NETOS

NETOS

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

REMARKABLE PEOPLE



FERNANDO PESSOA

(Lisboa, 1888 - 1935, Lisboa)


"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


************
"I am nothing.
I will never be anything.
I cannot want to be anything.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."

or...

"I am not nothing.
I will never be nothing.
I cannot want to be nothing.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."


(Álvaro de Campos in "Tabacaria")




LISBOA - Chiado

LISBOA - Chiado
"Fernando Pessoa" by Lagoa Henriques. The place: "Café A Brasileira" (Brazilian Café) - 1905.

PLAYLIST TODAY




MUSIC IS THE PASSION REPORT



♥ ♥ ♥


PLAYING SOFTLY WHILE SOMEONE SANG THE BLUES



Saturday, Jul 22, 2017 - 17:57





SALVADOR SOBRAL - NEM EU [DORIVAL CAYMMI]



YouTube – "Salvador Sobral"





ANTONY HEGARTY + LEONARD COHEN - IF IT BE YOUR WILL [COHEN]



YouTube – "Oggmonster"





CHAN MARSHALL (CAT POWER) - I'VE BEEN LOVING YOU TOO LONG [OTIS REDDING]



YouTube – "anaruido"





JANIS JOPLIN - ME & BOBBY MCGEE [CHRIS CHRISTOPHERSON]



YouTube – "ThE DuCk"





JEFF BUCKLEY - LILAC WINE [JAMES SHELTON]



YouTube – " roberta panzeri"





DAVID BOWIE - WILD IS THE WIND [JOHNNY MATHIS]



YouTube – "Peter Music HD"







_____________________


LEANING INTO THE AFTERNOONS by PABLO NERUDA

«Inclinado en las Tardes»



YouTube - "FourSeasons Productions"






CHANGING BATTERIES - OSCAR WINNING ANIMATED SHORT FILM



YouTube - "Bzzz Day"





DIALA BRISLY - A BEAUTIFUL YOUNG LADY

(a huge thanks to my daughter who e-mailed this video to me)



BBC Newsnight

«Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman - artist Diala Brisly - who is trying to make life that little bit more bearable for Syria's kids.»

Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman -...

Publicado por BBC Newsnight em Domingo, 20 de Março de 2016






A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT

A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT



FLYING A SECRET



I got here to hide. From equations and patterns. From repetition, after all.
Closed the door and got me a special place where I thought I could
somehow sit close to the stars. But I soon found out that the sky was
still opaque, no matter what the steps. And so I left. Again.

I thought, then, I could build me a different ceiling, a new-coloured scrap
of highness. And then make it work. Where I could dream, more than I sleep.
I have long decided that sleeping is overrated - that I know for sure. So I
take that time instead to travel the night alone and in the meantime I allow
myself to fly, unlike stated before... Yes, I like playing with paradox, to
expose the inside of words and the revelation of writing down the voice of a
silence. My adventurous, ever-walking silence.

So I came back. Here, within this quiet world, I intend to gather all my
things usually kept hidden or inactive. They are here to speak.

And since the future is a stand-by secret, I want to live by a precocious
clock, at every running instant of every entering second.

And I will not slow down until my "future exists now" - kind of reverse
quoting Jacob Bronowski.


Ana Vassalo
in my site "CAFEÍNA"(former "No Flying Allowed")
Nov 11, 2010 - 11:54




THE WALK OF TIME

THE WALK OF TIME
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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

metáfora
































metáforas são código,
lugar de todos, que nos fecharam

a chave é tão universal
como o pensar da luz na sombra


e a porta...
é de mão própria, talvez incerta
ora se abre em clara vida às alamedas
ora se fecha num beco antigo descido à morte
 

Ana Vassalo
08-Jan-2013
in facebook too

domingo, 28 de outubro de 2012

HISTÓRIAS DO FUTURO DAS FLORES


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
não sei do que vem aí,
ou mesmo se há que saber
no pack de horas extra de uma vida.
sei q não tenho aqui a esperança
e os dias podem ser arrastados
como fardos de segundos.
havia antes uma certeza tácita
de que o corpo obrigado a movimento
mesmo que arrancado, involuntário, sacrificial,
saberia lembrar o passo de abertura
ainda que o sonho se sobrepusesse
a uma espécie de vigília demissionária...
e no entanto, de algum modo a memória vencia
e reensinava a tentativa,
erro e repetição,
mais um cigarro e o café e a teimosia
de continuar vivo a qualquer preço
porque há os dias que merecem!

Hoje, que somos mundo de pregão em hasta pública,
há um rasto de cansaços ganhando o chão:
no aeroporto, na tabacaria, no desemprego,
na planície, no comboio de todos os dias, no mar,
na mercearia, a escola, a montanha,
no cheque da reforma, no amargo comprimido,
na fila do combustível, a faculdade, o balcão,
na cantina social, no abrigo da ponte, no povoado,
na casa que é do banco até ao virar da vida... e da morte,
no sorriso amante,
no olhar da pele,
na poesia...
a descritiva da dor sem o pendente nem escriba,
somente o registo prático e a cópia virtual, em depósito
na Torre da Era do Tombo:
a morte instantemente anunciada,
o suicído de massas executivamente induzido.

diz que hoje não há palhaços
e ainda bem, digo eu
- nunca lhes ri a alma
de tão doída me parecer
- mas a dúvida persiste
e eu acho que se enganaram...

seja lá como for, reparei há pouco

que faltam hoje muitas coisas de continuar:
agora também não há lua
e a fé da noite sucumbiu
ao apagão solar sem aviso.
e damos por nós assim, apenas coisa interrompida
sem saber nome de luz, de calor...
e a união que um dia nos aqueceu,
seja lá solidariedade ou uma qualquer letra do Amor,
quebra, sem vergar,
ainda que essa força nos mostre que parece tão pouco
aquele tanto que se pode...

