"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
************
"I am nothing.
I will never be anything.
I cannot want to be anything.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."
or...
"I am not nothing.
I will never be nothing.
I cannot want to be nothing.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."
(Álvaro de Campos in "Tabacaria")
LISBOA - Chiado
"Fernando Pessoa" by Lagoa Henriques. The place: "Café A Brasileira" (Brazilian Café) - 1905.
PLAYLIST TODAY
MUSIC IS THE PASSION REPORT
♥ ♥ ♥
PLAYING SOFTLY WHILE SOMEONE SANG THE BLUES
Saturday, Jul 22, 2017 - 17:57
SALVADOR SOBRAL - NEM EU [DORIVAL CAYMMI]
YouTube – "Salvador Sobral"
ANTONY HEGARTY + LEONARD COHEN - IF IT BE YOUR WILL [COHEN]
YouTube – "Oggmonster"
CHAN MARSHALL (CAT POWER) - I'VE BEEN LOVING YOU TOO LONG [OTIS REDDING]
YouTube – "anaruido"
JANIS JOPLIN - ME & BOBBY MCGEE [CHRIS CHRISTOPHERSON]
YouTube – "ThE DuCk"
JEFF BUCKLEY - LILAC WINE [JAMES SHELTON]
YouTube – "
roberta panzeri"
DAVID BOWIE - WILD IS THE WIND [JOHNNY MATHIS]
YouTube – "Peter Music HD"
_____________________
LEANING INTO THE AFTERNOONS by PABLO NERUDA
«Inclinado en las Tardes»
YouTube - "FourSeasons Productions"
CHANGING BATTERIES - OSCAR WINNING ANIMATED SHORT FILM
YouTube - "Bzzz Day"
DIALA BRISLY - A BEAUTIFUL YOUNG LADY
(a huge thanks to my daughter who e-mailed this video to me)
BBC Newsnight
«Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman - artist Diala Brisly - who is trying to make life that little bit more bearable for Syria's kids.»
Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman -...
I got here to hide. From equations and patterns. From repetition, after all.
Closed the door and got me a special place where I thought I could
somehow sit close to the stars. But I soon found out that the sky was
still opaque, no matter what the steps. And so I left. Again.
I thought, then, I could build me a different ceiling, a new-coloured scrap
of highness. And then make it work. Where I could dream, more than I sleep.
I have long decided that sleeping is overrated - that I know for sure. So I
take that time instead to travel the night alone and in the meantime I allow
myself to fly, unlike stated before... Yes, I like playing with paradox, to
expose the inside of words and the revelation of writing down the voice of a
silence. My adventurous, ever-walking silence.
So I came back. Here, within this quiet world, I intend to gather all my
things usually kept hidden or inactive. They are here to speak.
And since the future is a stand-by secret, I want to live by a precocious
clock, at every running instant of every entering second.
And I will not slow down until my "future exists now" - kind of reverse
quoting Jacob Bronowski.
Ana Vassalo in my site "CAFEÍNA"(former "No Flying Allowed")
Nov 11, 2010 - 11:54
Poetry
is what in a poem makes you laugh, cry, prickle, be silent, makes
your toe nails twinkle, makes you want to do this or that or nothing,
makes you know that you are alone in the unknown world, that your
bliss and suffering is forever shared and forever all your own.
Bob
Dylan
May 24, 1941
I
think a poet is anybody who wouldn't call himself a poet.
