NETOS

NETOS

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

REMARKABLE PEOPLE



FERNANDO PESSOA

(Lisboa, 1888 - 1935, Lisboa)


"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


************
"I am nothing.
I will never be anything.
I cannot want to be anything.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."

or...

"I am not nothing.
I will never be nothing.
I cannot want to be nothing.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."


(Álvaro de Campos in "Tabacaria")




LISBOA - Chiado

LISBOA - Chiado
"Fernando Pessoa" by Lagoa Henriques. The place: "Café A Brasileira" (Brazilian Café) - 1905.

PLAYLIST TODAY




MUSIC IS THE PASSION REPORT



♥ ♥ ♥


PLAYING SOFTLY WHILE SOMEONE SANG THE BLUES



Saturday, Jul 22, 2017 - 17:57





SALVADOR SOBRAL - NEM EU [DORIVAL CAYMMI]



YouTube – "Salvador Sobral"





ANTONY HEGARTY + LEONARD COHEN - IF IT BE YOUR WILL [COHEN]



YouTube – "Oggmonster"





CHAN MARSHALL (CAT POWER) - I'VE BEEN LOVING YOU TOO LONG [OTIS REDDING]



YouTube – "anaruido"





JANIS JOPLIN - ME & BOBBY MCGEE [CHRIS CHRISTOPHERSON]



YouTube – "ThE DuCk"





JEFF BUCKLEY - LILAC WINE [JAMES SHELTON]



YouTube – " roberta panzeri"





DAVID BOWIE - WILD IS THE WIND [JOHNNY MATHIS]



YouTube – "Peter Music HD"







_____________________


LEANING INTO THE AFTERNOONS by PABLO NERUDA

«Inclinado en las Tardes»



YouTube - "FourSeasons Productions"






CHANGING BATTERIES - OSCAR WINNING ANIMATED SHORT FILM



YouTube - "Bzzz Day"





DIALA BRISLY - A BEAUTIFUL YOUNG LADY

(a huge thanks to my daughter who e-mailed this video to me)



BBC Newsnight

«Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman - artist Diala Brisly - who is trying to make life that little bit more bearable for Syria's kids.»

Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman -...

Publicado por BBC Newsnight em Domingo, 20 de Março de 2016






A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT

A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT



FLYING A SECRET



I got here to hide. From equations and patterns. From repetition, after all.
Closed the door and got me a special place where I thought I could
somehow sit close to the stars. But I soon found out that the sky was
still opaque, no matter what the steps. And so I left. Again.

I thought, then, I could build me a different ceiling, a new-coloured scrap
of highness. And then make it work. Where I could dream, more than I sleep.
I have long decided that sleeping is overrated - that I know for sure. So I
take that time instead to travel the night alone and in the meantime I allow
myself to fly, unlike stated before... Yes, I like playing with paradox, to
expose the inside of words and the revelation of writing down the voice of a
silence. My adventurous, ever-walking silence.

So I came back. Here, within this quiet world, I intend to gather all my
things usually kept hidden or inactive. They are here to speak.

And since the future is a stand-by secret, I want to live by a precocious
clock, at every running instant of every entering second.

And I will not slow down until my "future exists now" - kind of reverse
quoting Jacob Bronowski.


Ana Vassalo
in my site "CAFEÍNA"(former "No Flying Allowed")
Nov 11, 2010 - 11:54




THE WALK OF TIME

THE WALK OF TIME

domingo, 16 de dezembro de 2012

casa de lua



entrei a noite
aqui
pela porta mais estreita
do medo
sigo tempo em formação
agora
num desvio de curso certo
ergo os braços
escada ao infinito
o breve
espectro de alcance
ruído do coração
em marcha
fantasma da pele
em contacto
a chama
do corpo tornado mais leve
o golpe terno
a enseada
o sono dos inocentes
orvalho pela manhã
e sou o dia
movimento
edifício e lugar mais perto
da lonjura
acalmo os instantes
de sede
o sonho
na estrada mais escura
sem rosto
de histórias antigas
nascendo à lareira
as sombras como guia
na memória
o vinho
a flor
cigarros trocados
a espera
o beijo
depois cerco e tomada
palácio de estrela
o céu do olhar
e a coragem
na encruzilhada
o anúncio da noite aberta
o teu caminho
no chão da viagem
e eu
caminho teu
e barca
e rio no mar
horizonte
eu em perfeito total
agarrando a casa
dessa lua toda cheia
que um dia roubaste para mim

