NETOS

NETOS

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

REMARKABLE PEOPLE



FERNANDO PESSOA

(Lisboa, 1888 - 1935, Lisboa)


"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


************
"I am nothing.
I will never be anything.
I cannot want to be anything.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."

or...

"I am not nothing.
I will never be nothing.
I cannot want to be nothing.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."


(Álvaro de Campos in "Tabacaria")




LISBOA - Chiado

LISBOA - Chiado
"Fernando Pessoa" by Lagoa Henriques. The place: "Café A Brasileira" (Brazilian Café) - 1905.

PLAYLIST TODAY




MUSIC IS THE PASSION REPORT



♥ ♥ ♥


PLAYING SOFTLY WHILE SOMEONE SANG THE BLUES



Saturday, Jul 22, 2017 - 17:57





SALVADOR SOBRAL - NEM EU [DORIVAL CAYMMI]



YouTube – "Salvador Sobral"





ANTONY HEGARTY + LEONARD COHEN - IF IT BE YOUR WILL [COHEN]



YouTube – "Oggmonster"





CHAN MARSHALL (CAT POWER) - I'VE BEEN LOVING YOU TOO LONG [OTIS REDDING]



YouTube – "anaruido"





JANIS JOPLIN - ME & BOBBY MCGEE [CHRIS CHRISTOPHERSON]



YouTube – "ThE DuCk"





JEFF BUCKLEY - LILAC WINE [JAMES SHELTON]



YouTube – " roberta panzeri"





DAVID BOWIE - WILD IS THE WIND [JOHNNY MATHIS]



YouTube – "Peter Music HD"







_____________________


LEANING INTO THE AFTERNOONS by PABLO NERUDA

«Inclinado en las Tardes»



YouTube - "FourSeasons Productions"






CHANGING BATTERIES - OSCAR WINNING ANIMATED SHORT FILM



YouTube - "Bzzz Day"





DIALA BRISLY - A BEAUTIFUL YOUNG LADY

(a huge thanks to my daughter who e-mailed this video to me)



BBC Newsnight

«Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman - artist Diala Brisly - who is trying to make life that little bit more bearable for Syria's kids.»

Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman -...

Publicado por BBC Newsnight em Domingo, 20 de Março de 2016






A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT

A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT



FLYING A SECRET



I got here to hide. From equations and patterns. From repetition, after all.
Closed the door and got me a special place where I thought I could
somehow sit close to the stars. But I soon found out that the sky was
still opaque, no matter what the steps. And so I left. Again.

I thought, then, I could build me a different ceiling, a new-coloured scrap
of highness. And then make it work. Where I could dream, more than I sleep.
I have long decided that sleeping is overrated - that I know for sure. So I
take that time instead to travel the night alone and in the meantime I allow
myself to fly, unlike stated before... Yes, I like playing with paradox, to
expose the inside of words and the revelation of writing down the voice of a
silence. My adventurous, ever-walking silence.

So I came back. Here, within this quiet world, I intend to gather all my
things usually kept hidden or inactive. They are here to speak.

And since the future is a stand-by secret, I want to live by a precocious
clock, at every running instant of every entering second.

And I will not slow down until my "future exists now" - kind of reverse
quoting Jacob Bronowski.


Ana Vassalo
in my site "CAFEÍNA"(former "No Flying Allowed")
Nov 11, 2010 - 11:54




THE WALK OF TIME

THE WALK OF TIME

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

sem S.O.S.




























tudo bate

todos batem


morre a janela
cede o telhado
no despenho em vertigem
e esmaga um resto de luz
que nunca aprendeu a casa


tanto melhor

rasga-se a pele
e o coração
apaga-se o rasto
que um dia pensáramos
caminho vasto do olhar


e sai a vida
o sangue e a memória
até sermos apagão


pois bem

estou no chão


abrigo sem gosto
mas com demora

sem dias de ser
ou de depois
farta de tempo com horas


salvé maravilha
honra e vitória
por tanta bala cumprida!