Fernando
Pessoa
1888
– 1935
(Alberto
Caeiro)
Quando vier a Primavera
Quando vier a Primavera, Se eu já estiver morto, As flores florirão da mesma maneira E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. A realidade não precisa de mim. Sinto uma alegria enorme Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma Se soubesse que amanhã morria E a Primavera era depois de amanhã, Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. Por isso, se morrer agora, morro contente, Porque tudo é real e tudo está certo. Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. O que for, quando for, é que será o que é. in Poemas Inconjuntos
Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa
Daniel
Faria
Apr
10, 1971 – Jun 9, 1999
Homens
que são como lugares mal situados
Homens
que são como lugares mal situados
Homens
que são como casas saqueadas Que são
como sítios fora dos mapas Como
pedras fora do chão Como
crianças órfãs Homens
sem fuso horário Homens
agitados sem bússola onde repousem Homens
que são como fronteiras invadidas Que são
como caminhos barricados Homens
que querem passar pelos atalhos sufocados Homens
sulfatados por todos os destinos Desempregados
das suas vidas
Homens
que são como a negação das estratégias
Que são
como os esconderijos dos contrabandistas Homens
encarcerados abrindo-se com facas Homens
que são como danos irreparáveis Homens
que são sobreviventes vivos Homens
que são como sítios desviados Do lugar
in Homens que são como lugares mal situados Fundação Manuel Leão 1998
Sophia de Mello Breyner Andresen
1919 - 2004
Nunca mais
Nunca mais Caminharás nos caminhos naturais. Nunca mais te poderás sentir Invulnerável, real e densa - Para sempre estará perdido O que mais do que tudo procuraste A plenitude de cada presença. E será sempre o mesmo sonho, a mesma ausência. in Poesia I 1944
[
No
mar o tempo não morre. (…) As
coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No
mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na
terra há tristeza dentro das coisas bonitas.
in A
Menina do Mar, Sophia de Mello Breyner Andresen ]
Há
em tudo o que me conheço um universo faz de conta.
O
tempo correu bem e mal, e eu tratei-o sempre da mesma forma.
Afrontando-o. Arredando de mim um conceito que dizem concreto: esse,
o mundo.
Olho
em volta e tudo reflecte um conto. De crianças, sim, que inventam
tempo à sua medida para poderem brincar com ele.
Há
por aqui os van gogh, gauguins, cézannes, kandinskis, picassos e
mirós reproduzidos, e mais uns quantos, uns de origem, a maioria não, todos instrumentos de ilusão. São mentira,
naturalmente, bogus, como quase tudo a que me agarro. Mas há
também João e Zita, nas telas que a parede carrega para bem mais
fundo, no coração.
Enganei
a vida com arte, fosse nos perfumes que me iludiam de glamour, nos
lenços e écharpes como peças artísticas de um pintor genial e
louco, ou nas porcelanas e cristais de pintar um mundo sublime, em
pequenos enormes momentos arrancados de existências repetidas.
Viajei galáxias de mil e um dias, pelos livros. Vivi irrepetíveis
aventuras de maravilha, pela música. E amei desalmadamente. Sempre
sem condições, e o incontornável espectro do erro em presença.
Ancorei-me
no belo e asfixiei-me dele.
A
quase penúria que hoje sou vive o fôlego dos passados onde me
arrumei ao pé da beleza para não pensar o feio dos dias.
Gosto
de «coisas», continuo a gostar, para meu inferno secular. Como
gosto de pessoas, por mais que a rotina confirme o ouropel, bijuteria
das escolhas em que sou versada. Mea culpa, somente, que nada se
atrai por acaso.
Olho
o meu espaço pontilhado de belos, vulgo absolutos nadas, e penso: um
terramoto acabaria com tudo isto... e deixar-me-ia a sós comigo,
sobrevivente. Não de agora, que a revelação é antiga de décadas
mas surge renovada e omnipresente nos dias, como esse deus que
inventei só para mim e não encontro no mundo Outro.
Só
os relógios continuam coerentes. Marcam o tempo que desconheço
desde sempre, em que me perco todas as semanas, pelo menos durante
dois dias e com tendência de incremento. Mas são belos, os relógios que
escolhi, e é por isso que os quero. Validam a minha noção de
estética, por mais que seja privada e discutível. O belo
agasalha-me de mentiras procuradas, que confirmam o inevitável:
“everybody lies”...
Essa
mesma estética que me dizia os amores com rasto de cinema, em
eternidade: invencíveis, irreparáveis, maravilhosos de contradição.
Poucos, de resto, e ainda bem. Mensageiros de uma verdade que teimei em pensar diferente e leal.