e lembro então
que sou vida quando és
sou o lugar
de quando estás
foste sempre tu
a palavra de mim
primordial
solta pelos ventos
o rumo aberto
universo em mãos
asa e saudade
tu...

na noite que se aconchega
sou o abraço teu de muitas idades
e a música passa
baixinho
no intervalo de nós
fechando o espaço das horas

Ana Vassalo
16-Dec-2012 – 00:42


terça-feira, 11 de dezembro de 2012

FELIZ ANIVERSÁRIO, PAI!

  
Parabéns, meu Pai viajante!
Agradeço-te todas as naus e todo este amor que aprendi pelo mar: os meus amigos de infância, que me faziam mais perto o teu amor. Os álbuns que me traziam mais Terra, com gentes de outros falares e de muitos outros mares de alma. O Tejo em Lisboa, que às vezes me deixava visitar os barcos onde me esperavas, e me ensinaram esta saudade de partir, de ser viagem para sempre. Agradeço-te África, meu Pai, que me ofereceu a Liberdade que se respira. E ...
hei-de sempre pedir-te mais contos, de uma vida de marear: que ainda hoje me contas, e eu oiço aconchegada, até ao final do mar.
Parabéns, meu querido Pai, quero-te assim, hoje e sempre, como um dia feliz de voltar.

“O Homem que se esforça para atingir o ideal assemelha-se ao viajante que, ao entardecer, sobe a colina: lá no cimo, não está mais perto das estrelas, mas vê melhor.” - Jules Tannery
 
Ana Vassalo
(in facebook too)
11-Dec-2012
 
(Imagem: “The Red Barge”, David Kalbach)

domingo, 9 de dezembro de 2012

FELIZ ANIVERSÁRIO, MÃE!


 

Admiro muito todos os valentes anónimos, já que tal bravura não se define no mediatismo, tantas vezes acompanhado de agenda, mas apenas porque os compõe, é sua parte integrante, como que carregada nos genes. São aquelas pessoas especiais, que aprenderam sozinhas a driblar a vida, passando por todos os intervalos da adversidade, e saindo sempre vencedoras, qualquer que tenha sido a perda. E no final de tudo isso, o mais notável para mim, conseguem ainda caminhar a bondade, sem jamais perder a inocência: o olhar da ternura, vasto e aberto de luz, o sorriso de mel, brando como um afago.
Salve maravilha, minha Mãe bonita!
Obrigada, sempre.

Ana Vassalo
(in facebook too)
09-Dec-2012


(image: "Mother & Child (2)" - Wai Ming)


sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

TRISTEZA














A tristeza não se explica, vive por nós. É como um vasto
campo verde ao fundo, e janela nenhuma no olhar.
 
Ana Vassalo
(in facebook too)

07-Dec-2012

(Imagem: "Store Glass Window", Franco Cignelli)



segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

sedas no vento



 

quem sabe,
as farpas encostam num lugar de paz
e a doce ternura em retiro
arrisca um passo de luz...
e eu
travestida de risos dança manhã
ouso a paisagem sem queda
esse toque de uma vida
enfim liberta de infernos...
sabes,
há uma saudade de ti
escondida nos poros
guardada em raiz
de mim
de ti quando eras de mim
uma saudade do que floresço
quando me abrigo da nua claridade
e arrasto da memória
todo o amor
que deixei ficar em ti.
o espaço fechado entre nós
dos olhos que se respiram mutuamente
guarda a imagem saudade
de eternidades que se tocam.
a dança das mãos
regaço de cúmplices
tomando a madrugada
que chove do frio a cor
e um frenesim de lua cheia
no céu melhorado da “noite americana”...
a estação deserta num silêncio de geadas
e o comboio que nos dorme os abraços
até à morada final da culpa...
a noite profunda do sono que se despede
e inventa o regresso que se esquecera
num lugar do tempo fechado


