NETOS

NETOS

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

REMARKABLE PEOPLE



FERNANDO PESSOA

(Lisboa, 1888 - 1935, Lisboa)


"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


************
"I am nothing.
I will never be anything.
I cannot want to be anything.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."

or...

"I am not nothing.
I will never be nothing.
I cannot want to be nothing.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."


(Álvaro de Campos in "Tabacaria")




LISBOA - Chiado

LISBOA - Chiado
"Fernando Pessoa" by Lagoa Henriques. The place: "Café A Brasileira" (Brazilian Café) - 1905.

PLAYLIST TODAY




MUSIC IS THE PASSION REPORT



♥ ♥ ♥


PLAYING SOFTLY WHILE SOMEONE SANG THE BLUES



Saturday, Jul 22, 2017 - 17:57





SALVADOR SOBRAL - NEM EU [DORIVAL CAYMMI]



YouTube – "Salvador Sobral"





ANTONY HEGARTY + LEONARD COHEN - IF IT BE YOUR WILL [COHEN]



YouTube – "Oggmonster"





CHAN MARSHALL (CAT POWER) - I'VE BEEN LOVING YOU TOO LONG [OTIS REDDING]



YouTube – "anaruido"





JANIS JOPLIN - ME & BOBBY MCGEE [CHRIS CHRISTOPHERSON]



YouTube – "ThE DuCk"





JEFF BUCKLEY - LILAC WINE [JAMES SHELTON]



YouTube – " roberta panzeri"





DAVID BOWIE - WILD IS THE WIND [JOHNNY MATHIS]



YouTube – "Peter Music HD"







_____________________


LEANING INTO THE AFTERNOONS by PABLO NERUDA

«Inclinado en las Tardes»



YouTube - "FourSeasons Productions"






CHANGING BATTERIES - OSCAR WINNING ANIMATED SHORT FILM



YouTube - "Bzzz Day"





DIALA BRISLY - A BEAUTIFUL YOUNG LADY

(a huge thanks to my daughter who e-mailed this video to me)



BBC Newsnight

«Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman - artist Diala Brisly - who is trying to make life that little bit more bearable for Syria's kids.»

Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman -...

Publicado por BBC Newsnight em Domingo, 20 de Março de 2016






A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT

A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT



FLYING A SECRET



I got here to hide. From equations and patterns. From repetition, after all.
Closed the door and got me a special place where I thought I could
somehow sit close to the stars. But I soon found out that the sky was
still opaque, no matter what the steps. And so I left. Again.

I thought, then, I could build me a different ceiling, a new-coloured scrap
of highness. And then make it work. Where I could dream, more than I sleep.
I have long decided that sleeping is overrated - that I know for sure. So I
take that time instead to travel the night alone and in the meantime I allow
myself to fly, unlike stated before... Yes, I like playing with paradox, to
expose the inside of words and the revelation of writing down the voice of a
silence. My adventurous, ever-walking silence.

So I came back. Here, within this quiet world, I intend to gather all my
things usually kept hidden or inactive. They are here to speak.

And since the future is a stand-by secret, I want to live by a precocious
clock, at every running instant of every entering second.

And I will not slow down until my "future exists now" - kind of reverse
quoting Jacob Bronowski.


Ana Vassalo
in my site "CAFEÍNA"(former "No Flying Allowed")
Nov 11, 2010 - 11:54




THE WALK OF TIME

THE WALK OF TIME
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domingo, 16 de dezembro de 2012

casa de lua



entrei a noite
aqui
pela porta mais estreita
do medo
sigo tempo em formação
agora
num desvio de curso certo
ergo os braços
escada ao infinito
o breve
espectro de alcance
ruído do coração
em marcha
fantasma da pele
em contacto
a chama
do corpo tornado mais leve
o golpe terno
a enseada
o sono dos inocentes
orvalho pela manhã
e sou o dia
movimento
edifício e lugar mais perto
da lonjura
acalmo os instantes
de sede
o sonho
na estrada mais escura
sem rosto
de histórias antigas
nascendo à lareira
as sombras como guia
na memória
o vinho
a flor
cigarros trocados
a espera
o beijo
depois cerco e tomada
palácio de estrela
o céu do olhar
e a coragem
na encruzilhada
o anúncio da noite aberta
o teu caminho
no chão da viagem
e eu
caminho teu
e barca
e rio no mar
horizonte
eu em perfeito total
agarrando a casa
dessa lua toda cheia
que um dia roubaste para mim

e lembro então
que sou vida quando és
sou o lugar
de quando estás
foste sempre tu
a palavra de mim
primordial
solta pelos ventos
o rumo aberto
universo em mãos
asa e saudade
tu...