Não
há na vida mais que uns momentos de abandono. E temos a verdade, a nossa,
que construimos como irrefutável e imperecível. A vida farta-se de
nós, no momento em que a despedimos. Olhe, desculpe, era só por um
bocadinho... Não. Há que entrar o reino da consequência. E depois, já tudo é silêncio e ausência
demandada. Não queremos jangadas de salvação, senão as que nos
carregam por mares de arribar a um porto que é nosso, apenas nosso,
desconhecido das rotas marítimas. A nossa verdade escusa-se ao
racional acrescentado, pensa que sabe, navega pelas estrelas.
Caminhamos
descalços por um lugar de encontro com a promessa que se faz tarde.
E que sabemos lá, perto do que somos e não validamos. «Ser» é um
lugar difícil de manter, que ansiamos ao segundo e demitimos ao minuto. Nada
nos encontra na verdade que defendemos. Porque o sucesso tem face,
vive de imagem reflectida. É espelho polido de nós como photoshop
da existência.
Mas
eu, eu não sei de aprender, de como seguir os passos da
conveniência. Arrumam, é certo. Mas será que me quero arrumada? Há
uma espécie de caos em mim que me sitia, quando tudo parecia
correcta e finalmente organizado. É que a ordem mortifica-me, na mesma
proporção em que preciso dela. Vivo intercalarmente.
Não
sei, jamais soube por onde seguir, apenas percebi os atalhos que
recusei. Sei de tudo o que não quero - porque não me reflecte.
Seguir adiante é uma outra coisa, despojada da ideia de cerco. Que
não me larga os dias. Ressaco por um mecanismo de off a pedido.
Largo as vantagens por aí e sonho-me límpida como cristais,
buscando a estrada que me reconhece e sabe aonde vou. Onde quero ir.
Mentira.
Sou um mapa confuso, de avenidas, alamedas, ruelas e becos, que se
intersectam e adiam o destino. Não sei como se gera uma construção.
Uma vida sustentável. Não a de «coisas», que bem fundo desprezo,
e não apenas por demonstrada incompetência. Uma outra vida, talvez
outro nome, onde um olhar de criança reviva sem a decepção.
Por
isso, aceito o tempo que já foi, onde me reconheço minimamente num
lugar de partir, que sei procurar e acredito, um dia, alcançar. É o
tempo combustível, que me põe em marcha. Porque, paradoxalmente, não paro nunca.
Até
lá, onde todos os pontos convergem num bom ângulo de construção, as «coisas» sossegam-me. São a minha Ordem. Numa overdose de
belo, que já me iludiu de tempo, como certo.
Hoje,
tento com empenho semeá-lo de mim: um tempo que me ensine a
posicionar o Outro, que sempre privilegio e tendo a proteger, mas agora num
patamar justo, que não me desfavoreça.
Até
que, por fim, me reconheça, num lugar de vida ou de morte, no futuro
que sempre fui.
aprender a casa é só correr a ternura no mundo que somos juntos)
a gente deita-se
e quietos no céu
olhos presos de noite estrela no peito silêncio das mãos acorda depois no dorso em sossego de uma onda madrugada calada pela manhã o sol lembra o gosto nos lábios encostados contra o tempo que se fez nu quando o luar nos despiu e tu dormes ainda viagens de um mar de sempre num abraço feito de água enleado pelo vento nos meus cabelos de sal
(às vezes
só às vezes ainda fechamos o mundo na ternura que aprendemos)
Tão fantástico, este 8 de Março de todos os reconhecimentos! Fico sempre extasiada!
A gente recebe os mails, atende os votos telefonados, lê os sms's, os posts no facebook e é uma festa sagrada: dia maravilha que estais no céu, do nosso celebrado nome, ámen.
Conclui-se, radiosamente, que este, sim, é que é o verdadeiro, legítimo, da bayer, dia de todos os santos.
Eu gosto muito, é verdade. Gosto, pronto, não tem explicação. Especialmente de o assinalar no calendário, no início de cada ano, alegre e juntinho com o dia internacional do homem. Desculpe? Ah não?!
Tá bem.
Importa que para o ano há mais.
Mas tragam as velas, fica sempre bem.
Nota: nos bissextos, concedemos folga colectiva a 29 de Fevereiro - como incentivo à produtividade.
