NETOS

NETOS

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

REMARKABLE PEOPLE



FERNANDO PESSOA

(Lisboa, 1888 - 1935, Lisboa)


"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


************
"I am nothing.
I will never be anything.
I cannot want to be anything.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."

or...

"I am not nothing.
I will never be nothing.
I cannot want to be nothing.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."


(Álvaro de Campos in "Tabacaria")




LISBOA - Chiado

LISBOA - Chiado
"Fernando Pessoa" by Lagoa Henriques. The place: "Café A Brasileira" (Brazilian Café) - 1905.

PLAYLIST TODAY




MUSIC IS THE PASSION REPORT



♥ ♥ ♥


PLAYING SOFTLY WHILE SOMEONE SANG THE BLUES



Saturday, Jul 22, 2017 - 17:57





SALVADOR SOBRAL - NEM EU [DORIVAL CAYMMI]



YouTube – "Salvador Sobral"





ANTONY HEGARTY + LEONARD COHEN - IF IT BE YOUR WILL [COHEN]



YouTube – "Oggmonster"





CHAN MARSHALL (CAT POWER) - I'VE BEEN LOVING YOU TOO LONG [OTIS REDDING]



YouTube – "anaruido"





JANIS JOPLIN - ME & BOBBY MCGEE [CHRIS CHRISTOPHERSON]



YouTube – "ThE DuCk"





JEFF BUCKLEY - LILAC WINE [JAMES SHELTON]



YouTube – " roberta panzeri"





DAVID BOWIE - WILD IS THE WIND [JOHNNY MATHIS]



YouTube – "Peter Music HD"







_____________________


LEANING INTO THE AFTERNOONS by PABLO NERUDA

«Inclinado en las Tardes»



YouTube - "FourSeasons Productions"






CHANGING BATTERIES - OSCAR WINNING ANIMATED SHORT FILM



YouTube - "Bzzz Day"





DIALA BRISLY - A BEAUTIFUL YOUNG LADY

(a huge thanks to my daughter who e-mailed this video to me)



BBC Newsnight

«Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman - artist Diala Brisly - who is trying to make life that little bit more bearable for Syria's kids.»

Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman -...

Publicado por BBC Newsnight em Domingo, 20 de Março de 2016






A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT

A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT



FLYING A SECRET



I got here to hide. From equations and patterns. From repetition, after all.
Closed the door and got me a special place where I thought I could
somehow sit close to the stars. But I soon found out that the sky was
still opaque, no matter what the steps. And so I left. Again.

I thought, then, I could build me a different ceiling, a new-coloured scrap
of highness. And then make it work. Where I could dream, more than I sleep.
I have long decided that sleeping is overrated - that I know for sure. So I
take that time instead to travel the night alone and in the meantime I allow
myself to fly, unlike stated before... Yes, I like playing with paradox, to
expose the inside of words and the revelation of writing down the voice of a
silence. My adventurous, ever-walking silence.

So I came back. Here, within this quiet world, I intend to gather all my
things usually kept hidden or inactive. They are here to speak.

And since the future is a stand-by secret, I want to live by a precocious
clock, at every running instant of every entering second.

And I will not slow down until my "future exists now" - kind of reverse
quoting Jacob Bronowski.


Ana Vassalo
in my site "CAFEÍNA"(former "No Flying Allowed")
Nov 11, 2010 - 11:54




THE WALK OF TIME

THE WALK OF TIME

sábado, 20 de agosto de 2011

PORTÕES


















DIÁRIO SEM COMPROMISSO

19-Agosto-2011



PORTÕES...

Zezé não vai... ficas em casa. E não se fala mais nisso.

Ele não vai porque não quer, mas eu quero ir, mãe!

Sozinha, nem penses! Vê lá bem isso com ele, que não vais para tão longe sozinha.

Não é longe, é já ao cimo da rua! Zezé está zangado, não vai só para me arreliar, mãezinha... E eu quero ir ver o "Ronco", que há tanto tempo que não há!...

Muito bem... Vê então se consegues convencer o Zezé a vir até aqui, que eu peço-lhe para te levar, está bem assim?

Não! Estamos zangados - ele não iria e, mais que certo, divertir-se-ia por muitas luas a massacrar-me, não podia ser...

Nada feito, querida...

Não percebo, mãezinha, o que é que tem o Zezé ir? Ele é pequeno como eu, porque é que ele tem de ir?

A diferença, minha menina, é que quando ele vai juntam-se sempre os vossos amigos todos, e assim já são um grupo... E além disso, ele é um menino, é diferente.

Porquê?

Porque sim, vá, já chega.

Porque sim, porquê, mãe?

Porque eu disse. Já te expliquei tudo, não queres perceber...

Vou falar com a Vovó Firmina... Pode ser que ela o convença... Pois é... e ela está sempre do meu lado, que ele é um bruto...

É agora um bruto! Então? Que é que aconteceu? Vais-me contar ou não?

Não.

Tu é que sabes...

É o portão...

Que tem o portão? Qual deles?

O nosso.

Nosso?! Nenhum dos portões é nosso, onde é que foste buscar essa ideia? São ambos de todos nós, que nosso?...

NOSSO, sim! Se o outro está do lado dele e ele diz que é dele, este do meu lado é meu!

Bom... Já te disse que não... E como é que vocês se vão zangar por causa dos portões?! Não têm mais nada para fazer? Porque não vão brincar, que é mais útil? A propósito... porque não vais tu brincar? Estás há tanto tempo em casa, coisa mais estranha... Que é que se passa aqui?

É o portão...

Outra vez??? Mas é o portão, como?

Ele não me deixa passar pelo dele, eu prendi o meu. Atei-o. Com cordas...

Como??? E... o "teu"???

E os doces, enormes olhos, que eu conhecia da cor do mel, ficaram de repente pequeninos... e escuros... que eu tambem conhecia, às vezes...

Foi! Prendi-o. Também não passa por lá.

Vai já desatar as cordas do portão, se fazes favor! Imediatamente!

Não posso, mãe... Se eu tiro, ele passa por lá e ganha... e eu não quero...

Não podes? Isso tem muita graça, mesmo! Vais e é já a seguir!

Baixinho, baixinho, falava a minha mãe...

E agora é que não vais mesmo ver o Ronco! Estás de castigo.

Pois é, mãezinha... E ele ganha de todas as maneiras, não é?

Mas tu só podes estar louca, menina! Isto é alguma batalha? Vocês são tão amigos, que é isto agora?

É o portão, mãe...

Jurei a todos os que conhecia e também aos que não, um regimento de santos, que não abriria o portão. Agora já era guerra, sim. Nada de Ronco, nada de portão!

Fui-me enfiar no quarto, o cão atrás de mim, como única companhia autorizada... Pelo menos esse, estava sempre comigo....

E a minha mãe lá se esqueceu da história com portas, de tanta obrigação que tinha ainda por cumprir, nos seus sempre longos dias.

Do mato, chegava o som dos tambores, que às vezes queriam dizer chuva.

A minha mãe saíu, foi lá ao lado, dar uns passinhos de conversa com Vovó... Era a minha oportunidade! Única! Mas estava apenas de calções, sem mais nada vestido. Calção era vestido de criança, por ali... E de chinelas, também (raridade... a sorte estava comigo). O resto da roupa no quarto ao lado, interdito, naquele momento ou arriscava-me a encontros... E eu a ter de ir ver o Ronco, que, depois, sabe-se lá quando voltaria... Era tão lindo!

Caras pintadas de mil cores e desenhos, pulseiras, tantas, nos braços e pernas deles e delas, as tangas com saiotes de fitas que voavam movimentos, o batuque dos tambores, e a dança, a dança... E mais as missangas, tão lindas! Perdia-me por elas, andava sempre toda atada.

E a chuva, já a cair e a bater suavemente nas vidraças - um suavemente muito provisório, já se vê...

Gostava tanto daquela chuva! Chuva também era festa! O calor queimava, ela era sempre bem-vinda, desde que não trouxesse barulho de trovoada, que era assustador, de rebentar os céus...

