NETOS

NETOS

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

REMARKABLE PEOPLE



FERNANDO PESSOA

(Lisboa, 1888 - 1935, Lisboa)


"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


************
"I am nothing.
I will never be anything.
I cannot want to be anything.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."

or...

"I am not nothing.
I will never be nothing.
I cannot want to be nothing.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."


(Álvaro de Campos in "Tabacaria")




LISBOA - Chiado

LISBOA - Chiado
"Fernando Pessoa" by Lagoa Henriques. The place: "Café A Brasileira" (Brazilian Café) - 1905.

PLAYLIST TODAY




MUSIC IS THE PASSION REPORT



♥ ♥ ♥


PLAYING SOFTLY WHILE SOMEONE SANG THE BLUES



Saturday, Jul 22, 2017 - 17:57





SALVADOR SOBRAL - NEM EU [DORIVAL CAYMMI]



YouTube – "Salvador Sobral"





ANTONY HEGARTY + LEONARD COHEN - IF IT BE YOUR WILL [COHEN]



YouTube – "Oggmonster"





CHAN MARSHALL (CAT POWER) - I'VE BEEN LOVING YOU TOO LONG [OTIS REDDING]



YouTube – "anaruido"





JANIS JOPLIN - ME & BOBBY MCGEE [CHRIS CHRISTOPHERSON]



YouTube – "ThE DuCk"





JEFF BUCKLEY - LILAC WINE [JAMES SHELTON]



YouTube – " roberta panzeri"





DAVID BOWIE - WILD IS THE WIND [JOHNNY MATHIS]



YouTube – "Peter Music HD"







_____________________


LEANING INTO THE AFTERNOONS by PABLO NERUDA

«Inclinado en las Tardes»



YouTube - "FourSeasons Productions"






CHANGING BATTERIES - OSCAR WINNING ANIMATED SHORT FILM



YouTube - "Bzzz Day"





DIALA BRISLY - A BEAUTIFUL YOUNG LADY

(a huge thanks to my daughter who e-mailed this video to me)



BBC Newsnight

«Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman - artist Diala Brisly - who is trying to make life that little bit more bearable for Syria's kids.»

Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman -...

Publicado por BBC Newsnight em Domingo, 20 de Março de 2016






A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT

A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT



FLYING A SECRET



I got here to hide. From equations and patterns. From repetition, after all.
Closed the door and got me a special place where I thought I could
somehow sit close to the stars. But I soon found out that the sky was
still opaque, no matter what the steps. And so I left. Again.

I thought, then, I could build me a different ceiling, a new-coloured scrap
of highness. And then make it work. Where I could dream, more than I sleep.
I have long decided that sleeping is overrated - that I know for sure. So I
take that time instead to travel the night alone and in the meantime I allow
myself to fly, unlike stated before... Yes, I like playing with paradox, to
expose the inside of words and the revelation of writing down the voice of a
silence. My adventurous, ever-walking silence.

So I came back. Here, within this quiet world, I intend to gather all my
things usually kept hidden or inactive. They are here to speak.

And since the future is a stand-by secret, I want to live by a precocious
clock, at every running instant of every entering second.

And I will not slow down until my "future exists now" - kind of reverse
quoting Jacob Bronowski.


Ana Vassalo
in my site "CAFEÍNA"(former "No Flying Allowed")
Nov 11, 2010 - 11:54




THE WALK OF TIME

THE WALK OF TIME

domingo, 25 de setembro de 2011

"QUEIXA DAS ALMAS" TARDIAS...



NATÁLIA de Oliveira CORREIA

*(S.Miguel, Açores - 1923, Lisboa - 1993)
Poeta, romancista, ensaísta, dramaturga, guionista, ficcionista,

jornalista, editora, tradutora, activista política, deputada à AR.*





"Queixa das Almas" Tardias...



Farta de maresias no campo, com tiros de sal ao largo...


O café é que me aquece, mas as portas vão fechar.

Às onze da lua, de um dia que foi lento. Em ponto.

Vem, vou, vamos daqui até à vida

que um dia pareceu tão certa

mas depois não compareceu. Ainda.

Estava agora ali, mesmo ao lado da distância,

um punhado de homens da bola, sem golos,

conservados em whisky de zurrapa.

Muita, a cerveja cansada, com respostas aquietantes.

E cacos. Muitos cacos na ressaca.

Estavam aqui, sim, quase no mesmo plano

- não fora a consciência que isolo

- almas sem cor nem sorriso,

o palavrão fraco a queimar por validação civil

mas digerido em reticências

(quem sabe se por minha causa

que, estranhamente, nem cá estou...)

Mas nem um rasgo de vida,

um ténue vestígio de sangue,

um instante de rosa, mesmo breve.

Não há pianos, Natália, nem ao fundo nem aqui,

Terra Prometida, roubada de honra...

Estavam, sim, os tremoços,

e os amendoins, com imperial sem território.

Mas nem um “lírio” de respiração.

Somente a espera com nervos,

sem expressão de vida, nem berro, ou salto.

Já nem o futebol valoriza a convicção...

E mais nada, Natália, nem “canivete”,

muito menos “corola”,

sequer “a honra de manequim” que,

ao menos, ainda guardava a honra.

O meu país vai um rio

que um dia esqueceu a foz

- e as almas morrem sentadas, de álcool sem arbitragem.

Escondi-me aqui, à beira de um jantar em projecto,

que o presente é vastamente anorético...

Juntei-me com o papel, que me observa de branco,

imaculado e criança,

e agora sujo-o, sem apelo... De realidade feia.

Não sei se me explico, mas este presente de hoje

é-me desconsoladamente mancha

- e eu lá sei como limpá-lo...