quem sabe,
a farpa que me tornaste
se cobre em raiz de seda
por um breve instante de luz...
e agarra a escarpa desse tempo
num quieto toque de fé
por um salto
que se rasga em vento na pele
como sopro de um céu sem rede...

Ana Vassalo
01-Dez-2012 – 21:00

Imagem: Foto "Há palavras que nos beijam", António Simão Meira.

domingo, 25 de novembro de 2012

doors sublime (to darkness)

  
 
i’m not staying
i’m not staying
i’m just scrapping this black book of survival
and scratching all the good words in the wind
i’m crying all the life i borrowed from you
and i’m hurting
and i’m hurting
but listen to me love
i’m not staying
i’m not staying


i scream for the days i passed by
i yell at this absent face in the mirror
every little me is dying a little
at every little second that was yours
while i’m packing dreams and memories
that will run away with me
but i’m not staying
you should listen
my sweet love
i’m not staying


i heard your echo across the cliffs
i saw you falling from steady ground
i felt you slowly drowning in dry seas
and i hated you a bit more than always
as i loved you a moment more than ever
i ran my hands
over the whispers inside my head
i locked up that immense door
you have carved into my heart
and i’m now running, my love
to a very distant place in my mind
- cause i’m not staying
listen to me baby
i’m not staying


worn out tears
will never get us an ocean
silence is the place
where we are destined
to be one
farewell
my sweet
ever-rising love
these are not “the days of wine and roses”
so we’ll never drink again
the words of a life i lived in you
and i deeply hope we‘ll never cry again
don’t you think?
don’t you think?


So we have stopped the rain
once more
endlessly more
but no sun was drawn instead
- remember, dear?...
well then...
here we are...
both led to this far apart
abandoned, lonely place
crowded with a million nights
located in our souls
where we no longer got to find home...
i’m not staying, love
i’m not staying


you’re a free bird losing its sky
and i, i’ve flown away
with my ever lasting broken wings
which are now tied forever more
and i’m far, so far away now
my love, i’m so far inside you now...
but i’m not staying
you should listen, i’m not staying
what you do is shutting me off
your darkness is blackening me
and i just wish i could wake up one day
in a smooth, white land of the soul...
i 'd take you there with me, you know,
so we'd paint the world together!
 

but not this time
my love
no... not this time.


Ana Vassalo

25-11-2012 – 18:52


(Image: “Farewell my love” by Vrolijc)

domingo, 28 de outubro de 2012

HISTÓRIAS DO FUTURO DAS FLORES


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
não sei do que vem aí,
ou mesmo se há que saber
no pack de horas extra de uma vida.
sei q não tenho aqui a esperança
e os dias podem ser arrastados
como fardos de segundos.
havia antes uma certeza tácita
de que o corpo obrigado a movimento
mesmo que arrancado, involuntário, sacrificial,
saberia lembrar o passo de abertura
ainda que o sonho se sobrepusesse
a uma espécie de vigília demissionária...
e no entanto, de algum modo a memória vencia
e reensinava a tentativa,
erro e repetição,
mais um cigarro e o café e a teimosia
de continuar vivo a qualquer preço
porque há os dias que merecem!