___________
Em fim de jornada, resta-nos, no entanto, agradecer. Sobretudo aos poucos homens que nos pouparam ao espectáculo do facilitismo e velhas tentações da hipocrisia, encontrando formas inteligentes e honestas de assinalar o dia.
De vez em quando lá ia à procura dele, uma e outra vez sem sucesso, ano após ano. Há muito que desistira mas hoje chegou-me assim à memória, vindo de não sei onde, um conjunto diverso de temas da eurovisão que nunca mais partiram. Alguns nacionais de grande qualidade, especialmente da era Ary / Niza / Tinoco, e depois, inevitavelmente, este.
É o meu tesouro de todos os tempos, vindo da Eurovisão. Recordava a música, que acho linda, e pedaços da magistral letra, os “crayons de couleurs” mis dans le coeur “pour dessiner le monde”, ou “des ailes pour monter dans le ciel jusqu’au septième étage”, ou ainda “c’est tellement fantastique”, ele, o amor. E foi com estes pedacinhos que a descobri, por fim.
Tinha eu 21 anos, diz que sim, mas nunca, nunca mais me largou. Agarrou-se para a vida. E aí está ela, hoje. Talvez peanuts para outros mas, para mim, esta canção é régia.
E só podia ser escrita assim. Porque o Amor fala em francês.
Para “L’amour” ou “Je t’aime” não existe tradução à altura em mais nenhuma língua do universo.
Não há. Tal como a “Saudade”, que só em português luso se cumpre.
Da Bélgica, chegou Jean Vallée.
Como chegou Brel. Que parece respirar por aqui, também.
________
« L’AMOUR, ÇA FAIT CHANTER LA VIE
L'amour, ça vous met dans le cœur Des crayons de couleurs pour dessiner le monde L'amour, on devient musicien De vrais petits Chopin, rien que pour une blonde
L'amour, c'est tellement fantastique Ça met le bonheur en musique Ça rit de toute sa symphonie L'amour, ça fait changer la vie
L'amour, ça vous met dans les yeux Un regard fabuleux qui vous change un visage L'amour, ça vous donne des ailes Pour monter dans le ciel jusqu'au septième étage
L'amour, c'est tellement fantastique Ça met le bonheur en musique Ça rit de toute sa symphonie L'amour, ça fait changer la vie
L'amour, c'est un grand magicien Qui vous change un chagrin en moins d'une seconde L'amour, en un mot comme en cent Ça vous donne vingt ans dans tous les coins du monde
L'amour, c'est tellement fantastique Ça met le bonheur en musique Ça rit de toute sa symphonie L'amour, ça fait chanter la vie
mundo em revista por
dentro, um cigarro e um gin,
casino na contramão. multidão ao largo, eu aqui, no além
dos retiros que viajam parados, depois caminho de
rasgo que sitia o peito e desfere a largada. piano, sax e
guitarra, em solitude que
afaga a voz que alerta a
deriva. não sei das gentes
que amainam ao estrondo vibrado
em palavra, desconheço a
concordância edital dos fins de
dia, do que faz bem nos
apegos de tanta tarde
afixada. sabe bem
não te ter aqui. criar-te é tão
mais além desse país de
conforto... roteiro planetário, no vago do percurso que não se mostra, como aberta de
impulso no longo tempo
regular. respiro mais fundo, tão longe das
ausências que se explicam. fico assim, sediada no findar de cada
verso, como abraço que te encontra a
começar. sou isto, contratempo do lugar
esperado, curso retomado das praias em
poente. sei-te música do
pulsar infindo que silencia a noite
eterna em que me dispo de
mim, sequência de
interlúdio emboscada nas
manhãs. há campos ilesos em
ti, no sonho que alarga
as avenidas em searas de ouro e
memória. e então sei que sou muito mais
que este fundo
oceano em mim e prolongo o raro
chão que me sustenta até ao centro de
uma terra colhida em nós. sei que não digo. mas sentir é
palavra quieta em parto incerto, que não sabe onde
nascer. o cigarro morre de
espera e a canção
que vence o frio
atirada contra a morte
passa, a cada lugar que se
conhece amor. volto a casa
carregada de céu. estrela da noite em
cruzada, asfalto de luz
em sabor.