Então, atenho-me que nem náufrago

à poesia que vive,

a que foi tua e dos outros, que pulsavam a mudança.

E penso. Que a pele e o sangue perdidos

correm hoje fraco rio,

caudal às vezes, por um só dia - e é tanto!...

É breve o curso das águas, a escoar-se sem memória,

em triste rede de esgoto, sem mais casa...

E os mares, que restam paisagem,

perderam-se até do retrato.

Foram-se todas as gaivotas, poeticamente solitárias,

e depois os navios com destino

e homem do leme à proa, cantando o tempo devido...

Nada. Somente os ratos em debandada.

E restos de navegar, adiado de praias ou de horizonte.

Os Bravos partiram. Ou morreram.

A “outra palavra para o Medo” ruma ainda perdida

por um lugar na coragem.

Estou aqui, presa em palavras, pensando as tuas...

Já sem a esperança que traziam, num outro dia de longe,

de acreditar alvoradas.

É certo que perdi o Tempo...

Nunca mais jovem - como quando te conheci

e me encantei de palavras com bravura,

de mulheres com nome de futuro. Como tu.

Mas sou a “alma censurada”, hoje,

Sábado de todos os ciclos sem data,

onde os homens se arrumam da Vida

e afogam tristezas de abismo.

Nem o salto cego, pela voz dos deuses, se arrisca...


“Revolta é ter-se nascido

sem descobrir o sentido

do que nos há-de matar.”


Perdemos Olimpos e mortais.

E a rota de fé pela Terra é ad aeternum interrompida.

Cada dia menos

“nos parecemos connosco quando estamos sós”.

Mas ainda espero

que a noite gravada de “piano ao fundo”

nos faça perto a música da rosa,

como as tuas, invasoras do mundo

- que o vento já morre em pedaços,

cansado de soprar ermos!


E sou eu ainda, palco em avesso,

memória presa de ternura

por esse mapa impreciso

com "a forma de uma cidade’,

que para sempre a creio inteira,

cidade digna, país que é meu,

por um sonho feito de ontem

em vigília no futuro...

Ana Vassalo
24-Set-2011 – 22:00

Origem da Imagem: Google.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

  
  

Não sei do Tempo,



fechei-o!



Estou intervalo.



Volto depois, sem as janelas.



Saberei a porta?...


(av)
  
  
    
  

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

SANGRIA



“White Words”


 



SANGRIA


E AS PALAVRAS!
AS BRANCAS PALAVRAS
COM ARESTA
'in utero' perenes
trânsito em vida
INTERINAS
PALAVRAS caducas
miméticas
travestidas
de virtual pureza
em raiz
que não soube crescer haste
subtileza em rasgo, do absinto
a praga
a náusea
a estrondosa vertigem negra
DA PALAVRA liberada

despenho
a torpe queda intuída
sem o pretexto do abismo
o riso o acordo a falácia
filhos que são da verdade
toda a verdade
nem um SONHO mais que a verdade
laureada
desgrenhada
rugosa
e decadente
VERDADE DE SER PALAVRA

DA PALAVRA SIM
no sim da PALAVRA
em gestação
o vocábulo com vírgula, o anagrama da ideia
sujeito, facto, objecto
a sorte ou o cansaço
e o desvio
aposta ganha no conforto do antigo
e bolorento expulsar da fantasia
que já um dia foi minha!
borrão da alma sem freio
projectado
NAS PALAVRAS desventradas
DE POEMAS
e parto com forceps e dor

que não escuso
não despeço
numa teimosia de laços
por fim poemas de farrapo
e métrica mal des-contada
na sílaba falha de tónica
da ilusão com medida
fuga milimetrizada de plano
dedos de adeus
olhos sem pausa
corpo em saída
eu!
no quente afago da lonjura
em solidão abraçada
ATRÁS DE TANTAS BREVES LETRAS
que me edifico
no corpo da PALAVRA ausência

PALAVRAS TANTAS
DA PALAVRA OUTRA
que não dei
não assinei
e não partilho
que noutros tempos comprei
nos instantâneos da fé
hoje fracção de nulo resto
de as riscar e de as rasgar e ser insulto
e depois me contemplar
no chão da destruição
de um nanossegundo perfeito
convocado pela RAZÃO

PALAVRAS
PALAVRAS tais em que me ESCREVO
e me digo sem ser voz
que me esqueci de onde guardo
de onde foi que as aprendi
como as firo
quando as gasto
e escrevem de dor no futuro
AS PALAVRAS QUE NÃO OIÇO
e cheguei a pensar MINHAS


AS TOSCAS PALAVRAS minhas!
do arremesso
com eco ao fundo
palavras expurgadas de mim
num embaraço sem fio
em desnorte do sorriso
sem mapa
somente extravio da boca
QUE SÃO AS PALAVRAS DE ÁGUA
com sede de prisioneiros

o estrondo, PALAVRA AVISO
e de silêncio
e paz romana
piedade ou agonia
do amor que não caminha
mas também não se-parou...

Frescas PALAVRAS de lixo
As minhas e de FLORES também
ROSAS que já não creio
que abomino
e manipulo
que desmonto da surpresa
mas acolho da origem
tal como são semente
E ENCERRO ANTES DO PRÓLOGO
no livro da letra em espera
que assassino
sem remorso

exponho
e desnudo
apago sem cor
e recuo p'lo adeus
rota do fim para sempre
COMO SEMPRE COMO NUNCA
de olhar parado em sequestro
pela margem que era minha

PALAVRAS do imenso terror do feio
QUE GRITEI
acorrentadas de orgulho
em evasão
morte estratega
golpe
sem éter
DA PALAVRA
que não geme

PALAVRA DE TEAR...
TECE
TECE
TECE
sepulturas
da vontade
na PALAVRA DOS POEMAS
QUE NÃO FORAM!
A mentira conjugada
do VERBO que se transmuta
instrumento e DIALÉCTICA
Razão do Método
criogenia!