Hoje, que somos mundo de pregão em hasta pública,
há um rasto de cansaços ganhando o chão:
no aeroporto, na tabacaria, no desemprego,
na planície, no comboio de todos os dias, no mar,
na mercearia, a escola, a montanha,
no cheque da reforma, no amargo comprimido,
na fila do combustível, a faculdade, o balcão,
na cantina social, no abrigo da ponte, no povoado,
na casa que é do banco até ao virar da vida... e da morte,
no sorriso amante,
no olhar da pele,
na poesia...
a descritiva da dor sem o pendente nem escriba,
somente o registo prático e a cópia virtual, em depósito
na Torre da Era do Tombo:
a morte instantemente anunciada,
o suicído de massas executivamente induzido.

diz que hoje não há palhaços
e ainda bem, digo eu
- nunca lhes ri a alma
de tão doída me parecer
- mas a dúvida persiste
e eu acho que se enganaram...

seja lá como for, reparei há pouco

que faltam hoje muitas coisas de continuar:
agora também não há lua
e a fé da noite sucumbiu
ao apagão solar sem aviso.
e damos por nós assim, apenas coisa interrompida
sem saber nome de luz, de calor...
e a união que um dia nos aqueceu,
seja lá solidariedade ou uma qualquer letra do Amor,
quebra, sem vergar,
ainda que essa força nos mostre que parece tão pouco
aquele tanto que se pode...

soam por fim os gritos,
surdos e presos nas fileiras do atraso.
e já morremos outrora, muito antes de acordar,
até chegarmos aqui, continuando,
lugar de hoje sem agenda
anotado à margem de futuros sem lugar,
sabendo quase nada desse nada que nos contempla:
pagamos sem haver
jejuamos sem poder
falimos sem gastar
e partimos sem voltar
certos de que morremos, por querer,
desertores e nus
do dia que já não merece.

e é só por isso, seja lá um pouco ou seja muito,
que me sento aqui como pedreiro,
martelando a palavra de amanhãs,
como pai e como mãe, como filhos, como avós,
honra e trabalho, coração, respeito,
que saibam de coisas de nome e de coisas de luz,
grandes, pequenas, de amor e combate,
de gentes, coragem e orgulho,
e um calor de flores no peito.

que a dignidade não verga nem quebra,
e o meu País também não!

Ana Vassalo
27-Outubro-2012 – 19:03

sábado, 19 de maio de 2012

DE VIAGENS QUE NÃO FIZ







Waiting
by

Winslow Homer



De viagens que não fiz



Esperei por ti

na volta dos salgueiros

onde o silêncio marca o lugar

do segredo que será voz.

Às cinco da tarde de uma tarde em ponto

exactidão de um abraço interrompido

que regressa em motim

pela retoma dos atrasos.

Esperei o tempo dividido

com todas as declarações do prado

perfeito e aritmético

previsto, como o bater das horas:

no duche das rãs

no uivar da folhagem

no restolhar da cobra

ou final do canto ribeiro

feliz por saber a casa.

E com eles contei tempo

que era de mim e de ti

compasso em descoberta

4 por 4

ou 3 por 3

sei lá, que importa,

acertando pelas pausas

1-2-3, 4 segundos magia

em cânon, harmonia, a voz

o rasgo triunfal da tua presença enfim

no fogo ateado em sinfonia

O passo feito mais perto

que o coração adivinha

sinal de ti a chegar

E o olhar solta a distância

a vertigem de sentir

o beijo a beber da boca

plena de água de saudade


E afinal não vieste.


Segui o rasto universal

como um anúncio de ti

e no entanto perdi-te

a meio de um sul ausente

no sentido das promessas.

De ti chegaram os vultos

certos da escuridão:

o sonho mal acordado.

Sombras apenas...

Em ti a penumbra

do amor que não partiu.


Não vieste, afinal...


E hoje lembro-te assim

itinerário completo

mar, deserto, cristal, vulcão

de viagens tantas que depois não fomos.


