estaca inamovível no solo eleito das minhas vitórias. Provisórias, é certo, mas que no seu tempo de acção alargam o meu espaço de conhecido e o tornam sempre mais reconhecido.

Largo-me ao acaso, então, abandonando as zonas de conforto tão depressa as conquistei e espero – ou indago – por outras a desbravar na periferia do meu mundo conhecível.


Porque, para avançar na construção paciente da minha felicidade pessoal, eu tenho de arriscar, se pretendo conhecer. E conhecer é dar significância ao que antes nem sabia existir e no entanto completa e refaz a curiosidade de novas partidas, mesmo agora acabada de saciar.

E por tudo isto e o mais que fica por dizer, relativizo qualquer réstea de timidez ou dificuldade de interacção, que impositoriamente vivem comigo, até que o hábito por repetição acumulada suceda na empresa e acabe por me adaptar.
Preciso de conhecer mais, nas imediações possíveis do disponível para conhecimento, para poder o sorriso que quero na minha vida.
Ana Vassalo
04-06-2010 – 02:56H

Origem da Imagem: site da Revista "Construir Nordeste".

segunda-feira, 3 de maio de 2010

CRATO




António Zambujo, "Trago Alentejo na Voz"



(Já eu, trago Alentejo em mim...)



Crato



E então a noite chegava, no desencontro das estrelas, e eu sabia que ali morava uma parede de céu forrada de preto e prata, que sempre me consolara.

Ficava ali, nas minhas horas de esquecer, a ensaiar a fuga real que vivia nos meus sonhos. E os olhos fugiam a rasar a planície escondida de escuro, onde as estrelas ajudavam. Ajustava os binóculos, a desenhar a Lua perfeita, gigante e de branco, como a via na vontade. E em tamanha ambição, seguia pelo contraste para depois a desfocar, tornada em plano irreal, onde me apetecia entrar.

Naquela terra, sonhar era uma possibilidade presente, potencial nosso em formação pelo interior do silêncio.

Amanhecia. Rumar ao mosteiro era um presente matinal que me concedia. Instalava-me no Bar, vazio e imponente, catedral da paz no espírito mais desencontrado. Em fundo, Madredeus soavam, correndo arcadas, vitrais, rosáceas, a lembrar um encontro com os anjos, a pedido, de Segunda a Domingo.

Era feliz, entre a memória dos ritos, a altivez das colunas, e a música, a agarrar o passado num dia fora de tempo.

Vinha de lá, daquelas ruas caiadas de branco e estreiteza, canteiros suspensos e janelas pequenas, onde o bom gosto soletra a simplicidade, pórticos restaurados na pedra picada por artesãos aprendizes, de outros, ancestrais artistas da obrigação onde o talento vencia!

Vinha dali, de um lugar onde o sino repicava as cinco da tarde, do alto do campanário de uma igreja sem idade, entre o cemitério calado e a planície atrevida, registando proximidades. A lembrar como é real a união das almas no universo da ideia, seja na vida ou na morte.

Sei que o meu tempo ali se entendia. E estendia, para lá do relógio ensinado, e ganhava corpo e voava pela terra dos sentidos, elevando pelos céus uma outra vida que a memória genética parece já ter esquecido.

Apercebia, enfim, a imaginação como um poderoso alucinogéneo, capaz de criar horizontes fora de contexto logo que nos propomos lançar o olhar, despojados de pré-noções sobre o que deve ou não estar certo no seu devido lugar.

Não existe um lugar para as coisas da memória. Temos de ser nós arquitectos, de uma cidade de recantos por achar, inventores de mais céu no fim do mar, para que as asas batam luares e a vida seja, por fim, a viagem a cumprir do olhar insatisfeito.

Lá, o poente é uma tela impressionista, em que o azul perdeu a sua importância de céu.

Do alto de qualquer torre, escadaria de jardim, ou miradouro natural desavisado, a cor brinca com o olhar em tons difusos e dispersos, como crianças brincando um sonho que nunca havíamos sonhado, mas gravam no céu poesia que desprevenidamente carregávamos dentro de nós.

Porque o silêncio inspira as almas achadas no desencontro do ruído inexpressivo e é nele, silêncio maior, que a natureza se aplica a revelar o que de nós é essência. Somente no centro do nada que o desconhecido representa pode despontar aquele todo que somos nós antes de nos dispersarmos pelas avenidas do progresso.

Lá, onde o tempo não se mede, acorda um dia de horas plenas, que habitam dentro de nós.



Ana Vassalo
22-Abril-2010 – 22:35H

Posted: 2-Maio-2010

quarta-feira, 7 de abril de 2010

ACABARAM-SE AS CANÇÕES...