E ESSA VENDIDA PALAVRA NUA
QUE NASCE E MORRE DE BRANCO!

Breve paz à sua alma.
Ámen.



Ana Vassalo
22-Set-2011 – 04:50

Origem da Imagem: Google - “vi.sualize.us”

sábado, 17 de setembro de 2011

O ESPELHO





























o espelho


 não tenho nada para te dar

pena ou garra, sequer os navios...

sou apenas espaço sombra

com um sonho persistente

que o vulto não reconhece

não...


salvo-me então!

que o reflexo viajante

onde me gravei em ti

antes da noite sem asa

minta a sombra que me espia

e corra em mim, face do espelho...


Ana Vassalo
16-Set-2011 – 23:13

Origem das Imagens: Google.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

VIDROS





















vidros



o que foi?...

um cisco no olho

a lágrima presa

o tempo a sair?

que foi que partiu o céu?...

que agora sou chuva... não sei...



lembro que estava aqui

quase já

há um pouco de eternidade

somando ternura e riso

quando me vestias, assim

de palavras dadas, sem nome


depois

aconteceu

esse instante raso

do passo ancorado ao nada

fechado na mão do vento

que se-para... que se cala...


que importa

da ventania

se o dia cegou de luz?...



não sei nada...

olho-me ao longe

cúmplice abrigo de mim


o que foi?...


é só gemido, deixa lá

respiração de te ter

aqui

neste lugar de ser casa

dentro de mim

a partir-se...


Ana Vassalo
10-09-2011 – 05:35

Origem das Imagens: “Broken Sky – Google.wallpapers”

E AGORA... FLORES




















e agora... flores


falámos...

palavras a menos

num brando receio de tacto

que nos cala agora ou ontem

e para sempre se esconde

soubémos tudo do nós

que agora jaz

resto de nada

há um excesso de torpor

no embaraço das pausas

da valsa que é por dançar

mas no ouvido se intima

e o coração dispara

no intervalo da razão

falámos

muitos silêncios

de portas a querer rasgar

que logo ali se fecharam

no rosto liso do conforto

palavras de amor rascunhado

ao largo de todo o cansaço

em riste

um céu gritado e limpo

na terra omissa que somos

ora destroço

já construção

nos finais que não desistem

falámos

tu e eu

muitas palavras sem rede

de orgulho com véu de seda

e vista para a verdade

por fim o medo

agora o medo

no início o medo

temos estradas de silêncio

adiante

e o caminho

ri de nós

peregrinos...

Ana Vassalo
10-Set-2011 – 05:55

Origem das Imagens: “google.cz - peregrinos”

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

PENAS






























penas


a imponência ébria
dos pavões
não preenche
a sede do meu bico
de água
fico por cá
assim
num transvio de bando
que me aquece...
monocromática pena
e sobriamente pássaro
com janelas por manhã

simples
o canto
sim

mas

eu vôo...


Ana Vassalo

05-Setembro-2011 – 14:47

Origem da imagem: Google.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

ALEATORIAMENTE...

























Aleatoriamente...
se eu soubesse de orações
num ritual delicado
de mãos vazias de t
emplo
pediria uma cadeira
de balanço pelas estrelas
para me sentar lá por perto
na brandura do silêncio
que a tarde sabe nos céus

se eu soubesse de orações
pediria um oceano
para entornar no olhar
e depois banhar no mundo
o que não é bom de ver
e fazê-lo regressar
pela porta das marés
que lava o pranto das águas

se eu soubesse de orações
cairia de joelhos
a rogar um chão de rosas
para soprar nos abismos
vida nova posta em flor
nascendo a cada pedaço
de terra suja do sangue
que o coração lhe rasgou

se eu soubesse de orações
pediria mais canção
do perdão que há nas guitarras
e um coral de anjos com asas
para emprestarem voz
às almas em desalinho
mudas de sonho e harpas
que não voam utopias

se eu soubesse de orações
pediria uma palavra
que conjugasse de bem
toda a vontade dos homens
- e num lugar de ler certo
liberdade com amar
soletrar letra e justiça
no abraço que nasceu pão

se eu soubesse de orações
com a fé das catedrais
pediria a espada força
mais o escudo que a sustenta
no afrontar dos receios

e as mãos a brotar de flores
no mar que foi roseiral
antes de ser horizonte

e o pranto que há nas guitarras
a cada espinho arrancado
nascendo de outros perfumes
de terra a sarar de dor
p’lo sangue já derrotado

e nos céus postos em escuta
no sol branco das nascentes
o grito ser já ocaso

e ser o balanço certo
no coração que se aumenta
de uma prece junto à vida

ah!...
se eu aprendesse as estrelas...

Ana Vassalo
24-Agosto-2011
in facebook 29-08-2011, "Poetando".

Origem das Imagens: “wordpress.com-design stars” (Google)

terça-feira, 23 de agosto de 2011

PRECARIEDADE






“Quando puderes dizer o teu grande amor
deixa o teu grande amor de ser grande...”