soam por fim os gritos,
surdos e presos nas fileiras do atraso.
e já morremos outrora, muito antes de acordar,
até chegarmos aqui, continuando,
lugar de hoje sem agenda
anotado à margem de futuros sem lugar,
sabendo quase nada desse nada que nos contempla:
pagamos sem haver
jejuamos sem poder
falimos sem gastar
e partimos sem voltar
certos de que morremos, por querer,
desertores e nus
do dia que já não merece.

e é só por isso, seja lá um pouco ou seja muito,
que me sento aqui como pedreiro,
martelando a palavra de amanhãs,
como pai e como mãe, como filhos, como avós,
honra e trabalho, coração, respeito,
que saibam de coisas de nome e de coisas de luz,
grandes, pequenas, de amor e combate,
de gentes, coragem e orgulho,
e um calor de flores no peito.

que a dignidade não verga nem quebra,
e o meu País também não!

Ana Vassalo
27-Outubro-2012 – 19:03

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

POR UM DIA







"Thin Air", Mark Heine, Canada




por um dia

fiz-me em cidade a termo certo
e sempre com olhos meios,
uma metade em abraço, já outra cortada em fuga
afrontando burocracias p’lo topo esquerdo do ombro
onde morava certa janela de Tejo preso à camisa.
mas demorei no cansaço por um eterno dia a mais.

inundei a minha casa de recantos
como quem parte do frio sem volta
resgatei-me de ribeiros e de sede
por um sketch de amor na vida filmada a lápis de sonhos
e acreditei as alturas rasgando o céu de futuros!
mas voei todas as cores por um incauto dia a mais.

de volta à rua antiga, de portas fechadas
vidros fumados e olhos meios
permiti nuns dias de alma e regresso
uma outra placa, um outro nome de endereço
para cartas de amor virado ao Tempo com vista para a verdade.
mas o relógio dormiu e a cidade não
e eu acordei no lado que não raiou ficar.
e ainda assim lá escrevera, por um único, arrastado dia a mais.

caminhei mais silêncios a madrugar
abortei eclipses na rota das estrelas
comprei o bilhete de volta com a moeda da sorte
que no anverso gravava os começos
e que eu guardava criança desde a origem do coração.
segui primeiro o baraço
retomei depois a funda pegada minha
de uns dias certos de sol que às vezes soubera acender

e dei por mim já em casa, de volta aos abrigos de guerra.
o cheiro doce da memória guardado em amores celebrados com moldura
e arcas velhas com tranca segurando a fuga dos encantos.
arejei a vida e rendi-me à saudade desse beijo
que assina a eternidade e queima no lábio a promessa.
mas foi casa... sucede que lá morei por um único, negligente dia a mais.

memorizei todos os trilhos
fiz-me à estrada da mudança
fixei-me Alentejo de sonhos
reincidi respirei reacendi
pousei a mala e a espada
e tomei a vila por fora dos olhos meios.

e vi poente o sol aceso
noite em luar lavado de escuridão
céu picotado de branco na luz que retorna ao peito
e encantamento tímido tacteando entre as ameias.
Madredeus no convento, bar, capitéis e gin tónico,
cantar dos anjos sitiando o ouvido, e tardes novas sem guarda,
um conforto milenar de sinos, roubando ao silêncio o eco da planície.
por um, e apenas um, inocente dia a mais.

então, sou hoje a cidade. de vez, a cidade. de uma certa vez que não arde.
e nos olhos que eram meios, passam em fuga lampejos
de uma escuridão em marcha.
cedo me farei noite:
vesti-me de continuar
por um, somente um, estático momento, esse indolor dia mais.

que vai longe um tempo outro
do nome teu que me gravei
a ferro e fogo, num lugar de adeus.
da letra o rito
na cerimónia do fim, sem paramentos.
e em gótico solene
a carta lavrada em poema exangue,
esse, sim, em que me despedi.

talvez sonhando-te apenas
quem sabe
numa paz certa e branca de pássaros,
estes meus olhos meios rasguem o inteiro do vento
e o andarilho que sou, fugitivo que me vence, neles se mire enfim
por um só, aventurado dia a menos...


Ana Vassalo
20-Fevereiro-2012 – 16:55

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

UM SORRISO NA ESTRADA




FLY HIGH, FREE BIRD
by
Robert Harmon

[Porque há pessoas que passam por nós e sentimos que não podemos deixar que permaneçam anónimas. Esta é uma homenagem a alguém muito especial que conheci e que gostava ficasse na memória de pelo menos alguns de nós.
E hoje, estaríamos a brindar... Cheers, Marco! Até já, Amiguinho.]








UM SORRISO NA ESTRADA

O Marco... Como recordar um pássaro de asa quebrada, perdido e cheio de frio, que continua a voar? De coração grande e frágil a bater fora do peito, para não ter de aterrar?

Trinta e dois anos de inocência, às vezes bem camuflada pela necessidade de manipulação, arma para a sobrevivência.

Um sorriso feliz de menino para a vida, a cada dia... Um som de assobio, e os cães em desatino, a festa a rebentar, o amor alegremente correspondido. E agora o sorriso mais largo, beijo e abraço, com o familiar “olá, mãe...”

– Não me chame mãe! Que coisa! O Marco tem mãe, então?... - e lá vinha a resposta em sorriso largo, primeiro de volta na ponta, já depois rendido à natureza ingénua.

Quase 3 natais em comum...

Vivia ali, por um qualquer lugar abandonado do Bairro 6 de Maio, até ser assaltado, sabe-se lá por quem em busca de quê. Com os vidros partidos e o indiferente frio de um inverno a rigor, há que procurar novo abrigo, e sai Venda Nova em sorte, um outro lugar perdido, cadeado na porta improvisada e... muitas histórias. Contos do polícia que é amigo e lhe vai protegendo a morada, do exército de aliados que consegue reunir em menos de um sopro para me defender, se necessário for. Seria?... Nunca me interessou: o que era para lá disso tudo, o coração perfeito e ingénuo chegava-me. Era criança, na verdade e na mentira.