Ana Vassalo

18-05-2012 – 23:42

domingo, 13 de maio de 2012

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


Eu sei
que a fé é somente a arte
de persistir no vazio
Aceitar o nunca visto
como prova do infinito
e acelerar na paragem
do passo que se recusa
Eu sei
dos tantos arbítrios que doem
a cada vontade presa
Das orações que não digo
por não te saber em palco
das peças que vão à cena
em actos que não escreveste
mas assinaram por ti
Eu sei
mas tenho a dúvida dos caminhos
uma tela em suspensão, ali,
entornada de parede
nas artes que não te pintam
Tenho esta estaca presa ao peito
que crava os fins na confiança
este olhar parado e pardo
assustado de verdades
que tantos recitam por ti
Tenho os mil dogmas que te explicam
arrumados, senão escondidos,
que não aprendo a sentir
E vagas de teoria
instituída em pecado
que não te fazem justiça
Tenho o que dizem os homens
sobre um deus que não decidem
E tenho esta dor cortante
que me fala em ti um mundo
onde às vezes sei a cura
Eu sei
que a salvação que nos prende
por um fio deste mundo
nada pagou à razão
e descansa nas trincheiras
do que não sabe lutar
Mas sabes...
É que o coração aprende
escusos caminhos de vida
e eu só sei do que não sei
quando nos olhos cego
a paz que é de ti imagem
e só tu sabes de mim...
E esta lágrima de rios
que não cansam de correr
o vale imenso da súplica
sabe a corrente de acreditar
E o futuro é a memória
do que há-de ser navegar

Ana Vassalo
13-Maio-2012 - 22:00

(Imagem: "Sunset Sailboat", Karen Tarlton, USA)

quarta-feira, 25 de abril de 2012

PORTUGAL - 25 DE ABRIL DE 2012












Fotografia

de

Sérgio Guimarães



AGARRANDO O SONHO...


Ana Vassalo
25-Abr-2012

MIGUEL PORTAS - R.I.P. (POLÍTICA)





MIGUEL PORTAS
- R.I.P.


Miguel Portas saíu. Há pouquinho... Não há notícia de ter comprado bilhete de regresso. Eu, conheci-o aqui, virtualmente, e aprendi a respeitá-lo imensamente, pela demonstração serenamente aberta de si próprio e do seu carácter, que simples
mente nos legava através das mensagens com que todas as manhãs nos saudava. Foi-se embora, Miguel Portas... Um dos poucos exemplares da política, da incompleta meia-dúzia que me resta, que eu ainda respeitava, embora nada tenha a ver com partidos - o seu ou qualquer outro, já agora. Ausentou-se. Na véspera do Dia, o tal que foi Liberdade, que ele tão bem soube merecer, e que devia ter esperado por ele...
Tinha menos 2 anos que eu... E assim sei: que "hoje" é o único dia de Vida que realmente existe, essa tal que pouco se importa com o Tempo ou a Justiça...
Até já, Miguel...

 
Ana Vassalo
in Facebook
24-Abr-2012

sexta-feira, 30 de março de 2012

PAIXÃO








Highstreet

by

Kevin Sonmor















paixão

eu queria a espada ou a pluma
dos dias delicadamente imperfeitos
que só por ti raptam a luz.
rasgar do olimpo outro mar
que em ti se fez o amor,
tropeçar o céu que ensina o salto
a voar fronteira e dúvida
que se inscreveram no trilho
da pegada que era a tua.
eu queria o asfalto quente
para nele deitar em mim
o sono acordado dos teus braços.
e com ele riscar a noite
que não dormiu os teus passos
no ouvido do meu quarto
rasgado de janelas a nascente,
caladas por mil trancas
emboscadas
na porta dilacerada de ocasos.
eu queria saber-te a rua minha,
a calçada,
talvez abismo,
de quedas livres sem amparo,
ou marginal minha de afectos
com mergulho de asa à vista.
ora aluvião, a tormenta,
água fria, monção de verão
chovendo a guerra de um tempo
que já se veste de ter pressa.
e então água dos olhos
que lava o coração de mundo,
a pulsar por fim a trégua.
tratado de paz depois
amarrotado e quente
no bolso antigo dos abraços.
eu queria ter-te assim, bebido
o poema dos lábios, da estrela a festa
ou o inferno que em mim acendas
e arda de raiva o meu nome.

mas jamais a erosão.
nunca o deserto fúnebre
do peito que se calou.