Quando Zezé, Mindinho, Neti e Zaida estavam por perto, corríamos desenfreados para a rua, larga de palmeiras, cada um armado de lata grande e vazia de fruta, a caminho do único destino que conhecíamos: cantorias, palmas, gritos e mais gritos, e corpo de baile, pois claro! Alinhadíssimos (...), ali, debaixo do dilúvio...

Depois, eram as latas a entrar em acção. Apanhávamos a água que rapidamente se tornara em cascata no bordo do passeio, altíssimo, e vá de as despejar inteirinhas pela cabeça do parceiro... Próxima leva, era mesmo sobre a nossa, própria. E mais tralala e gargalhada! Fugíamos, depois. Era costume. Ultrapassávamos invariavelmente a fronteira autorizada... Era o nome da alegria, assinado por nós, sem dia de descanso.

E agora? Já chovia tanto, e eu de calções... Mas a mãe estava ainda do outro lado. Acabadinha de chegar dos seus trabalhos, a voz da tia Ricardina indicava que ainda me restava um tempinho... Riam muito... Teria a minha mãe mudado de ideias e convencido a Vovó a falar com Zezé?... Devia ser, que ela acabava quase sempre por me perdoar...

Já ouvia os rufos lá em cima, agora do outro lado, vindos da cidade, da praça do palácio do governador – era sempre lá, a festa...

E ouvia agora também o riso da Vovó. Gostava tanto dela, com os seus cabelos de neve sobre a pele castanha de ouro, ali, à tardinha, a cortar manga e coco para os seus ansiados doces caseiros, sentada sob o alpendre, na cadeira de balanço... Sorria para nós, que brincávamos, sujos, na terra, perseguindo pobres lagartixas e minhocas, que a seguir dispúnhamos meticulosamente sobre a cabeça do parceiro mais próximo, por entre as mais despudoradas e sádicas gargalhadas.

Quando subir aos telhados não era possível, por demasiada presença adulta nas imediações, telhados esses que nos serviam de rampa de lançamento para as mangueiras de onde roubávamos as mangas, antes do tempo, verdes ainda, pois claro, para depois comermos cá em baixo, Vovó Firmina era a salvação. Mas trazia preceito agarrado. Tinhamos de formar fila, para que ninguém levasse a melhor sobre os restantes.

E nós, que só a ela obedecíamos, lá ficávamos, ali, todos perfilados ao milímetro, esperando a chamada pelo nosso nome para recebermos um pedacinho de coco e outro de manga, cada um, e depois juntarmos num pratinho de onde comíamos em partilha, sentados no chão, em rodinha.

Não era assim tão importante, o repasto. O ritual, sim. Aquela filinha em frente da Vovó, sei-o hoje, era a nossa homenagem de ternura ao seu coração... Era linda, na sua idade, nunca levantava a voz, o sorriso mais bonito pertencia-lhe e oferecia-nos tudo o que nos lembrávamos de inventar. Apenas exigia ordem, porque éramos muitos. À parte isso, ia buscar o céu, se lho pedíssemos...

Decidi. A voz da mãe estava cada vez mais perto, já voltava para casa. Calcei as chinelas à pressa, coisa que já sabemos postiça por ali, no mundo mais pequeno, mas às vezes necessária, enfim, e saí de casa pela porta do outro lado, para não esbarrar com a autoridade.

Saltei o muro, que portão era mentira, de tão atado que estava, e corri para a rua de cima, onde morava o outro portão, mas não vi Zezé... Tinha de estar mesmo zangado, para estar enfiado em casa... Paciência.

Fui caminhando, subindo e subindo, rua afora, compenetrada da minha missão. E de súbito, um toque no ombro... Um amigo, colega do meu pai, fardadíssimo.

Pergunta: que faz a menina aqui???

Resposta: vou ver o Ronco! (sorriso rasgado número um...)

Tu vais o quê??? Mas está a chover, estás de calções... Mas então?! E a tua mãe, sabe?

Sim sim. Mas está em casa... (!...)

Ai!... Vamos lá para casa, vem comigo, que eu levo-te.

Não! Não é preciso – sorriso amarelo número três – a mãe sabe e deixou-me vir – amarelo e desfocado...

E de seguida, sim, esbafori-me sem aviso, rua acima.

Por fim, lá cheguei. Num ápice, infiltrei-me na multidão, não fosse o diabo tecê-las...

E os meus olhos sempre assim, abertos em desmesura, de passeio por aquele espectáculo, ancorada em absoluto fascínio.

Segue-se, então, que lá vi tudo, dancei tudo, berrei ainda mais, pulei e cantei. Desalmadamente, sublinho.

E chorava a lagrimita da ordem, sempre. Também. Pela magnitude do que via. A vida era dali, com residência fixa. Disso, é claro que eu nada sabia. Mas sentia. Mais do que suficiente, portanto.

Depois acabou-se, e já a multidão dispersava. Eram horas de voltar, o final da graça chegara ao mesmo tempo – não era bom o que me esperava... Mas jamais trocaria aquilo pela paz! Nada era mais importante que o Ronco!

Comecei a descer a rua... De repente, um painel ambulante de caras conhecidas... Pois era, com aquilo é que eu não me lembrara de contar. Por ali, a solidariedade tinha nome próprio: a cidade, quase em peso, ia subindo, subindo, enquanto eu descia... Onde ia? A lado nenhum, de especial; estavam, tão somente, coisa pouca, à minha procura...

Ocorreu-me a fuga, mas lembrei-me a tempo que não tinha para onde – tudo conhecido, tudo amigo, zero de esconderijo. De resto, sabia bem que quanto mais fugia, pior era o que sobrava, depois. Para mim, certo.

Rendi-me. E juntei-me a eles. A mãe, sibilante: em casa falamos, menina...

Queria lá saber! A festa, já ninguém ma tirava...

Achava eu, claro. Leviandades de criança... Não querer saber era uma conclusão muito subjectiva e apressada. Quase, quase a chegar a casa, ao virar da esquina, o meu pai... Que estava de serviço e tinha, visivelmente, de lá sido arrancado. Ele e o tal do amigo, à tiracolo...

E agora sim, a coisa estava assustadora. Enfim. Lá fomos todos para casa, cada um à sua, que a romaria era finda.

Zezé, já no quintal, viu-me passar e acenou tristemente. Sabia o que me esperava: castigo de muitos dias. E desta vez, também a palmada a marcar bem a importância do seu ponto de vista unilateral. Inevitavelmente.

É que lá do fundo do meu encanto festeiro, eu não acordara o suficiente para o mundo a sério para perceber que entretanto ficara completamente encharcada, da cabeça aos pés, mascarada de pinto descalço em calções. Pois. Que quando me encontraram, já aquela coisa das havaianas ia longe - naturalmente a mais, para dançar.

O final feliz?

É que durante o exílio dos quintais, Zezé e eu descobrimos de novo a paz!

E, naturalmente, soltámos os prisioneiros.

Ana Vassalo

19-08-2011 – 23:25

Origem das Imagem: "Dead Sand" (globalpost.com)

sábado, 6 de agosto de 2011

EM DIFERIDO, GUITARRAS...




DIÁRIO SEM COMPROMISSO



5 de Agosto de 2011



(A propósito de uma memória: Mário G.)




























EM DIFERIDO, GUITARRAS...


Lembro-me daqueles dias de regaço em que chegavas com olhos presos de estrelas e o futuro se apressava.

Sentávamo-nos então ali, do outro lado dos muros e as mãos enredavam-se num só gesto.

Eu, cantava. Trazia palavras de amanhãs sem lei no caderno que tu me roubavas, sorrindo, e dizias pertencer-te.

O canto era de inocência, que criticavas, mas, no fundo, revias-te no meu abraço de menina.

Eu afrontava os lobos com a esperança dos palácios e todos os finais eram meus num lugar de ser feliz.

E depois construia mundos. Onde passeava de braço dado com a justiça, e o pão brotava da terra no momento de ter fome.

Tu agarravas a guitarra e dizias estar na hora de vestir as coisas, as palavras sem eco que acabaras de me tirar.

Não havia horas, o relógio sentava-se em descanso lá à ponta dos segredos e adormecia sossegado.