na noite que se aconchega
sou o abraço teu de muitas idades
e a música passa
baixinho
no intervalo de nós
fechando o espaço das horas

Ana Vassalo
16-Dec-2012 – 00:42


terça-feira, 11 de dezembro de 2012

FELIZ ANIVERSÁRIO, PAI!

  
Parabéns, meu Pai viajante!
Agradeço-te todas as naus e todo este amor que aprendi pelo mar: os meus amigos de infância, que me faziam mais perto o teu amor. Os álbuns que me traziam mais Terra, com gentes de outros falares e de muitos outros mares de alma. O Tejo em Lisboa, que às vezes me deixava visitar os barcos onde me esperavas, e me ensinaram esta saudade de partir, de ser viagem para sempre. Agradeço-te África, meu Pai, que me ofereceu a Liberdade que se respira. E ...
hei-de sempre pedir-te mais contos, de uma vida de marear: que ainda hoje me contas, e eu oiço aconchegada, até ao final do mar.
Parabéns, meu querido Pai, quero-te assim, hoje e sempre, como um dia feliz de voltar.

“O Homem que se esforça para atingir o ideal assemelha-se ao viajante que, ao entardecer, sobe a colina: lá no cimo, não está mais perto das estrelas, mas vê melhor.” - Jules Tannery
 
Ana Vassalo
(in facebook too)
11-Dec-2012
 
(Imagem: “The Red Barge”, David Kalbach)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

sedas no vento



 

quem sabe,
as farpas encostam num lugar de paz
e a doce ternura em retiro
arrisca um passo de luz...
e eu
travestida de risos dança manhã
ouso a paisagem sem queda
esse toque de uma vida
enfim liberta de infernos...
sabes,
há uma saudade de ti
escondida nos poros
guardada em raiz
de mim
de ti quando eras de mim
uma saudade do que floresço
quando me abrigo da nua claridade
e arrasto da memória
todo o amor
que deixei ficar em ti.
o espaço fechado entre nós
dos olhos que se respiram mutuamente
guarda a imagem saudade
de eternidades que se tocam.
a dança das mãos
regaço de cúmplices
tomando a madrugada
que chove do frio a cor
e um frenesim de lua cheia
no céu melhorado da “noite americana”...
a estação deserta num silêncio de geadas
e o comboio que nos dorme os abraços
até à morada final da culpa...
a noite profunda do sono que se despede
e inventa o regresso que se esquecera
num lugar do tempo fechado


quem sabe,
a farpa que me tornaste
se cobre em raiz de seda
por um breve instante de luz...
e agarra a escarpa desse tempo
num quieto toque de fé
por um salto
que se rasga em vento na pele
como sopro de um céu sem rede...

Ana Vassalo
01-Dez-2012 – 21:00

Imagem: Foto "Há palavras que nos beijam", António Simão Meira.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

POR UM DIA







"Thin Air", Mark Heine, Canada




por um dia

fiz-me em cidade a termo certo
e sempre com olhos meios,
uma metade em abraço, já outra cortada em fuga
afrontando burocracias p’lo topo esquerdo do ombro
onde morava certa janela de Tejo preso à camisa.
mas demorei no cansaço por um eterno dia a mais.

inundei a minha casa de recantos
como quem parte do frio sem volta
resgatei-me de ribeiros e de sede
por um sketch de amor na vida filmada a lápis de sonhos
e acreditei as alturas rasgando o céu de futuros!
mas voei todas as cores por um incauto dia a mais.