É da tua mão que eu preciso
agora. Há momentos, sabes, em que me sinto tão cansado, todos estes dias cheios
de palavras que me fogem. Então penso em ti (...) Mas é da tua mão que eu
preciso agora. Há momentos em que me farto de ser homem: tudo tão pesado, tão
estranho, tão difícil. Eu vou tendo paciência e no entanto, às vezes as coisas
magoam, há ideias que entram na gente como espinhos. Não se podem tirar com uma
pinça: ficam lá.É então que a cara
principia a estragar-se e a gente
dizem
envelhece.
(...)
Gostava
de sorrir assim. Experimentei ao espelho e não é igual. Quer dizer, a boca
curvou-se mas os olhos ficaram fixos, duros. Deixei de sorrir e enchi a cara de
espuma da barba, até ser apenas nariz e olhos. Então sorri outra vez e os olhos
acharam graça e mudaram. Os meus olhos sérios olhavam para os meus olhos
divertidos. Pisquei o esquerdo e o espelho piscou o direito. Lavei a cara,
apaguei a luz, saí.(...)
E
pronto, é tarde. Em chegando ao fim da página acabou-se. Ponho a tampa na
caneta, os cotovelos na mesa e fico a observar a parede. Nem vou reler isto,
mando tal e qual. Prefiro observar a parede, deixar-me impregnar devagarinho
pela essência das coisas. (...)
Se
calhar amanhã telefono-te. Ou regresso ao romance na teimosia dos cães. Penso:
nem que deixe a pele nele hei-de conseguir acabá-lo. (...) Leio a última frase,
continuo. Só por um bocadinho de nada, antes que continue, importas-te de tirar
as batas do carro?
Importas-te
de me dar amão?
É
da tua mão que eu preciso agora (excertos que escolhi) in «Segundo Livro de
Crónicas».
Eu gostava de ser chuva, e arrastar, confundindo, toda a água que é das lágrimas. E do sal que lhe restasse, construir esse mar-chão, casa da dor que se lava em descanso, às cinco da tarde de um rio poente alentejano. Como criança, beijando arco-íris no vento, tão sábia de paraísos.
Que nos cravam a ferro e
fogo pela vida, sem que o suspeitemos, sequer, no momento de
acontecerem.
Há uns largos anos,
costumávamos nós, em fim de dia e religiosamente, reunir-nos em
molho numa chafarica rústico-chique das Amoreiras: O Português. Lá
pelos anos de 96 a 99 e até ao momento em que, por fim, após
catorze anos, mudámos de instalações. E eu fui penosamente forçada
a abandonar aquela imensa janela, tão bonita, mesmo em cima da
barriguinha da torre, que todos os dias me enchia o ombro de Tejo.
Perdas... Menores, embora, mas tão significantes.
Ora, retomando,
tratava-se, então, de um grupo insano, que contava com muitos
gestores de conta (comerciais), o director comercial da área Banca,
e ainda uns tantos managers – administrativo, marketing, recursos
humanos, contratos e créditos (eu) – e mais umas quantas meninas
- telefonista-recepcionista, secretárias de direcção, assessoras
de marketing ou de vendas, e, como já se viu, eu própria - o que
perfazia umas cinco, seis mulheres, e no total uns doze, quinze
membros, talvez – a coisa era flutuante, nem sempre estávamos
todos.
Um grupo que cresceu
contra-corrente nos “bons costumes” empresariais, de gente muito
jovem e gente mais quarentona e cinquentona, que conseguiu, por
exemplo, transformar a chatice dos jantares de natal em algo
absolutamente inesquecível, ano após ano.
Fechávamo-los sempre na
noite de Lisboa e, quantas vezes, com a administração agarrada, que
acabámos por converter também, incluindo visitantes da
estação-boa-vontade, como americanos, alemães, austríacos.
