NETOS

NETOS

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

REMARKABLE PEOPLE



FERNANDO PESSOA

(Lisboa, 1888 - 1935, Lisboa)


"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


************
"I am nothing.
I will never be anything.
I cannot want to be anything.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."

or...

"I am not nothing.
I will never be nothing.
I cannot want to be nothing.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."


(Álvaro de Campos in "Tabacaria")




LISBOA - Chiado

LISBOA - Chiado
"Fernando Pessoa" by Lagoa Henriques. The place: "Café A Brasileira" (Brazilian Café) - 1905.

PLAYLIST TODAY




MUSIC IS THE PASSION REPORT



♥ ♥ ♥


PLAYING SOFTLY WHILE SOMEONE SANG THE BLUES



Saturday, Jul 22, 2017 - 17:57





SALVADOR SOBRAL - NEM EU [DORIVAL CAYMMI]



YouTube – "Salvador Sobral"





ANTONY HEGARTY + LEONARD COHEN - IF IT BE YOUR WILL [COHEN]



YouTube – "Oggmonster"





CHAN MARSHALL (CAT POWER) - I'VE BEEN LOVING YOU TOO LONG [OTIS REDDING]



YouTube – "anaruido"





JANIS JOPLIN - ME & BOBBY MCGEE [CHRIS CHRISTOPHERSON]



YouTube – "ThE DuCk"





JEFF BUCKLEY - LILAC WINE [JAMES SHELTON]



YouTube – " roberta panzeri"





DAVID BOWIE - WILD IS THE WIND [JOHNNY MATHIS]



YouTube – "Peter Music HD"







_____________________


LEANING INTO THE AFTERNOONS by PABLO NERUDA

«Inclinado en las Tardes»



YouTube - "FourSeasons Productions"






CHANGING BATTERIES - OSCAR WINNING ANIMATED SHORT FILM



YouTube - "Bzzz Day"





DIALA BRISLY - A BEAUTIFUL YOUNG LADY

(a huge thanks to my daughter who e-mailed this video to me)



BBC Newsnight

«Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman - artist Diala Brisly - who is trying to make life that little bit more bearable for Syria's kids.»

Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman -...

Publicado por BBC Newsnight em Domingo, 20 de Março de 2016






A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT

A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT



FLYING A SECRET



I got here to hide. From equations and patterns. From repetition, after all.
Closed the door and got me a special place where I thought I could
somehow sit close to the stars. But I soon found out that the sky was
still opaque, no matter what the steps. And so I left. Again.

I thought, then, I could build me a different ceiling, a new-coloured scrap
of highness. And then make it work. Where I could dream, more than I sleep.
I have long decided that sleeping is overrated - that I know for sure. So I
take that time instead to travel the night alone and in the meantime I allow
myself to fly, unlike stated before... Yes, I like playing with paradox, to
expose the inside of words and the revelation of writing down the voice of a
silence. My adventurous, ever-walking silence.

So I came back. Here, within this quiet world, I intend to gather all my
things usually kept hidden or inactive. They are here to speak.

And since the future is a stand-by secret, I want to live by a precocious
clock, at every running instant of every entering second.

And I will not slow down until my "future exists now" - kind of reverse
quoting Jacob Bronowski.


Ana Vassalo
in my site "CAFEÍNA"(former "No Flying Allowed")
Nov 11, 2010 - 11:54




THE WALK OF TIME

THE WALK OF TIME

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Sem título







Estás aí?...


É que não te vejo pela minha casa de recurso há muito tempo... Poderias, sim, andar pelo mundo, ocupado, mas também não te tenho visto por lá,
até onde esta alma alcança...

Estou contigo, agora... Ainda. Por isso estou aqui. No tempo que vale um momento... Pelo muito, triste tempo de eternidades, que não estive.

E vou-te sentindo, em pedaços sem aviso, o que os torna mais credíveis, mas...

Sabes que vou e venho. E que fujo, de ti como de tudo, de ser e não ser, no pleno deste talento raro que me concedeste e uso sem cerimónia nem gozo. Jamais aprendi a ficar. Tu sabes.

Será? Poderás reconhecer a angústia de Ser não sendo, tu que não És, porque ser somos nós da tua omnipotente criação, a quem inventaram uma gramática sagrada? Ou não? Não... Distrais-te, sim?

E afinal, estou sim, ausente de ti. Por ora. Sabes que voltarei, tens a chancela do inevitável. E de pai. E eu amo todos os meus pais, sim, os terrenos imperfeitos e tu, que inventaste a perfeição. Há muito que não sei nada dela, também não tenho visto por cá os emissários da dita, sabes?

Estou assim, inacabada pela tua mão.

Depois... Bem, depois não há como sair, conheço mal as tuas portas.