E nos momentos mais graves, em que falar era urgente, a música apressava-se de obrigações e comparecia certa na esquina de sermos nós a verdade.

“If you were a carpenter
 and I were a lady,
 would you marry me anyway,
 would you have my baby?”,

entoava eu num timbre espécie de Baez mais velha e mais rouca, e tu respondias com um solo desgarrado na guitarra solta de paixão. Depois chegava Hendrix e "Hey Joe", e instalava-se a insanidade.

Chamavas-me... “my pretty american hippie”, só por causa daquele fiozinho de couro em volta da minha testa, que me segurava os cabelos sem freio e mantinha as ideias no sítio, de tão estranhas que eram todas.

Em breve, saída do nevoeiro que era a minha ausência quase permanente, a multidão pousava por ali, os novos e os velhos de olhos arregalados, num ano de ‘72 desafiado, ali, a largar o tédio... E ficavam, iam ficando; o metro lá em baixo a reclamar por audiência e eles ali, já sorrindo, ainda que a cabeça lá fosse abanando de conveniente desaprovação.

No primeiro dia, foi estranho. Eu divertia-me, e para mim tudo não passava de um cantinho de vida onde era possível brincar; depois do nosso “carpinteiro” ir à sua lida, arrancava eu com o homem do meu contentamento, Taylor de seu nome, e cantava o ombro eterno que se oferece ao amigo, “and you know wherever I am”, num estilo bem distante da fonte, quando, sem que eu entendesse de razões, cai uma moeda no estojo da guitarra; e depois outra, e ainda outra, e a malta ali, sem arredar pé, num ir ficando de silêncios procurados no espaço aberto que a música encontrava para todos nós.

(E lá me explicaste, enfim, que era muito normal, o gesto das moedas. E lá acreditei, enfim, porque duvidar de ti era uma história por contar.)

Piscavas-me o olho e mudavas de tema. E era chegado o vento, a soprar respostas. Já a malta se abanava...

“The answer, my friend,
 is blowing in the wind”,

mas os teus olhos eram sempre meus, num vôo sem regresso, que gostávamos de ensaiar.

E no final, como que de surpresa e aproveitando aquele mar de gente ali, lá íamos os dois, tão felizes de missão quase cumprida, “buscar” a Natália e o Zé Mário, no sorriso escondido que trocávamos, de quem se pergunta se a mensagem chegaria :

"dão-nos um bolo que é a história
 da nossa história sem enredo
 e não nos soa na memória
 outra palavra para o medo...”

...

Um dia, foste de férias.

Eu, fiquei perdida no mundo, sem ombro, ou guitarra... e de caderno já mudo. Embranqueceu... Lembrava-te, morrendo de esperar: tão bonito, tão sem limites, o cabelo enorme, óculos na ponta displicente do nariz, o apelo da idade algo distante da minha, os livros proibidos a que me apresentavas, o mundo que conquistavas para mim. Mais ele, o teu sorriso feito de luz quando entrava nos meus olhos.

Temerário, sem vestígio de medo, tudo me ensinaste da coragem.

E então não resisti, de esperar. E parti, para um destino na memória de nunca mais te encontrar.

Voltaste, uns meses depois.

Vinhas dar-me a mão, mas eu já não a tinha, a de sempre, que foi tua pelos sonhos. Tinha um outro par, sem poemas, velho de pardo, sem afagos, como as ausências.

Disse-te adeus, sem que nem mesmo o teu olhar parado e sem cor me tocasse.

E lá segui cantando, não por muito tempo, com guitarras outras, amigas. Os meus poemas, que escrevia de aventura, haviam ficado, para sempre, irremediavelmente presos a ti, que me conheceste antes do tempo pesar.

É que foi ali, nesse instante fora de mim em que não soube o teu olhar, que eu entendi que seria sempre assim.

Os anos vieram, e partiram. Chegam, e logo voam. Nada me acrescentam, porque não estou presente, para os receber.

Vou em viagem, algures, por onde o resto de frio, dos ventos mais que não cantámos, jamais me reconheça.

E o amigo que tinhas, e eu também, esqueceu tudo sobre nós. De caminho, apaguei também tudo sobre mim, ainda que fosse inventando na jornada novos votos de ficar, na saúde e na doença. Mas nunca esperei pelo trabalho da morte, demasiado eterna para verdadeira...

...

E sempre que a música me quer, eis que o meu canto regressa, gritando uma saudade de abismos.

Sou feliz, a cada instante de cada nota recuperada. Começo e acabo com a mesma carícia demorada de quem volta à casa há muito abandonada. A multidão está lá, como dantes foi, saída do nevoeiro que é agora só meu e me abriga de cansaços.

E ao soar do último acorde, lá vou, disparada pelas frestas de um desprendimento acarinhado.

Ao longe, os aplausos que se demoram, trazem-me vagamente à ideia uma fitinha de couro, que se desprendeu.

E tu, que me deixaste só quando eu precisava de mundo, surges-me em formato de remorso neste meu tempo que ainda não se cansou de fugir.

Mas gostei de ti. E sei que o sabes ainda hoje.
Apenas, nunca aprendi a amar sem asas de partir.

E é só por isso que não te peço desculpa.


Ana Vassalo
06-Ago-2011 – 00:06

Origem das Imagens: Google.

terça-feira, 26 de julho de 2011

MAR ACORDADO















mar acordado

sonho é estrada mais à frente
regaço, futuro da gente
mais dia a contar do fim

é água de refrescar
em busca da voz do mar
numa onda de marfim

e é mais céu na ternura
é asa livre do tempo
viaja a flor da lonjura
num andar de gosto lento


venho aqui chego saudade
rosa do vento lunar
maré da vontade solta

e é só minha a verdade
de um sonho com mar de volta
num abraço de luar...

Ana Vassalo
07-Mai-2011 - 23:06
Origem das Imagens: Google, site original inactivo.

A PROPÓSITO DE MEDO E DEMOCRACIA


BORN FREE...
I WAS INDEED
BUT MORE IMPORTANT
IS TO DIE FREE.
I WILL!
MY MIND WILL ALWAYS BE MINE.








A PROPÓSITO DE MEDO E DEMOCRACIA
(DE LEITURA CONVENIENTE *APENAS* AOS VICIADOS NA
LIBERDADE)






Numa altura em que, em molho e à velocidade da luz, surgem por aqui mil e um Eventos a participar e Causas a defender, de cuja utilidade efectiva e bem intencionada se salva a interessante quantidade de uma boa meia dúzia - sou optimista ;) - apetece-me, então, e com igual legitimidade, falar sobre Intervenção e Colectivo. Sobre Democracia. E Medo.

Ontem foi um dia agitado, pelas melhores razões - que derivaram das piores - em que alguns de nós se juntaram aqui para debater a última moda desta "coloquial" network: borracha, lápis azul, tecla DEL... CENSURA, SIM! Essa mesma, a dita!, por via de dedos céleres ao serviço de cérebros bastante menos que os dedos, é um facto, mas aí! E cada vez mais activa, verdade, atarefadíssima!

O medo é uma solução perversa, uma noite imensa. O medo, creio-o com convicção e desde muito cedo, não colhe nem acrescenta: submete e paralisa. Inventa o escravo, e valida-o... Não sou fã, temos pena.

Aos projectos de Censores desta rede, espalhados por aí em Grupos, Causas e outras Páginas públicas, tantas de conteúdo ideológico específico, que se entretêm a apagar entradas desconfortáveis, expressões de desacordo de terceiros - objecto de aceso e grato debate ontem, algures neste meu círculo de amigos - eu costumo responder tal como fiz em 1973, aos 16 anos: CANTANDO!

Fechada compulsivamente e ordenada ao silêncio - corriam rumores de uma manifestação à porta do Liceu, da parte da tarde - eu e, está bom de ver, mais umas centenas, já que decorria o intervalo "grande" (20minutos), na enorme Sala de Convívio do D. Pedro V, e vinda das cantorias, com o "homem da guitarra" ao lado a segredar-me "ninguém disse nada sobre cantar" ;), levantamo-nos, ele e eu devidamente sincronizados por um olhar cúmplice, e quando, aos primeiros acordes da guitarra, ele dá vida e som ao objectivo, eu reconheço-o e arranco a cantar "LIVRE", de Manuel Freire... Ao mesmo tempo que, desde o outro lado da sala, disparado em alvoroço, se precipita para nós o zeloso e habitual "fiscal" de serviço - quem não o lembra?