Pais? Tinha, sim. Mas a história era inenarrável e ou muito me engano ou era verdadeira. De uma maneira ou de outra, resta para a realidade que fora expulso.

Às vezes, tinha prendas para me dar, e chegava-me a cantarolar, com livros, ou bolachas, um sumo... “Onde é que arranjou isso, Marco? Eu não quero nada, obrigada!”, “Ofereceram-me! É para si!”. Sempre desconfiei que de vez em quando iria a casa, talvez em busca de realojamento, e que o insucesso o faria trazer consigo umas coisas “emprestadas”. O Marco precisava de partilhar, precisava muito de dar o que não tinha, conseguido de mão estendida, à porta do Colombo. Educado e simpático, agarrava toda a gente e zás, conquistava!

Ao hospital levei-o umas quantas vezes, por causa das misturas – metadona e... recaída. Tudo somado, hematomas gigantes, feridas feias, pernas imobilizadas, canadianas, mas... Liberdade, que és minha, não me fujas!, e não parava em lado nenhum.

Ao fim de 2 anos de o massacrar, consegui: a reabilitação, por fim. Chega-me com o seu mais bonito sorriso, impecavelmente limpo, como sempre – até nisso era diferente – de eterna mochilinha às costas, e telemóvel em riste!

– Mãe! Agora vou mesmo! Já tenho telemóvel, deram-me! Vêm-me buscar amanhã. Dê-me aí o seu número, quero-lhe ligar todos os dias!

Gargalhada estrondosa, a minha, já se vê. Sabia que uma vez longe, teria muito mais em que pensar, certo e sabido. Mas lá trocámos os respectivos números e fomos beber o café do costume.

Depois, jantar lá em casa, para a despedida: hamburgers – que adorava – com arroz de ervilhas e cenoura, e batatas fritas de pacote, o sumo, café no fim. Existe algo de mais banal? Não creio. Mas no fim chorava sempre, abraçado a mim, por ter uma refeição quente e uma amiga, a única, segundo repetia (“só a tenho a si, não me pode abandonar, só a tenho a si...”). Taili e Bobby, esses, em desenfreado exercício de saltos e abano de cauda, entregues à mais insana alegria porque havia Marco no horizonte.

E lá foi, o Marco, no dia seguinte. Não telefonou, naturalmente. Conjecturei dias a fio sobre como estaria a dar-se com a dureza da recuperação. Passeava os cães e lembrava-me dele, porque era sempre essa a hora de o encontrar. Como seriam os companheiros? E os trabalhos, seriam muito duros? Aguentar-se-ia sem furar o esquema? Teria acesso à coisa, lá dentro?

Assobio... Cães em arranque alucinado, eu a reboque. É claro, o Marco tinha voltado. Ao fim de uns dias, já se vê... E com ele, também uma história, muito comprida, que deixei de ouvir lá por alturas do meio. Uma pergunta só: quando regressaria? No dia seguinte! Tinham-no deixado ficar um dia por cá e viriam buscá-lo no dia seguinte, já que voltavam a Lisboa. Pareceu-me razoável mas, por qualquer motivo desconhecido, o coração não acreditou. E ficou pequenino.

Mais umas duas semanas sem o encontrar e, de repente, lá estava. Mas agora de barba de muitos dias, ainda limpo, a face muito mais magra e... canadianas. Perdera a última morada. E precisava, de novo, que o levasse ao hospital. Zanguei-me, barafustei, chamei-lhe mentiroso. E levei-o ao hospital. Deixei-o à porta, assegurei-lhe o regresso de táxi e acenei-lhe, vinha-me embora. Olhou para mim, e expliquei-lhe: “não quero vê-lo morrer... e o Marco não faz nada para que isso não aconteça”.

-- Eu sou assim, eu sei, mas não consigo estar preso! Tive que me vir embora.
-- E o resto, Marco, como se resolve o resto?
-- Não sou capaz, sou fraco, eu sei...

Era esta a sua resposta, na maior candura, sempre que me zangava com ele...

Voltei a vê-lo, é claro, algumas vezes mais e sempre em acelerada degradação. Não conseguia afastar-me, por mais que tentasse...

E um dia dei por mim a pensar que há muito não via o Marco ... Talvez um mês, talvez menos, mas algo por aí - sempre me perdi no tempo. Melhor assim, pensei, não tenho de o ver partir, mais um, que ninguém pode ajudar...

Manhã clara e brilhante, mentirosa, de há dois meses. As meninas da loja ao lado a correr para mim e a perguntar em grande excitação se sabia se tinha sido ele ou não. “De quê?” - consegui por fim dizer, a pairar, gaguejando, e sem apanhar muito bem a conversa. “Não sabemos, mas o outro rapaz que costuma passar aí disse-nos, só não sabemos se foi ele ou o outro amigo que também costuma andar a pedir. Mas... educado, de mochila às costas e sempre muito limpo, deve ser ele... Pensámos que a senhora soubesse...”

Encostei-me à parede e cedi. Naquele momento eu soube que tinha sido ele. Não sei porquê, mas a certeza instalou-se. Corri para casa e iniciei uma ronda frenética de telefonemas pelos hospitais da área, cobri todas as hipóteses: pelo nome, pela idade, como sem-abrigo, como anónimo; com as recepções, com os gabinetes de polícia dos hospitais. Nada. Nem rasto. Mas eu não parava de chorar e isso dizia-me que tinha sido ele.

E o tempo foi passando, sem que o Marco me saísse do espírito, por um só dia. Há cerca de um mês, um outro jovem sem-abrigo com quem costumo falar confirmou. “Foi o Marquinho, sim. Com uma pneumonia. Foi ao hospital, ficou internado, mas fugiu e acabou por não resistir.”