em quê?
pois se morri antes da chegada
na estrada de tantas eras
que um dia cortei ao trânsito


mas... quem não sente
não vê
apenas bate


cão atrás, mira e disparo
precisão de tiro ao alvo


essa terapia de abrigo
que lava os males de si
no soco que se desfere


tudo bate

e todos batem
 

enquanto a pergunta se agita
… se nunca entrei
porquê a expulsão?

deixem-me estar este ser eu
que bate a porta com estrondo
aos acenos da esperança



ao perigo frio e volátil
do que não sabe a promessa
e larga o mundo sem aviso
na morada de si próprio


um lugar antigo e escuso
sombra imensa sobre o amor


onde se bate

e tudo bate

e todos batem

sem trégua


até à plena rendição
do desamparo num beijo de chão


(av)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

LISBOA, MEU AMOR





Photo by Rafael Marchante, Reuters, Sem-abrigo de Lisboa


Há um risco preso à noite, um rasto branco adiante que ondula, sujo de néon. Sigo só, pelas avenidas, ruas de ofícios, travessas e becos, que me hão-de reunir aos companheiros de tarefa, lá por bandas de Sta. Apolónia. Junto ao rio, um barco ancora a solidão dos tardios. A estação não dorme horas certas e corpos alinham-se no frio mais composto por um tecto, enquanto outros se enroscam nas esquinas de papelão da noite indiferente.

Do outro lado, a revelação de um subterrâneo inesperado traz à vista um jovem casal. Grávido. De muito, tanto quanto de pouco. Ela, carrega consigo uma vida que ambos anseiam - certeza colhida nas vozes embargadas de um e outro, onde se misturam a comoção e o abraço ao futuro – ao mesmo tempo que o olhar resignado denuncia um outro parto, que pariu a rua como abrigo. Ela é bonita, ele também, são doces ainda, num sorriso de vida aprendida na "espera", essa tal que gosta de se passear num provérbio traidor.

Informam receios, também. Como quem parece precisar apenas de agasalho para a alma, que se resguarda de males a somar, em espreita, ali mesmo à mão de roubar o último fôlego da esperança. E a sopa quente que lhes entrego sabe-me, a mim, a vida sem alma, a minha, que se desfaz em perguntas sem resposta. Despeço-me do olhar brando a espelhar o sorriso criança que ainda sabem, enquanto no meu bolso se revolve a lágrima que prendo, com ganas homicidas, pelo pescoço.

Continuamos a subir, à luz da opulência de uma avenida bela e antiga, que forraram a mentiras atraentes, querendo sugerir que ali nasce e morre toda a beleza disponível no mundo, a consumir farta e rapidamente. E por contraste, numa outra esquina, um outro improviso, de um velho coração que alberga gerações de rua sem conhecer outro nome de vida. E, de novo, os cartões do calor como cobertor - que se conhece, às vezes, e dura o tempo de uma chuva - e mais um sorriso que aprendo por entre a confusão dessas infindáveis perplexidades do caminhar.

E enquanto os meus olhos se fixam no amontoado de velhos mas valiosos pertences daquele homem aquietado no único rumo que conhece, a mente dispara recapitulando o dia. Recordo, de minutos antes, um outro grupo de desabrigados, no Cais do Sodré, pouco mais que adolescentes. O diálogo, a face tardia do lamento a reconhecer horas de abismo, que já foram de magia pelo poder acrescentado das muitas cocaínas e afins do engano. E depois, a pausa para mais uma nota, que registo no diário dos afectos: não há homens sem remédio, que o bem não se define no singular; é circunstância, e depois é recurso, que acontece ou não, numa gramática de acasos.

Existe um Tejo e uma Lisboa para cada recanto da noite ali, que se separam por mundos: LuxFrágil no espaço aprovado; apenas frágil no lado infortúnio. Uma estrada apenas, calada e escura, os divide, na margem norte das águas que correm diferenças numa indiferença sem prazo.

A Maria será mãe no corpo da noite sem shots - o agasalho do que se lembra e se veste em esquecimento. E nós, robots do caminho aberto em revista cega a tudo o que não projecte um social oportuno, que se folheia numa cadeira da noite aconchegada pelas avenidas da sorte, sonhamos partos sem dor no regaço dos confortos invalorados, que logo depois esquecemos.