Mas as surpresas existem, e a restante massa estudantil, em grande maioria habitualmente indiferente - salvo uns quantos activistas do MAESL (movimento onde nunca me filiei, porque já então era Independente e Livre, mas com quem frequentemente colaborei e me misturava para a "confusão"), os tais dos muitos q tudo arriscavam por todos nós - inesperada e progressivamente começa a levantar-se e, um a um, vai juntando a sua voz! Em 73, quando o preço a pagar era excessivamente caro... Mas a questão é que, de repente, não havia como identificar os "subversivos". Porque agora... já eram TODOS!

Um dia, talvez, acredito eu com esperança militante, todos perceberemos a importância de assumir um NÃO que é devido no momento certo, da UNIÃO para a justiça, da força do Colectivo pela razão do que é justo. E então, só então, o Medo será neutralizado.

Até lá, vamo-nos contentando com arremedos de Democracia - numa altura em que os potenciais Empregadores já não dispensam uma consulta aos nossos perfis no facebook, só para tirar dúvidas "et à cause des mouches" :) - porque pior que uma realidade fria só mesmo a morte da ilusão, pois.

Por aqui, canto e cantarei sempre, porque a memória está viva. A quem interessar, fica o tema, letra e vídeo.
http://www.youtube.com/watch?v​=5-8hARztZ2w

"LIVRE

(Poema de Carlos de Oliveira

por Manuel Freire, música e voz)


Não há machado que corte

a raiz ao pensamento,

não há morte para o vento

não há morte!

Se ao morrer o coração

morresse a luz que lhe é querida

sem razão seria a vida,

sem razão...

Nada apaga a luz que vive

no amor do pensamento

porque é LIVRE COMO O VENTO,

PORQUE É LIVRE!"

---

"O Homem da Guitarra" - já identificado na nota do facebook, com a respectiva autorização, dá pelo nome de JOSÉ MANUEL PAIVA SANTOS, meu colega de Liceu e companheiro de cantos, subversivos e outros mas todos de bom-gosto ;), e por fim, não menos importante, de aventuras políticas, sim. Tem perfil no facebook e escreve divinamente.
 

Ana Vassalo
25-Jul-2011 - 13:05

posted on July 25-2001 - 13:19
in facebook
Origem das Imagens: Google.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

AO CONSENSO, PORTAS COM ESTRONDO! ou "GIMME A BREAK"? ou FARTA-DESSA-"TRAMPA"-DA-POESIA-DE-PASSARINHOS-ARMADA-AOS-CUCOS!!!






































Ao Consenso, Portas com Estrondo!

ou

"GIMME A BREAK"?

ou

Farta-dessa-"Trampa"-da-poesia-de-Passarinhos-armada-aos-cucos!!!


(É sempre de fino tom conceder ao vernáculo
visível distinção, digo eu.)


(IRRITADA, SIM, E ENTÃO? HUM?)




a tralha a tralha
intelectualidade na malha
aferição dos acertos
a porta a ranger ferrugem
bafio morto de velho
morfologia em formol

a fila a fila
no vazio da ideia
palavra farta de usada
estatística e tribunal
toga bíblia e audiência
ai de ti, já te condenam!

o pó o pó
confortado de certezas
TÃO antigas!...
regra notário alfabeto
do pensamento indigente
a desfilar de lamé

não não!
que o verbo já se casou
e o contrato é vitalício
de respeito, que é bonito
- e pé ante pé se edifica
o sossego dos consensos

ah mas então e a agonia
o tropeço do empurrão
a chacina e a fadiga?
morreram.
todos por falta de uso
no epitáfio dos contentes

oh voz das alturas
teorias do sorriso
filosofias circenses!,
onde estão onde se ocultam
os ventos do frio sul
no inverno que vos falha?
...

era uma vez um passarinho-inho
diligente em obra feita:
um ninho de penas doces
num chilrear de manhãs
plenas de substantivos
a soletrar o conselho

oh alegria alegria
de pios a bateria!
cantou cantou e cantou
- que se achava necessário
didacta, nova ‘paedeia’
- e caramba!, já se cansa uma pessoa.

olá olá alma passeriforme
com tiques de trato ursídeo
e resistência dromedária!
- e aqui se impõe uma pausa
para a “explicação dos pássaros”
suicidados de bossas

qual quê!, a rima não se intuía
e a métrica diz que sofria
(e ambas as falhas minhas!)
um tiro!, e o ar a voar de penas
desastradas assustadas
e também coitadas sim!
que já se escoam p’las fossas...

hã? sentido das coisas quê?...
ora essa! está bem
que a natureza acorda
bucolismos certificados
mas... e a fartança de tédio
do encanto passarídeo?
pam.

AH!
mas que não tombem os ídolos
e o escadote
e o céu pintado!
- sonham e miram-se de pé,
morrem de génio deitado.

Ana Vassalo


11-Mai-2011 – 14:27

Origem das Imagens: Google.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

PALAVRAR





palavrar



poesia é alma solta
é garra, carícia na arte
na asa que vai não volta


é livre no arremesso
a marca de cada começo
lançado ao vento que parte


Ana Vassalo
in facebook
18-Jul-2011 - 00:56

Origem das Imagens: Google, autor desconhecido.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

PERFUME








Winslow Homer,
“Girl and Daisies”,
1878











Perfume

Ali ao lado, num mundo cristalizado, os meus dedos frios de páginas lidas, resta o sabor do papel que grita um silêncio amigo.
O apelo de finais recomeçados, as estátuas de vida nos públicos jardins de uma alma suspensa num intervalo sem termo.
Tenho esse papel, com cheiro a novo e um caminho feito de branco, adiante, sem sinais. E no passeio do olhar sem foco, encontro o mais fundo campo da imagem de mim, sem retoque digital.
Estende-se, palpa. Enxerga.
Guardo este tanto de palavras que me falam, asa de um tempo de refúgio numa certa imensidão que escondo e me vive a espaços breves.
O suor do rosto que não cansa o sol dos trópicos escorre a vontade de outros paralelos que deixei na margem de um equador desertado.
Há gestos de flor nas mãos que agarram a caneta. Há acenos de poesia no final da tarde branda. Há este ser eu que se procura, e se perde no que abandona.
Ali ao lado, num passo de fuga em marcha, corro o instinto que as pedras tolhiam de descoberta.
E viajo-me por dentro, no infinito da mente, que só se agarra quando solto.
Liberdade... este meio tempo de ausência, onde os futuros se acalmam num fluxo de ideias largas. A mão no peito, ao toque de um pulsar disperso, informa que há uma vida além do prazo, numa outra rua sem ter lado.
Olho-me então, desfocada e informe na imagem que projecto, atrás de mim, num espelho de me ver assim. São pontos, milhões de pontos impessoais de uma geometria sem espaço, desformatada de plano.
Da janela do meu carro, os olhos meus postos longe recriam para mim esse outro modo de ser, que o rádio vai confirmando no som grato de Abrunhosa.
“Se eu fosse um dia o teu olhar... e tu perfume de ninguém”... a nota do tom que harmoniza as partes, o traço independente no apuramento da essência final. A “griffe” do inaculturável que me me compõe e evolo pelas frestas de uma indiferença perseguida.
E se há palavras que me sobrevivem, paira a minha alma sobre o branco de um caminho por escrever.
Mas agora, nesta paragem de mim, são horas de Laudes, na minha liturgia de encantos.
E é esta a minha oração.
De ficar, sem repouso e para sempre, presa num lugar da memória que me conhece, e me subscreve Livre.

Vai ali um céu aberto, alentejano de Maio, com raios pintados de margarida. E o prado, alheio aos ciclos de uma certitude implacável, impõe-se de verde e viço, a cama mãe, desvelo e protecção, que hoje me acolhe em palavra.
Depois, depois será uma outra coisa, sem rasto nem nome, ou rasgo de ventania.
Que agora não cabe neste olhar de ser perfume.