Fernando Pessoa















(Dedicado ao Amor, o próprio)




Precariedade


Que saio sim
na porta que foi ficar
e volto nos troncos caídos
da jangada posta em rumo
ao fim do que não conheço
Que abro os braços de rompante
asa imensa de partir
e agarro o ar que me sopra
e empurro céus de um só tempo
Que desisto na jornada
e invento mais paragem
onde desço da ternura
E os olhos fecham galáxias
de metáforas por viver
no teu rosto prometido
que foi beijo renovado
Que as raízes do meu chão
crescem do longe de ti
terra de encontro até mim
que piso na despedida
Que as palavras que não sei
de não respirar sem as tuas
se apressam de outros sentidos
antes vestidas de nunca
já depois de renascer
por um instante
… sem história
E a barca sem horizonte
se afasta de margens fartas
e num pedaço de areia
perene de ser abrigo
rasgada do que há-de ser
arriba com mar de fé
ao cais ateu do futuro
Que a luz certa do teu corpo
corre as ruas da cidade
teia aberta
que é paisagem de janelas
num infinito cerrado
Que a sorte e a estreia
o sentido e a convicção
do sim profundo das mãos
mais a dúvida que se despe
vêm de lá
de ti e por ti
livro de páginas mais certas
que me adio de escrever
Pois se não quero de ti
mais do que a alma conhece
- tão pouco de ser já tanto...
E se um dia me acordar
das palavras por dizer
sabes...
nada de ti restará
e a noite terá razões...
Fico por cá
meu amor
onde o coração se aumenta
num silêncio que te ofereço
de breves eternidades...


Ana Vassalo
12-Agosto-2011 - 22:15

Origem das imagens: Google (wordpress.com)

sábado, 20 de agosto de 2011

PORTÕES


















DIÁRIO SEM COMPROMISSO

19-Agosto-2011



PORTÕES...

Zezé não vai... ficas em casa. E não se fala mais nisso.

Ele não vai porque não quer, mas eu quero ir, mãe!

Sozinha, nem penses! Vê lá bem isso com ele, que não vais para tão longe sozinha.

Não é longe, é já ao cimo da rua! Zezé está zangado, não vai só para me arreliar, mãezinha... E eu quero ir ver o "Ronco", que há tanto tempo que não há!...

Muito bem... Vê então se consegues convencer o Zezé a vir até aqui, que eu peço-lhe para te levar, está bem assim?

Não! Estamos zangados - ele não iria e, mais que certo, divertir-se-ia por muitas luas a massacrar-me, não podia ser...

Nada feito, querida...

Não percebo, mãezinha, o que é que tem o Zezé ir? Ele é pequeno como eu, porque é que ele tem de ir?

A diferença, minha menina, é que quando ele vai juntam-se sempre os vossos amigos todos, e assim já são um grupo... E além disso, ele é um menino, é diferente.

Porquê?

Porque sim, vá, já chega.

Porque sim, porquê, mãe?

Porque eu disse. Já te expliquei tudo, não queres perceber...

Vou falar com a Vovó Firmina... Pode ser que ela o convença... Pois é... e ela está sempre do meu lado, que ele é um bruto...

É agora um bruto! Então? Que é que aconteceu? Vais-me contar ou não?

Não.

Tu é que sabes...

É o portão...

Que tem o portão? Qual deles?

O nosso.

Nosso?! Nenhum dos portões é nosso, onde é que foste buscar essa ideia? São ambos de todos nós, que nosso?...

NOSSO, sim! Se o outro está do lado dele e ele diz que é dele, este do meu lado é meu!

Bom... Já te disse que não... E como é que vocês se vão zangar por causa dos portões?! Não têm mais nada para fazer? Porque não vão brincar, que é mais útil? A propósito... porque não vais tu brincar? Estás há tanto tempo em casa, coisa mais estranha... Que é que se passa aqui?

É o portão...

Outra vez??? Mas é o portão, como?

Ele não me deixa passar pelo dele, eu prendi o meu. Atei-o. Com cordas...

Como??? E... o "teu"???

E os doces, enormes olhos, que eu conhecia da cor do mel, ficaram de repente pequeninos... e escuros... que eu tambem conhecia, às vezes...

Foi! Prendi-o. Também não passa por lá.

Vai já desatar as cordas do portão, se fazes favor! Imediatamente!

Não posso, mãe... Se eu tiro, ele passa por lá e ganha... e eu não quero...

Não podes? Isso tem muita graça, mesmo! Vais e é já a seguir!

Baixinho, baixinho, falava a minha mãe...

E agora é que não vais mesmo ver o Ronco! Estás de castigo.

Pois é, mãezinha... E ele ganha de todas as maneiras, não é?

Mas tu só podes estar louca, menina! Isto é alguma batalha? Vocês são tão amigos, que é isto agora?

É o portão, mãe...

Jurei a todos os que conhecia e também aos que não, um regimento de santos, que não abriria o portão. Agora já era guerra, sim. Nada de Ronco, nada de portão!

Fui-me enfiar no quarto, o cão atrás de mim, como única companhia autorizada... Pelo menos esse, estava sempre comigo....

E a minha mãe lá se esqueceu da história com portas, de tanta obrigação que tinha ainda por cumprir, nos seus sempre longos dias.

Do mato, chegava o som dos tambores, que às vezes queriam dizer chuva.

A minha mãe saíu, foi lá ao lado, dar uns passinhos de conversa com Vovó... Era a minha oportunidade! Única! Mas estava apenas de calções, sem mais nada vestido. Calção era vestido de criança, por ali... E de chinelas, também (raridade... a sorte estava comigo). O resto da roupa no quarto ao lado, interdito, naquele momento ou arriscava-me a encontros... E eu a ter de ir ver o Ronco, que, depois, sabe-se lá quando voltaria... Era tão lindo!