Esquecia-as há muito tempo. Saí uma vez, tão criança e revoltada, e andei pelo mundo concreto, sem rasgos de criação. Fui muito mais infeliz, assim - acho que te empenhaste. E de repente, muitas, tantas luas depois, voltei, inapelavelmente, pelo silêncio da tua cumplicidade numa igreja bela e fria, tão altivamente só quanto eu. Não te falei,
mas tu escutaste-me... Senti-te por lá, numa leveza invisível que toca o ar que choramos...

Como te senti tantas outras vezes, em alívio sussurrado na minha mente que informava "não, ainda não é agora"... No hospital, na escola, no mar, e de novo na escola, na maternidade, na estrada... Tão perto e tão longe, não é? Pergunto-te muitas vezes porquê, mas não é suposto questionar insondáveis desígnios, esperançosamente Maiores... que o quê?...

Queres-me cá, mas não sei bem se te percebo... Sabes que preciso da minha casa, aquela que nunca encontrei... que sabe e ensina o sorriso que perdura, a espera e a paz... Sabes mais, que aprendo pouco, que me perco no caminho, pela sede, pela fome de encontrar o que ainda não tem nome por não saber o que procura, mas sabes também que eu acredito que está lá e talvez, apenas talvez, seja só minha a inépcia, no desencontro.

Ou tua a indiferença, medito. Crueldade, será o termo? - já que eu dou às coisas o nome que as coisas têm...

Insistes em abrir uma nesga de outras portas, das tantas que te entreténs a entornar pelo caminho. Onde me sei feliz na entrada, mas donde só enxergo a saída pela fuga, escusa e apressada, tão vertiginosa às vezes, que o estrondo é assustador. Não para ti, que, sentado, deves observar tudo isto com a bonomia de trindade que te assiste.

É que não te entendo, lá está. É muito espírito santo para mim, já sabes que sim - digo-to vezes sem conta mas tu ris-te e viras-me as costas. Depois voltas, mas nunca explicas porquê. Fico-me, então, pelo pai e mais ainda pelo filho. Esse eu reconheço, soube de tudo o que há para Ser e como nós, quase desistiu.

Vejo-te assim, os dois somente um, e imagino-te um poder conquistado pelo conhecimento do infinito, a unidade que se toca, e que é volátil...

E penso-te assim, enorme num Saber de Templo que já foi Carne. E é por isso que voltas. Ou é por isso que eu volto...

Estás aí? Ainda?...

Sei que sim, e não quero saber, entendes? Não te quero no meu mundo, com a tua mão experimentada de acenos, brandindo a luz, a queda, a esperança ou a escuridão... São muitas coisas que pões na mesa do jogo, baralhas e partes, mas não dás. Mandas escolher, em liberdade, como a que é livre nuns olhos vendados...

E por fim, daqui te digo que hoje, em horas demais contado, a tua luz já não me ilumina. Estou presa na noite, onde me perdi há uma vida... Em busca do descanso. Da casa que me falha. Que tu tens fechada e encerra
a resposta, que me escondes. Fico a pensar-te...

Como raio posso eu Ser sem descobrir o que sou? Ou o que quero para Ser?
Revelações... Tens?

Eu não, mas não é suposto. Volto depois, um dia destes, com menos desencanto. Sei que estarás aí, como estás sempre. Só não sei se sou eu que te invento... ou se gostas que pense que sim.

Sei que amanheço, depois. E que o meu peito voa, quando falamos os dois...



Ass.: apenas eu.

02-09-2010 - 15:25

terça-feira, 31 de agosto de 2010

CANTIGA DE OUTRAS VIAGENS



Duarte Pacheco Pereira, "ESMERALDO DE SITU ORBIS" - 1533

("O Mar dos Lugares da Terra")-Livro de Cosmografia e Marinharia







Cantiga de Outras Viagens




[do meu 'livro' de passeios

abraçados ...]




Tenho barcos de papel
Ancorados na saudade
Flores secas cor do tempo
Coisas velhas de ternura
E o teu passo de aventura
Largado pela cidade
Traz um sonho que é só dele
E se acorda pelo vento

Pinto a traço permanente
O poema prometido
E uma asa para sempre
Voa o céu de outra verdade
Ao farol que era perdido
Chega a luz do sol nascente
No meu peito adormecido
Bate um mar de liberdade


Anda, traz o livro das miragens
Do mundo que ainda não corremos
Segue o meu abraço na viagem
Pela margem que não conhecemos

Está no livro dos amores que arrepiam a paisagem
Abre a janela maior do coração que atendemos


Digo o outono das searas em palavras de esquecer
Dou uma volta pela noite da canção interrompida
Fecho a porta que me lembra tanta carta por escrever
Abro na palma da mão a centelha de outra vida

E amanhã sento-me aqui nos degraus de te aprender...



Ana Vassalo
31-08-2010 - 16:59

Origem das Imagens: "Biblioteca Nacional
- As viagens dos Portugueses - Esmeraldo de Situ Orbis".

domingo, 29 de agosto de 2010

NO PRINCÍPIO, O VERBO







No Princípio, o Verbo



" No princípio era o Verbo e o

Verbo estava com Deus e o Verbo

era Deus.