Ana Vassalo
27-Maio-2011 – 01:52

Origem das Imagens: Google.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

TEXTURA AMORFA




































DIÁRIO SEM COMPROMISSO


22-Maio-2011



TEXTURA AMORFA


Afinal não há infinito. Li eu, num compêndio de certezas. Há o abismo, e há conflito, e o lado mesmo das pontes aqui, um nunca acabar dos iguais, a volta feita chegada, o acerto do procurado, a distância de qualquer meta, os sonhos feitos de sono. E mora tudo aqui, já tão perto, numa porta escancarada de paredes.
Parece que sim, confirma-se que a terra é redonda, por mais que nos confirme também o tédio. Já me tinham dito, no cruzamento de todas as águas que quis beber: subiam, ao invés de descer, não para a foz, antes para a vida. Mas era óptica, mera jornada de ver, onde a ilusão ordena. Essa tal incongruente física, de imagens virtuais, invertidas, a mostrar que o mundo mente.
Este meu, aqui guardado, com ousadias de origem, diz-me que está, sim, tudo aqui, no caos da palavra agora. E estou eu, vestígio de navegante, que pensei a vontade indómita numa vaga além do Tempo, a criar lugares sem espaço, irreverentes de afirmação.
Seria eu, então, o vector ausência na Lei Causal, por não saber coisas de Sempre. Contínua e paralela, de algo por descobrir, da realidade em trânsito. Eu recta. Como quem diz avanço, sem fim ou destino, marcando o lugar a cada passo intentado, testemunho de andamento. O rasto de continuar, no caminho que teria um nome, e saberia que fui eu, sem lugar, a cada lugar.
Mas não, não há infinito. Apenas um resto de mar, paisagem e fotografia. Às mãos do mundo, portanto - nada de meu.
Podia eu ter inventado um futuro. Feito de mim, do que pergunto e do que reconheço, marca de mim sem refúgios - do tanto que me quero só, e não sei porque preciso. E assim pensando, podia ter sido raiz. Da palavra a clamar por voz – ou por vós. Do grito que rasga a garganta para não mais ser ferida em processo. Da música por saber, soando o que a alma arrisca desde que sabe quem é.
E afirmação, também, não fosse esta residente negação da legitimidade de ser. Que não me valida. Porque não me construo. Sou lava, sem noção de gravidade. Ardo no tecto a vida em chamas, arrasto de libertação, e por lá me consumo, sem o alívio de ter chão.
Porque não há infinito.
E o que persigo sem trégua, e me levaria além-montes, estagna na base, onde cresce a certeza Outra, sem gavinhas. Permanece. E não escala o lado oculto, que toma por conhecido. Não há coerência nos lugares de pensar, não há quorum - incentivo, muito menos. Mas há compêndios.
E é na sua lógica de certezas que me sento, com lugar. Porquê paragem? Porquê corrida? Porquê mais porquê?
Se o infinito dançasse saberia que não há ritmo. Que os tambores estão para sempre calados. Que do outro lado, o mato, só já chega a parca imitação dos sons que a alma saberia improvisar. Nem guerra, nem “ronco”(1), nem paz.
Tudo se arruma num lugar de conforto útil. Onde o dia já não sofra da resposta que não chega. E a dúvida se aquiete. Onde a ferida saiba a cura.
E onde não dói, não resiste infinito. O tempo morre sem lado.
E eu, adormeço arrumada. Sem ritmo. Sem tambores. Ou poesia.
E não, não há exclamações, dúvida pontuada, ou sugestão interrompida, neste texto. Há somente a textura amorfa dos tempos que sabem lugar.


Ana Vassalo
22-05-2011 – 23:17

Origem das Imagens: site "Microscopy-uk.org".

(1) "Ronco" palavra crioula para significar a festa, em toda a sua envolvência, desde a música, a dança e o canto, aos enfeites, acessórios, as pinturas no corpo, etc.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

DORME SEARA, DORME...


"Cornfield Sunset", unknown author.



Dorme Seara, Dorme...


Talvez eu seja apenas o pão, sem o mel das manhãs
ganhas. O restolho na deriva de um estio por
acabar.
Talvez eu durma de véspera os sonhos que me
esqueci de apontar, ou seja a fuga planeada de cada
momento sem sal.
Ou talvez um dia, os barcos no fim do mar se reunam
pela paz e assinem mais horizonte.
Sei donde venho.
Sou daqui, deste lado do amanhã que tem pressa de
ser ontem.
Saio ao render das horas, quando o sol agita os
dias na linha da alvorada.
Volto depois, sento-me aqui, no entardecer dos
sinos, em busca de mais planície. O olhar estende-se
largo, o mundo ganha contorno - o mais das vezes
sem foco.
Atrás de mim, a velha e suave igreja persiste em
clausura, portas do fim mesmo ao lado.
Não há preces. Somente o silvo brando dos segredos.
E o silêncio sopra um conto milenar, guardado na
caixa das horas, rasgado ao bater das cinco.
Viajo o céu, aguarela em marcha num traço de chuva
em branco, que há-de ser água de encontros. E eu
vou com o despontar das noites.
Sou eu a noite. E trago velas, meia-luz da descoberta
no prazer de andar mais Vida. Talvez chegue, ou
talvez desça na paragem dos encantos.
Talvez eu seja paisagem, cansada de morrer
fotografia. Ou talvez não, e cresça eu regaço dos
montes, exaustos de escalar céu ou despenhar
erosões.
Guardo o olhar, alagado de fantasia. Com um desvelo
de pássaro, arrumo a cidade inteira num bolso cosido
ao peito, onde voar é saudade do que ainda não
chegou. Há futuros, no meu bolso.
Por ora, sou o andar de prospecção, arqueóloga dos
dias.
E talvez, apenas talvez, na persistência das ladeiras,
no banho frio da nascente que é solidão das geadas,
no atrito da gravilha que rouba caminho andado, a
noite se aprenda dia num poema escrito a sol.
E então serei o trigo. E então chegarei hoje.
...

E só depois, existe um princípio nas searas. E os sonhos
cumprem estação. Os barcos sabem o cais. E o dia já se
adormece, no intervalo das gaivotas.


Ana Vassalo
06-05-2011 - 00:15

Origem das imagens: "Cornfield Sunset", "thedailygreen.com".



sábado, 9 de abril de 2011

LISBOA, COM ESPELHOS







DIÁRIO SEM COMPROMISSO



03-Abril-2011





LISBOA, COM ESPELHOS



"Deus ao Mar o perigo e o abismo deu



Mas nele é que espelhou o céu."



in "Mensagem"
, Fernando Pessoa





Cá estou, acantonada no "café da rua", com um esboço de jantar à frente, tentando aventurar a escrita. A chamá-la para perto, com ensaios de fé, em deuses vários e agregados.



Não tenho como me libertar, é vício cansado de velho, mas irresignado - com devaneios de "fitness". Carrego-o desde a infância, quando o substantivo se renomeou de solitude. Mas vício com gosto e companhia, sempre rodeado de parceiros inspirados: a Gulbenkian, a praia da Torre, os Jardins Suspensos do Museu de Arte Antiga, o desaparecido Café Roma - por fim, derrotado pelo McDonald's - o CCB ao sol e ao frio e à chuva, para que o Tejo esteja ali à mão de ver. Recantos, refúgios, que só decido a caminho. (Hoje, como tantas vezes, também este Cafézinho amigo, pequeno e aconchegante, onde o cigarro é bem tratado e eu não menos que ele.)



É este, o meu, um certo tipo de vício, que se estende, ainda que só voe, por lugares tantos que desenho na mente, mesmo ao lado de outros mais, que conheço de uma vida. É a Lisboa de mistério, do Castelo, de S. Vicente de Fora em todos e cada um dos seus recantos, da Sé, de Santa Engrácia, do Carmo, e dos subterrâneos que ela, cidade de sempre tão minha, vai guardando por aí. E porque são alguns e tão generosamente únicos, quando dou por mim... já lá moram mais uns quantos, pobres desalojados de mapa.