Quase 3 natais em comum. De tupperware à porta de minha casa, antes de partir para a minha filha, a comermos rissóis e azevias para celebrar em conjunto, e depois lá ia ele, com o resto do repasto muito bem agarrado, assobiando, contente.

“Eu não consigo estar preso, Ana... Precisava, eu sei, para me curar... Mas não sou capaz, não sou mesmo, preciso do ar livre, de ser dono de mim...”

...

Porque ainda que as situações sejam idênticas, não somos todos iguais. Não é o que fazemos que nos define. É aquilo que SOMOS que nos diferencia.

Marco P. F. Anes, 1979 - 2011... Sorrindo a estrada, sem amanhã.


av.

posted on facebook 


14-01-2012 – 13:59
Imagem: Google.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

TALVEZ




























Talvez

(em aniversário de Natal)
 


talvez

talvez o sol fosse mais luz
se o acendesses ainda
como foi, como mo davas
e os teus grandes olhos líquidos
em mar de verde
amor e mel
fossem o cais como antes
como sempre
quando se riam nos meus

talvez

se o teu sorriso de manhãs frescas
pousasse ainda no meu olhar,
este meu que trago agarrado
e pinto de bâton velho
- estúpido e postiço
formatado riso de implante
como alumínio de janelas
- se lembrasse de ser alma
e as horas mais que ponteiros
no tempo de me saber
no passo que me interrompo

e esse meu olhar
tomado pela canção
que o teu então me dizia
soubesse cumprir os rios
que se extraviam da foz
e arrancar dos mares incertos
o sal que acerta uma vida
e noutros dias cantou

talvez

mas tu...
tu não estás aqui
meu amor
e por maior dor
como flagelo
olhas-me ainda como quem É
e assinas a vida
como pertença
num livro feito de ti
escrito de continuar
que sabe tudo de Ser

aqui
só o teu corpo deitado
sequestrado por vazios
que se perderam da ordem...
e mais esse olhar menino
no salto de corda a desprender caracóis
que nada sabe de muros
carcereiros da vontade...

esse olhar... que já foi guia
incansável de romeiro
salta e dança e resplandece
ainda
como estrelas na planície
que não lembras como tua
mas te enfeitava de mundo

aqui e agora
somente um frio branco de lençóis
nos dias teus por datar
que parecem lotados de natais
de ontem natais
no amanhã que não nasce
quase cinco
imensos infindáveis sufocantes natais
da tua ausência em presença

azevias p’la madrugada que já não tenho
porque a receita era a tua e a noite era também
e a imitação dói como um golpe
no escuro vago da cozinha
onde jesus eras tu, ao fogão,
a embrulhar prendas fritas
e o teu sorriso de Vida a espreitar a chaminé

aqui, neste quarto
mesmo ao lado da rotina
mora um silêncio de noites
que se propagam em dias
e deles se alimentam
para ser continuação
- silêncio da voz que eras tu
porque só eras tu-plenitude
no lamento que cantavas
como um nó que nos embarga
e nos desata no céu

não sabes nada do que não tens
- ao menos isso...
que não saber é o abrigo
breve nesga de luz ao fundo
que te guarda de seres noite

para ti
só cor de tecto
e janela à frente
como paisagem do mundo...
e no entanto
às vezes és romaria
que os teus olhos denunciam
e depois enchem de música
o silêncio que há nos meus

não sei crescer sem ti...
abraço que me escudava
do grito a morrer por dentro
ou essa mão de bondade
que era de mim o sinal
e arrancava das estrelas
pós de brilho que há na Vida
para me soprares de céu...

mas eis que o tempo é dos dias
e os dias são todos meus
e muito mais do que eu!
porque no fim que é das tardes
é por MIM
que o teu sono chama
mesmo que o nome em que me olhas
seja o que sempre foi TEU...

obrigada

Mãe...


Ana Vassalo

23-11-2011 – 23:32

Imagem: Google.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

"COLOMBO"



 

"Colombo"

 
Há espaço largo e vazio

e o ruído como fonte

Na alma o selo da fuga

a cada bolso farto de nada

Agora a esperança
em meteoro

correndo alegre nos meus olhos

que sempre se alargam
ali

soltos no mármore em festa

E a aposta ganha de ver depois

a imagem de ninguém...

Saí há pouco do percurso

tão belo que me aquece a noite

e sento-me aqui

conferindo rostos em vida

que se ignoram mutuamente

Fogem olhares

com o tempo de quem esgota as romarias

para esquecer que não há tempo...

E afinal

a esperança que se demora

rindo a sedução de um beijo

que surpreendo à saída...


Ana Vassalo
29-Set-2011 – 21:50

Imagem: "Just a kiss" (Google.cz)

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

ESTRADA
























"Endless Road"









estrada


fui eu

quem inventou a flor e a árvore

nas alamedas tão nuas

que me eram cruas de invernos

eu

que expurguei a lágrima vã

de todo o sal que era a dor

e com ele me fiz mar


fui eu

quem arrancou novos futuros

da lâmina cortante dos dias

feitos somente de frio

eu

que construi cidades

no corpo de cada derrota

aprendida de rompante


fui eu

a lança cega e sem freio

que rasgou céus cheios de nada

e sangrou novas auroras a cada gota perdida


que ensaio danças na vida

com passos de a cortejar

e abandono sem descanso

a paz sacra das ausências

dos ermos silêncios da alma

e amores sossegados na penumbra

da rotina presa ao chão


eu

que visto asas de guerreira

e corto todas as fronteiras

rumo ao céu que me pertence


e sou eu

que me esquecia de mim

tornada em resto de quase sombra

quem hoje se ergue e agita,

a cada golpe de tempo

na manhã indecisa do outono que nos para,

o dia claro da esperança

que não sabe a rendição


sou feita de caminhar

tenho um nome e sou mais rua

na estrada que é por saber

mas responde ao som da Vida.