Na noite que se desenha nos pára-brisas da ausência, justiça vale um segundo oculto na luz do rio, que pulsa ao toque do tempo disfarçado de avançar, em corpos reféns da dança como quem busca em paradoxo o rosto da liberdade, que a manhã seguinte revelará não conhecer.

E a música corre um hiato, pelas calçadas vizinhas, entre excesso e defeito, zibelinas e papelão,  lacuna entre o abismo e o sonho. 
À distância de uma tira cor da noite, morre o lado que desce ao frio, enquanto o outro se estafa por amanhecer verdade...

E enquanto rumo até casa, desconfortada pela agressão de um outro tipo de frio, de uma estirpe que entranha e corta a fundo, cruzam-se na memória flashes sucessivos de uma noite que agora parece rir de mim. Como quem me acena manuais de vida, com instruções precisas sobre a impossibilidade técnica de se ignorar o aprendido e continuar a caminhar ambos os lados.

_____

(Memória do primeiro dia de um dos meus tempos de voluntariado, este entre 2000 e 2001.)


Ana Vassalo
14-Jan-2013


segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

intervalo
































um resto do que há-de ser
na pegada que se apaga
número de porta da saga
que risca os olhos de o ler
uma cabeça já morta
como um balão por um fio
um traço de céu nada importa
nos aterros junto ao frio
lá por trás da noite viva
subúrbios do que já foi
onde o golpe já não doi
no sangue que sobrevive
dançam no chão fragmentos
testemunho que subsiste
numa sombra que há no vento
rumo à luz do que resiste
pela margem do cansaço
nos intervalos do passo
a verde relva dos dias
que nos cresce de utopias
cola-se o cérebro à esperança
velhos cacos de emoção
e a memória guia a mão
no coração que se lança
ao sonho inteiro de dar
será isto acreditar?
esquecido há tanto o pulsar
a travessia de encantos
a que é que sabe o olhar
que noutro guarda os recantos
será isto regressar?
uma cabeça já morta
que agarra o fio p’la subida
remenda a luz na aorta
e acende o sangue na vida?
sei lá eu do acordar
se há milénios era o mar
geocentro, heliocentro
cosmogonia plural
- resposta ou contentamento?
que sei eu de acreditar...
olho as frestas penso o todo
planto de flores o lodo
e espero que cresçam luar...


Ana Vassalo
14-Jan-2013
 
Imagem: "Moon Light Fragrance", Dorothy Oakman

 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

no chords





























you know that I just add the words
picking letters from the roads
it’s the soul that does its thing
the wind that lends the wing
while the sea offers the shelter
the mind has its records
the heart flies much better
and the skies break all the walls
but i dance in empty halls
still the foot carves the way
while the hand travels light
yet the lips have no say
but to put up a fight
and love finds no path
worth clearing the senses
where you once built the fences
and now prison is harsh


still i keep a wiser door
half belief opened to cross
the eternities of fear
so that words can get across
hoping one day they will soar
from the vast desert of you, dear
well, i rest with no case
my writing’s all done
no hero no leap no face
all strength is finally gone
forever brandish your sword
the glory of sadness is yours
a great song without a chord
shut every tale of open doors
words are gone without an end
night reigns high over the light
for pillars were thought not to bend
regardless of powers at sight
dark are the meadows ahead
while we grow tall in our heads
for love dies singin’ alone
a tune of old greens lost in tone


Ana Vassalo
11-Jan-2013

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

CAOS





























E se o seu dia começar com a recepção de uma carta carregada de granadas, sorria muito, reponha flores, e mentalmente agradeça aos seus (espécie de) governo e (espécie de) p.r. o conjunto de alterações às leis em q tanto têm empenhado as suas-deles maravilhosas imaginaçõesitas de tractor.
 
É verdade que, estando atentos como nos compete, temos a obrigação intelectual de já ter assumido há muito q devemos, cada um de nós, acarinhar rapidamente a ideia de que a pobreza é o caminho que nos espera a todos os q arduamente trabalham ou trabalharam uma vida.
 