Manuela Gonzaga largou-me um dia o vírus dos seus "Jardins Secretos", "lugarzinhos" tão (literalmente) incríveis, que me infectaram de feitiço para sempre. E são os dias mais pobres, aqueles que às vezes acontecem em desfile pelo vazio, os que me acompanham em descobertas sem fim, de grutas que nunca houve, pelo fim do chão da cidade que surpreendo por baixo do "mar", no limite da memória de brincar.



E subitamente, assim, sem aviso, dança-me no espírito um outro lugar de histórias. Em Château-de-Méung, na própria fortaleza, indescritivelmente bela de irreal, que nos recebe através da luz filtrada pela folhagem e projectada na imagem diáfana de um gigantesco e multicolor "bouquet", suspenso de uma velha "charrette" que descansa do tempo apoiada nos braços, habita, como é costume bonito de castelo, uma lenda de caminhos escondidos, que ligariam a pequena cidade (?) do Vale do Loire a Paris, lá por baixo do olhar. É difícil conceber a verdade na lenda, mas é bom. Como de bom, assim, pouco resta. Noto que recordo todos os momentos da minha presença encantada ali, tão jovem e tão cliente de quase todos os géneros de fé, escutando o relato entusiástico e acrescentado do guia turístico local, e de dar por mim a distâncias estelares, de tempo e de espaço mentais, por lá ainda, mas de asas por Lisboa, do lado-avesso do Chiado.



Seguindo o avô dos tempos, por sob o Grandela do meu contentamento. Grandela esse, onde, em tempos de riso fácil, exercia com arte os meus dotes de adolescente marginal. Por lá tantas vezes me diverti, com um amigo fiel de disparate-com-plano-e-concertação, arrasando com o equilíbrio emocional de funcionários zelosos e competentes, só por causa daquela mania sem termo de "galgar" subidas e descidas pelas escadas rolantes mas... ao contrário do sentido de movimento das ditas, sempre, sem apelo nem descanso. Recordo com nitidez de teleobjectiva as duas ou três vezes em que fomos compulsivamente "convidados" a sair. Voltávamos sempre. Os meus catorze anos não acolhiam, e menos validavam, o conhecimento intrínseco do verbo "não poder" e, desconfio, com elevado grau de convicção, que o mal me ficou para a vida.



Mas retomando o fio emaranhado, e contravenções à parte, era ali que me pensava em chegada ao plano oculto, ao final do mundo entendido, aonde acedia sabe-se lá como, por uma qualquer porta desenhada à pressa, achando-me, por fim, nos segredos mais velhos de uma Baixa subterrânea. Eu, caminhando adiante, desbravando o interior da Rua Nova do Almada, em progresso até à Praça do Comércio... E o Tejo, lá por baixo, em leves incursões por terras hoje proibidas, ligeiro e suave como quem relaxa, esticando as pernas até ao Rossio - o prazo antigo da sua margem num tempo certo.



Eu, por ali, temerária, ao desafio da conquista de respostas às perguntas de uma vida, entrando, afundando-me num mar abraçado que há muito esperava por mim. Mar que é rio, pelas águas da deriva. E é por ele que me entendo. Onde o meu nome sou eu.



Tejo é verso, que dá de ombros ao compasso - não sabe de rima ou tempos. É cruzada ao infinito, o logotipo de partir, sem hora que se conheça ou vestígio de remorso. E é retalhos de mundo a pedir reunião. É a casa, que é razão de mais viagem. Tejo é Lisboa sem freio, selva por dentro, vestida de pano de alma.



E Lisboa... Lisboa é voltar antigo, talvez saudade de marinhar. Vou de barco, e estou. Sou o barco, quando acordo. Velejar é o destino. Sem fado. O destino de quem se ama sempre mais do lado de onde não está. E não cansa, para estar. E talvez, pelo caminho, quem sabe, se recolha num lugar de Ser... Porque Lisboa É. E eu vivo por lá, no avesso dela. Na noite acordada, que escreve por mim tudo o que não sei dizer.



Em Belém, a luz é segredo. No Terreiro do Paço é natal, onde ensaio o primeiro sopro. Na Graça, é chorar guitarras, xaile negro, olhar do fim. Santa Luzia é Cerca, Miradouro sem distância, e Pedro Barroso às vezes. Em Alfama é luz de aromas, e poemas-laís, com aventura de rosas. No Castelo, é Crónica do Reino, em Gótico Solene com décor de iluminura. No Campo de Santa Clara, a luz é Feira, pregão de contos de um País, carregados pelo tempo. E no Rossio, onde espreita Pedro o IV, Lisboa foi de Abril a festa. Já no Chiado, é de Pessoa, é luz de espelho, e vai com os abismos onde se entornou o céu.



Na morte da criação, é Lisboa o traço Vida, com Sol de Levante ao fundo, pelo Tejo cheio de pressa.



Ana Vassalo

03-04-2010 - 23:08



in facebook notes


quinta-feira, 24 de março de 2011

JANELAS






Janelas


É hoje data histórica para mim. De conclusões e encerramento.

De regresso a mim.

De olhar e saber ver. De gostar de ver.

De gostar de mim.

Hoje fecho uma porta, caminho de nada, aberta há tempo demais.

Mas tenho janelas. Largas e altas.

E o mundo entrado nelas sem tamanho.

Hoje é dia de janelas.

Acabei de abrir a minha.

No ar novo que se apressa casa adentro vem um esquema de sorriso.

Com instruções simples e precisas.

De como se lembra um sorriso. Já agarrei.

Hoje, é data maior para mim.

Sem portas, estrondo ou retorno.

Hoje é dia de janelas escancaradas!

De um regresso feliz por mim!


Ana Vassalo

24-03-2011 - 14:06

Origem das Imagens: site maryt.wordpress.com

terça-feira, 15 de março de 2011

ARTE



"Love" by Darunia


Arte


um dia...

um dia vou escrever-te

de um só traço


serás

face e poema

memória de cor

da minha arte maior:

respirar-te


agora...

escrevo-te em branco

assim

cá dentro de mim

para sempre

rascunhado



Ana Vassalo

15-03-2011 - 02:18

FOTOGRAFIA



"Looking Towards" by Ilona Wellmann





Fotografia



não

não sou a imagem retocada de mim

sou prova e ensaio

caminhando a descoberta de um foco que me humanize

(por enquanto, a preto e branco...)



Ana Vassalo
20-08-2010 - 14:43

A FESTA



Título e Autor Desconhecidos


[A propósito de

"Silêncio e Tanta Gente"
de Maria Guinot

"(...)
Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal aquilo que sou
Sou um grito
Ou sou uma pedra
De um lugar onde não estou
(...)"

Li de novo, ouvi de novo, e apeteceu-me

muito disparatar, a propósito da asfixia
de talentos, daquilo e de tudo - e de
coisa nenhuma, talvez...]



A FESTA


Veio a banda

e o alecrim

o artifício

do fogo alado

chegou o mago

de bandolim

gasto

de tão procurado

veio o futuro

alvoroçado

meio perdido

na combustão

vieram índios também

e os cowboys já retirados!

fantasia por medida

que a festa finge que é sonho

e o sonho quer-se na mão


e veio sem falta o discurso

a palavra farta e lassa

o povo feito à chalaça

e a medalha

o acidente

reparado na memória

os contentes

os eternos alinhados

e um livro feito de histórias...

levaram pão

alma de enfeites

que o dia é de papa e bolos

um garrafão

de sorriso a ferros

copos erguidos aos berros

fruta que é cheia de inverno

calada

e uma bica de alegria!!!,

só mais uma vez

requentada


um homem chega

com um abraço de guitarra

e o outro visa

sem mesmo ver

a multidão apinhada

soando o piano

que nele acredita

chega o poeta

que ainda crê

no poder da voz aflita

e o cantor

que se finou

no dia em que se ausentou

do verso a rimar com chita

ele é assobio daqui

e o bocejo que se afasta

o bardo grita que basta

e a banda chora um sorriso

fraco e mal percebido

no metal que se empoleira...


e vem a palmada nas costas

a ilusão dos iguais

que se cumpre em festarola

o "democrata liberal"

solidário por um dia

bem treinado na ciência

de aquietar a consciência

e o mano que esconde a ganza

sorri sem dentes de esperança

mas acredita que vive

o outro que se lambusa

couratos e tinto cheio

sente que é livre por fim!

resta depois esse tal

que se sacode num esgar

de beijos e mãos a mais:

guarda a lista de presentes

que se esqueceu de comprar

acena, grita que grita

que o futuro está no ar!


o punho erecto

que jamais sente,

LIBERDADE!

eis o que mente

e sem sombra de remorso

pelos bastidores se vai!