(…) N’Ele estava a vida e a vida era

a luz dos homens. A luz brilha nas

trevas e as trevas não a receberam.

(…) O Verbo era a luz verdadeira,

que, vindo ao mundo, ilumina todo

o homem. (...)"



(João 1:1-3)




[No (meu) Princípio era (outro) o Verbo...]



Cada vez mais me custa pronunciar a palavra "hoje": começo a

mastigá-la e a degluti-la diariamente, sem sabores de surpresa.


Perdeu força de variante. Supõe-se, por natureza, como

autónoma de ontem, véspera aliciante do insondável amanhâ,

que insistimos em prenunciar como isso mesmo, a visita de um

bocado aproximado do futuro.


Mas hoje, este meu interminável hoje de quase três anos, tem

apenas mais tempo andado, carrega a continuidade estática

desse "hoje" que já foi ontem, e que o fora ainda antes.


E no entanto, não há como combater a imobilidade que não


nos pertence, que existe ao nosso lado e determina o nosso

ritmo, mas não é ou foi alguma vez nossa, porque também

nossa não é a escolha. Decidimos sim, tratamos as premissas

como
opções mas optar nunca foi uma possibilidade efectiva.


Entre o amor pelo outro - que nos conduz à decisão em prol de

alguém, a ignorar a pequenez dos egoísmos de estimação e a

tentarmos apenas sentir, na pele do outro que já não domina o

presente das horas, que num lapso ínfimo do tempo perdeu


para a doença o verbo "escolher" em batalha desigual e previa-

mente decidida, que nos torna, enfim, conscientes de que existe

um conceito de "livre-arbítrio" para exercer interiormente no

melhor de nós mesmos - e o amor que nos sentimos, optar por

nós assume o contorno da aridez, de alma posta em deserto.


Mas esta contabilidade de custos comporta o negativo do

resultado -- o lado não visível -- radiografado e devastador.

Seguimos o coração, sim, mas o peso da circunstância racional,

sem desvios ou possibilidade de recuo (que para sempre nos

roubariam a inocência), torna-se dolorosamente paralisante,


muito além de todos os cenários equacionados. Aniquila-nos no

tempo, formata-nos o segundo, retirando progressão ao

caminho e validação
ao imaginário.


A perspectiva de um futuro a acolher - e naturalmente viver -

perdeu-se, a termo incerto. Não há como contornar a realidade


que, sendo-o a toda a extensão da sua inesgotável criatividade,

nos transcende e se posiciona para além da vontade - essa,

que sobranceiramente pensámos um dia como o motor de todas

as coisas. Percebemos, na pior das demonstrações, que não é.


E daí, quem sabe, acabe por sê-lo, ainda que num outro plano


encoberto. O que, todavia, de importante retenho para mim é

que nem sempre a nossa vontade nos conduz à conquista do

visivelmente melhor para nós.


De facto, não. Por vezes, o Amor, a gratidão de homenagem


que sentimos dever a outrém, por tanto arco-íris da vida

perdido a nosso favor, conduz-nos por insuspeitas vias outras,

que não poderíamos sequer antecipar.


E o coração? O coração vence, no inventário das razões. Porque

Amar é também ganhar quando todos os indicadores parecem

exibir a derrota de nós próprios. Suceder, por uma causa além


de nós. Mas que é também nossa, afinal, e não tão remota-

mente quanto se nos assemelharia antes do confronto.


O castro fortificado que é a consciência não guarda apenas


a norma. Existe nela um passo de transposição que nos torna

ora no melhor que podemos buscar em nós, ou em simples

máquina de avançar. E aqui, sem réstea de dúvida, a escolha

é nossa.


Escolhi o Amor.


Perdi o tempo renovado. Mas neste estático rumo de mim, no

aparente vazio de amanhãs por cumprir que é presença cada


vez mais velha nos meus dias, descubro-me na vontade férrea

e inamovível: a minha. Aquela que abre a porta, a deixar passar

esse Amor que me gravou a fogo na memória a palavra mais

plena de Tempo que o conhecimento me vai desvendando.


A palavra Universal em nós, que não valida o sinónimo.


A raiz, o espaço primeiro, o princípio abraçado.


A circunstância de Sermos. O verbo e a nota, a pausa, o Globo.


O princípio de todos os Mundos, contido, explicado e possibili-


tado somente nesse compasso que nos bate no indescritível

conforto da alma.


Que é alvorada e poente de nós, nessa unidade que somos no


abismo e no salto, na verdade sem complexos.


O canto da palavra que acaricia e que dói, que nos para o


tempo no dia de ser já só epitáfio, mas lembra de nós e para

nós eternidades de paraíso.


A música, irrepetível, da enorme palavra Mãe.



Ana Vassalo

28-08-2010 - 22:05

Origem das Imagens: site "Bits n Bytes of Life.Wordpress, by Arpit".