Caras pintadas de mil cores e desenhos, pulseiras, tantas, nos braços e pernas deles e delas, as tangas com saiotes de fitas que voavam movimentos, o batuque dos tambores, e a dança, a dança... E mais as missangas, tão lindas! Perdia-me por elas, andava sempre toda atada.

E a chuva, já a cair e a bater suavemente nas vidraças - um suavemente muito provisório, já se vê...

Gostava tanto daquela chuva! Chuva também era festa! O calor queimava, ela era sempre bem-vinda, desde que não trouxesse barulho de trovoada, que era assustador, de rebentar os céus...

Quando Zezé, Mindinho, Neti e Zaida estavam por perto, corríamos desenfreados para a rua, larga de palmeiras, cada um armado de lata grande e vazia de fruta, a caminho do único destino que conhecíamos: cantorias, palmas, gritos e mais gritos, e corpo de baile, pois claro! Alinhadíssimos (...), ali, debaixo do dilúvio...

Depois, eram as latas a entrar em acção. Apanhávamos a água que rapidamente se tornara em cascata no bordo do passeio, altíssimo, e vá de as despejar inteirinhas pela cabeça do parceiro... Próxima leva, era mesmo sobre a nossa, própria. E mais tralala e gargalhada! Fugíamos, depois. Era costume. Ultrapassávamos invariavelmente a fronteira autorizada... Era o nome da alegria, assinado por nós, sem dia de descanso.

E agora? Já chovia tanto, e eu de calções... Mas a mãe estava ainda do outro lado. Acabadinha de chegar dos seus trabalhos, a voz da tia Ricardina indicava que ainda me restava um tempinho... Riam muito... Teria a minha mãe mudado de ideias e convencido a Vovó a falar com Zezé?... Devia ser, que ela acabava quase sempre por me perdoar...

Já ouvia os rufos lá em cima, agora do outro lado, vindos da cidade, da praça do palácio do governador – era sempre lá, a festa...

E ouvia agora também o riso da Vovó. Gostava tanto dela, com os seus cabelos de neve sobre a pele castanha de ouro, ali, à tardinha, a cortar manga e coco para os seus ansiados doces caseiros, sentada sob o alpendre, na cadeira de balanço... Sorria para nós, que brincávamos, sujos, na terra, perseguindo pobres lagartixas e minhocas, que a seguir dispúnhamos meticulosamente sobre a cabeça do parceiro mais próximo, por entre as mais despudoradas e sádicas gargalhadas.

Quando subir aos telhados não era possível, por demasiada presença adulta nas imediações, telhados esses que nos serviam de rampa de lançamento para as mangueiras de onde roubávamos as mangas, antes do tempo, verdes ainda, pois claro, para depois comermos cá em baixo, Vovó Firmina era a salvação. Mas trazia preceito agarrado. Tinhamos de formar fila, para que ninguém levasse a melhor sobre os restantes.

E nós, que só a ela obedecíamos, lá ficávamos, ali, todos perfilados ao milímetro, esperando a chamada pelo nosso nome para recebermos um pedacinho de coco e outro de manga, cada um, e depois juntarmos num pratinho de onde comíamos em partilha, sentados no chão, em rodinha.

Não era assim tão importante, o repasto. O ritual, sim. Aquela filinha em frente da Vovó, sei-o hoje, era a nossa homenagem de ternura ao seu coração... Era linda, na sua idade, nunca levantava a voz, o sorriso mais bonito pertencia-lhe e oferecia-nos tudo o que nos lembrávamos de inventar. Apenas exigia ordem, porque éramos muitos. À parte isso, ia buscar o céu, se lho pedíssemos...

Decidi. A voz da mãe estava cada vez mais perto, já voltava para casa. Calcei as chinelas à pressa, coisa que já sabemos postiça por ali, no mundo mais pequeno, mas às vezes necessária, enfim, e saí de casa pela porta do outro lado, para não esbarrar com a autoridade.

Saltei o muro, que portão era mentira, de tão atado que estava, e corri para a rua de cima, onde morava o outro portão, mas não vi Zezé... Tinha de estar mesmo zangado, para estar enfiado em casa... Paciência.

Fui caminhando, subindo e subindo, rua afora, compenetrada da minha missão. E de súbito, um toque no ombro... Um amigo, colega do meu pai, fardadíssimo.

Pergunta: que faz a menina aqui???

Resposta: vou ver o Ronco! (sorriso rasgado número um...)

Tu vais o quê??? Mas está a chover, estás de calções... Mas então?! E a tua mãe, sabe?

Sim sim. Mas está em casa... (!...)

Ai!... Vamos lá para casa, vem comigo, que eu levo-te.

Não! Não é preciso – sorriso amarelo número três – a mãe sabe e deixou-me vir – amarelo e desfocado...

E de seguida, sim, esbafori-me sem aviso, rua acima.

Por fim, lá cheguei. Num ápice, infiltrei-me na multidão, não fosse o diabo tecê-las...

E os meus olhos sempre assim, abertos em desmesura, de passeio por aquele espectáculo, ancorada em absoluto fascínio.

Segue-se, então, que lá vi tudo, dancei tudo, berrei ainda mais, pulei e cantei. Desalmadamente, sublinho.

E chorava a lagrimita da ordem, sempre. Também. Pela magnitude do que via. A vida era dali, com residência fixa. Disso, é claro que eu nada sabia. Mas sentia. Mais do que suficiente, portanto.

Depois acabou-se, e já a multidão dispersava. Eram horas de voltar, o final da graça chegara ao mesmo tempo – não era bom o que me esperava... Mas jamais trocaria aquilo pela paz! Nada era mais importante que o Ronco!