de volta à rua antiga, de portas fechadas
vidros fumados e olhos meios
permiti nuns dias de alma e regresso
uma outra placa, um outro nome de endereço
para cartas de amor virado ao Tempo com vista para a verdade.
mas o relógio dormiu e a cidade não
e eu acordei no lado que não raiou ficar.
e ainda assim lá escrevera, por um único, arrastado dia a mais.

caminhei mais silêncios a madrugar
abortei eclipses na rota das estrelas
comprei o bilhete de volta com a moeda da sorte
que no anverso gravava os começos
e que eu guardava criança desde a origem do coração.
segui primeiro o baraço
retomei depois a funda pegada minha
de uns dias certos de sol que às vezes soubera acender

e dei por mim já em casa, de volta aos abrigos de guerra.
o cheiro doce da memória guardado em amores celebrados com moldura
e arcas velhas com tranca segurando a fuga dos encantos.
arejei a vida e rendi-me à saudade desse beijo
que assina a eternidade e queima no lábio a promessa.
mas foi casa... sucede que lá morei por um único, negligente dia a mais.

memorizei todos os trilhos
fiz-me à estrada da mudança
fixei-me Alentejo de sonhos
reincidi respirei reacendi
pousei a mala e a espada
e tomei a vila por fora dos olhos meios.

e vi poente o sol aceso
noite em luar lavado de escuridão
céu picotado de branco na luz que retorna ao peito
e encantamento tímido tacteando entre as ameias.
Madredeus no convento, bar, capitéis e gin tónico,
cantar dos anjos sitiando o ouvido, e tardes novas sem guarda,
um conforto milenar de sinos, roubando ao silêncio o eco da planície.
por um, e apenas um, inocente dia a mais.

então, sou hoje a cidade. de vez, a cidade. de uma certa vez que não arde.
e nos olhos que eram meios, passam em fuga lampejos
de uma escuridão em marcha.
cedo me farei noite:
vesti-me de continuar
por um, somente um, estático momento, esse indolor dia mais.

que vai longe um tempo outro
do nome teu que me gravei
a ferro e fogo, num lugar de adeus.
da letra o rito
na cerimónia do fim, sem paramentos.
e em gótico solene
a carta lavrada em poema exangue,
esse, sim, em que me despedi.

talvez sonhando-te apenas
quem sabe
numa paz certa e branca de pássaros,
estes meus olhos meios rasguem o inteiro do vento
e o andarilho que sou, fugitivo que me vence, neles se mire enfim
por um só, aventurado dia a menos...


Ana Vassalo
20-Fevereiro-2012 – 16:55

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

ESTRELA

 
 
[Porque eu sou muito feliz no Natal, alegre como os meninos, mesmo por entre as tristezas dos natais que hoje são, gostava muito que todos fossem, embora saiba que não é assim... Quem me conhece sabe que todos os anos eu vivo esta febre, que eu própria não sei explicar, uma certa luz que volta a mim e eu não consigo nem quero apagar. Quero apenas dividi-la... E grande seria a prenda, se por um bocadinho, que fosse, eu assim o conseguisse. Feliz Natal, meus Amigos ♥ ]

 
Christmas Hope by Tim Haydon
 
 
 
