não sei do que vem aí,
ou mesmo se há que saber
no pack de horas extra de uma vida.
sei q não tenho aqui a esperança
e os dias podem ser arrastados
como fardos de segundos.
havia antes uma certeza tácita
de que o corpo obrigado a movimento
mesmo que arrancado, involuntário,
sacrificial,
saberia lembrar o passo de abertura
ainda que o sonho se sobrepusesse
a uma espécie de vigília
demissionária...
e no entanto, de algum modo a memória
vencia
e reensinava a tentativa,
erro e repetição,
mais um cigarro e o café e a teimosia
de continuar vivo a qualquer preço
porque há os dias que merecem!
Hoje, que somos mundo de pregão em
hasta pública,
há um rasto de cansaços ganhando o
chão:
no aeroporto, na tabacaria, no
desemprego,
na planície, no comboio de todos os
dias, no mar,
na mercearia, a escola, a montanha,
no cheque da reforma, no amargo
comprimido,
na fila do combustível, a faculdade, o
balcão,
na cantina social, no abrigo da ponte,
no povoado,
na casa que é do banco até ao virar
da vida... e da morte,
no sorriso amante,
no olhar da pele,
na poesia...
a descritiva da dor sem o pendente nem
escriba,
somente o registo prático e a cópia
virtual, em depósito
na Torre da Era do Tombo:
a morte instantemente anunciada,
o suicído de massas executivamente
induzido.
diz que hoje não há palhaços
e ainda bem, digo eu
- nunca lhes ri a alma
de tão doída me parecer
- mas a dúvida persiste
e eu acho que se enganaram...
seja lá como for, reparei há pouco
que faltam hoje muitas coisas de
continuar:
agora também não há lua
e a fé da noite sucumbiu
ao apagão solar sem aviso.
e damos por nós assim, apenas coisa
interrompida
sem saber nome de luz, de calor...
e a união que um dia nos aqueceu,
seja lá solidariedade ou uma qualquer
letra do Amor,
quebra, sem vergar,
ainda que essa força nos mostre que
parece tão pouco
aquele tanto que se pode...
soam por fim os gritos,
surdos e presos nas fileiras do atraso.
e já morremos outrora, muito antes de
acordar,
até chegarmos aqui, continuando,
lugar de hoje sem agenda
anotado à margem de futuros sem lugar,
sabendo quase nada desse nada que nos
contempla:
pagamos sem haver
jejuamos sem poder
falimos sem gastar
e partimos sem voltar
certos de que morremos, por querer,
desertores e nus
do dia que já não merece.
e é só por isso, seja lá um pouco ou
seja muito,
que me sento aqui como pedreiro,
martelando a palavra de amanhãs,
como pai e como mãe, como filhos, como
avós,
honra e trabalho, coração, respeito,
que saibam de coisas de nome e de
coisas de luz,
grandes, pequenas, de amor e combate,
de gentes, coragem e orgulho,
e um calor de flores no peito.
que a dignidade não verga nem quebra,
e o meu País também não!
Ana Vassalo
27-Outubro-2012 – 19:03