Ana Vassalo
27-09-2011 – 21:51

Origem da Imagem: Google.sz.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

DORME SEARA, DORME...


"Cornfield Sunset", unknown author.



Dorme Seara, Dorme...


Talvez eu seja apenas o pão, sem o mel das manhãs
ganhas. O restolho na deriva de um estio por
acabar.
Talvez eu durma de véspera os sonhos que me
esqueci de apontar, ou seja a fuga planeada de cada
momento sem sal.
Ou talvez um dia, os barcos no fim do mar se reunam
pela paz e assinem mais horizonte.
Sei donde venho.
Sou daqui, deste lado do amanhã que tem pressa de
ser ontem.
Saio ao render das horas, quando o sol agita os
dias na linha da alvorada.
Volto depois, sento-me aqui, no entardecer dos
sinos, em busca de mais planície. O olhar estende-se
largo, o mundo ganha contorno - o mais das vezes
sem foco.
Atrás de mim, a velha e suave igreja persiste em
clausura, portas do fim mesmo ao lado.
Não há preces. Somente o silvo brando dos segredos.
E o silêncio sopra um conto milenar, guardado na
caixa das horas, rasgado ao bater das cinco.
Viajo o céu, aguarela em marcha num traço de chuva
em branco, que há-de ser água de encontros. E eu
vou com o despontar das noites.
Sou eu a noite. E trago velas, meia-luz da descoberta
no prazer de andar mais Vida. Talvez chegue, ou
talvez desça na paragem dos encantos.
Talvez eu seja paisagem, cansada de morrer
fotografia. Ou talvez não, e cresça eu regaço dos
montes, exaustos de escalar céu ou despenhar
erosões.
Guardo o olhar, alagado de fantasia. Com um desvelo
de pássaro, arrumo a cidade inteira num bolso cosido
ao peito, onde voar é saudade do que ainda não
chegou. Há futuros, no meu bolso.
Por ora, sou o andar de prospecção, arqueóloga dos
dias.
E talvez, apenas talvez, na persistência das ladeiras,
no banho frio da nascente que é solidão das geadas,
no atrito da gravilha que rouba caminho andado, a
noite se aprenda dia num poema escrito a sol.
E então serei o trigo. E então chegarei hoje.
...

E só depois, existe um princípio nas searas. E os sonhos
cumprem estação. Os barcos sabem o cais. E o dia já se
adormece, no intervalo das gaivotas.


Ana Vassalo
06-05-2011 - 00:15

Origem das imagens: "Cornfield Sunset", "thedailygreen.com".



domingo, 20 de fevereiro de 2011

DO TEMPO QUE DESAPRENDI...




Françoise Hardy, caminhando o Tempo.






[Exclusivamente escrito com os amigos em mente (onde se inclui
a minha extensa e querida família), reais ou virtuais, que, tal
como eu, sabem muito bem quem são, com mais ou menos

distância, presença ou "discordâncias" passageiras.

A transparência é um "asset" que, neste caso, será apreciado e

praticado pelas partes. Tal como disse, vou, mas volto um dia

destes, menos cansada, esperançosamente reformulada.]





Do Tempo que Desaprendi...


O Tempo não conhece a piedade, a compaixão, o "chá". O Tempo

segue, numa indiferença total que não perdoaríamos a nenhum

humano. Às vezes quero pará-lo, a reter um momento de sabor.

Outras, empurro-o de aflição, por uma aberta para respirar.

Julgamos saber o que somos, ou fomos, temos uma ideia muito
aproximada do que ainda queremos ser, mas o Tempo...

comanda.



Recentemente, recordei Françoise Hardy, "menina" de doce

encanto e mítica elegância, que passeava a voz da serenidade

como sua e escrevia poemas para canções à margem de qualquer

crítica, por mais exigente que se apresentasse a origem. E bela,

ainda por cima, de um bom gosto a toda a prova. Lembro-me da

sua tentativa de suicídio, das notícias que davam conta da sua

extrema magreza, levantando questões que hoje se prendem

com a anorexia. Vivíamos um Portugal solitário, entre outras

coisas que me escuso agora de invocar, e as notícias, as meninas

da minha idade iam buscá-las ao "Salut les Copains" e mais

raramente ao "Jours de France". Não era por acaso: o Francês

era obrigatório desde o 1º ano do Liceu, e uma coisa levava à

outra.



Nesta minha incursão ou revisitação por tais paragens do tempo,

com saudade genuína e legítima - quero lá saber do que se

engendra por aí sobre a saudade, se ela existe, cresce e caminha

por entre e dentro de nós - dei um pulinho a Brel, para sempre

encantada pela genialidade da sua dor, bati à porta de

Brassens, Moustaki, Réggiani e Ferré, e depois pensei:

porque me falta sempre uma mulher nestas minhas

preferências? E claro que, na memória sem

aviso, surgiu de imediato a figura de Hardy. Nestas minhas

deambulações, lembro-me de ter reconfirmado não serem os

temas mais óbvios, de sucesso eterno, os que me encantam, mas

os outros, talvez mais privados, suavemente intimistas, como

"L'amitié" ou "Fais-moi une place", este último verdadeiramente
insuperável, para mim.



O YouTube tem essa característica especial de nos devolver o

Tempo, um certo tempo a contento, da música que soubémos

viver na romagem. Procurei, por entre o encantamento, e lá fui
encontrando diversas prestações, para os mesmos temas, da

minha (e de tantos outros) companheira antiga de momentos

especiais. Foi então que a encontrei, por lá, no Tempo que é hoje,

ou quase hoje - irrelevante... Ainda bela, a voz plena e suave de

sempre, mas fatalmente cheia de Tempo. Cada ruga, cada marca

no seu rosto, aquietado mas dorido, fala do que o Tempo esconde

mas não apaga.