Sunrise at 30K Feet




acabaram-se as canções...


vivo na sombra dos dias
naquele buraco mais negro
das existências perdidas
que se arrastam pela vida
a cumprir um velho uso…

sou fogueira de um passado
onde a chuva ganhou espaço
e me afogou na paragem

agora…

sou pausa eterna de mim…
por mais que o sol das manhãs
se aventure pelas janelas
ferem-se os olhos na luz
que jamais deixei entrar

espreito as frestas de mil portas
que entreabri no silêncio
e nesses rastos cansados
que vislumbro pelas nesgas
num raiar desencontrado

respiro um pouco de sol
o tanto que me consinto
para rumar tão mais certa
escondida dentro de mim
à noite, que me entontece

sou a miragem esquecida
força detida no tempo
que se retrata nos becos
onde as horas se aconchegam
pra não terem de passar

e se um dia me acordar
de um certo rasgo de esperança
a tactear-me o encontro

certamente que estes olhos
ancorados na ausência
p’los passos da demissão
se hão-de esquecer do caminho
que sabe a luz nas veredas

não…

não é na sombra dos dias
neste avesso onde me agarro
que hei-de saber de voltar

de tanto me escurecer
sei lá se morri há muito
e me esqueci de notar…


Ana Vassalo

7-Abril-2010 – 13:06H

Origem das imagens: site Webshots

segunda-feira, 22 de março de 2010

BARCA DO TEMPO DE LONGE ...


























Lonely Ship

by


4Seasons





barca do tempo de longe…


eu queria… conhecer a fé perfeita
do lado avesso das flores
que esconde do sol temores
e em inocência se deita!
e queria… numa pátria do amor,
que um sabre de luz rompesse
e nos olhos já sem cor
janelas de brilho ardesse…

acho-me por aí, nos quintais
onde os sonhos se adormecem
- sementes do dia, vitais,
que pela noite se tecem…

e eu colho, e corro o mundo,
e volto no mar mais profundo
sem ponte nem cais de abrigo!
terra à vista, por lá sigo…
não me encontro na cidade
- é sempre velha a saudade
dos campos fartos de gente
que o silêncio não consente…

Lisboa de mim, que amei,
meu Tejo da ventania,
tanto verso em vós chorei
sem saber o que doía!
não, não creio ser desamor
o que de mim vos calou:
é que a paixão que queimou
morreu num grito de dor
que a espera desencantou!
e se hoje sou este peito
deserto de coração,
é que vos sonhei perfeitos
no bater da emoção,
mas…

sei que mais do que é previsto
vence o sangue que é mais quente!
por ti, cidade, persisto,
és mais estrada que o presente…
e o rio, esse meu rio, adiante,
sabe de mim o instante
em que o tormento já morre,
e vem…
tão certo de mim, ele corre
a levar-me contra o vento…
ao largo,
onde se agita, mirante,
a tal barca que é do tempo…

lá, onde as águas se abraçam,
eu sei de cada lugar,
fossos e grutas de encanto,
sereias, “meninas do mar”!
encontro-os em sonhos que passam
a lembrar cada recanto
deste velho navegar…

eu queria…
ser esse conto de fé
no livro que escreve a vida
a voar tudo o que é!



Ana Vassalo
22-03-2010 – 01:48H


Origem das Imagens: site RedBubble.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

NOTÍCIAS DO FUTURO

 
NO WALLS!, Ana Vassalo - digital drawing experiences :)


 
notícias do futuro

hoje não há acidentes
- li eu, no jornal sem letras…
apenas as velharias
de repetição já segura:
nada de terra, ou de cosmos,
nem rasgos de firmamento…
o irremediável vazio
habita no imprevisto

tudo antigo e bolorento
na vida posta em clausura,
os homens cumprem-se iguais
em rasura e indiferença,
levando o brio da nascente
às águas do esquecimento…

alinhados na parada
das apostas calculadas,
certos se acham na pista
das corridas que outros vencem
sem pontos de referência
na cega estrada do tempo…
sentimentos arquivados
na fila dos melhores dias
transbordam de pragmatismo…
vence a razão, de cadeira,
e o amor? não é oportuno!

sei que estou eterizada,
bêbeda de tantos anos,
vã de toda a surpresa,
morta, na semelhança…
sei que ao raiar da manhã
outra de mim, paciente,
repetida e linear
no caminho reinará,
sábia de muitos hábitos,
diligente na missão
de imitar integrações!