Comecei a descer a rua... De repente, um painel ambulante de caras conhecidas... Pois era, com aquilo é que eu não me lembrara de contar. Por ali, a solidariedade tinha nome próprio: a cidade, quase em peso, ia subindo, subindo, enquanto eu descia... Onde ia? A lado nenhum, de especial; estavam, tão somente, coisa pouca, à minha procura...

Ocorreu-me a fuga, mas lembrei-me a tempo que não tinha para onde – tudo conhecido, tudo amigo, zero de esconderijo. De resto, sabia bem que quanto mais fugia, pior era o que sobrava, depois. Para mim, certo.

Rendi-me. E juntei-me a eles. A mãe, sibilante: em casa falamos, menina...

Queria lá saber! A festa, já ninguém ma tirava...

Achava eu, claro. Leviandades de criança... Não querer saber era uma conclusão muito subjectiva e apressada. Quase, quase a chegar a casa, ao virar da esquina, o meu pai... Que estava de serviço e tinha, visivelmente, de lá sido arrancado. Ele e o tal do amigo, à tiracolo...

E agora sim, a coisa estava assustadora. Enfim. Lá fomos todos para casa, cada um à sua, que a romaria era finda.

Zezé, já no quintal, viu-me passar e acenou tristemente. Sabia o que me esperava: castigo de muitos dias. E desta vez, também a palmada a marcar bem a importância do seu ponto de vista unilateral. Inevitavelmente.

É que lá do fundo do meu encanto festeiro, eu não acordara o suficiente para o mundo a sério para perceber que entretanto ficara completamente encharcada, da cabeça aos pés, mascarada de pinto descalço em calções. Pois. Que quando me encontraram, já aquela coisa das havaianas ia longe - naturalmente a mais, para dançar.

O final feliz?

É que durante o exílio dos quintais, Zezé e eu descobrimos de novo a paz!

E, naturalmente, soltámos os prisioneiros.

Ana Vassalo

19-08-2011 – 23:25

Origem das Imagem: "Dead Sand" (globalpost.com)

sábado, 6 de agosto de 2011

EM DIFERIDO, GUITARRAS...




DIÁRIO SEM COMPROMISSO



5 de Agosto de 2011



(A propósito de uma memória: Mário G.)




























EM DIFERIDO, GUITARRAS...


Lembro-me daqueles dias de regaço em que chegavas com olhos presos de estrelas e o futuro se apressava.

Sentávamo-nos então ali, do outro lado dos muros e as mãos enredavam-se num só gesto.

Eu, cantava. Trazia palavras de amanhãs sem lei no caderno que tu me roubavas, sorrindo, e dizias pertencer-te.

O canto era de inocência, que criticavas, mas, no fundo, revias-te no meu abraço de menina.

Eu afrontava os lobos com a esperança dos palácios e todos os finais eram meus num lugar de ser feliz.

E depois construia mundos. Onde passeava de braço dado com a justiça, e o pão brotava da terra no momento de ter fome.

Tu agarravas a guitarra e dizias estar na hora de vestir as coisas, as palavras sem eco que acabaras de me tirar.

Não havia horas, o relógio sentava-se em descanso lá à ponta dos segredos e adormecia sossegado.

E nos momentos mais graves, em que falar era urgente, a música apressava-se de obrigações e comparecia certa na esquina de sermos nós a verdade.

“If you were a carpenter
 and I were a lady,
 would you marry me anyway,
 would you have my baby?”,

entoava eu num timbre espécie de Baez mais velha e mais rouca, e tu respondias com um solo desgarrado na guitarra solta de paixão. Depois chegava Hendrix e "Hey Joe", e instalava-se a insanidade.

Chamavas-me... “my pretty american hippie”, só por causa daquele fiozinho de couro em volta da minha testa, que me segurava os cabelos sem freio e mantinha as ideias no sítio, de tão estranhas que eram todas.

Em breve, saída do nevoeiro que era a minha ausência quase permanente, a multidão pousava por ali, os novos e os velhos de olhos arregalados, num ano de ‘72 desafiado, ali, a largar o tédio... E ficavam, iam ficando; o metro lá em baixo a reclamar por audiência e eles ali, já sorrindo, ainda que a cabeça lá fosse abanando de conveniente desaprovação.

No primeiro dia, foi estranho. Eu divertia-me, e para mim tudo não passava de um cantinho de vida onde era possível brincar; depois do nosso “carpinteiro” ir à sua lida, arrancava eu com o homem do meu contentamento, Taylor de seu nome, e cantava o ombro eterno que se oferece ao amigo, “and you know wherever I am”, num estilo bem distante da fonte, quando, sem que eu entendesse de razões, cai uma moeda no estojo da guitarra; e depois outra, e ainda outra, e a malta ali, sem arredar pé, num ir ficando de silêncios procurados no espaço aberto que a música encontrava para todos nós.

(E lá me explicaste, enfim, que era muito normal, o gesto das moedas. E lá acreditei, enfim, porque duvidar de ti era uma história por contar.)

Piscavas-me o olho e mudavas de tema. E era chegado o vento, a soprar respostas. Já a malta se abanava...

“The answer, my friend,
 is blowing in the wind”,

mas os teus olhos eram sempre meus, num vôo sem regresso, que gostávamos de ensaiar.

E no final, como que de surpresa e aproveitando aquele mar de gente ali, lá íamos os dois, tão felizes de missão quase cumprida, “buscar” a Natália e o Zé Mário, no sorriso escondido que trocávamos, de quem se pergunta se a mensagem chegaria :

"dão-nos um bolo que é a história
 da nossa história sem enredo
 e não nos soa na memória
 outra palavra para o medo...”

...

