NETOS

NETOS

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

REMARKABLE PEOPLE



FERNANDO PESSOA

(Lisboa, 1888 - 1935, Lisboa)


"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


************
"I am nothing.
I will never be anything.
I cannot want to be anything.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."

or...

"I am not nothing.
I will never be nothing.
I cannot want to be nothing.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."


(Álvaro de Campos in "Tabacaria")




LISBOA - Chiado

LISBOA - Chiado
"Fernando Pessoa" by Lagoa Henriques. The place: "Café A Brasileira" (Brazilian Café) - 1905.

PLAYLIST TODAY




MUSIC IS THE PASSION REPORT



♥ ♥ ♥


PLAYING SOFTLY WHILE SOMEONE SANG THE BLUES



Saturday, Jul 22, 2017 - 17:57





SALVADOR SOBRAL - NEM EU [DORIVAL CAYMMI]



YouTube – "Salvador Sobral"





ANTONY HEGARTY + LEONARD COHEN - IF IT BE YOUR WILL [COHEN]



YouTube – "Oggmonster"





CHAN MARSHALL (CAT POWER) - I'VE BEEN LOVING YOU TOO LONG [OTIS REDDING]



YouTube – "anaruido"





JANIS JOPLIN - ME & BOBBY MCGEE [CHRIS CHRISTOPHERSON]



YouTube – "ThE DuCk"





JEFF BUCKLEY - LILAC WINE [JAMES SHELTON]



YouTube – " roberta panzeri"





DAVID BOWIE - WILD IS THE WIND [JOHNNY MATHIS]



YouTube – "Peter Music HD"







_____________________


LEANING INTO THE AFTERNOONS by PABLO NERUDA

«Inclinado en las Tardes»



YouTube - "FourSeasons Productions"






CHANGING BATTERIES - OSCAR WINNING ANIMATED SHORT FILM



YouTube - "Bzzz Day"





DIALA BRISLY - A BEAUTIFUL YOUNG LADY

(a huge thanks to my daughter who e-mailed this video to me)



BBC Newsnight

«Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman - artist Diala Brisly - who is trying to make life that little bit more bearable for Syria's kids.»

Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman -...

Publicado por BBC Newsnight em Domingo, 20 de Março de 2016






A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT

A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT



FLYING A SECRET



I got here to hide. From equations and patterns. From repetition, after all.
Closed the door and got me a special place where I thought I could
somehow sit close to the stars. But I soon found out that the sky was
still opaque, no matter what the steps. And so I left. Again.

I thought, then, I could build me a different ceiling, a new-coloured scrap
of highness. And then make it work. Where I could dream, more than I sleep.
I have long decided that sleeping is overrated - that I know for sure. So I
take that time instead to travel the night alone and in the meantime I allow
myself to fly, unlike stated before... Yes, I like playing with paradox, to
expose the inside of words and the revelation of writing down the voice of a
silence. My adventurous, ever-walking silence.

So I came back. Here, within this quiet world, I intend to gather all my
things usually kept hidden or inactive. They are here to speak.

And since the future is a stand-by secret, I want to live by a precocious
clock, at every running instant of every entering second.

And I will not slow down until my "future exists now" - kind of reverse
quoting Jacob Bronowski.


Ana Vassalo
in my site "CAFEÍNA"(former "No Flying Allowed")
Nov 11, 2010 - 11:54




THE WALK OF TIME

THE WALK OF TIME

sábado, 21 de março de 2015

POETAS








Dylan Thomas

1914 - 1953


Poetry is what in a poem makes you laugh, cry, prickle, be silent, makes your toe nails twinkle, makes you want to do this or that or nothing, makes you know that you are alone in the unknown world, that your bliss and suffering is forever shared and forever all your own.




Bob Dylan

May 24, 1941


I think a poet is anybody who wouldn't call himself a poet.