Enfim, há que não misturar as castas, convém perceber, sob pena de depois se confundirem as águas e parecermos todos iguais, coisa obscena, podia lá ser! Portanto, vamos lá a mentalizar estas cabecinhas cheias de sonhos de Abril de que sim, hoje tudo é o q parece, e os dinheiros de q o estado nos espolia, com o habitual toque de graciosidade e a subtileza de um tanque de guerra, estão, também sim senhor, a ser muito bem empregues na criação de umas resmas adicionais de delegações da Sopa dos Pobres, porque, sejamos honestos, caridade é coisa que lhe cai bem, ao contrário de solidariedade que é coisa de jacobinos e assim.
 
E agora sim, a paisagem urbana estará muito mais adequada a modelo de fotografia artística. Há poesia na pobreza, é incontestável - nunca ninguém ganhou prémios internacionais a fotografar lautos banquetes, pois não? Pois não, ora.
 
Mas já não interessa nada, porque o importante é apelar à criatividade da continuação, abrindo terreno por mato à catanada que é coisa em q até sou experiente e para alguma coisa há-de servir agora, digo eu sim. Afinal, não é do caos que nasce uma estrela? Nietzsche estava certo, seguramente, q ele lá tinha formação em muitas coisas destas de saber e q agora me hão-de ser muito úteis, vá. Cabe-me, então, ir à procura da minha, a tal da estrela, q ela deve andar aí por perto, a marota...
 
Volto depois, lá mais para quando conseguir deglutir este dia. Fiquem bem e mantenham-se afastados dos correios o mais possível. A guerra começou e o perigo de explosão anda encartado sob registo e aviso de recepção.
 
E mais não digo, que agora vou para ali rir-me muito para um cantinho até me passar esta estranha impressão de pesadelo.
 
Beijos de ano novo.
Desta que s'assina,


Ana Vassalo
10-01-2013


quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

cai o pano na cidade

































de espada em grito a razão
a lição omnipresente
inconvocada
o estalo o desbrago a explosão
no entulho da existência
acumulada
o antigo voltar das cegonhas
a haste crua da verdade
silêncio da alma na pele
que soa em estrondo a cidade
opção crua por instinto
o real facto aprendido
o sonho dos dias fendido
nos terramotos do engano
mãos de sal estendendo o mar
aos limites de um arcano
um deus um sol uma luz
nas urdideiras de amar
o estrado da segurança
o olhar queimado
o despenho
fere
sangra
e enfraquece
na aridez do engenho
fica o chão e a contraluz
o fio que cede esgarçado
o feio andar da promessa
o horizonte amarfanhado
o definhar do avesso
um intervalo inconfesso
a guerra saudade e a pressa
a palavra presa à trama
que não encontra a conversa
o inimigo que ama
a fala muda de altivez
o amor que o sonho não fez
estala
quebra
e assassina
qualquer vestígio de vida
no gene de acreditar
e os olhos secam
o vôo aterra
as mãos prendem o toque
do que resta em esquecimento
a sístole bate em deserto
no coração que calou
os lábios atacam sorrisos
treinados de resistir
e a terra hoje abrandou
as voltas de um por vinte e quatro
em movimento de acerto
num vasto nada a parir
amores de anfiteatro

tocam sinos a rebate

lembram vida nos abismos
em dois panos de muralha
peões das horas sem mate
p’la rainha que nos falha
no castro perdido em combate

e é na distância do fim que rimos

um adeus à lágrima que nos valha


Ana Vassalo

metáfora
































metáforas são código,
lugar de todos, que nos fecharam

a chave é tão universal
como o pensar da luz na sombra


e a porta...
é de mão própria, talvez incerta
ora se abre em clara vida às alamedas
ora se fecha num beco antigo descido à morte
 

Ana Vassalo
08-Jan-2013
in facebook too

JOSÉ F. VICENTE - II














À chegada de 2013,
o 2º Poema oferecido por
José Vicente.
 
Muito obrigada, amigo querido do coração doce e Poeta
que tanto admiro.