Sonhar, algo a que nos referimos ligeiramente, todos os dias do

Tempo, aqui, e ali, no café, no blogue, na rede, em casa dos

amigos, mas que é muito mais do que uma citação autorizada

pelo génio que escolhemos para dentro das nossas aspas.O sonho
comporta passos de uma vida que talvez nunca venham a ser

caminhados, mas que no momento em que o aventuramos se

acredita como parte dela, dessa vida não andada, ainda, que nos

acena com um saco a abarrotar de promessas. Sonho é a fé da
possibilidade, que inventámos e inventariámos no livro do Deve

e Haver do Tempo. Somos marcha, sempre adiante, marcha

audaz e planetária, no mundo de acreditar.Chamamos-lhe sonho,

como se o pesadelo não ousasse sequer o nome.



E um dia, Tempo andado, cumprido, desalvorado ou prisioneiro,

feliz por momentos, perdido na eternidade, damos por nós assim,

a mentir alegrias que não soubémos. A inventar a felicidade, na

máscara que passeamos no dia a dia da insensibilidade, também

ela travestida de scraps de vida e sabedoria. Porque há que

sobreviver o naufrágio das ideias, a morte da criatividade para a

vida, a subtil passagem do Tempo, obscenamente indiferente,

pelos nossos sonhos.



Num mundo em que ser hipocritamente realizado é chancela de

sucesso garantido, que fabrica heróis desprovidos de neurónios

actuantes mas emissários do discurso aprovado, ser genuíno

quanto a frustrações e passo perdido é registo proibido, sob pena

do Senhor das Categorias, que organiza o sacrossanto "mundo

dos sucessos" de hoje, nos estampar na testa a palavra proibida

- e para sempre nos definir.



Mas, pergunto eu, interessada: o que conta mais, realmente,

uma vez no fim da estrada? As vitórias por fora de nós ou os

sonhos abandonados em favor delas? Ainda não encontrei a

resposta. Continuo, empenhada e esperançosa, a tentar

acreditar e comprovar na prática que a asserção, supostamente

límpida, da máxima "A vida é bela" será sinónimo do sim à

primeira hipótese, mas... não consigo despedir essa ideia

impertinente e impositória de que tudo o que se passa por fora

de nós tem essa particularidade exacta, a de não nos pertencer

jamais, ainda que o nosso sangue esteja lá, na luta insana que
combatemos para o conseguir.



O meu Tempo é todo aquele em que estou. Certo.



Mas este, este é aquele que me lembra que o saldo é decrescente

e tem pressa. Eu, tenho pressa: de ser o meu Tempo inteiro.



E quando a oiço, agora e de novo, do longe dos meus sonhos

efabulados de menina - dos quais cumpri a maioria, pois foi, e

então? - entoando "Fais-moi une Place", não consigo evitar

interrogar-me: onde está ele, o meu lugar? Será que é uma
inevitabilidade humana quem muito procura tardar em achar?

Talvez. Como vou saber? Só tenho este Tempo aqui, a jusante

das respostas.



E com ele caminho. Um dia, bastará - talvez. Por ora, preciso de

mais do que rugas e fronte grisalha - inevitavelmente escondida

- para me cumprir. Dele, do Tempo, quero os dias de claridade,

que acontecem pelo Sol que sei ter sido capaz de acender na

maioria das madrugadas.



Quero o saldo, positivo.



Retiro-me agora, em silêncio, a rever os livros há muito fechados,

de uma contabilidade inexacta. Quando voltar, tudo estará certo

de novo, inequivocamente exacto, porque do Tempo (des)aprendi

eu o essencial: por mais cruel que se apresente, não se toca, não

se arrepende, será sempre assumidamente inconveniente.



Saudade? Tenho sim, e muita: da "Tentação da Inocência", que

ele, Tempo sem referências, nos vai retirando sem, ao menos, a
dignidade de um pré-aviso.



"Fais-moi une place dans tes urgences..."



Falta-me um marcador... É isso, uma agenda e um marcador!



Alguém tem por aí um bloquinho de post-it's?





Ana Vassalo
in facebook notes
20-02-2011 - 00:08



Origem das Imagens:

Young Françoise - Blog "Poliglotanalfabeto" (blogspot.com)

Françoise Today - Site "All-over-the-world.com/Françoise Hardy".

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

QUATRO SILÊNCIOS DE MIM


[Porque este é o meu poema de sempre, aquele por que tenho mais carinho, e

anda tão arredado do tempo, lá para os confins do 'blog', recupero-o para aqui,

para este hoje mais feliz que aprendeu o passo calmo e o sorriso, ainda que a

estrada seja mais solitária agora. É "frondosa", não muito larga, de curvas

sinuosas, mas caminha sem complexos, sempre adiante, conhecendo algumas

certezas do ponto de chegada, que é tanto mais belo e acolhedor quanto

melhor nele me souber cumprir. E cada árvore, altiva, íntima do céu que

consegue tocar, projecta sombras na noite, que intimidam e desafiam a um

tempo, mas que jamais deixarei de trilhar. Como aquela, estrada de boa

memória, que num tempo diferente e único da vida, venci todos os dias,

entre Portalegre e Crato. Quem a conhece, sabe que a "noite" sem mistério

não se cumpre inteiramente.]




Quatro Silêncios de Mim

Por quatro estradas eu fui
procurando o conhecer
e quatro janelas se abriram
a fingir o renascer.
Por quatro mares vaguei
sem ter onde aportar,
foram quatro, tantas portas
que no silêncio fechei.

Quatro miragens eu tive
julgando que revivia,
quatro, também, os cansaços
na vida que perseguia
e a seguir quatro sorrisos
p’ra com ela me encantar
de quatro maneiras diferentes,
ainda por inventar.