 
 

Fernando Pessoa

1888 – 1935

(Alberto Caeiro)

Quando vier a Primavera

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
 


Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.


in Poemas Inconjuntos
Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa
 
 
Daniel Faria 
Apr 10, 1971 – Jun 9, 1999

Homens que são como lugares mal situados

Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas

Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar

in Homens que são como lugares mal situados
Fundação Manuel Leão
1998




Sophia de Mello Breyner Andresen
1919 - 2004

Nunca mais

Nunca mais
Caminharás nos caminhos naturais.
Nunca mais te poderás sentir
Invulnerável, real e densa -
Para sempre estará perdido
O que mais do que tudo procuraste
A plenitude de cada presença.

E será sempre o mesmo sonho, a mesma ausência.

in Poesia I
1944




Ana Vassalo
Mar 21, 2015

segunda-feira, 16 de março de 2015

COISAS DA TERRA



 
 
 
                                                        [ No mar o tempo não morre. (…)
                                          As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar.
                                          No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres.
                                          Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas.

                                          in A Menina do Mar, Sophia de Mello Breyner Andresen ]

 
 


Há em tudo o que me conheço um universo faz de conta.

O tempo correu bem e mal, e eu tratei-o sempre da mesma forma. Afrontando-o. Arredando de mim um conceito que dizem concreto: esse, o mundo.

Olho em volta e tudo reflecte um conto. De crianças, sim, que inventam tempo à sua medida para poderem brincar com ele.

Há por aqui os van gogh, gauguins, cézannes, kandinskis, picassos e mirós reproduzidos, e mais uns quantos, uns de origem, a maioria não, todos instrumentos de ilusão. São mentira, naturalmente, bogus, como quase tudo a que me agarro. Mas há também João e Zita, nas telas que a parede carrega para bem mais fundo, no coração.

Enganei a vida com arte, fosse nos perfumes que me iludiam de glamour, nos lenços e écharpes como peças artísticas de um pintor genial e louco, ou nas porcelanas e cristais de pintar um mundo sublime, em pequenos enormes momentos arrancados de existências repetidas. Viajei galáxias de mil e um dias, pelos livros. Vivi irrepetíveis aventuras de maravilha, pela música. E amei desalmadamente. Sempre sem condições, e o incontornável espectro do erro em presença.

Ancorei-me no belo e asfixiei-me dele.

A quase penúria que hoje sou vive o fôlego dos passados onde me arrumei ao pé da beleza para não pensar o feio dos dias.

Gosto de «coisas», continuo a gostar, para meu inferno secular. Como gosto de pessoas, por mais que a rotina confirme o ouropel, bijuteria das escolhas em que sou versada. Mea culpa, somente, que nada se atrai por acaso.

Olho o meu espaço pontilhado de belos, vulgo absolutos nadas, e penso: um terramoto acabaria com tudo isto... e deixar-me-ia a sós comigo, sobrevivente. Não de agora, que a revelação é antiga de décadas mas surge renovada e omnipresente nos dias, como esse deus que inventei só para mim e não encontro no mundo Outro.

Só os relógios continuam coerentes. Marcam o tempo que desconheço desde sempre, em que me perco todas as semanas, pelo menos durante dois dias e com tendência de incremento. Mas são belos, os relógios que escolhi, e é por isso que os quero. Validam a minha noção de estética, por mais que seja privada e discutível. O belo agasalha-me de mentiras procuradas, que confirmam o inevitável: “everybody lies”...

Essa mesma estética que me dizia os amores com rasto de cinema, em eternidade: invencíveis, irreparáveis, maravilhosos de contradição. Poucos, de resto, e ainda bem. Mensageiros de uma verdade que teimei em pensar diferente e leal.