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

GEOMETRIA DO PLANO

 
Geometria do Plano
 
"Um plano é uma entidade geométrica formada por
infinitas rectas e infinitos pontos.
Para traçar um plano, três pontos não alinhados
são necessários.
O plano tem duas dimensões - é bidimensional."

 
hoje
fez-se a presença do tempo
em corpo e espírito aqui

são três instantes de ti
na história que me rescreves
em compêndio que encerrei
para me lembrar de mim

antes de ti
fui a romagem do túnel

depois de ti
só o paraíso vence

porque o céu perdeu altura
num breve ponto do espaço
que se despediu de ti

e o meu lugar de sentir
tem alvoradas suspensas
que me anoitecem de querer
porque já não estás aqui

perco o rasto de me achar
desacertada de cosmos
no tanto que me procuro

mas

no espectro (enfim) visível
do meu sol que te repensa
nasce um fotão aberto
de cores em gestação

e o núcleo renovado
na génese que se recria
já de mim enforma o ser
que tem fome de ser mundo
antes de ti

fui timidez de crepúsculo
informidade de areia
modo instável de ficar

testemunho da erosão
desagrego milenar
que desvirtua o lugar
já depois...

há o acordar da semente
o ciclo perfeito das águas
o livro de marinhar

é que...

nesse tempo acontecido
em unidade das almas
fui caminho de poetas
no restolhar do segredo

a fúria do mar-agosto
num contratempo de luas

ou silêncio dos felizes
em namoro com a lembrança

conheci o riso largo
congelei o passo certo
ensinei-me a voz de ser
e encontrei-me com os deuses
numa terra generosa
divisando em cada aceno
um orgulho que se oferece
aceitei-me nos escombros
na paragem
no refúgio

agradei-me no néon
na gargalhada
e no génio

fui alcance e fui incógnita
e fui contente de mim
e um "bocado do mundo"
porque tu me vês assim!...

na palavra que te dei
revivo um plano de ti
num dia certo de encontros
à esquina de te saber:

O Fado?...

O Fado é viver ausências

que nem a Saudade ousou...


...

e no entanto...

onde era um pássaro caído
nasce uma asa do tempo
- que te voa já esquecido.
 
Ana Vassalo
26-08-2010 - 01:37

Origem das Imagens: site "Gary Winberg".

DO SILÊNCIO QUE NOS GRITA



Do Silêncio que nos Grita


Há silencios repetidos na palavra que desfere,
que crava o ferro
e finca a garra
e rouba o chão,
e pisa mais um rasto de evasão
no destino interrompido que nos espera.

Porque há palavras finais
que atacam de súbita doença os murais
da nossa alma, um dia branca, agora feia,
fervente, na dúvida que nos enleia,
de violência acossada,
p'la infância subtilmente assassinada.

É o silêncio repetido do que lança
da masmorra de dor adiada,
mimetada, irreconhecida, dolorosamente crua
no inferno experimentado,
o verbo feito punhal, que dilacera a carne sua,
e se transvia no Outro p'la urgência do descanso.

E é também o silêncio do que ouve
e entontece no descrédito,
amarfanha e deita fora, como quem mata o que soube,
o golpe rasteiro, a chaga como um rito
na pele sobrevivente do que já foi unidade,
desacerto no presente fraccionado da vontade.

É o espelho de nós
reflexo na razão outra que nos mira, quando a sós
nos surpreendemos cruéis na batalha que sucede,
áridos, no retoque que se perde.

É o silêncio repetido dos abismos
ressonante no eco da vastidão,
do tanto que fomos idealismo,
do que seríamos, em projecção.

Da viagem abortada ao centro do amanhã,
do incomensurável talento da renúncia,
da morte adiada por inépcia,
de todos os fins reunidos p'la manhã.

Há silêncios repetidos na palavra que não pensa.
Porque fere, porque dói e arremessa
pelo vento, desprevenido no caminhar da rosa,
o sopro último da nossa crença interdita
- ensaio do alívio, pela dor que é transferida,
exorcizando no espelho a morte que é já nossa.

Urgente é o andar para a frente, que nos falha,
eventualmente a razão,
o salto na conquista da muralha
na memória em cicatriz,
o tímido aceno de um lugar que foi feliz
e o reflexo escreve a História, que reconhece a missão.

Que sobrevive a cruzada,
lambe a ferida perpetrada,
desfragmenta o efeito
e concilia o embuste,
arrasta, por nós, um tempo de reajuste
na saudade da palavra conjugada no perfeito.

Mas é só repetição, avanço de contra-asa,
mecanizada nos mil anos já somados
de silêncio, recolhido em nossa casa,
num bairro antigo de pilotos magoados.


Neste silêncio de feras acorrentadas no frio,
é finalmente gelada a minha alma de ferir,
sequestrada nestes olhos, negros de resistir.



Ana Vassalo

25-08-2010 - 00:25

Origem das Imagens: site "autreach.backpackit.com".

terça-feira, 17 de agosto de 2010

TEMPO DE "BONECOS"!