Um dia, foste de férias.

Eu, fiquei perdida no mundo, sem ombro, ou guitarra... e de caderno já mudo. Embranqueceu... Lembrava-te, morrendo de esperar: tão bonito, tão sem limites, o cabelo enorme, óculos na ponta displicente do nariz, o apelo da idade algo distante da minha, os livros proibidos a que me apresentavas, o mundo que conquistavas para mim. Mais ele, o teu sorriso feito de luz quando entrava nos meus olhos.

Temerário, sem vestígio de medo, tudo me ensinaste da coragem.

E então não resisti, de esperar. E parti, para um destino na memória de nunca mais te encontrar.

Voltaste, uns meses depois.

Vinhas dar-me a mão, mas eu já não a tinha, a de sempre, que foi tua pelos sonhos. Tinha um outro par, sem poemas, velho de pardo, sem afagos, como as ausências.

Disse-te adeus, sem que nem mesmo o teu olhar parado e sem cor me tocasse.

E lá segui cantando, não por muito tempo, com guitarras outras, amigas. Os meus poemas, que escrevia de aventura, haviam ficado, para sempre, irremediavelmente presos a ti, que me conheceste antes do tempo pesar.

É que foi ali, nesse instante fora de mim em que não soube o teu olhar, que eu entendi que seria sempre assim.

Os anos vieram, e partiram. Chegam, e logo voam. Nada me acrescentam, porque não estou presente, para os receber.

Vou em viagem, algures, por onde o resto de frio, dos ventos mais que não cantámos, jamais me reconheça.

E o amigo que tinhas, e eu também, esqueceu tudo sobre nós. De caminho, apaguei também tudo sobre mim, ainda que fosse inventando na jornada novos votos de ficar, na saúde e na doença. Mas nunca esperei pelo trabalho da morte, demasiado eterna para verdadeira...

...

E sempre que a música me quer, eis que o meu canto regressa, gritando uma saudade de abismos.

Sou feliz, a cada instante de cada nota recuperada. Começo e acabo com a mesma carícia demorada de quem volta à casa há muito abandonada. A multidão está lá, como dantes foi, saída do nevoeiro que é agora só meu e me abriga de cansaços.

E ao soar do último acorde, lá vou, disparada pelas frestas de um desprendimento acarinhado.

Ao longe, os aplausos que se demoram, trazem-me vagamente à ideia uma fitinha de couro, que se desprendeu.

E tu, que me deixaste só quando eu precisava de mundo, surges-me em formato de remorso neste meu tempo que ainda não se cansou de fugir.

Mas gostei de ti. E sei que o sabes ainda hoje.
Apenas, nunca aprendi a amar sem asas de partir.

E é só por isso que não te peço desculpa.


Ana Vassalo
06-Ago-2011 – 00:06

Origem das Imagens: Google.

terça-feira, 26 de julho de 2011

MAR ACORDADO















mar acordado

sonho é estrada mais à frente
regaço, futuro da gente
mais dia a contar do fim

é água de refrescar
em busca da voz do mar
numa onda de marfim

e é mais céu na ternura
é asa livre do tempo
viaja a flor da lonjura
num andar de gosto lento


venho aqui chego saudade
rosa do vento lunar
maré da vontade solta

e é só minha a verdade
de um sonho com mar de volta
num abraço de luar...

Ana Vassalo
07-Mai-2011 - 23:06
Origem das Imagens: Google, site original inactivo.

A PROPÓSITO DE MEDO E DEMOCRACIA


BORN FREE...
I WAS INDEED
BUT MORE IMPORTANT
IS TO DIE FREE.
I WILL!
MY MIND WILL ALWAYS BE MINE.








A PROPÓSITO DE MEDO E DEMOCRACIA
(DE LEITURA CONVENIENTE *APENAS* AOS VICIADOS NA
LIBERDADE)






Numa altura em que, em molho e à velocidade da luz, surgem por aqui mil e um Eventos a participar e Causas a defender, de cuja utilidade efectiva e bem intencionada se salva a interessante quantidade de uma boa meia dúzia - sou optimista ;) - apetece-me, então, e com igual legitimidade, falar sobre Intervenção e Colectivo. Sobre Democracia. E Medo.

Ontem foi um dia agitado, pelas melhores razões - que derivaram das piores - em que alguns de nós se juntaram aqui para debater a última moda desta "coloquial" network: borracha, lápis azul, tecla DEL... CENSURA, SIM! Essa mesma, a dita!, por via de dedos céleres ao serviço de cérebros bastante menos que os dedos, é um facto, mas aí! E cada vez mais activa, verdade, atarefadíssima!

O medo é uma solução perversa, uma noite imensa. O medo, creio-o com convicção e desde muito cedo, não colhe nem acrescenta: submete e paralisa. Inventa o escravo, e valida-o... Não sou fã, temos pena.

Aos projectos de Censores desta rede, espalhados por aí em Grupos, Causas e outras Páginas públicas, tantas de conteúdo ideológico específico, que se entretêm a apagar entradas desconfortáveis, expressões de desacordo de terceiros - objecto de aceso e grato debate ontem, algures neste meu círculo de amigos - eu costumo responder tal como fiz em 1973, aos 16 anos: CANTANDO!

Fechada compulsivamente e ordenada ao silêncio - corriam rumores de uma manifestação à porta do Liceu, da parte da tarde - eu e, está bom de ver, mais umas centenas, já que decorria o intervalo "grande" (20minutos), na enorme Sala de Convívio do D. Pedro V, e vinda das cantorias, com o "homem da guitarra" ao lado a segredar-me "ninguém disse nada sobre cantar" ;), levantamo-nos, ele e eu devidamente sincronizados por um olhar cúmplice, e quando, aos primeiros acordes da guitarra, ele dá vida e som ao objectivo, eu reconheço-o e arranco a cantar "LIVRE", de Manuel Freire... Ao mesmo tempo que, desde o outro lado da sala, disparado em alvoroço, se precipita para nós o zeloso e habitual "fiscal" de serviço - quem não o lembra?