Não há na vida mais que uns momentos de abandono. E temos a verdade, a nossa, que construimos como irrefutável e imperecível. A vida farta-se de nós, no momento em que a despedimos. Olhe, desculpe, era só por um bocadinho... Não. Há que entrar o reino da consequência. E depois, já tudo é silêncio e ausência demandada. Não queremos jangadas de salvação, senão as que nos carregam por mares de arribar a um porto que é nosso, apenas nosso, desconhecido das rotas marítimas. A nossa verdade escusa-se ao racional acrescentado, pensa que sabe, navega pelas estrelas.

Caminhamos descalços por um lugar de encontro com a promessa que se faz tarde. E que sabemos lá, perto do que somos e não validamos. «Ser» é um lugar difícil de manter, que ansiamos ao segundo e demitimos ao minuto. Nada nos encontra na verdade que defendemos. Porque o sucesso tem face, vive de imagem reflectida. É espelho polido de nós como photoshop da existência.

Mas eu, eu não sei de aprender, de como seguir os passos da conveniência. Arrumam, é certo. Mas será que me quero arrumada? Há uma espécie de caos em mim que me sitia, quando tudo parecia correcta e finalmente organizado. É que a ordem mortifica-me, na mesma proporção em que preciso dela. Vivo intercalarmente.

Não sei, jamais soube por onde seguir, apenas percebi os atalhos que recusei. Sei de tudo o que não quero - porque não me reflecte. Seguir adiante é uma outra coisa, despojada da ideia de cerco. Que não me larga os dias. Ressaco por um mecanismo de off a pedido. Largo as vantagens por aí e sonho-me límpida como cristais, buscando a estrada que me reconhece e sabe aonde vou. Onde quero ir.

Mentira. Sou um mapa confuso, de avenidas, alamedas, ruelas e becos, que se intersectam e adiam o destino. Não sei como se gera uma construção. Uma vida sustentável. Não a de «coisas», que bem fundo desprezo, e não apenas por demonstrada incompetência. Uma outra vida, talvez outro nome, onde um olhar de criança reviva sem a decepção.

Por isso, aceito o tempo que já foi, onde me reconheço minimamente num lugar de partir, que sei procurar e acredito, um dia, alcançar. É o tempo combustível, que me põe em marcha. Porque, paradoxalmente, não paro nunca.

Até lá, onde todos os pontos convergem num bom ângulo de construção, as «coisas» sossegam-me. São a minha Ordem. Numa overdose de belo, que já me iludiu de tempo, como certo.

Hoje, tento com empenho semeá-lo de mim: um tempo que me ensine a posicionar o Outro, que sempre privilegio e tendo a proteger, mas agora num patamar justo, que não me desfavoreça.

Até que, por fim, me reconheça, num lugar de vida ou de morte, no futuro que sempre fui.

E o amor vença nas coisas bonitas da terra.



Ana Vassalo
Mar 16, 2015 – 00:31

sábado, 14 de março de 2015

CASA





The Fisherman's Wife, Maria Hathaway Spencer





                                                  [ I carry your heart (I carry it in my heart)

                                                   - E.E. Cummings ]



(às vezes
aprender a casa
é só correr a ternura
no mundo que somos juntos)



a gente deita-se

e quietos no céu
olhos presos de noite
estrela no peito
silêncio das mãos
acorda depois
no dorso em sossego
de uma onda madrugada
calada pela manhã

o sol lembra
o gosto nos lábios
encostados contra o tempo
que se fez nu
quando o luar nos despiu

e tu
dormes ainda
viagens de um mar de sempre
num abraço feito de água

enleado pelo vento
nos meus cabelos de sal



(às vezes
só às vezes
ainda fechamos o mundo
na ternura que aprendemos)



Ana Vassalo
Mar 14, 2015

(escrito em 2013)


domingo, 8 de março de 2015

MULHER! - A DIAS


 


Tão fantástico, este 8 de Março  de todos os reconhecimentos! Fico sempre extasiada!
 
A gente recebe os mails, atende os votos telefonados, lê os sms's, os posts no facebook e é uma festa sagrada: dia  maravilha que estais no céu, do nosso celebrado nome, ámen.
 