(ou Bonecos do Tempo?...)






Tempo de "Bonecos"!



Não aprendo ou reconheço um tempo certo de ti.

Encerrei, adentro a frágil muralha de que me vesti,

um pêndulo estafado e dois ponteiros viciados,

que um dia roubei do mundo entretido a somar vidas,

para não mais correrem coisas de horas aprendidas

no meu património completo de vazios certificados.


O gume ou recado o vento e a fresta

carícia rochedo o sussurro e a terra

a janela a pausa deserto e margarida

o grito e o mar o imenso vale da saída,


tudo é por comprovar, no desencontro das águas.



Somos firmes, quase nobres porque inertes...

Do calado verbo límpido cedo vertes

a saudade que me dói antes da mágoa.



Serás pretérito perfeito no alvorecer da audácia,

e o lamento do remorso céu tardio de eficácia.


Por fim, ruí.


Recolho, dos degraus que antes fui eu,

o escombro patético de um ensaio de vida,

mas da fórmula inacertada da subida

quem sabe, eu rasgo a lei e ergo o céu!



Ana Vassalo


17-08-2010 - 03:45

Origem das Imagens: site "Mission Fit Possible".

sábado, 14 de agosto de 2010

RESPOSTA




Pierre-Auguste Renoir -
Young Girls on the River Bank



 
Resposta ao poema "COMO ATRAVESSAR O MEU RIO" de ZITA VASSALO.

Mana, ensinar não posso, que tbem não sei... Sei dessas palavras lindas,

que ofereces... Mas posso inventar, como tu, mais um rio, no mesmo mar...
E talvez chegue o luar... Sentadas as duas, no chão de dançar!

' Bora lá experimentar?

Resposta
eu tenho um rio
a correr junto do teu
que carrega novas fontes

e um sorriso que se viu
céus de fogo e Prometeu
largado por horizontes

e no curso traz a rosa
cheia, bela e assombrosa
dessa cor que ensina o mar
a correr no teu olhar!

dou-te a mão
agarro a tua
recolhemo-nos do frio

navegar é ter mais rio
e é ser asa pela lua
de voar o coração!...


Ana Vassalo
03-08-2010 - 03:29
Posted: Facebook 03-08-2010.

Origem das Imagens: site Webshots.

REGRESSO







William-Adolphe Bouguereau - "Two Sisters"



Para a minha mana querida e linda, Zita Vassalo.
(como beijo que a saudade adiou
mas por fim se acha cumprido.)






Regresso


e se um dia

eu me esquecer p'lo vento

dessas ruas
viajantes da surpresa

eu sei
que é solar o olhar branco

onde brilha sem sossego
o límpido aceno eterno:

rumo da terra mais certa

sulcado p'la tua mão



Ana Vassalo

01-08-2010 - 04:41
Posted: Facebook 01-08-2010


Origem das Imagens: site "Wikimedia Commons".

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

DECLARAÇÃO

love to drink bottle 31000 pictures, backgrounds and images





DECLARAÇÃO



Defendes-te, no outro lado da mesa,

mesmo em frente dos meus olhos de sair.

A garrafa de vodka meio afogada

de tanta inconfidência mal bebida

estrondeia displicente o mármore aflito

da nossa declinante parceria.



Buscas na memória batalhas de outras praças

cumpridas até ao fim, sem o cansaço da perda.

E tocas-me na mão, como quem fica

- o regresso apenas mito que se arrasta

- e dos silêncios enrolados na garganta

adivinhamos o fim, perfilado nas saídas.



Temos, por nós, um tanto de partilha,

efêmeros pedaços de além-mar

repetidos na saudade de um abraço

que a renúncia digerida aniquilou.



Não seremos circunstância do futuro.

Entreguei hoje, bem cedo na coragem,

desalinhada de coerentes argumentos,

a minha breve declaração de imprincípios.



E enquanto os editais da razão entronizada

se afixam no teu olhar de recusa,

os restos mortais de uma vodka empenhada

gravam, no foco resistente da ternura,

o curso do meu olhar pelo mapa desejado

do teu rosto. Num instante interrompido.




Ana Vassalo
09-08-2010 - 01:45

Origem das Imagens: site "Layout Sparks.com".

OLHOS







Tentativa de poema a duas mãos, de dois amigos. Ao correr do dia...





Francis e Ana, Domingo à tarde.





Será "OLHAR" importante?







"Beautiful Eyes"

E se fosse ele, o nosso olhar, o único meio disponível para "falar" com o mundo?...




Olhos


O que são os olhos? Para ti…

são, tantas vezes, estrada no pó

Estradas no pó? Sem fim…

depois, já rio cheio de mar,

rio cheio de mar, o horizonte…

o desafio,

ou paragem desistente

na pergunta que era fé,

a fé que era da fonte…

e o regresso,

chama no rubro da vida

que é fogo de acreditar...

o regresso que vejo no teu olhar…



Ana Vassalo & Francis Ferreira


08-08-2010 - 15:36

Origem das Imagens: site "Photos-of-the-year.com".

sábado, 7 de agosto de 2010

NO STRINGS...






