Ana Vassalo
14-Fev-2012 – 23:15


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

POR UM DIA







"Thin Air", Mark Heine, Canada




por um dia

fiz-me em cidade a termo certo
e sempre com olhos meios,
uma metade em abraço, já outra cortada em fuga
afrontando burocracias p’lo topo esquerdo do ombro
onde morava certa janela de Tejo preso à camisa.
mas demorei no cansaço por um eterno dia a mais.

inundei a minha casa de recantos
como quem parte do frio sem volta
resgatei-me de ribeiros e de sede
por um sketch de amor na vida filmada a lápis de sonhos
e acreditei as alturas rasgando o céu de futuros!
mas voei todas as cores por um incauto dia a mais.

de volta à rua antiga, de portas fechadas
vidros fumados e olhos meios
permiti nuns dias de alma e regresso
uma outra placa, um outro nome de endereço
para cartas de amor virado ao Tempo com vista para a verdade.
mas o relógio dormiu e a cidade não
e eu acordei no lado que não raiou ficar.
e ainda assim lá escrevera, por um único, arrastado dia a mais.

caminhei mais silêncios a madrugar
abortei eclipses na rota das estrelas
comprei o bilhete de volta com a moeda da sorte
que no anverso gravava os começos
e que eu guardava criança desde a origem do coração.
segui primeiro o baraço
retomei depois a funda pegada minha
de uns dias certos de sol que às vezes soubera acender

e dei por mim já em casa, de volta aos abrigos de guerra.
o cheiro doce da memória guardado em amores celebrados com moldura
e arcas velhas com tranca segurando a fuga dos encantos.
arejei a vida e rendi-me à saudade desse beijo
que assina a eternidade e queima no lábio a promessa.
mas foi casa... sucede que lá morei por um único, negligente dia a mais.

memorizei todos os trilhos
fiz-me à estrada da mudança
fixei-me Alentejo de sonhos
reincidi respirei reacendi
pousei a mala e a espada
e tomei a vila por fora dos olhos meios.

e vi poente o sol aceso
noite em luar lavado de escuridão
céu picotado de branco na luz que retorna ao peito
e encantamento tímido tacteando entre as ameias.
Madredeus no convento, bar, capitéis e gin tónico,
cantar dos anjos sitiando o ouvido, e tardes novas sem guarda,
um conforto milenar de sinos, roubando ao silêncio o eco da planície.
por um, e apenas um, inocente dia a mais.

então, sou hoje a cidade. de vez, a cidade. de uma certa vez que não arde.
e nos olhos que eram meios, passam em fuga lampejos
de uma escuridão em marcha.
cedo me farei noite:
vesti-me de continuar
por um, somente um, estático momento, esse indolor dia mais.

que vai longe um tempo outro
do nome teu que me gravei
a ferro e fogo, num lugar de adeus.
da letra o rito
na cerimónia do fim, sem paramentos.
e em gótico solene
a carta lavrada em poema exangue,
esse, sim, em que me despedi.

talvez sonhando-te apenas
quem sabe
numa paz certa e branca de pássaros,
estes meus olhos meios rasguem o inteiro do vento
e o andarilho que sou, fugitivo que me vence, neles se mire enfim
por um só, aventurado dia a menos...


Ana Vassalo
20-Fevereiro-2012 – 16:55

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

UM SORRISO NA ESTRADA




FLY HIGH, FREE BIRD
by
Robert Harmon

[Porque há pessoas que passam por nós e sentimos que não podemos deixar que permaneçam anónimas. Esta é uma homenagem a alguém muito especial que conheci e que gostava ficasse na memória de pelo menos alguns de nós.
E hoje, estaríamos a brindar... Cheers, Marco! Até já, Amiguinho.]