Conclui-se, radiosamente, que este, sim, é que é o verdadeiro, legítimo, da bayer, dia de todos os santos.
 
Eu gosto muito, é verdade. Gosto, pronto,  não tem explicação. Especialmente de o assinalar no calendário, no início de cada ano, alegre e juntinho com o dia internacional do homem. Desculpe? Ah não?!
 
Tá bem.
 
Importa que para o ano há mais.
Mas tragam as velas, fica sempre bem.
 
 






















Nota: nos bissextos, concedemos  folga colectiva a 29 de Fevereiro - como incentivo à produtividade.
 
 
___________
 
Em fim de jornada, resta-nos, no entanto, agradecer. Sobretudo aos poucos homens que nos pouparam ao espectáculo do facilitismo e velhas tentações da hipocrisia, encontrando formas inteligentes e honestas de assinalar o dia.

Beijitos.
:)


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

JEAN VALLÉE - Belgique




 né PAUL GOEDERS





Oct 2, 1941, Verviers, Belgique
 
Mar 12, 2014, Thimister-Clermont, Belgique



De vez em quando lá ia à procura dele, uma e outra vez sem sucesso, ano após ano. Há muito que desistira mas hoje chegou-me assim à memória, vindo de não sei onde, um conjunto diverso de temas da eurovisão que nunca mais partiram. Alguns nacionais de grande qualidade, especialmente da era Ary / Niza / Tinoco, e depois, inevitavelmente, este.

É o meu tesouro de todos os tempos, vindo da Eurovisão. Recordava a música, que acho linda, e pedaços da magistral letra, os “crayons de couleurs” mis dans le coeur “pour dessiner le monde”, ou “des ailes pour monter dans le ciel jusqu’au septième étage”, ou ainda “c’est tellement fantastique”, ele, o amor. E foi com estes pedacinhos que a descobri, por fim.

Tinha eu 21 anos, diz que sim, mas nunca, nunca mais me largou. Agarrou-se para a vida. E aí está ela, hoje. Talvez peanuts para outros mas, para mim, esta canção é régia.

E só podia ser escrita assim. Porque o Amor fala em francês.

Para “L’amour” ou “Je t’aime” não existe tradução à altura em mais nenhuma língua do universo.

Não há. Tal como a “Saudade”, que só em português luso se cumpre.


Da Bélgica, chegou Jean Vallée.
Como chegou Brel. Que parece respirar por aqui, também.

________

« L’AMOUR, ÇA FAIT CHANTER LA VIE

L'amour, ça vous met dans le cœur
Des crayons de couleurs pour dessiner le monde
L'amour, on devient musicien
De vrais petits Chopin, rien que pour une blonde

L'amour, c'est tellement fantastique
Ça met le bonheur en musique
Ça rit de toute sa symphonie
L'amour, ça fait changer la vie

L'amour, ça vous met dans les yeux
Un regard fabuleux qui vous change un visage
L'amour, ça vous donne des ailes
Pour monter dans le ciel jusqu'au septième étage

L'amour, c'est tellement fantastique
Ça met le bonheur en musique
Ça rit de toute sa symphonie
L'amour, ça fait changer la vie

L'amour, c'est un grand magicien
Qui vous change un chagrin en moins d'une seconde
L'amour, en un mot comme en cent
Ça vous donne vingt ans dans tous les coins du monde

L'amour, c'est tellement fantastique
Ça met le bonheur en musique
Ça rit de toute sa symphonie
L'amour, ça fait chanter la vie

La vie...!  »





JEAN VALLÉE  - Eurovision 1978 Belgium
- L'AMOUR ÇA FAIT CHANTER LA VIE






 
YouTube: "setheurovison94"




Ana Vassalo
Feb 12, 2015


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

LISBOA - LUAR NA MÚSICA






















CASINO

o que é vasto?
 