Estrela

Natal é isto... de ser menina...
É tudo o que sei viver
quando me dispo da Vida.
Estas fitas de cetim
suspensas da alma em festa
no afago de penteá-las
como novas de aprender...
A cada sonho por ser
que me acena uma outra vez
são olhos de casa quente
estes que trago em Dezembro
quando nasço outro lugar
E a cada luz que me acendo
na árvore que se escondia
em pó dos tempos que limpo
mora um princípio de mim
estrela presa ao meu caminho
que antes fora luz do fim
E é nessa estrada do encontro
o adeus que despede o frio
que nasce um futuro certo
da rosa a crescer em branco
na neve que conquistou
Natal é isto... onde me aqueço
de ser criança sem morte
galopando o céu eterno
num cavalo faz-de-conta
que salta ao mundo sem rede
pela janela fechada
Sento-me aqui, pequenina
tenho embrulhos de surpresa
nas mãos que abrem saudade
papéis rasgados na pressa
de sinos p’la madrugada
Lá dentro toco infinitos
do que não sei da promessa
mas trazem cheiro de novo
perfume de um dia aberto
a nascer devagarinho
no presépio da esperança
Procuro os olhos de mel
e a mão segura de céus
que são do amor mais velho
Abraço o fruto do ventre
que me devolve à lembrança
certo dia para sempre
do tempo a nascer feliz
E corro no trilho célere
dos que são continuação
bebo as suas gargalhadas
de quem tem no bolso a vida
que vai buscar o Natal
E é no frio estéril lá fora
na casa dos sem-abrigo
que a alma veste de fé
o que os olhos não aceitam
Aqui onde me acolho
ternura presa ao luar
filho de um eco mais quente
sou esse dia que creio
luz acesa da mudança
Natal é isto... é o que sonho...
Uma carícia de fé
que arde em fitas de cetim
o amor antigo de vidas
a crepitar de amanhãs
E a Justiça que é criança
a pulsar contentamento
no coração desta Noite
há-de ser Estrela maior
que nasce de bater certo
o peito abrigo do Mundo!


Ana Vassalo
  20-12-2011 – 01:19
in facebook, meu Grupo "Atlântico Bar-Clube"
20-12-2011 - 15:37

Imagem: "Christmas Hope".

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

TALVEZ




























Talvez

(em aniversário de Natal)
 


talvez

talvez o sol fosse mais luz
se o acendesses ainda
como foi, como mo davas
e os teus grandes olhos líquidos
em mar de verde
amor e mel
fossem o cais como antes
como sempre
quando se riam nos meus

talvez

se o teu sorriso de manhãs frescas
pousasse ainda no meu olhar,
este meu que trago agarrado
e pinto de bâton velho
- estúpido e postiço
formatado riso de implante
como alumínio de janelas
- se lembrasse de ser alma
e as horas mais que ponteiros
no tempo de me saber
no passo que me interrompo

e esse meu olhar
tomado pela canção
que o teu então me dizia
soubesse cumprir os rios
que se extraviam da foz
e arrancar dos mares incertos
o sal que acerta uma vida
e noutros dias cantou

talvez

mas tu...
tu não estás aqui
meu amor
e por maior dor
como flagelo
olhas-me ainda como quem É
e assinas a vida
como pertença
num livro feito de ti
escrito de continuar
que sabe tudo de Ser

aqui
só o teu corpo deitado
sequestrado por vazios
que se perderam da ordem...
e mais esse olhar menino
no salto de corda a desprender caracóis
que nada sabe de muros
carcereiros da vontade...

esse olhar... que já foi guia
incansável de romeiro
salta e dança e resplandece
ainda
como estrelas na planície
que não lembras como tua
mas te enfeitava de mundo

aqui e agora
somente um frio branco de lençóis
nos dias teus por datar
que parecem lotados de natais
de ontem natais
no amanhã que não nasce
quase cinco
imensos infindáveis sufocantes natais
da tua ausência em presença

azevias p’la madrugada que já não tenho
porque a receita era a tua e a noite era também
e a imitação dói como um golpe
no escuro vago da cozinha
onde jesus eras tu, ao fogão,
a embrulhar prendas fritas
e o teu sorriso de Vida a espreitar a chaminé

aqui, neste quarto
mesmo ao lado da rotina
mora um silêncio de noites
que se propagam em dias
e deles se alimentam
para ser continuação
- silêncio da voz que eras tu
porque só eras tu-plenitude
no lamento que cantavas
como um nó que nos embarga
e nos desata no céu

não sabes nada do que não tens
- ao menos isso...
que não saber é o abrigo
breve nesga de luz ao fundo
que te guarda de seres noite

para ti
só cor de tecto
e janela à frente
como paisagem do mundo...
e no entanto
às vezes és romaria
que os teus olhos denunciam
e depois enchem de música
o silêncio que há nos meus

não sei crescer sem ti...
abraço que me escudava
do grito a morrer por dentro
ou essa mão de bondade
que era de mim o sinal
e arrancava das estrelas
pós de brilho que há na Vida
para me soprares de céu...

mas eis que o tempo é dos dias
e os dias são todos meus
e muito mais do que eu!
porque no fim que é das tardes
é por MIM
que o teu sono chama
mesmo que o nome em que me olhas
seja o que sempre foi TEU...

obrigada

Mãe...