UM SORRISO NA ESTRADA

O Marco... Como recordar um pássaro de asa quebrada, perdido e cheio de frio, que continua a voar? De coração grande e frágil a bater fora do peito, para não ter de aterrar?

Trinta e dois anos de inocência, às vezes bem camuflada pela necessidade de manipulação, arma para a sobrevivência.

Um sorriso feliz de menino para a vida, a cada dia... Um som de assobio, e os cães em desatino, a festa a rebentar, o amor alegremente correspondido. E agora o sorriso mais largo, beijo e abraço, com o familiar “olá, mãe...”

– Não me chame mãe! Que coisa! O Marco tem mãe, então?... - e lá vinha a resposta em sorriso largo, primeiro de volta na ponta, já depois rendido à natureza ingénua.

Quase 3 natais em comum...

Vivia ali, por um qualquer lugar abandonado do Bairro 6 de Maio, até ser assaltado, sabe-se lá por quem em busca de quê. Com os vidros partidos e o indiferente frio de um inverno a rigor, há que procurar novo abrigo, e sai Venda Nova em sorte, um outro lugar perdido, cadeado na porta improvisada e... muitas histórias. Contos do polícia que é amigo e lhe vai protegendo a morada, do exército de aliados que consegue reunir em menos de um sopro para me defender, se necessário for. Seria?... Nunca me interessou: o que era para lá disso tudo, o coração perfeito e ingénuo chegava-me. Era criança, na verdade e na mentira.

Pais? Tinha, sim. Mas a história era inenarrável e ou muito me engano ou era verdadeira. De uma maneira ou de outra, resta para a realidade que fora expulso.

Às vezes, tinha prendas para me dar, e chegava-me a cantarolar, com livros, ou bolachas, um sumo... “Onde é que arranjou isso, Marco? Eu não quero nada, obrigada!”, “Ofereceram-me! É para si!”. Sempre desconfiei que de vez em quando iria a casa, talvez em busca de realojamento, e que o insucesso o faria trazer consigo umas coisas “emprestadas”. O Marco precisava de partilhar, precisava muito de dar o que não tinha, conseguido de mão estendida, à porta do Colombo. Educado e simpático, agarrava toda a gente e zás, conquistava!

Ao hospital levei-o umas quantas vezes, por causa das misturas – metadona e... recaída. Tudo somado, hematomas gigantes, feridas feias, pernas imobilizadas, canadianas, mas... Liberdade, que és minha, não me fujas!, e não parava em lado nenhum.

Ao fim de 2 anos de o massacrar, consegui: a reabilitação, por fim. Chega-me com o seu mais bonito sorriso, impecavelmente limpo, como sempre – até nisso era diferente – de eterna mochilinha às costas, e telemóvel em riste!

– Mãe! Agora vou mesmo! Já tenho telemóvel, deram-me! Vêm-me buscar amanhã. Dê-me aí o seu número, quero-lhe ligar todos os dias!

Gargalhada estrondosa, a minha, já se vê. Sabia que uma vez longe, teria muito mais em que pensar, certo e sabido. Mas lá trocámos os respectivos números e fomos beber o café do costume.

Depois, jantar lá em casa, para a despedida: hamburgers – que adorava – com arroz de ervilhas e cenoura, e batatas fritas de pacote, o sumo, café no fim. Existe algo de mais banal? Não creio. Mas no fim chorava sempre, abraçado a mim, por ter uma refeição quente e uma amiga, a única, segundo repetia (“só a tenho a si, não me pode abandonar, só a tenho a si...”). Taili e Bobby, esses, em desenfreado exercício de saltos e abano de cauda, entregues à mais insana alegria porque havia Marco no horizonte.

E lá foi, o Marco, no dia seguinte. Não telefonou, naturalmente. Conjecturei dias a fio sobre como estaria a dar-se com a dureza da recuperação. Passeava os cães e lembrava-me dele, porque era sempre essa a hora de o encontrar. Como seriam os companheiros? E os trabalhos, seriam muito duros? Aguentar-se-ia sem furar o esquema? Teria acesso à coisa, lá dentro?