o que é raro?

mundo em revista por dentro,
um cigarro e um gin,
casino na contramão.
multidão ao largo,
eu aqui, no além dos retiros
que viajam parados,
depois caminho de rasgo
que sitia o peito
e desfere a largada.
piano, sax e guitarra,
em solitude que afaga
a voz que alerta a deriva.
não sei das gentes que amainam
ao estrondo vibrado em palavra,
desconheço a concordância
edital dos fins de dia,
do que faz bem nos apegos
de tanta tarde afixada.
sabe bem
não te ter aqui.
criar-te é tão mais além
desse país de conforto...
roteiro planetário,
no vago do percurso
que não se mostra,
como aberta de impulso
no longo tempo regular.
respiro mais fundo,
tão longe das ausências
que se explicam.
fico assim, sediada
no findar de cada verso,
como abraço
que te encontra a começar.
sou isto,
contratempo do lugar esperado,
curso retomado
das praias em poente.
sei-te música do pulsar infindo
que silencia a noite eterna
em que me dispo de mim,
sequência de interlúdio
emboscada nas manhãs.
há campos ilesos em ti,
no sonho que alarga as avenidas
em searas de ouro e memória.
e então sei
que sou muito mais
que este fundo oceano em mim
e prolongo o raro chão que me sustenta
até ao centro de uma terra colhida em nós.
sei que não digo.
mas sentir é palavra quieta
em parto incerto,
que não sabe onde nascer.
o cigarro morre de espera
e a canção
que vence o frio atirada contra a morte
passa,
a cada lugar que se conhece amor.
volto a casa carregada de céu.
estrela da noite em cruzada,
asfalto de luz em sabor.


Ana Vassalo
Dec 22, 2014

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

ANTÓNIO LOBO ANTUNES




 
 
 
 
 
É da tua mão que eu preciso agora
 

É da tua mão que eu preciso agora. Há momentos, sabes, em que me sinto tão cansado, todos estes dias cheios de palavras que me fogem. Então penso em ti (...) Mas é da tua mão que eu preciso agora. Há momentos em que me farto de ser homem: tudo tão pesado, tão estranho, tão difícil. Eu vou tendo paciência e no entanto, às vezes as coisas magoam, há ideias que entram na gente como espinhos. Não se podem tirar com uma pinça: ficam lá.  É então que a cara principia a estragar-se e a gente      

dizem      

envelhece. (...)  

Gostava de sorrir assim. Experimentei ao espelho e não é igual. Quer dizer, a boca curvou-se mas os olhos ficaram fixos, duros. Deixei de sorrir e enchi a cara de espuma da barba, até ser apenas nariz e olhos. Então sorri outra vez e os olhos acharam graça e mudaram. Os meus olhos sérios olhavam para os meus olhos divertidos. Pisquei o esquerdo e o espelho piscou o direito. Lavei a cara, apaguei a luz, saí.  (...)
E pronto, é tarde. Em chegando ao fim da página acabou-se. Ponho a tampa na caneta, os cotovelos na mesa e fico a observar a parede. Nem vou reler isto, mando tal e qual. Prefiro observar a parede, deixar-me impregnar devagarinho pela essência das coisas. (...)
Se calhar amanhã telefono-te. Ou regresso ao romance na teimosia dos cães. Penso: nem que deixe a pele nele hei-de conseguir acabá-lo. (...) Leio a última frase, continuo. Só por um bocadinho de nada, antes que continue, importas-te de tirar as batas do carro?

Importas-te de me dar a  mão?

 
 

É da tua mão que eu preciso agora
(excertos que escolhi) in «Segundo Livro de Crónicas».



Ana Vassalo
Dec 3, 2014


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

HORAS CERTAS









Eu gostava de ser chuva, e arrastar, confundindo, toda a água que é das lágrimas. E do sal que lhe restasse, construir esse mar-chão, casa da dor que se lava em descanso, às cinco da tarde de um rio poente alentejano. Como criança, beijando arco-íris no vento, tão sábia de paraísos.