Ana Vassalo
2009
Origem das Imagens: Ana Vassalo


RASCUNHOS







Rascunhos



Passámos a cidade de adormecer

tantas vezes

juntos nas horas de até amanhã

os sonhos postos em dia

eu nos teus, talvez

tu impreterivelmente nos meus

em gestos de troca tão esperada

que só o cansaço das horas

no corpo refém da morte

me apagava enfim a luz

de sermos apenas um



e no entanto, tão longe

tão provisoriamente juntos

no imaterial encontro

no incorpóreo toque



desenhando janelas


nos tempos mais velhos...

um soslaio de segredo a despontar

a vontade de ser em ti muito mais

q o calar dos incómodos previne


e fomos a esteira macia do outro

a passadeira do riso que se larga

eu rosa


eu epopeia

por finalmente livre

no manto de conforto

que o coração já frio
reclama


e o beijo da palavra

ansiado pela boca

escreve o livro de nós dois

que guardo só para mim



foste...

o meu verão da tempestade

acordaste-me


suave

do inverno onde me escondo

e ofereceste-me essa asa

que voa o gosto de mim

que abraça de céu o teu nome

a guardar lugares de além

na memória rascunhada


logo depois dos começos

à revelia dos deuses



agora

sou um passo em suspensão

um lapso no movimento

de gerar vida no tempo



é frágil a percepção

é perdido o espaço-ser

autista na dor do mundo

inútil a maresia

e a sorte

a espada

o trunfo

a glória

o arremesso

a cruzada

o despertar

o caminho

a liberdade!



agora

não sou

doi-me a distância

e é fixo o verbo olhar

que não te vê por aqui



mas global, sim

de universos intangíveis

no imprevisto do rumo

que te conduz até mim



tão certo

porque é de ti

... logo infinito



Ana Vassalo


07-08-2010 - 00:29


Origem das Imagens: site "Day to Day Crisis" (autor ou título da imagem não definidos)

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

staring at nowhere



Darren Hayes - Words (in This Delicate Thing we've Made)



staring at nowhere



mirrors...

as in all the endless corridors

or when no soul

becomes the eyes

no grandness goal

- done with the lies

mirrors...

as in rough words to overcome

and no skies left to make you run

or no roots to give you shelter

no chance at all to say it better

mirrors?...

as in now I have to go

will you catch me into the glow?

well... too late for time to show

here...

just tryin' to spell the sound of 'no!'...



Ana Vassalo
Aug 2, 2010 - 23:13

domingo, 1 de agosto de 2010

um dia destes... por aí...







um dia destes... por aí...
 
 
Não sabes, mas eu via-te da minha janela,
há tantas, tantas luas atrás, na outra,
a janela em frente à minha. Nas festinhas
das tuas amigas, do outro lado da rua,
já ali no meu olhar.

Nesses dias em q enchias o écran de televisão
e nos entravas em casa, com a tua presença
bonita, numa coisa chamada Gente Nova,
q nunca mais esquecemos.

E depois, tanta Conversa da Treta
que chorei a rir contigo...

Agora, são outros dias.
Venho aqui para te acenar. O Tempo é curto,
a Memória tem futuros... Estás cá, sempre,
gravado nas horas a chegar.

Janelas, nunca se fecham.

Beijo, António, até logo.
Ana
 


 
Ana Vassalo
30-07-2010 - 16:01
in Mural de António Feio (Facebook)

quarta-feira, 28 de julho de 2010

INCONHECIDO ("Searching for Seashells")



"YOUNG GIRL SEARCHING FOR SEASHELLS"



Inconhecido

("Searching for Seashells")



Se estivesses aqui, não estarias mais do que agora.
Porque desvendarias a possibilidade.
Sonhos, são versos adiante na esfera do improvável.
(Quero somar para descontar) . O que faço de ti,
não sei. Não estás aqui. Mas a interrogação que insinua
ponto por ponto o perímetro dos meus passos informa
que é bom não estares. Não me interessa descobrir
que não subsistes, para lá da minha projecção de ti.
E as alamedas largas, gigantes de todo o mistério,
continuarão como as sei, plenas de salgueiros e de deuses,
talvez até de fontes, porque não?, de nascentes
que não descem para já, de florestas impenetráveis
de sempre até ser hoje, da (in)transcendência dos milagres.
De contradição e absurdo. De pontos de exclamação
clamando por admirar. Assim.
Então, poderei caminhar mais sonhos. E a circunstância
de não estares, enforma a viagem de lonjura – perfeição
de inquiridores...
Um dia, claro que vou parar. No parágrafo mais amorfo
e repetente, paradigma da inevitabilidade que as pontuações
de caminhar conhecem, eis a chegada.
Morrerei na curva de perguntar.
Até lá, tudo é chuva e arco-íris...