Assobio... Cães em arranque alucinado, eu a reboque. É claro, o Marco tinha voltado. Ao fim de uns dias, já se vê... E com ele, também uma história, muito comprida, que deixei de ouvir lá por alturas do meio. Uma pergunta só: quando regressaria? No dia seguinte! Tinham-no deixado ficar um dia por cá e viriam buscá-lo no dia seguinte, já que voltavam a Lisboa. Pareceu-me razoável mas, por qualquer motivo desconhecido, o coração não acreditou. E ficou pequenino.

Mais umas duas semanas sem o encontrar e, de repente, lá estava. Mas agora de barba de muitos dias, ainda limpo, a face muito mais magra e... canadianas. Perdera a última morada. E precisava, de novo, que o levasse ao hospital. Zanguei-me, barafustei, chamei-lhe mentiroso. E levei-o ao hospital. Deixei-o à porta, assegurei-lhe o regresso de táxi e acenei-lhe, vinha-me embora. Olhou para mim, e expliquei-lhe: “não quero vê-lo morrer... e o Marco não faz nada para que isso não aconteça”.

-- Eu sou assim, eu sei, mas não consigo estar preso! Tive que me vir embora.
-- E o resto, Marco, como se resolve o resto?
-- Não sou capaz, sou fraco, eu sei...

Era esta a sua resposta, na maior candura, sempre que me zangava com ele...

Voltei a vê-lo, é claro, algumas vezes mais e sempre em acelerada degradação. Não conseguia afastar-me, por mais que tentasse...

E um dia dei por mim a pensar que há muito não via o Marco ... Talvez um mês, talvez menos, mas algo por aí - sempre me perdi no tempo. Melhor assim, pensei, não tenho de o ver partir, mais um, que ninguém pode ajudar...

Manhã clara e brilhante, mentirosa, de há dois meses. As meninas da loja ao lado a correr para mim e a perguntar em grande excitação se sabia se tinha sido ele ou não. “De quê?” - consegui por fim dizer, a pairar, gaguejando, e sem apanhar muito bem a conversa. “Não sabemos, mas o outro rapaz que costuma passar aí disse-nos, só não sabemos se foi ele ou o outro amigo que também costuma andar a pedir. Mas... educado, de mochila às costas e sempre muito limpo, deve ser ele... Pensámos que a senhora soubesse...”

Encostei-me à parede e cedi. Naquele momento eu soube que tinha sido ele. Não sei porquê, mas a certeza instalou-se. Corri para casa e iniciei uma ronda frenética de telefonemas pelos hospitais da área, cobri todas as hipóteses: pelo nome, pela idade, como sem-abrigo, como anónimo; com as recepções, com os gabinetes de polícia dos hospitais. Nada. Nem rasto. Mas eu não parava de chorar e isso dizia-me que tinha sido ele.

E o tempo foi passando, sem que o Marco me saísse do espírito, por um só dia. Há cerca de um mês, um outro jovem sem-abrigo com quem costumo falar confirmou. “Foi o Marquinho, sim. Com uma pneumonia. Foi ao hospital, ficou internado, mas fugiu e acabou por não resistir.”

Quase 3 natais em comum. De tupperware à porta de minha casa, antes de partir para a minha filha, a comermos rissóis e azevias para celebrar em conjunto, e depois lá ia ele, com o resto do repasto muito bem agarrado, assobiando, contente.

“Eu não consigo estar preso, Ana... Precisava, eu sei, para me curar... Mas não sou capaz, não sou mesmo, preciso do ar livre, de ser dono de mim...”

...

Porque ainda que as situações sejam idênticas, não somos todos iguais. Não é o que fazemos que nos define. É aquilo que SOMOS que nos diferencia.

Marco P. F. Anes, 1979 - 2011... Sorrindo a estrada, sem amanhã.


av.

posted on facebook 


14-01-2012 – 13:59
Imagem: Google.