Ana Vassalo

23-11-2011 – 23:32

Imagem: Google.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

LUZES




"Though I know noone can see (me)"...

Cat Stevens, Sad Lisa













Luzes


 
o mar vai frio
corroi a pele
arrefece as pontes.
acolho o impasse

numa indecisão antiga de neons
fogo da noite intermitente.
aperto o casaco
bem junto ao corpo
trémulo de geadas
como se me abraçasses
no cais certo da esperança
onde sempre te encontrei
e venço o espaço
desta avenida calada
que projecto
num olhar que não me soube.
entre a dúvida do costume
e o costume a que me escuso
opto por desfocar-te
em mim
dessa imagem que foi rio
mergulho dentro do peito
onde até sempre te guardo.
sei as portas
rota em saída
que trespasso pelo frio
um gelo azul
do vento que é teu.
entre o poente e a chama
a noite não paga nada
rompe os bolsos
com auroras virtuais
e é contínua
e em mim escurece
o vulto da luz com nome
que às vezes chama por ti.
segue-me adiante
o passo que era promessa
mas não me pertence ainda
que me empurra
e marca a pele
e amanhece já saudade
num velho lugar sem verbo.
toco as asas
todas minhas
perdidas de vento e norte
fracas e sujas de dor
e no entanto
arrumo lá fora a vida
como um descanso de rua
a pairar sobre a cidade.
eu o risco, flash, o raio
movimento do silêncio
um quase nada de tempo
depois gaivota
no céu da vontade presa
por um rasgo desse olhar.
tu poema
marca de fogo
na voz da noite
piano breve
bocado essência
perto de mim
onde me deito na paz
e acordo feita de guerra.
sento-me aqui
à beira deste prelúdio
quente da escuridão
e embriago-me do neon
que caminha ... por aí.
dos meus dedos saem letras
dançando na escuridão
o livro que era o teu rosto
e aconchego-me de lã
prendo-a junto ao coração
que se arrependeu de mim.
escondo-me assim
num traço de lua nova
em deslize pelas estrelas
e acredito o teu mar
baía do teu abraço
que me esqueci de acordar.

quase adormeço depois
longe longe
no cruzamento acidente
do nosso tempo
sem data
e arrumo as mãos que te sabiam
num dia que não raiou.
fecho os olhos
devagar
como quem pinta nas sombras
o teu corpo de papel
a rasgar-se junto ao meu.
e durmo a palavra morta
porque hoje digo-te adeus
numa avenida da noite
que ardeu em gás de neon.
Ana Vassalo
17-Set-2011 – 20:35

Origem da imagem: ISS -
site “Lights in the dark.wordpress”.
(International Space Station during the STS-129 shuttle mission).


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

QUE CÉU?...





















que céu?...
o coração ser de vidro
e tu holograma aqui
roubado na luz
do teu sorriso de azul
um fio de ouro e porcelana
nos teus olhos acordados
a mão lenta que me acena
o fresco bom dia dos plátanos
transparente o ar
que respira entre os caminhos
e o brilho da manhã
que se senta nos teus ombros
o café quente de ternura
solto em calor das mãos
o jornal que se calou
na notícia que nos olha
e eu assim
escondida em ti
em doce contemplação...
e então és mundo
e eu, feita de viagem

 
Ana Vassalo
29-Set-2011 – 14:04

Origem das Imagens: Google.cz.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