(AV)
on facebook in July 10, 2014


Ana Vassalo
Nov 27, 2014

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

ESQUINAS




 Photo: Prague Street Corner, by Mark Coggins



 
Histórias de esquinas...

Que nos cravam a ferro e fogo pela vida, sem que o suspeitemos, sequer, no momento de acontecerem.

Há uns largos anos, costumávamos nós, em fim de dia e religiosamente, reunir-nos em molho numa chafarica rústico-chique das Amoreiras: O Português. Lá pelos anos de 96 a 99 e até ao momento em que, por fim, após catorze anos, mudámos de instalações. E eu fui penosamente forçada a abandonar aquela imensa janela, tão bonita, mesmo em cima da barriguinha da torre, que todos os dias me enchia o ombro de Tejo. Perdas... Menores, embora, mas tão significantes.

Ora, retomando, tratava-se, então, de um grupo insano, que contava com muitos gestores de conta (comerciais), o director comercial da área Banca, e ainda uns tantos managers – administrativo, marketing, recursos humanos, contratos e créditos (eu) – e mais umas quantas meninas - telefonista-recepcionista, secretárias de direcção, assessoras de marketing ou de vendas, e, como já se viu, eu própria - o que perfazia umas cinco, seis mulheres, e no total uns doze, quinze membros, talvez – a coisa era flutuante, nem sempre estávamos todos.

Um grupo que cresceu contra-corrente nos “bons costumes” empresariais, de gente muito jovem e gente mais quarentona e cinquentona, que conseguiu, por exemplo, transformar a chatice dos jantares de natal em algo absolutamente inesquecível, ano após ano.
 
Fechávamo-los sempre na noite de Lisboa e, quantas vezes, com a administração agarrada, que acabámos por converter também, incluindo visitantes da estação-boa-vontade, como americanos, alemães, austríacos. Lembro-me que, no início das hostilidades, eles ficavam um pouco embaraçados e confusos com aquela mesa de jantar diferente, a nossa, e o caos que ali se armava mas... depois de uns quantos pratos bem regados e o charuto da ordem, tudo se compunha e a diversão sobrevivia e vencia. E lá pelo fim do jantar, acabavam por se juntar muitos colegas de outras mesas,  em rodinhas concêntricas em volta da nossa, para sessão continuada de anedota e uma chinfrineira inenarrável, vagamente aparentada com música, antes de sairmos para a noite.

Chamava-se, então, o nosso bendito grupo, BancúMelo (a Banca era a nossa dor de cabeça número dois, e o Banco Mello, ex-UBP, pareceu-nos o mais sonoro para adaptação), a quem, necessariamente, arranjámos uns estatutos, e tudo, com o pomposo nome de ESTATUTOS DO BANCÚMELO EM 10 PONTOS IRREVOGÁVEIS.
 
A grande maioria foi cozinhada por mim, o Nuno Sá e o Zé Matias mas a colaboração e o acordo unânimes deram-se, como se davam sempre. Lembro-me que um dos pontos instituía a obrigatoriedade de ser “inequívoca e irremediavelmente avariado”, e outro, a de ser cliente de caipirinhas, caipiroscas, cerveja, alentejo, douro ou outros afins de similar calibre, para aprovação de ingresso a novos membros. Ponto mandatório era a ausência de manias hierárquicas, o que, de resto, nem no trabalho se quebrava. Éramos, nos últimos anos, uma das equipas multidisciplinares mais solicitada, aliás, e quase tudo o que era projecto dor de cabeça – como a Central de Compras do Estado, por exemplo, a dor número um... - era-nos assignado.
 
Dia e noite, luta e gargalhada. E os laços crescem.