serei um ser engrenado,
elo perfeito em cadeia,
retrato na galeria
dos lugares preservados
ao sol da alienação…
serei gente que progride
no tempo de resignar
os sonhos que um dia ousaram!

mas hoje e agora, aqui estou
de olhar preso ao nevoeiro,
rompendo por um sentido
que valha o trabalho de ver
- amanhecendo vontades
no entardecer de um grito!

sou a essência evaporada
que um dia já teve griffe…
estou ancorada num instante
tão breve quanto a garrafa
que encerra os néctares de tudo
e bebo em menos de nada!

fui antes esboço de gente,
mulher da vida de alguém
- que de um sopro me matou!…
tive os homens que desbravei
e em mim morreram de véspera…
fui grito, sim, declarado
de um amor eterno… agora!

e eis que agora é andado
e o dia me bate à porta
neste peito que não sente
nunca mais o que é verdade…
estou de mansinho expectante,
aquietada em tantas breves
certezas do que já fui
e insisto em resgatar!

qual quê!…
sei que não há invenção…
o jornal não saiu hoje
por falta de letra impressa
nos tipos da novidade:
terra e cosmos estão inertes
nos seus movimentos perpétuos
de gerar uma equação…

só eu, disfarçada de sonhos
ainda creio a mudança
num amanhã de conquista
nas luas da maré viva!
pobre de mim… viajante
de insólitas fragas de abismo
suspensas sobre o futuro…
a vida nunca saltou
e o tempo não sabe a nada!
- mas o jornal diz que sim,
que há sabores na rotina…

aqui, de onde me escondo,
só há saídas da bruma
pela escada da mentira…

e o futuro? ri de nós?...


Ana Vassalo

24-08-2009 – 22:57H


Origem das Imagens: Ana Vassalo.

domingo, 30 de agosto de 2009

GOLPE DE ASA

Like A Seagull -- Song by Peter


Golpe de Asa


De sonhos a fazer dia
Nos vôos a que me entrego,
Olho-me nele utopia,
Logo nasce outro sossego:
Onde um anjo se passeia
E a vela acesa persiste,
E a floresta desenleia
Silvados de rosa triste…
E os homens entoam hinos
E se revêem meninos,
E a asa do medo se abre
A largar ventos de sabre,
Qual sopro de brisa quente
Guiada até à nascente:
Água-coragem que arrasta,
De um rio a buscar a fé,
Outras luas na maré
Em que o mau tempo se afasta

E se aconchegam os abraços,
O ombro empresta segredos,
As mãos se afagam de laços,
Os olhos de afectos chispam
E acalmam de riso os medos,
Que derrotados se avistam…
E as margens já se reúnem,
E os poderes não sucumbem,
O princípio segue liso,
A estrada tem paraísos
E a criança corre solta
Ruas da vida sem escolta!
E ser pai é ser mais gente,
Ser mãe, a fonte luzente
P’los dedos que agarram estrelas
Na luz que os olhos ateiam
E fulgindo se passeiam
A rejubilar de vê-las…

E num cantar de universos
Em glória, de amar alguém,
Ser nave que abraça o mar
E a viagem desenhar
Em planisférios de versos
De um poeta sempre além!
A dor já tem terapia,
O ódio morre a agonia,
A raiva fugiu de casa,
A ganância bateu asa,
E eis que o céu é pai gigante
Que guia o seu filho adiante:
Saudade na alma, apenas
A que em nós remove as penas,
As harpas dedilham ninfas
Que do peito a mágoa limpam
E o tempo adormece cedo
De um certo cansaço ledo!


Pois que esta sonata ecoe
Pela nota que destoa!
E o sonho se cumpra em frente
Sendo no outro semente
De vida a sulcar, bravia,
Os terrenos da alegria!
E o homem morra de pé,
Como que árvore secular,
De crescer em digno andar,
Doando tudo o que é!

E daqui desta tribuna
Onde vos lembro um amor,
Seja o meu mundo o cantor
E em poema os sonhos una!...

Ana Vassalo

04-Agosto-2009 – 15:46H
Posted 04-08-2009


Origem das imagens: site webshots.

O CABO DO TEMPO





O Cabo do Tempo


De volta ao cabo do tempo
- sei que está organizado
mas nele não me oriento –
há um mundo acelerado,
que me eteriza os sentidos
e suspende o pensamento.
E é nesse instante aturdido,
de quem se encontra perdido,
que me sento, que me oculto,
num reviver tão doído
que o peito se me arrebenta…
E penso nos outros, tantos,
pais do tempo em que me agito,
quando a palavra era um grito,
um lamento e até um basta,
mas jamais um frio tipo
largado sem arrepio
por folhas de prosa farta.