CASA DE SILÊNCIOS




























"The Lady of Shallot" by J.W. Waterhouse (1888)





casa de silêncios



sou do amor que me quer

quando em viagem me agarra

p’lo sangue de um violino

a gemer terras em chama

e sou dele o vento

sopro em amor que se agita

e grava no corpo do fogo

a alma em que se despiu


por ele me denuncio

assino a renúncia de mim

e saio em demanda

e sou ave

de tropeço em atropelo

até à fusão das asas


no silêncio das nascentes

prenhes de vida

certas de rumo

que um dia se acharam cúmplices

sou sempre busca de mim

e apenas eu em deriva

pela música que me inteira

no tempo que me reconhece



e então regresso

surda de mundo

e escuto o silêncio que sou


Ana Vassalo
27-09-2011 – 23:43

Origem da Imagem: Google.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

SANGRIA



“White Words”


 



SANGRIA


E AS PALAVRAS!
AS BRANCAS PALAVRAS
COM ARESTA
'in utero' perenes
trânsito em vida
INTERINAS
PALAVRAS caducas
miméticas
travestidas
de virtual pureza
em raiz
que não soube crescer haste
subtileza em rasgo, do absinto
a praga
a náusea
a estrondosa vertigem negra
DA PALAVRA liberada

despenho
a torpe queda intuída
sem o pretexto do abismo
o riso o acordo a falácia
filhos que são da verdade
toda a verdade
nem um SONHO mais que a verdade
laureada
desgrenhada
rugosa
e decadente
VERDADE DE SER PALAVRA

DA PALAVRA SIM
no sim da PALAVRA
em gestação
o vocábulo com vírgula, o anagrama da ideia
sujeito, facto, objecto
a sorte ou o cansaço
e o desvio
aposta ganha no conforto do antigo
e bolorento expulsar da fantasia
que já um dia foi minha!
borrão da alma sem freio
projectado
NAS PALAVRAS desventradas
DE POEMAS
e parto com forceps e dor

que não escuso
não despeço
numa teimosia de laços
por fim poemas de farrapo
e métrica mal des-contada
na sílaba falha de tónica
da ilusão com medida
fuga milimetrizada de plano
dedos de adeus
olhos sem pausa
corpo em saída
eu!
no quente afago da lonjura
em solidão abraçada
ATRÁS DE TANTAS BREVES LETRAS
que me edifico
no corpo da PALAVRA ausência

PALAVRAS TANTAS
DA PALAVRA OUTRA
que não dei
não assinei
e não partilho
que noutros tempos comprei
nos instantâneos da fé
hoje fracção de nulo resto
de as riscar e de as rasgar e ser insulto
e depois me contemplar
no chão da destruição
de um nanossegundo perfeito
convocado pela RAZÃO

PALAVRAS
PALAVRAS tais em que me ESCREVO
e me digo sem ser voz
que me esqueci de onde guardo
de onde foi que as aprendi
como as firo
quando as gasto
e escrevem de dor no futuro
AS PALAVRAS QUE NÃO OIÇO
e cheguei a pensar MINHAS


AS TOSCAS PALAVRAS minhas!
do arremesso
com eco ao fundo
palavras expurgadas de mim
num embaraço sem fio
em desnorte do sorriso
sem mapa
somente extravio da boca
QUE SÃO AS PALAVRAS DE ÁGUA
com sede de prisioneiros

o estrondo, PALAVRA AVISO
e de silêncio
e paz romana
piedade ou agonia
do amor que não caminha
mas também não se-parou...

Frescas PALAVRAS de lixo
As minhas e de FLORES também
ROSAS que já não creio
que abomino
e manipulo
que desmonto da surpresa
mas acolho da origem
tal como são semente
E ENCERRO ANTES DO PRÓLOGO
no livro da letra em espera
que assassino
sem remorso

exponho
e desnudo
apago sem cor
e recuo p'lo adeus
rota do fim para sempre
COMO SEMPRE COMO NUNCA
de olhar parado em sequestro
pela margem que era minha

PALAVRAS do imenso terror do feio
QUE GRITEI
acorrentadas de orgulho
em evasão
morte estratega
golpe
sem éter
DA PALAVRA
que não geme

PALAVRA DE TEAR...
TECE
TECE
TECE
sepulturas
da vontade
na PALAVRA DOS POEMAS
QUE NÃO FORAM!
A mentira conjugada
do VERBO que se transmuta
instrumento e DIALÉCTICA
Razão do Método
criogenia!