Portanto, se o fim de tarde era a nossa “hora maluca”, com petisco de “Português” associado, não raras, também, eram as vezes que ali íamos almoçar para arejar ideias. E é aqui que começa a “minha” história inesquecível.



Estávamos lá, no pequenino 1º andar-galeria, cuja arquitectura desenhava um L e à nossa direita a varandinha, com vista para o andar de baixo. A nossa mesa situava-se no braço comprido do L e em frente, no outro braço, logo depois da esquina e parcialmente encoberto por uma coluna, um casal, em fim de almoço.
 
Um par lindíssimo. Quando se levantaram, e ficaram ali, parados, frente um ao outro, constatámo-lo: ela, muito jovem, vestida “executivamente” mas onde o gosto clássico se associava a uns toques negligés, muito alta, cabelos enormes, e um sorriso muito bonito mas que, sei lá porquê, me pareceu triste; ele, bem mais velho, igualmente muito bonito, outfit de executivo a condizer, olhando-a fixamente, sem sorrir.

Eu estava com o Nuno, o Zé, o Fernando, qual deles o mais desbragado, e imediatamente começaram os comentários: boss e secretária, arranjinho, tralala; e eu, como sempre, do contra: vcs não têm vida, têm que inventar filmes em todo o lado, vão-se catar, que comadres, etc, coisa que invariavelmente acabava com o rótulo de madre Teresa dos aflitos para cima de mim e que, sabiam-no de cor, me tirava do sério – já que é público que nunca apreciei a personagem.

Mas é então que os acontecimentos mudam. Estamos nós nesta acalorada discussão de má e contra-má língua, quando o inesperado acontece. Sou eu que me apercebo primeiro e fico estática, hipnotizada: eles estão ali, em pé, abraçados, agarrados um ao outro como náufragos, a chorar perdidamente.
 
Só estávamos nós, e eles confiavam na coluna para a discrição. Toquei na perna do Nuno, ao meu lado, que não se calava, e ele olhou. E olharam todos. E a perturbação instalou-se, ombro a ombro com um silêncio sepulcral. Ela saíu, sozinha. Ele, logo a seguir. E quando os meus companheiros de todos os dias deram por si, já eu saía também, disparada e atabalhoadamente, mão a tapar o rosto, rumo à casa de banho lá no fim do mundo. Lavada em lágrimas.

Uma menina não chora, assim aprendi pelo tempo. E assim segui, toda a vida, escondendo-me quando tinha de o fazer. Não são muitas as surpresas que me desmontam, mas as deste tipo, seguramente. Talvez fosse antecipação, quem sabe – penso-o muitas vezes - do meu próprio caminho a acontecer, uns poucos fins-de-semana depois, corria o ano de 97.

Em mais uma escapadela a dois, lembro-me que estava eu, aconchegadíssima pela música, num banco de um desses jardins belíssimos que povoam o meu Alentejo, deitada, pernas flectidas, uma por cima da outra, auscultadores nos ouvidos, livro em frente ao nariz, enquanto ele pululava por ali, agarrado aos seus eternos hábitos de prospecção do terreno.
 
Estávamos em fim anunciado, por tantas razões, essas questões de merda que o tempo se encarrega de tornar insuportáveis. E então, assim, sem mais, lembrei-me deles, daquele par bonito, ao mesmo tempo que Vitorino aparecia, de repente, trazendo à rádio aquela música, belíssima, que sempre me arrepiou.

E foi aí que eu o olhei. E soube, bem fundo dentro de mim, que os próximos seríamos nós. Levantei-me, retirei os auscultadores do rádio e soltei-lhe o som. Recordo que, ao levantar-me, ele me olhou, distraído primeiro, atento depois, e que demos por nós a caminhar um para o outro, num silêncio que tudo sabe. E depois, começámos a dançar, bem lentamente, num abraço de carinho muito antigo, a nossa Queda do Império.