Veio a banda sem contrato

o alecrim sem aroma

o fogo que se afogou!

a medalha

jaz guardada

no bolso da emoção

tentado pela eternidade

quase sempre merecida

conhecida sempre tarde...

o cantor enrouqueceu

o poeta, pobre faleceu

e o piano rendeu-se

à noite que paga mal

a fome que um homem tem

a malta...

de parca trouxa abraçada

ensaia o passo até casa

e segue o fio da madrugada

na luz que a verdade tem

e bebe água de enfiada


e o meu país

corre um rio

cansado e morto de frio

sem cais

ou foz conhecida

nesse mar que já foi vida


Ana Vassalo
in facebook notes
13-03-2011 16:14

Origem das Imagens: site "MacYapper" (blogspot)

terça-feira, 8 de março de 2011

RESERVA






Reserva

se eu pudesse arrancar a cada palavra
o efeito desnudo que cada palavra contém,
a publicação indiscreta que letra a letra
se revela

escreveria então
uma imensa enciclopédia de nada
com palavras inventadas de branco,
omissas,
ilegíveis
de escuridão

Ana Vassalo
08-03-2011 - 16:24

Origem das Imagens: site "Estação Central" (blogspot.com)

ABOUT HOPE AND MISCONCEPTION





About Hope and Misconception


There was that point in time
a certain time to recall
I used to whisper in my mind:
let's get drunk for eternity!
- oh yes, I kept your reminder
of Baudelaire's passionate advice
"enivrez vous!" ...
But fear is arbitrary,
as much as it is useful
now and then.
Well...
I never carried out the promise.
But here and there,
space in-space out,
I get to empty my personal bottle,
my download of hope.
And I drink it all until I succeed
in mismatching flight and reality.
There's no point in being sober,
oh I know, that is so clear!
- it just shows you that one side
of a world, already gone,
ancestrally worn out...
So we keep capturing ourselves in analysis,
all those x-rays of time lost
in our way to some expected advance!
There is indeed a record
of our non-mark in the world
whenever we attempted to live fully
by our own heads
- and reality (!) caught us in the way...

You tell me of what to come!
About the intermissions and suspensions,
you tell me of all the rainbows
that we miss while busy choosing colors!
Please give me a hint on the right walk
along the road to the promised light!
We once, so many "onces" in life,
got almost there,
to the land of overcoming...
(Pause for laughter!)
There comes repetition
and we wake up in a bar
long after closing time,
hit by everyone else's certified wisdom

I have no means of comparison
to a life that knows its purpose.
But I keep searching, on and on,
and somehow I find myself in trust
of so many enchanted exits!
I wake up again
and... there you are!
It's all gone, nothing but a dream,
a vivid projection of an idea
that simply was never tangible...

Achievement...
The modern world's iron chain
of commitment, THE Tool,
a certain, alleged golden path to fulfilment!
- I wonder what is left to accomplish
besides endlessness and disposable conquests.
Should I stay for the awards ceremony?
Or should I leave while my time knows better?
Should the earth tumble
and collapse, I wonder
what my memory would take as personal luggage
in its voyage to the "don't-know-wheres"...
Not the slightest idea, that is correct.
Yet, I suspect somehow
the volatile beauty of dreams would survive...

I have long forbidden me to live in utopia mode
- that is to say I dead-froze all the wandering,
yes.

But I know that I could be elsewhere
if only the truth in me was at my sole command...

I rest my case, now.
Time to get up
for the final rehearsal
- it's all easier on stage
so I'll just stage the renewal of belief...

Do I get any followers?...
Please, for goodness' sake, do not speak!...
- I don't really need an answer.


Ana Vassalo
November, 2010

Image: Ana Vassalo.


APOLOGIA DO CORTE



"Breaking-point" - autor desconhecido



[Dia-não, este, de um Novembro felizmente ido!
Admiro o dom dos que escrevem - e mais ainda
dos que sentem - a poesia "correcta". Não tenho,
não comprei, esqueci-me de encomendar.
Tenho caneta e papel, o mais das vezes teclado e
écran apenas, e um fundo respirar de fé pela
libertação. A simpatia que habita em mim e me
fotografa o melhor do mundo dispensa a palavra
escrita - a poesia está lá, para ser vivida! É o
dia ácido, ou pior, o dia árido, que carece do
exorcismo em mim - ou de mim. "Não sou nada.

Nunca serei nada. Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do
mundo." (***)]



Apologia do Corte


acredito na importância do borrão preto alastrado,
entornando a folha branca liberta de simetria
e creio no breu mais farto da noite cheia assumida
como buraco negro, de eternidade suspensa,
creio no palavrão sujo e gritado, nos lábios a lassidão
cristalina, do ódio em terramoto
e creio na mancha indiferente do costume desprezado

creio no berro e no adeus, no abandono bem-vindo,
no cigarro, ou na bebida que transmuta a luz solar,
na escusa de um sono operário
de reparos e remendos,
creio no sonho não abraçado,
amarfanhado de afronta,
despedido por inépcia e largado aos contentores

quero a manhã escurecida da surpresa que é indigna
e apagar a luz do olhar que para sempre nos mente,
arrancar a tinta falsa da cabeça que é já velha
e creio que é tempo ganho a solidão festejada
- enlaço na minha mão a arma que é anti-vida,
sou militante do gelo e acredito a tempestade
do mar tão denso em capelo, que é fecho da alvorada

creio em espinhos mortais, na estaca reparadora
da crença prenhe de engodo,
louvo o abismo sem fim ou doutrina de além-vida,
busco na praia perdida o deserto que é ateu,
sou alma de escuridão num gozo sem precedentes
e sou doente de mim, furiosa, amotinada
por ser escrava do futuro, tão surda do que acredito!

anseio p'lo tempo a sós
comigo,
desventrada de nascentes...


Ana Vassalo

10-Novembro-2010 - 23:34

(***) Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), "A Tabacaria".


domingo, 20 de fevereiro de 2011

DO TEMPO QUE DESAPRENDI...




Françoise Hardy, caminhando o Tempo.






[Exclusivamente escrito com os amigos em mente (onde se inclui
a minha extensa e querida família), reais ou virtuais, que, tal
como eu, sabem muito bem quem são, com mais ou menos

distância, presença ou "discordâncias" passageiras.

A transparência é um "asset" que, neste caso, será apreciado e

praticado pelas partes. Tal como disse, vou, mas volto um dia

destes, menos cansada, esperançosamente reformulada.]





Do Tempo que Desaprendi...


O Tempo não conhece a piedade, a compaixão, o "chá". O Tempo

segue, numa indiferença total que não perdoaríamos a nenhum

humano. Às vezes quero pará-lo, a reter um momento de sabor.

Outras, empurro-o de aflição, por uma aberta para respirar.

Julgamos saber o que somos, ou fomos, temos uma ideia muito
aproximada do que ainda queremos ser, mas o Tempo...

comanda.



Recentemente, recordei Françoise Hardy, "menina" de doce

encanto e mítica elegância, que passeava a voz da serenidade

como sua e escrevia poemas para canções à margem de qualquer

crítica, por mais exigente que se apresentasse a origem. E bela,

ainda por cima, de um bom gosto a toda a prova. Lembro-me da

sua tentativa de suicídio, das notícias que davam conta da sua

extrema magreza, levantando questões que hoje se prendem

com a anorexia. Vivíamos um Portugal solitário, entre outras

coisas que me escuso agora de invocar, e as notícias, as meninas

da minha idade iam buscá-las ao "Salut les Copains" e mais

raramente ao "Jours de France". Não era por acaso: o Francês

era obrigatório desde o 1º ano do Liceu, e uma coisa levava à

outra.