Eram os homens reais,
uns da luta, outros de abrigo,
e outros tantos de castigo
por cantarem ideais!
Mais ao norte desse tempo,
homens havia, literatos,
que por isso recriavam
de outros dias a palavra;
que não era um argumento,
nem estava em causa o talento
e assim mesmo, então crescia.
Não se moviam pela fama
- que da letra pouco clama
e da vida gasta o fôlego.
Traziam nos ombros arte,
elevada, p’ra seguir
e no Saber perseguir
do passado a sua parte.

Diziam-se então aprendizes
e como tal se entendiam;
e aos vindouros ofertavam
as águas que removiam;
vejo hoje tantos mares
que de saudade transbordam
e nestes tempos se acordam
para se afogar em bares…
onde nos refugiamos
e de acre malte inundamos
as respostas que não temos
nos livros que não abrimos.
‘Inda me hei-de achar um dia
- que agora não me conheço -
pelas horas desse norte
que o relógio não sabia,
e hei-de saber dos sinos
que regulavam os homens.

Tempo da igreja – diziam –
ignorantes, até escravos,
mas que de sê-lo sabiam…
É que hoje, somos libertos
de correntes e grilhetas;
mas neste presente omisso,
a fingir estamos despertos
- sem nunca ter acordado –
arrastando-nos, submissos,
pela vida, de estafetas.
Representamos a luz,
em velocidade contada,
somos linha dedicada
que, virtual, nos conduz;
somos éter viajante
e comunicamos p’los dedos
que, antes, só afagavam
ou demandavam segredos.

E a palavra, que era errante,
na incerteza fluía
e o que o homem produzia
tornava-o em soberano
- por duvidar que sabia…
Do cabo ao norte dos tempos,
vejo-me assim, solitária
sem saber o que é sentir
neste presente arrogante
que se arroga de devir!
Sei que as dores, antes dores,
hoje se calam de si
p’ra se tomarem de amores
de outros termos que aprendi.
E nada se reconhece,
as máscaras riem de nós,
tudo o que não é parece
quando nos olhamos, sós…

Era lágrima, hoje é gota,
só palavras… retocadas,
a fingir de outra cultura…
e a paixão é hoje a fúria,
o lamento foi lamúria,
riso à solta era risota.
São todas murmúrios secos
que na retórica escondem
o medo, que as denuncia.
Somos dos tempos ecos
que, afinal, nada respondem
ao que a morte prenuncia…
Queria eu, sem mais remendos,
dizer dos males que guardo
como são, como eu os sinto,
em vez de me aprisionar
neste velho labirinto
de que não sei regressar!...

E volto ao norte dos tempos,
lembro, neles, um saber…
mas permaneço ao relento
num vadiar sem prazer,
por este cabo atender.
Perdendo as horas de ensino,
que aproximam horizontes,
fecho os trilhos, ergo os muros,
a defender meus castelos
sitiados além-montes;
e porém, dias tão duros
- não fora eu, desatino… –
ao céu se recolheriam
e a buscar o sol iriam
p’ra poderem voltar belos…
Mas… já não oiço a poesia,
das terras de sonho, o apelo,
estou surda de fantasia!

Só sei de um tempo real
que, do bem, logrou o mal
e dele me contagia;
e avisto, bem perto, o dia
que arribará sem sinal
a mostrar que é só final!
Mas se algo sei, que aprendi
- seja o que for que assumi –
é que os tempos não se enjeitam,
não se escolhem, não se prendem:
somos nós, os que dependem
mas de firmeza se enfeitam,
quem dos tempos se arrepende
porque neles não se entende.
O nosso tempo não é
um relógio, um calendário,
ou prontuário da fé
num amanhã refractário…

É a vida, que não temos;
é um fenecer de pé
por, no fundo, percebermos
que no virar da maré
seremos só inventário…
E eu, que roubo os dias
das noites vistas do avesso,
só me encontro nesse olhar
que desisti de encontrar,
mas a vontade me guia
aos caminhos de regresso!...
Tanto medo despedido…
dá-me as costas, indiferente,
e retorna engrandecido!...
Tantas palavras reditas,
amargas, determinantes:
são gritos de dor, aflitas,
de mágoa invariantes.

Queria eu cantar o amor…
só sentir, sem ter razão:
foi-se-me a veia, o fulgor,
partiram com a ilusão!...
Perdi o norte ao dizer,
falta-me alma, para Ser!


Ana Vassalo
Junho-2000
Posted 04-Maio-2009

Origem das Imagens: Photobucket.