Quando a música se calou, voltámos para Lisboa, sem pausas, que não as do silêncio. E pouco, muito pouco tempo depois, para sempre se fechava um ciclo inesquecível, de quase duas décadas vividas ao segundo, sem que o amor tivesse acabado em nenhum dos lados.

Naquele dia, esse em que desliguei de tentações o telemóvel, lembrei de novo um certo casal, único, bonito e triste, cliente de "esquinas", que me arruinara compostura e almoço, n’O Português. E entendi, como cristais.

Senti, sem espaço a hesitação, que amar, amar muito, não chega.

Mas devia.



Ana Vassalo
Nov 24, 2014

Fazes anos, hoje... só agora percebi, ao procurar a data.
Tu sabias: há ligações que nunca se perdem...






VITORINO & FILIPA PAIS - QUEDA DO IMPÉRIO
 
 
YouTube - "Aveirax"
 
 

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

GENE KELLY



Still standing.
To keep on dancing!
;)



GENE KELLY - A TRIBUTE - I'M STILL STANDING (by Elton John)


 
YouTube - "MonroeSmile"
 
 
 
 
GENE KELLY - AN ODE TO GENE KELLY - DANCING WITH MYSELF (by Billy Idol)
 

YouTube - "Jetpack Monkey"
 
 
 
Ana Vassalo
Nov 19, 2014
 
 


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

THE HOUR MIGHTY







Dreaming bigger


  (a photo from Pat Cegan's site at wordpress)



 So, so Beautiful!


Children & animals are the world's best dream. It's my undying belief.
 
There's a time for dreams hidden in every today.
They are the colored face of love.
And that, that is Christmas mighty hour.



a wonderful ad

 
YouTube: "John Lewis"




Ana Vassalo
Nov 14, 2014

BOOK OF LETTERS - I - JUST... BEAUTIFUL






"Moi je t'offrirai des perles de pluie venues de pays où il ne pleut pas"

- Jacques Brel





























Photo by Augenweide, Still Life



Ana Vassalo
Nov 14, 2014

domingo, 9 de novembro de 2014

ARY


SAUDADE




José Carlos Pereira ARY DOS SANTOS
Lisboa, Dez 7, 1937 — Lisboa, Jan 18, 1984


"POETA CASTRADO, NÃO!"

O guerrilheiro contra a censura.
A palavra genial. Em lava.
A guerra.
A cidade.
O amor.


Quatro temas escolhidos da sua vertente lírica.
Que amo.

__________~~~__________


LUANDA COZETTI (Rua da Saudade) - DIZER QUE SIM À VIDA

« ... E se não for verdade,
tudo o que nós dizemos,
tudo o que nós sentimos
também não é saudade.
Por isso é que nos rimos.»

YouTube - "Fredinho"


MARISA PINTO (Donna Maria) - SETE LETRAS

«... Esta palavra saudade
sabe a sumo de limão,
tem  o travo da amargura
que nasceu no coração.
Ai palavra amarga e doce
estrangulada na garganta,
palavra como se fosse
o silêncio que se canta...»

YouTube - "jdbarros"


SUSANA FÉLIX (Rua da  Saudade) - CANÇÃO DE MADRUGAR

« ... Dei do meu sonho uma corda de insónias,
 cravei meus braços com setas,
 descobri rosas, alarguei cidades
 e construí poetas.

Mas nunca te encontrei
na estrada do que fiz...
...

Então, nem choros nem medos nem uivos nem gritos nem
pedras nem facas nem fomes nem secas nem
feras nem ferros nem farpas nem farsas nem mal!»

YouTube - "Farol Música"


MAFALDA ARNAUTH & LUANDA COZETTI - CANÇÃO DO TEMPO

«... Tempo, para o relógio bater certo com a vida
de um homem bom, de um homem são, de um homem forte,
e da chegada conseguir fazer partida...»

YouTube - "Farol Música"


Ana Vassalo
Nov 9, 2014