Foram quatro, quatro quedas
de um andaime por cumprir,
quatro vertigens no vácuo
por não ter onde cair;
desistência acelerada
por quatro rodas fatais,
num querer voltar sem ter asas,
em quatro vôos finais.

E quatro foram as lágrimas,
milhões de quatro, a sorrir,
bocas cansadas de água
de em quatro fontes beber
e, a temperar tanta mágoa,
quatro sais de resistir.
Foram quatro mil eventos
todos gastos, nos intentos…

Quatro estacas, quatro espinhos,
todos ferem, muitas matam
e das dores que resgatam
fica o detalhe mesquinho
em quatro memórias feridas,
à força de repetidas,
na celebrada insistência
de quatro escolhas perdidas!

Quatro por nada, uma vida,
que a viver não se contenta…

Ana Vassalo

1999

Posted 13-03-2009


Origem das Imagens: Glimboo.com

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

CAMINHAR...






"Walking in the Sand" by Jennifer Robbins-Mullin



(Gosto de pensar que há grande sabedoria nas formulações da monástica medieval:

o monge, asceta, privado de todo o supérfluo terreno, vive em total recolhimento,

em meditação e pobreza, buscando o sentido e a verdade da existência. "NASCER


É PARTIR, CAMINHAR É VIVER E MORRER É CHEGAR", assim medita e escreve,

nos "scriptoria" do mosteiro, então lugar exclusivo de produção e difusão da cultura.)




CAMINHAR...


Às vezes, só às vezes, por um breve segundo interrompido nas horas repetidas que

nos cercam, surpreendemo-nos pequenos, num despojo de fim de dia que reconhece

o sentido nas razões do caminhar. E a essência que era oculta perde a força de

segredo. E surge, brilho ante nós, cristal nu da eternidade, mesmo ali, desse longe

enfim chegado, a cada sopro de brisa, cada árvore milenar, de uma asa levantada ao

desbragado luar, a cada montanha altiva com picos feitos de céu, e o que mais nos

acompanha, passagem que somos, já breve...



Paramos então a pressa, na ânsia de receber o que antes nem nos tocou, e respiramos

completos a coragem de ser vida: na verdade já esquecida de um beijo que não tem

data, do passo a saber o ritmo que dança de fantasia, do sol tão bravo de si que nos

fustiga de luz e larga por fim a lágrima que chora um olhar feliz... na explosão de cor

em festa no jardim grato da infância - que já crescemos, sim, mas nunca partiu de vez

- do som heróico da banda na alegria da parada, as ameias defensivas a ruir na emoção,

ou gritos em gargalhada nessa praia tão antiga que dividimos pelos anos com amigos de

ombro eterno... da festa de verão tardio na terra a saber a pátria, da fartura quente e

doce em açúcar amarelo, do baile feliz de aldeia que à idade não contempla, do lapso de

idade na mente, assim tão lúcida, que rouba sem hesitar o possível que há no sonho...

do sino que bate o tempo pelo eco do silêncio, ou a ribeira em desassombro a correr

novas demandas ao murmúrio dos pinheiros, do livro em branco rescrito pela cor certa

da memória... E um calor de mãos unidas à beira-mar do amor!...



Às vezes, só às vezes, somos enormes de vida!... E percebemos, então, que o tempo

sabe de nós as respostas por viver.



Ana Vassalo
19-10-2010 -23:59

Origem das Imagens: site "Antithesis Common.com".

sexta-feira, 4 de junho de 2010

VIRTUALMENTE INCOMPETENTE!



 

Virtualmente incompetente!

Não sei porque me procuro nas esquinas, no revés de todas as rectas. Ou o que faço aqui, nesta suposta ronda de amigos, onde a matéria é incorpórea e os sentimentos nos chegam por éter. Seguramente terá muito q ver com aquele meu escuso lado aventureiro, uma sede antiga de conceber impossibilidades.

Tenho esta espécie de traço genético em mim, que larga o riso com gosto e navega na gargalhada de outros, que exibe a naturalidade de todas as estrelas alinhadas em céus nocturnos e se mexe com aparente descontracção nos corredores da sociabilidade.

Mentira, tudo isso. Não que a valide, há de facto um lado de mim que é exteriorizante e quer ver-se encontrado com outros exteriores diversos. Mas... seria necessário que todos os interlocutores fossem, também eles, algo de timidez escondida em extroversão, para que as sensibilidades se tornassem ajustáveis e comunicar constituísse, então, a grande festa alternativa para os sequestrados do lar. E eu?... Eu sou toda a palavra que urge por ser dita, mas sou também e talvez mais este silêncio dos que receiam a dor.

Bato à porta, peço licença de entrada neste mundo de intromissão, onde o meu temor de ser excesso em alguém - aquele ponto de saturação de todos os concentrados - acaba por me condicionar o prazer da aquisiçao.

Tenho o cuidado milenar dos penhascos a espreitar o abismo, naqueles exactos momentos em que de mim, incompreensivelmente, se esperam coragens de bodyjumping. Sou o exemplar às avessas do mundo em que se move.

E no entanto, lá estou. Antecipando a companhia da surpresa, essa incansável mensageira da novidade, de todos os não expectáveis aqui, dos surpreendíveis de lá.Entretém-me, este inventar-me a cada dia nos caminhos da história que é a minha, mas que igualmente me conduzem por outros, desejadamente profícuos e criativos.Porque eu não sou a realidade unívoca, desmontável em linha, classificável nas constantes da normalização. Eu, sou mais um de tantos mas diversos microuniversos de convicções suadas e de humanas contradições também, porque me movo nos terrenos da questão.

Porque é por aí mesmo que sempre quero caminhar, a descodificar mais troços de novo rumo. Nada é eternamente certo e reconhecível, assim tenho aprendido e nem sempre pelo método mais simples.