Nesta minha incursão ou revisitação por tais paragens do tempo,

com saudade genuína e legítima - quero lá saber do que se

engendra por aí sobre a saudade, se ela existe, cresce e caminha

por entre e dentro de nós - dei um pulinho a Brel, para sempre

encantada pela genialidade da sua dor, bati à porta de

Brassens, Moustaki, Réggiani e Ferré, e depois pensei:

porque me falta sempre uma mulher nestas minhas

preferências? E claro que, na memória sem

aviso, surgiu de imediato a figura de Hardy. Nestas minhas

deambulações, lembro-me de ter reconfirmado não serem os

temas mais óbvios, de sucesso eterno, os que me encantam, mas

os outros, talvez mais privados, suavemente intimistas, como

"L'amitié" ou "Fais-moi une place", este último verdadeiramente
insuperável, para mim.



O YouTube tem essa característica especial de nos devolver o

Tempo, um certo tempo a contento, da música que soubémos

viver na romagem. Procurei, por entre o encantamento, e lá fui
encontrando diversas prestações, para os mesmos temas, da

minha (e de tantos outros) companheira antiga de momentos

especiais. Foi então que a encontrei, por lá, no Tempo que é hoje,

ou quase hoje - irrelevante... Ainda bela, a voz plena e suave de

sempre, mas fatalmente cheia de Tempo. Cada ruga, cada marca

no seu rosto, aquietado mas dorido, fala do que o Tempo esconde

mas não apaga.



Sonhar, algo a que nos referimos ligeiramente, todos os dias do

Tempo, aqui, e ali, no café, no blogue, na rede, em casa dos

amigos, mas que é muito mais do que uma citação autorizada

pelo génio que escolhemos para dentro das nossas aspas.O sonho
comporta passos de uma vida que talvez nunca venham a ser

caminhados, mas que no momento em que o aventuramos se

acredita como parte dela, dessa vida não andada, ainda, que nos

acena com um saco a abarrotar de promessas. Sonho é a fé da
possibilidade, que inventámos e inventariámos no livro do Deve

e Haver do Tempo. Somos marcha, sempre adiante, marcha

audaz e planetária, no mundo de acreditar.Chamamos-lhe sonho,

como se o pesadelo não ousasse sequer o nome.



E um dia, Tempo andado, cumprido, desalvorado ou prisioneiro,

feliz por momentos, perdido na eternidade, damos por nós assim,

a mentir alegrias que não soubémos. A inventar a felicidade, na

máscara que passeamos no dia a dia da insensibilidade, também

ela travestida de scraps de vida e sabedoria. Porque há que

sobreviver o naufrágio das ideias, a morte da criatividade para a

vida, a subtil passagem do Tempo, obscenamente indiferente,

pelos nossos sonhos.



Num mundo em que ser hipocritamente realizado é chancela de

sucesso garantido, que fabrica heróis desprovidos de neurónios

actuantes mas emissários do discurso aprovado, ser genuíno

quanto a frustrações e passo perdido é registo proibido, sob pena

do Senhor das Categorias, que organiza o sacrossanto "mundo

dos sucessos" de hoje, nos estampar na testa a palavra proibida

- e para sempre nos definir.



Mas, pergunto eu, interessada: o que conta mais, realmente,

uma vez no fim da estrada? As vitórias por fora de nós ou os

sonhos abandonados em favor delas? Ainda não encontrei a

resposta. Continuo, empenhada e esperançosa, a tentar

acreditar e comprovar na prática que a asserção, supostamente

límpida, da máxima "A vida é bela" será sinónimo do sim à

primeira hipótese, mas... não consigo despedir essa ideia

impertinente e impositória de que tudo o que se passa por fora

de nós tem essa particularidade exacta, a de não nos pertencer

jamais, ainda que o nosso sangue esteja lá, na luta insana que
combatemos para o conseguir.



O meu Tempo é todo aquele em que estou. Certo.



Mas este, este é aquele que me lembra que o saldo é decrescente

e tem pressa. Eu, tenho pressa: de ser o meu Tempo inteiro.



E quando a oiço, agora e de novo, do longe dos meus sonhos

efabulados de menina - dos quais cumpri a maioria, pois foi, e

então? - entoando "Fais-moi une Place", não consigo evitar

interrogar-me: onde está ele, o meu lugar? Será que é uma
inevitabilidade humana quem muito procura tardar em achar?

Talvez. Como vou saber? Só tenho este Tempo aqui, a jusante

das respostas.



E com ele caminho. Um dia, bastará - talvez. Por ora, preciso de

mais do que rugas e fronte grisalha - inevitavelmente escondida

- para me cumprir. Dele, do Tempo, quero os dias de claridade,

que acontecem pelo Sol que sei ter sido capaz de acender na

maioria das madrugadas.



Quero o saldo, positivo.



Retiro-me agora, em silêncio, a rever os livros há muito fechados,

de uma contabilidade inexacta. Quando voltar, tudo estará certo

de novo, inequivocamente exacto, porque do Tempo (des)aprendi

eu o essencial: por mais cruel que se apresente, não se toca, não

se arrepende, será sempre assumidamente inconveniente.



Saudade? Tenho sim, e muita: da "Tentação da Inocência", que

ele, Tempo sem referências, nos vai retirando sem, ao menos, a
dignidade de um pré-aviso.



"Fais-moi une place dans tes urgences..."



Falta-me um marcador... É isso, uma agenda e um marcador!



Alguém tem por aí um bloquinho de post-it's?





Ana Vassalo
in facebook notes
20-02-2011 - 00:08



Origem das Imagens:

Young Françoise - Blog "Poliglotanalfabeto" (blogspot.com)

Françoise Today - Site "All-over-the-world.com/Françoise Hardy".

sábado, 12 de fevereiro de 2011

DO AMOR E OLHOS TEUS...








[Pediram-me, há tempos, alguns amigos no facebook,
que escrevesse um poema de amor. Aqui está a
minha aproximação possível ao tema. Cada um, cada
qual, e a mais não é obrigado. Cá está ele, então.]






Do Amor e Olhos Teus...




um dia,
serei o abrigo teu
e da paz que mora ao lado,
no olhar do entardecer

um dia, sim...

para já,
esgoto-me nos dias,
na curva violenta
de estrada em poeira,
onde corro sem compasso
e me extravio de mim
- a mão aberta,
inocente,
por céus fechados de sempre
que a alma já encontrou...

grito da margem
o que para sempre não fui
mas reconheço ser;
e paro, por fim,
a retomar o fio
de datas tantas, repetidas,
onde sei reconstruir-me...

ainda espero
e acho que creio,
ou então rogo
que finalmente o dia
se arrependa de mim!
e esse deus
que me fez presa
de mundos que não criou
repare,
pouse a mão nos meus cabelos
... e me guarde para sempre
deste respirar de urgência
por uma vida com pressa
de futuros que atropela!

e então serei eu paz!
um dia,
onde não estou,
mas sabe de mim!

por ora
doi-me o tanto tempo de guerra
acantonado nos sonhos
que larguei, soltos por aí...
não há pontes
ou atalhos
nem frestas por esses becos
com janelas de aventura...
morre o salto:
roubei tudo o que era mundo
esqueci-me de ter morada...

nada resta,
nem o frio!
só este olhar feito pedra
que se fixou no encanto
e cegou para além dele:
sabe tudo dos abismos,
dos infernos e sepulcros,
extratempo voluntário,
arado em terras do fim

- mas teima de outros jardins,
com um pé na alvorada!

e é por isso que eu sei,
de um saber certo no peito,
que num dia que me tarda
mas está sentado adiante,
serei de mim parte inteira,
resgate da intempérie
no teu abraço de mar!

num qualquer tempo de paz,
é quente, essa luz cheia
que sabe o entardecer...

Ana Vassalo

(facebook notes)
12-02-2011 - 17:39

Origem das Imagens: "WR - World Race - Keturah Weathers".