"Para uma amiga muito especial: Ana Vassalo
 

As portas dos poetas
não têm chaves.
São mansardas abertas
ao querer do sonho,
amante do vento que iça os sentidos
e os faz ser luz
a iluminar o escuro das palavras
quando as palavras não têm fé.
Erguem-se flâmulas nos olhos da poesia
habitada pela primavera do pensamento,
esvoaçam anunciando o amor
que esteve no escuro
e na ferrugem de uma fechadura
que enclausurava a mente.
Entra o esvoaçar das ideias.
Entram trepadeiras como chicotes
a vergastarem as trevas.
Entro eu e tu e ainda tu...
vindos da terra onde as letras se casam,
deitamo-nos despejados do fingir
e o desejo é possuirmos o corpo da imaginação.
Não se bate à porta dos poetas,
entra-se e sobe-se até à mansarda
onde já as aves deixaram penas
para escrevermos o que a alma e a vida ditam.
Sem caveiras,
poesia apenas,
na procura das palavras certas.
Tanta beleza sem mistério
onde se entra
com a chave da criação.


 
JFV
04/Jan/2013
in facebook

Imagem: 'Volcano Poet', Dale Witherow."

JOSÉ F. VICENTE - I










Poema oferecido pelo meu 
mais querido Amigo e Poeta
José Vicente.






"Para Ana Vassalo
 


Vi-te sentada no poial de uma estrela,
apanhavas fresco.
Foi num serão quente,
tão quente que o sol envergonhado
fugiu quando a lua se aproximou.

Tinhas um chapéu, lindo,
feito de raspas de nuvens.

Vestias saia de luar, esplendorosa.
Esvoaçava quando a brisa se manifestava,
formando bandeiras que saciavam
a calma do céu.
Janelas, portas, postigos
abriam-se para que entrasse
a brisa vinda do teu respirar.

Do alto da humanidade
enviaste-me o ar
que me faltava
para falar contigo,
como se de eternidade se tratasse.

Vi-te sentada no poial de uma estrela,
e a criança que ainda sou
adormeceu no teu regaço de glória
esperando que o ar fresco
me sossegasse na tua amizade.
Recordo-me que o teu chapéu, lindo,
feito de raspas de nuvens,
refrescou-me.
Vi a noite esvoaçando
e o mundo que nos fala.

JFV
29-Abr-2012
in facebook



Imagem: 'Night sky over the Rhone', Vincent Van Gogh"

 

domingo, 6 de janeiro de 2013

contos do fim do mar

[words are special... some people too]


Eu tinha aqui este écran
De histórias sem rumo
… A passar...

E nelas um traço génio
Que ligava a luz do sol
Nas esquinas sem morada
Dos encontros por haver

Tu lá seguias
Na fila dos sonhos adiante
Com os gnomos e os sábios e as sereias
Num conto mistério a morar o tempo
Da colisão de estrelas sem mar

Era um país de nascer
Sem contas de calcular
Onde a minha mão erguida
Acenava a partitura
Da música que eu desenhei

E nesse sal de outros vinhos
Vindimados por afectos
Corria uma asa em nós
Que se soltou lá dos céus
Pra voar dentro do peito

Eu tinha mãos de aguarela
Sujava o mundo de azul
Com dedos de ser menina
E gargalhada de flores



e tu
chegavas ...
de branco calado

eu conhecia-te o vulto
e as sombras de ti oculto
falavam do teu recado
...

eu não sabia escrever
dos nortes que descobria
quando a voz que te dizia
soava dentro de mim

mas eram versos de correr
no coração sem ter fim
ou esquadro, lei ou compasso...

só sei
que um beijo de mar no regaço
nascia ao fim dos cansaços
e se abraçava à ventania
…

explode-me o céu de mudança
nas mãos cheias de horizontes
e o que há para lá dos montes
diz que és o sal de temperança

grito, corro, aceno aos deuses
agarro a pele em suor
águas de chuva em amor
num lugar de tantas vezes
...

mas
trago sempre o meu chapéu
velhinho de ser adeus

sou filha do vento de ir
que eu do mar... sei o partir


Ana Vassalo
06-Jan-2013

Imagem: “White sail”, Leonid Afremov.