Mas as surpresas existem, e a restante massa estudantil, em grande maioria habitualmente indiferente - salvo uns quantos activistas do MAESL (movimento onde nunca me filiei, porque já então era Independente e Livre, mas com quem frequentemente colaborei e me misturava para a "confusão"), os tais dos muitos q tudo arriscavam por todos nós - inesperada e progressivamente começa a levantar-se e, um a um, vai juntando a sua voz! Em 73, quando o preço a pagar era excessivamente caro... Mas a questão é que, de repente, não havia como identificar os "subversivos". Porque agora... já eram TODOS!

Um dia, talvez, acredito eu com esperança militante, todos perceberemos a importância de assumir um NÃO que é devido no momento certo, da UNIÃO para a justiça, da força do Colectivo pela razão do que é justo. E então, só então, o Medo será neutralizado.

Até lá, vamo-nos contentando com arremedos de Democracia - numa altura em que os potenciais Empregadores já não dispensam uma consulta aos nossos perfis no facebook, só para tirar dúvidas "et à cause des mouches" :) - porque pior que uma realidade fria só mesmo a morte da ilusão, pois.

Por aqui, canto e cantarei sempre, porque a memória está viva. A quem interessar, fica o tema, letra e vídeo.
http://www.youtube.com/watch?v​=5-8hARztZ2w

"LIVRE

(Poema de Carlos de Oliveira

por Manuel Freire, música e voz)


Não há machado que corte

a raiz ao pensamento,

não há morte para o vento

não há morte!

Se ao morrer o coração

morresse a luz que lhe é querida

sem razão seria a vida,

sem razão...

Nada apaga a luz que vive

no amor do pensamento

porque é LIVRE COMO O VENTO,

PORQUE É LIVRE!"

---

"O Homem da Guitarra" - já identificado na nota do facebook, com a respectiva autorização, dá pelo nome de JOSÉ MANUEL PAIVA SANTOS, meu colega de Liceu e companheiro de cantos, subversivos e outros mas todos de bom-gosto ;), e por fim, não menos importante, de aventuras políticas, sim. Tem perfil no facebook e escreve divinamente.
 

Ana Vassalo
25-Jul-2011 - 13:05

posted on July 25-2001 - 13:19
in facebook
Origem das Imagens: Google.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

AO CONSENSO, PORTAS COM ESTRONDO! ou "GIMME A BREAK"? ou FARTA-DESSA-"TRAMPA"-DA-POESIA-DE-PASSARINHOS-ARMADA-AOS-CUCOS!!!






































Ao Consenso, Portas com Estrondo!

ou

"GIMME A BREAK"?

ou

Farta-dessa-"Trampa"-da-poesia-de-Passarinhos-armada-aos-cucos!!!


(É sempre de fino tom conceder ao vernáculo
visível distinção, digo eu.)


(IRRITADA, SIM, E ENTÃO? HUM?)




a tralha a tralha
intelectualidade na malha
aferição dos acertos
a porta a ranger ferrugem
bafio morto de velho
morfologia em formol

a fila a fila
no vazio da ideia
palavra farta de usada
estatística e tribunal
toga bíblia e audiência
ai de ti, já te condenam!

o pó o pó
confortado de certezas
TÃO antigas!...
regra notário alfabeto
do pensamento indigente
a desfilar de lamé

não não!
que o verbo já se casou
e o contrato é vitalício
de respeito, que é bonito
- e pé ante pé se edifica
o sossego dos consensos

ah mas então e a agonia
o tropeço do empurrão
a chacina e a fadiga?
morreram.
todos por falta de uso
no epitáfio dos contentes

oh voz das alturas
teorias do sorriso
filosofias circenses!,
onde estão onde se ocultam
os ventos do frio sul
no inverno que vos falha?
...

era uma vez um passarinho-inho
diligente em obra feita:
um ninho de penas doces
num chilrear de manhãs
plenas de substantivos
a soletrar o conselho

oh alegria alegria
de pios a bateria!
cantou cantou e cantou
- que se achava necessário
didacta, nova ‘paedeia’
- e caramba!, já se cansa uma pessoa.

olá olá alma passeriforme
com tiques de trato ursídeo
e resistência dromedária!
- e aqui se impõe uma pausa
para a “explicação dos pássaros”
suicidados de bossas

qual quê!, a rima não se intuía
e a métrica diz que sofria
(e ambas as falhas minhas!)
um tiro!, e o ar a voar de penas
desastradas assustadas
e também coitadas sim!
que já se escoam p’las fossas...

hã? sentido das coisas quê?...
ora essa! está bem
que a natureza acorda
bucolismos certificados
mas... e a fartança de tédio
do encanto passarídeo?
pam.

AH!
mas que não tombem os ídolos
e o escadote
e o céu pintado!
- sonham e miram-se de pé,
morrem de génio deitado.

Ana Vassalo


11-Mai-2011 – 14:27

Origem das Imagens: Google.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

PALAVRAR





palavrar



poesia é alma solta
é garra, carícia na arte
na asa que vai não volta


é livre no arremesso
a marca de cada começo
lançado ao vento que parte


Ana Vassalo
in facebook
18-Jul-2011 - 00:56

Origem das Imagens: Google, autor desconhecido.