E é assim que sou feliz, exactamente por isso!
Depois, regressada de cogitações, lá dou por mim em meandros de procuras circulares: serão então as questões que, de tanto as perseguir, lavram em mim a incerteza de permanecer? De ansiar sempre mais pelo passo que vem depois?

Há lugares aonde sinto que pertenço. São poucos, mas estão por aí. Porquê, então, lamentar pelos outros onde não preconizo qualquer ideia de conforto?

Se eu visasse somente acomodar-me em qualquer e cada uma das aldeias concordantes, jamais avançaria desse seguro posto de controlo do futuro. Seria uma estaca inamovível no solo eleito das minhas vitórias. Provisórias, é certo, mas que no seu tempo de acção alargam o meu espaço de conhecido e o tornam sempre mais reconhecido.

Largo-me ao acaso, então, abandonando as zonas de conforto tão depressa as conquistei e espero – ou indago – por outras a desbravar na periferia do meu mundo conhecível.


Porque, para avançar na construção paciente da minha felicidade pessoal, eu tenho de arriscar, se pretendo conhecer. E conhecer é dar significância ao que antes nem sabia existir e no entanto completa e refaz a curiosidade de novas partidas, mesmo agora acabada de saciar.

E por tudo isto e o mais que fica por dizer, relativizo qualquer réstea de timidez ou dificuldade de interacção, que impositoriamente vivem comigo, até que o hábito por repetição acumulada suceda na empresa e acabe por me adaptar.
Preciso de conhecer mais, nas imediações possíveis do disponível para conhecimento, para poder o sorriso que quero na minha vida.
Ana Vassalo
04-06-2010 – 02:56H

Origem da Imagem: site da Revista "Construir Nordeste".

quarta-feira, 7 de abril de 2010

ACABARAM-SE AS CANÇÕES...



Sunrise at 30K Feet




acabaram-se as canções...


vivo na sombra dos dias
naquele buraco mais negro
das existências perdidas
que se arrastam pela vida
a cumprir um velho uso…

sou fogueira de um passado
onde a chuva ganhou espaço
e me afogou na paragem

agora…

sou pausa eterna de mim…
por mais que o sol das manhãs
se aventure pelas janelas
ferem-se os olhos na luz
que jamais deixei entrar

espreito as frestas de mil portas
que entreabri no silêncio
e nesses rastos cansados
que vislumbro pelas nesgas
num raiar desencontrado

respiro um pouco de sol
o tanto que me consinto
para rumar tão mais certa
escondida dentro de mim
à noite, que me entontece

sou a miragem esquecida
força detida no tempo
que se retrata nos becos
onde as horas se aconchegam
pra não terem de passar

e se um dia me acordar
de um certo rasgo de esperança
a tactear-me o encontro

certamente que estes olhos
ancorados na ausência
p’los passos da demissão
se hão-de esquecer do caminho
que sabe a luz nas veredas

não…

não é na sombra dos dias
neste avesso onde me agarro
que hei-de saber de voltar

de tanto me escurecer
sei lá se morri há muito
e me esqueci de notar…


Ana Vassalo

7-Abril-2010 – 13:06H

Origem das imagens: site Webshots

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

NO LADO CERTO DO ESPELHO...

 








René Magritte,

Portrait d'Edward James


















 No Lado Certo do Espelho…

Sorrias um olhar manso, em trechos breves de ternura

P’la brisa morna em brancas tardes de ausência,
Onde eu retratava acertos de paz
Numa quietude de risos desprendidos
Que soltavas em demanda por mundos calados…
E eu, prisioneira de ti, assim,
Eu viajava planetas, na palavra sugerida nos teus lábios…
Eras… eras paisagem e desassossego…
Um toque de distraído requinte
No andar despojado de quem peleja universos
Sem nunca despir o casaco.
Eu… Eu partia, aqui e ali, pelo roteiro vago
Dessa cidade escondida,
Ás vezes, tantas vezes, minha aliada…

Desbravei terras perdidas no mapa
Por caminhos de terra solta e respeitáveis fragas
Que tu me apontavas em dias de descoberta,
Progredindo no mato
A cortes de catana e rastejar de grutas
Onde antigos medos, de uma escuridão de muros
Que a minha mão tremia, logo se apaziguavam
No ombro que me estendias.

Eram uns dias de amores, abraçados e doídos,
Perdidos pela literal floresta que os dias verdejava,
Conquistando respostas nas perguntas do tempo…
Historiando arqueologias, no cansaço doce
Das tardes alentejanas…

Fomos rocha, um do outro, mensageiros de uma entrega
Desmedida nas causas, no sonho, em amor…
Fomos passado em revista na construção do futuro,
Equipa e semente nos terrenos da partilha
E ancorámos em versos no porto da nossa diferença.
Palmilhámos muito rumo
Onde o olhar se esquecia das horas que o tempo tem
Vadiando pelos cantos
Que o cheiro da terra nova
E a luz presa dos vitrais
Gravavam na tela em branco do nosso espanto em passeio!...

Eram uns dias de apego, vitais de sonhos lunares,
Um silêncio catedral onde as almas reuniam.
E o final de um dia entregue ao respirar de uma vida
Sabia a coisas de mel
Nos sonhos que adormeciam…



Calou-se o teu piano para mim.
Chopin e Elis fechados nos teus dedos
Não mais soaram Olimpos e… o que restou
Foi um silêncio de pausas demoradas…

Calou-se o tempo.

Ficou por lá, meu amor, num sorriso que é andado…


--------

18 anos de caminho e  partilha, carregados de sombras. Que apaguei um dia, no momento mais que certo. Finalmente, 12 anos depois, é chegado o momento de acolher a paz: a minha.
Assunto encerrado.


Ana Vassalo
03-10-2009 - 13:10