sábado, 5 de janeiro de 2013

espaços


pianos




 

o ano crava
e o ano beija
sabe o que não passa
morre o que deseja
o ano teima
e o ano para
as águas queima
renova e sara
o ano foi
sem saber que era
resiste o que soe
tão longe é a era
e o ano despede
o ano contrata
não sabe o que mede
do tempo de lata
caíu mais um ano
no ano a morrer
breve adeus ao saber
paz por alma ao engano
outro ano se chega
e outros dias promete
é o futuro que enverga
novas são mais que sete
mas é tão nu de sonhar
muito pouco se orienta
o ano não sabe o mar
na vaga que não rebenta
somos nós e apenas nós
a mão solta junto ao espanto
que lhe emprestamos a voz
para navegar o canto
e o ano está e o ano espera
por nós se marca no passo
e a cada avanço tempera
o trilho que segue o abraço
é de Mundo este ano
que veste nova a canção
estrada solta de um piano
que abre o silêncio das mãos


Ana Vassalo
02-Jan-2013

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

ABOUT PRIDE... STEVE JOBS

 
(Reminding myself)


Remembering that I'll be dead soon is the most important tool I've ever encountered to help me make the big choices in life. Because almost everything -- all external expectations, all pride, all fear of embarrassment or failure -- these things just fall away in the face of death, leaving only what is truly important. Remembering that you are going to die is the best way I know to avoid the trap of thinking you have something to lose. You are already naked. There is no reason not to follow your heart.
 
 
 
 
Steve Jobs, 1955 - 2011
Stanford Commencement Address
 
 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Escrevinhar





 
 
 
Eu escrevo, sim.
Posso escrever por dias a fio, como calar-me durante meses. Escrevo quem sinto e quem penso. Escrevo-me.

Em cadernos belíssimos, cheiro a novo e capa rija, com reproduções de Van Gogh ou Monet, a tentar roubar o spiritus. Ou em agendas que guardo para esse fim, porque o tempo medido não me interessa. Depois em envelopes velhos, perdidos na mala, ou nos guardanapos do Café, mesmo os fininhos, que mal agarram a tinta. Não me conheço sem um molho de canetas na carteira, e já agora fica dito que é também porque as vou perdendo uma a uma e a velocidade incompreensível. Porque é assim que sou: pairante. Escrevo em casa, no portátil, nos papéis, na cozinha, nos cafés, à beira Tejo ou junto ao mar, nos jardins, no restaurante, no carro (parado), e até aconteceu escrever durante um magnífico concerto de Abdullah Ibrahim (Adolph Johannes “Dollar”Brand ).

Aos 8 garatujava postais, e qualquer dia do ano me era oportuno, com “projectos” de poema para os meus pais, que faziam o favor de os ler com amor. Aos 12 escrevinhava margens, capa e contracapa de cadernos e livros escolares – infelizmente para os outros e mais ainda para mim, nunca fui ‘bem comportada’ para os padrões lectivos. E aos 13 escrevia, então, a primeira “grande aventura”: devia fazer a Primavera falar, falar alto a partir do coração, segundo tema proposto na aula de Religião e Moral – coisa de que nunca me dispensaram e a que eu ora faltava ou simplesmente ignorava quando presente, até ao momento da diferença. A diferença, neste caso, feita por professora “revolucionária”. Que, só por acaso, era também a de Português e logo me “apresentou” a Manuel Alegre e Florbela Espanca, pouco depois a muitos, muitos mais.

E, exactamente aqui, nasceu o vício, o dia em que entendi o lugar da escrita: o da minha triste “Primavera”.

Então, acrescento o visível: escrevo para respirar, como quem diz para não sufocar de vez. A dor, a raiva, a apatia, quase sempre, porque a alegria vivo-a em pleno. E quando escrevo o riso é para afastar os dias mais negros que teimam em querer vencer-me.

Milito nisto: não somos todos iguais, não temos de ser, e grandioso será o dia em que decidamos todos, por fim, sobre a inutilidade da padronização. Cada ser vive-se a si próprio e tem, à partida, toda a possibilidade de viver-se como é. Aquilo em que se torna durante o processo aglutinador da aculturação é escolha sua, por mais que não lhe pareça. Pode-se viver dentro do sistema sem o glorificar, sequer incentivar. É da diferença que nasce a criação. O resto não passa de comentário, projecto de ensaio em nota de rodapé. Classificar é desprespeitar o direito a ser-se indivíduo, único e irrepetível.