E ESSA VENDIDA PALAVRA NUA
QUE NASCE E MORRE DE BRANCO!

Breve paz à sua alma.
Ámen.



Ana Vassalo
22-Set-2011 – 04:50

Origem da Imagem: Google - “vi.sualize.us”

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

VIDROS





















vidros



o que foi?...

um cisco no olho

a lágrima presa

o tempo a sair?

que foi que partiu o céu?...

que agora sou chuva... não sei...



lembro que estava aqui

quase já

há um pouco de eternidade

somando ternura e riso

quando me vestias, assim

de palavras dadas, sem nome


depois

aconteceu

esse instante raso

do passo ancorado ao nada

fechado na mão do vento

que se-para... que se cala...


que importa

da ventania

se o dia cegou de luz?...



não sei nada...

olho-me ao longe

cúmplice abrigo de mim


o que foi?...


é só gemido, deixa lá

respiração de te ter

aqui

neste lugar de ser casa

dentro de mim

a partir-se...


Ana Vassalo
10-09-2011 – 05:35

Origem das Imagens: “Broken Sky – Google.wallpapers”

E AGORA... FLORES




















e agora... flores


falámos...

palavras a menos

num brando receio de tacto

que nos cala agora ou ontem

e para sempre se esconde

soubémos tudo do nós

que agora jaz

resto de nada

há um excesso de torpor

no embaraço das pausas

da valsa que é por dançar

mas no ouvido se intima

e o coração dispara

no intervalo da razão

falámos

muitos silêncios

de portas a querer rasgar

que logo ali se fecharam

no rosto liso do conforto

palavras de amor rascunhado

ao largo de todo o cansaço

em riste

um céu gritado e limpo

na terra omissa que somos

ora destroço

já construção

nos finais que não desistem

falámos

tu e eu

muitas palavras sem rede

de orgulho com véu de seda

e vista para a verdade

por fim o medo

agora o medo

no início o medo

temos estradas de silêncio

adiante

e o caminho

ri de nós

peregrinos...

Ana Vassalo
10-Set-2011 – 05:55

Origem das Imagens: “google.cz - peregrinos”

terça-feira, 23 de agosto de 2011

PRECARIEDADE






“Quando puderes dizer o teu grande amor
deixa o teu grande amor de ser grande...”


Fernando Pessoa















(Dedicado ao Amor, o próprio)




Precariedade


Que saio sim
na porta que foi ficar
e volto nos troncos caídos
da jangada posta em rumo
ao fim do que não conheço
Que abro os braços de rompante
asa imensa de partir
e agarro o ar que me sopra
e empurro céus de um só tempo
Que desisto na jornada
e invento mais paragem
onde desço da ternura
E os olhos fecham galáxias
de metáforas por viver
no teu rosto prometido
que foi beijo renovado
Que as raízes do meu chão
crescem do longe de ti
terra de encontro até mim
que piso na despedida
Que as palavras que não sei
de não respirar sem as tuas
se apressam de outros sentidos
antes vestidas de nunca
já depois de renascer
por um instante
… sem história
E a barca sem horizonte
se afasta de margens fartas
e num pedaço de areia
perene de ser abrigo
rasgada do que há-de ser
arriba com mar de fé
ao cais ateu do futuro
Que a luz certa do teu corpo
corre as ruas da cidade
teia aberta
que é paisagem de janelas
num infinito cerrado
Que a sorte e a estreia
o sentido e a convicção
do sim profundo das mãos
mais a dúvida que se despe
vêm de lá
de ti e por ti
livro de páginas mais certas
que me adio de escrever
Pois se não quero de ti
mais do que a alma conhece
- tão pouco de ser já tanto...
E se um dia me acordar
das palavras por dizer
sabes...
nada de ti restará
e a noite terá razões...
Fico por cá
meu amor
onde o coração se aumenta
num silêncio que te ofereço
de breves eternidades...


Ana Vassalo
12-Agosto-2011 - 22:15

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