Ana Vassalo
27-07-2010 – 23:17

Origem das Imagens: Site Tampabay.com (Unknown Reader)

segunda-feira, 26 de julho de 2010

MAR DA ALMA








































Sea of the Soul (detail), by Anne Cameron Cutri





Mar da Alma


Mar da Vaga
Mar de ensejos

Mar da Saga
De mil beijos

Mar da vela
Segue a estrela
Mar Sargaço de segredos

Mar de dores
Por amores
Mar tão farto de degredos

Mar do Fim
Mar encontrado
Caos por sedas navegado
Pranto que foi do marfim

Mar marinheiro

Mar caravela
De aventureiro
Mar da canela

Cais da rebenta
Cabo de naus em Tormenta
No mar que é do coração

Mar de aflição
Mar de outros deuses

Mar de Mundos
Mais profundos
De outras vezes

Mar em Lisboa
Só de passagem
Mar ... oh Mar!

Que és de Pessoa
A voz Mensagem
Do Mar amar

Mar da paixão ...
Solto na margem
De ser perdão

Oh Mar de mim!

- Mar de calar
Águas sem fim...



Ana Vassalo

24-07-2010 - 10:19

Origem das Imagens: fine art america.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

POR MARES DE ERA UMA VEZ...


Poema escrito para dedicar a alguns amigos escolhidos da arte de navegar, amigos pessoais antigos e para as minhas filhas, a real (Natacha) e a de brincar (Marisa), todos inseridos no universo HI5, com um beijo de gratidão, por serem assim, especiais como são. E agora vamos lá, contar “Histórias de Verão, Contos de Inverno”. (1)

Porque todos os dias são retalhos de brincar...




POSEIDON

Deus Supremo dos Mares - Mitologia Grega



POR MARES DE ERA UMA VEZ...


ERA UMA VEZ... UM OUTRO DIA A SER CANÇÃO
NUM CERTO FAZ DE CONTA DE SER OS MARES
MARéS DE OUTRO CéU COM LUARES DE ARRASTÃO
POSEIDON ANCORADO NUM SORRISO DE BRINCAR

O SOL À PRESSA, P’LAS DUNAS ENSONADAS
PINTAVA AZUL O FUNDO DA MADRUGADA
E OS POETAS FEITOS SÁBIOS DE ENCANTAR
REUNIRAM NUMA PRAIA POR ACHAR

E ERA MAIS UM VENTO QUE ACENDIA
COISAS DE SEMPRE E NOVO DIA
PÁTRIAS DE GENTE SUAVE ABRIGO
SOPRANDO NOVAS DE SEU AMIGO

FOI ENTÃO QUE O SOL MAIS BRILHO
DE OUTRAS CORES QUE NÃO HÁ
SE SENTOU NO MEIO DO TRILHO
DO SONHO QUE ERA POR LÁ

NO ESPAÇO DO TEMPO QUIETO
A VOZ DO CANTO EMERGIA
E A PALAVRA ENTÃO NASCIA
DE UMA ALMA A DESCOBERTO

TRAÇAVA ROTAS DE SEDA
NA MÃO QUE OUTRA MÃO APERTA
DA TERNURA QUE SE ACERTA
NUM VÔO PRA LÁ DO MEDO

DESFILARAM TERRAS OUTRAS
DE AMORES GRATOS DE DAR
REIS, DRAGÕES E COISAS LOUCAS
MAIS O QUE É BOM DE INVENTAR

UMA FLAUTA EM HARMONIA
UM CRAVO DE LUZ QUE É GUIA
A GUITARRA QUE NÃO CHORA
A VOZ QUE OUTRAS VOZES MORA

E UMA ASA QUE LEVANTA
A VELA A QUERER MARINHAR
NA PARTIDA QUE SUPLANTA
OS SONHOS DE TUDO OUSAR

E EU POETA NAVEGANTE
POR COISAS DE MAR AMAR
TRAGO NO PEITO UM SEXTANTE
DE ESTRELAS POR VELEJAR

GUARDO UM TEAR FANTASIA
UM ESPELHO DE ALCANCE ETERNO
TEÇO AMORES POR GOVERNO
MIRO AS TERRAS DE UTOPIA

SÃO FLORES QUE ARRANCO AO FRIO
NOS MEUS OLHOS DE AVENTURA
E É POR VÓS QUE TRAGO UM RIO
A CORRER PELA TERNURA...

ERA UMA VEZ O ETERNO AGORA
SENTADO À MESA DO TEMPO
NUM ABRAÇO SEM TER HORA
QUE É MEU E SEGUE NO VENTO


...

E O VOSSO HÁ-DE ENCANTAR
QUANDO ERA UMA VEZ FOR O MAR...



Ana Vassalo
10-07-2010 – 04:55




(1) Autor: David Lodge.