Lembro-me que, no início das hostilidades, eles ficavam um pouco
embaraçados e confusos com aquela mesa de jantar diferente, a nossa, e o caos que
ali se armava mas... depois de uns quantos pratos bem regados e o
charuto da ordem, tudo se compunha e a diversão sobrevivia e vencia.
E lá pelo fim do jantar, acabavam por se juntar muitos colegas de outras mesas, em rodinhas concêntricas em volta da nossa, para sessão continuada de anedota e uma chinfrineira inenarrável, vagamente aparentada com música, antes de sairmos para a noite.
Chamava-se, então,
o nosso bendito grupo, BancúMelo (a Banca era a nossa dor de cabeça número dois, e o
Banco Mello, ex-UBP, pareceu-nos o mais sonoro para adaptação), a quem, necessariamente,
arranjámos uns estatutos, e tudo, com o pomposo nome de ESTATUTOS
DO BANCÚMELO EM 10 PONTOS IRREVOGÁVEIS.
A grande maioria foi
cozinhada por mim, o Nuno Sá e o Zé Matias mas a colaboração e o
acordo unânimes deram-se, como se davam sempre. Lembro-me que um dos
pontos instituía a obrigatoriedade de ser “inequívoca e
irremediavelmente avariado”, e outro, a de ser cliente de
caipirinhas, caipiroscas, cerveja, alentejo, douro ou outros afins de
similar calibre, para aprovação de ingresso a novos membros. Ponto
mandatório era a ausência de manias hierárquicas, o que, de resto,
nem no trabalho se quebrava. Éramos, nos últimos anos, uma das
equipas multidisciplinares mais solicitada, aliás, e quase tudo o
que era projecto dor de cabeça – como a Central de Compras do
Estado, por exemplo, a dor número um... - era-nos assignado.
Dia e
noite, luta e gargalhada. E os laços crescem.
Portanto, se o fim de
tarde era a nossa “hora maluca”, com petisco de “Português”
associado, não raras, também, eram as vezes que ali íamos almoçar
para arejar ideias. E é aqui que começa a “minha” história
inesquecível.
Estávamos lá, no
pequenino 1º andar-galeria, cuja arquitectura desenhava um L e à
nossa direita a varandinha, com vista para o andar de baixo. A nossa
mesa situava-se no braço comprido do L e em frente, no outro braço,
logo depois da esquina e parcialmente encoberto por uma coluna, um
casal, em fim de almoço.
Um par lindíssimo. Quando se levantaram, e
ficaram ali, parados, frente um ao outro, constatámo-lo: ela, muito
jovem, vestida “executivamente” mas onde o gosto clássico se
associava a uns toques negligés, muito alta, cabelos enormes, e um
sorriso muito bonito mas que, sei lá porquê, me pareceu triste;
ele, bem mais velho, igualmente muito bonito, outfit de executivo a
condizer, olhando-a fixamente, sem sorrir.
Eu estava com o Nuno, o
Zé, o Fernando, qual deles o mais desbragado, e imediatamente
começaram os comentários: boss e secretária, arranjinho, tralala;
e eu, como sempre, do contra: vcs não têm vida, têm que inventar
filmes em todo o lado, vão-se catar, que comadres, etc, coisa que
invariavelmente acabava com o rótulo de madre Teresa dos aflitos
para cima de mim e que, sabiam-no de cor, me tirava do sério – já
que é público que nunca apreciei a personagem.
Mas é então que os
acontecimentos mudam. Estamos nós nesta acalorada discussão de má
e contra-má língua, quando o inesperado acontece. Sou eu que me
apercebo primeiro e fico estática, hipnotizada: eles estão ali, em
pé, abraçados, agarrados um ao outro como náufragos, a chorar
perdidamente.
Só estávamos nós, e eles confiavam na coluna para a
discrição. Toquei na perna do Nuno, ao meu lado, que não se
calava, e ele olhou. E olharam todos. E a perturbação instalou-se,
ombro a ombro com um silêncio sepulcral. Ela saíu, sozinha. Ele,
logo a seguir. E quando os meus companheiros de todos os dias deram
por si, já eu saía também, disparada e atabalhoadamente, mão a
tapar o rosto, rumo à casa de banho lá no fim do mundo. Lavada em
lágrimas.