Por isso a minha escrita é o que eu quero que seja, é a minha catarse e é-me indiferente se a procuram ou não. Mas completamente, mesmo, por mais que tal, invariavelmente, suscite dúvidas a muito boas almas, e apesar de ser perfeitamente conferível que me mantenho à margem de todas as (muitas) capelinhas em que quiseram integrar-me, que não divulgo a larguíssima maioria do que escrevo, não chamo, não endereço, não imponho.

“A arte maior serve para libertar” : algo que aprendi muito cedo com Fernando Pessoa, porque bem cedo a solidão chegou e me empurrou para os livros. Memorizei e interiorizei. Para caminho, como farol.

O que quer que seja o que eu escrevo não visa ser arte nem ser maior, não visa o externo; procura somente a cura ou a fuga que me faz falta à continuação. A minha escrita, a que ri e a que chora, é tão somente ‘arte’ de sobrevivência.

De resto, pouco me interessam as categorias onde me queiram trancar. Classificar é prender, e eu lamento sempre verificar que insistem em dar asas à capacidade de se aprisionarem. Que “asas são para voar” parece ser algo muito claro, mas tudo indica também que, de tanta luz, resulta a invisibilidade.

A tudo isto acresce a liberdade de escolha. Porque quem não gosta pode sempre não ler. Ou não aceder a, ou ignorar, ou ainda fazer-se à estrada para o maior longe possível. Ou não! Completamente irrelevante.

Por mim, escrevo e escreverei até ser dia: o dia da Vida que se aceita - e ciclicamente me é arredio, como hoje, como tantos outros “hoje”. E só depois, passa por mim a paz. Que me arruma por dentro e por momentos me vira para fora, tornando-me em algo aparentado com o mundo. O que eu persigo ainda não tem nome, porque me é desconhecido. De alguma maneira, escrever tempera o deserto que é não saber.

Procuro. Escrevo para interrogar o rumo das respostas que não alcancei. Para repor a justiça, tal como a entendo, que é o direito de conhecer o conhecível. A consciência de que uma vida não basta para tanto, informa que há que a percorrer em velocidade para de algum modo equilibrar o nível dos incumprimentos. Se é ou não producente não me interessa para já.

Procuro a solidão interna quando quero perceber-me, festejar-me, desaparecer, ou simplesmente viver a saudade do que serei. E o silêncio incomoda com estrondo, porque afronta inseguranças alheias, terreno especulativo de razões. E no entanto, é tão visivelmente simples: o silêncio é o nosso visto de entrada no mundo que somos sozinhos. Sem agentes de interferência. Então, a palavra escrita é, será para sempre, o amigo quieto mas presente, que tudo sabe de ouvir. E que ensina a perguntar.

Um dia, contudo, acredito que encontrarei tudo isso, que me renova e revive, num ser humano que hei-de amar. Até hoje não consegui e não por falta de tentar. Existe, concluí, uma dificuldade intrínseca na espécie em compreender tudo o que é simples...

Como, naturalmente, existe em mim. Por isso escrevo: para simplificar.

Escrevi resmas e resmas de textos na vida, que perdi em ocasiões repetidas de incidentes, negligência, decisões terceiras, desapego próprio. Restam-me uns poucos que salvei, e mais o que vou escrevinhando e que a tecnologia, desta vez, vai guardando. Que um dia, certamente, perderei também, porque há coisas em que a ‘História’ se repete.

Mas a Vida que lhes passei, e que era a minha, guarda para sempre um lugar da Liberdade conquistada dentro de mim.

Não posso, não quero e não sei pedir nada a ninguém, seja do domínio do profano ou do sagrado. Então, resta-me escrever!

E “o mais que isto é Jesus Cristo... (que) nem consta que tivesse biblioteca”...

Ana Vassalo
26-Dec-2012 – 15:38

(Imagem: Graffiti "Everywhere")