Uma menina não chora,
assim aprendi pelo tempo. E assim segui, toda a vida, escondendo-me quando tinha
de o fazer. Não são muitas as surpresas que me desmontam, mas as
deste tipo, seguramente. Talvez fosse antecipação, quem sabe –
penso-o muitas vezes - do meu próprio caminho a acontecer, uns
poucos fins-de-semana depois, corria o ano de 97.
Em mais uma escapadela
a dois, lembro-me que estava eu, aconchegadíssima pela música,
num banco de um desses jardins belíssimos que povoam o meu Alentejo,
deitada, pernas flectidas, uma por cima da outra, auscultadores nos
ouvidos, livro em frente ao nariz, enquanto ele pululava por ali,
agarrado aos seus eternos hábitos de prospecção do terreno.
Estávamos em fim anunciado, por tantas razões, essas questões de
merda que o tempo se encarrega de tornar insuportáveis. E então,
assim, sem mais, lembrei-me deles, daquele par bonito, ao mesmo tempo
que Vitorino aparecia, de repente, trazendo à rádio aquela música,
belíssima, que sempre me arrepiou.
E foi aí que eu o olhei.
E soube, bem fundo dentro de mim, que os próximos seríamos nós.
Levantei-me, retirei os auscultadores do rádio e soltei-lhe o som.
Recordo que, ao levantar-me, ele me olhou, distraído primeiro,
atento depois, e que demos por nós a caminhar um para o outro, num
silêncio que tudo sabe. E depois, começámos a dançar, bem lentamente,
num abraço de carinho muito antigo, a nossa Queda do Império.
Quando a música se
calou, voltámos para Lisboa, sem pausas, que não as do silêncio. E
pouco, muito pouco tempo depois, para sempre se fechava um ciclo inesquecível, de
quase duas décadas vividas ao segundo, sem que o amor tivesse
acabado em nenhum dos lados.
Naquele dia, esse em
que desliguei de tentações o telemóvel, lembrei de novo um certo
casal, único, bonito e triste, cliente de "esquinas", que me arruinara compostura e almoço,
n’O Português. E entendi, como cristais.
Senti, sem espaço a
hesitação, que amar, amar muito, não chega.
Mas devia.
Ana Vassalo
Nov 24, 2014
Fazes anos, hoje... só
agora percebi, ao procurar a data.
José Carlos Pereira ARY DOS SANTOS Lisboa, Dez 7, 1937 — Lisboa, Jan 18, 1984
"POETA CASTRADO, NÃO!"
O guerrilheiro contra a censura. A palavra genial. Em lava. A guerra. A cidade. O amor.
Quatro temas escolhidos da sua vertente lírica. Que amo.
__________~~~__________
LUANDA COZETTI (Rua da Saudade) - DIZER QUE SIM À VIDA
« ... E se não for verdade, tudo o que nós dizemos, tudo o que nós sentimos também não é saudade. Por isso é que nos rimos.»
YouTube - "Fredinho"
MARISA PINTO (Donna Maria) - SETE LETRAS
«... Esta palavra saudade sabe a sumo de limão, tem o travo da amargura que nasceu no coração. Ai palavra amarga e doce estrangulada na garganta, palavra como se fosse o silêncio que se canta...»
YouTube - "jdbarros"
SUSANA FÉLIX (Rua da Saudade) - CANÇÃO DE MADRUGAR
« ... Dei do meu sonho uma corda de insónias, cravei meus braços com setas, descobri rosas, alarguei cidades e construí poetas. Mas nunca te encontrei na estrada do que fiz... ...
Então, nem choros nem medos nem uivos nem gritos nem pedras nem facas nem fomes nem secas nem feras nem ferros nem farpas nem farsas nem mal!»
YouTube - "Farol Música"
MAFALDA ARNAUTH & LUANDA COZETTI - CANÇÃO DO TEMPO
«... Tempo, para o relógio bater certo com a vida de um homem bom, de um homem são, de um homem forte, e da chegada conseguir fazer partida...»