Origem das Imagens:
www.mlahanas.de/Greeks/Mythology

sexta-feira, 4 de junho de 2010

VIRTUALMENTE INCOMPETENTE!



 

Virtualmente incompetente!

Não sei porque me procuro nas esquinas, no revés de todas as rectas. Ou o que faço aqui, nesta suposta ronda de amigos, onde a matéria é incorpórea e os sentimentos nos chegam por éter. Seguramente terá muito q ver com aquele meu escuso lado aventureiro, uma sede antiga de conceber impossibilidades.

Tenho esta espécie de traço genético em mim, que larga o riso com gosto e navega na gargalhada de outros, que exibe a naturalidade de todas as estrelas alinhadas em céus nocturnos e se mexe com aparente descontracção nos corredores da sociabilidade.

Mentira, tudo isso. Não que a valide, há de facto um lado de mim que é exteriorizante e quer ver-se encontrado com outros exteriores diversos. Mas... seria necessário que todos os interlocutores fossem, também eles, algo de timidez escondida em extroversão, para que as sensibilidades se tornassem ajustáveis e comunicar constituísse, então, a grande festa alternativa para os sequestrados do lar. E eu?... Eu sou toda a palavra que urge por ser dita, mas sou também e talvez mais este silêncio dos que receiam a dor.

Bato à porta, peço licença de entrada neste mundo de intromissão, onde o meu temor de ser excesso em alguém - aquele ponto de saturação de todos os concentrados - acaba por me condicionar o prazer da aquisiçao.

Tenho o cuidado milenar dos penhascos a espreitar o abismo, naqueles exactos momentos em que de mim, incompreensivelmente, se esperam coragens de bodyjumping. Sou o exemplar às avessas do mundo em que se move.

E no entanto, lá estou. Antecipando a companhia da surpresa, essa incansável mensageira da novidade, de todos os não expectáveis aqui, dos surpreendíveis de lá.Entretém-me, este inventar-me a cada dia nos caminhos da história que é a minha, mas que igualmente me conduzem por outros, desejadamente profícuos e criativos.Porque eu não sou a realidade unívoca, desmontável em linha, classificável nas constantes da normalização. Eu, sou mais um de tantos mas diversos microuniversos de convicções suadas e de humanas contradições também, porque me movo nos terrenos da questão.

Porque é por aí mesmo que sempre quero caminhar, a descodificar mais troços de novo rumo. Nada é eternamente certo e reconhecível, assim tenho aprendido e nem sempre pelo método mais simples.


E é assim que sou feliz, exactamente por isso!
Depois, regressada de cogitações, lá dou por mim em meandros de procuras circulares: serão então as questões que, de tanto as perseguir, lavram em mim a incerteza de permanecer? De ansiar sempre mais pelo passo que vem depois?

Há lugares aonde sinto que pertenço. São poucos, mas estão por aí. Porquê, então, lamentar pelos outros onde não preconizo qualquer ideia de conforto?

Se eu visasse somente acomodar-me em qualquer e cada uma das aldeias concordantes, jamais avançaria desse seguro posto de controlo do futuro. Seria uma estaca inamovível no solo eleito das minhas vitórias. Provisórias, é certo, mas que no seu tempo de acção alargam o meu espaço de conhecido e o tornam sempre mais reconhecido.

Largo-me ao acaso, então, abandonando as zonas de conforto tão depressa as conquistei e espero – ou indago – por outras a desbravar na periferia do meu mundo conhecível.


Porque, para avançar na construção paciente da minha felicidade pessoal, eu tenho de arriscar, se pretendo conhecer. E conhecer é dar significância ao que antes nem sabia existir e no entanto completa e refaz a curiosidade de novas partidas, mesmo agora acabada de saciar.

E por tudo isto e o mais que fica por dizer, relativizo qualquer réstea de timidez ou dificuldade de interacção, que impositoriamente vivem comigo, até que o hábito por repetição acumulada suceda na empresa e acabe por me adaptar.
Preciso de conhecer mais, nas imediações possíveis do disponível para conhecimento, para poder o sorriso que quero na minha vida.
Ana Vassalo
04-06-2010 – 02:56H

Origem da Imagem: site da Revista "Construir Nordeste".

Sem Vento, no Mar dos Sargaços



Triângulo das Bermudas - Atlântico Norte (Mar dos Sargaços)


[Hope is the thing with feathers
That perches in the soul,
And sings the tune without the words,
And never stops at all…


Emily Dickinson

(Esperança é aquela coisa com penas
Que se pendura na alma
E canta a melodia sem as palavras,
E jamais se detém...)]





Sem Vento, No Mar dos Sargaços



e se a minha,
a alma que me adoptou,
se descobrisse, afinal,
viagem deserta de pássaros?

e não contente de vazios,
se quisesse achar também,
num desapego de fins
esquecida de toda a música?

e se nada, nada mais resistisse
na minha casa da memória
que um indiferente sinal
de trânsito interrompido?

e se todos os solos da vida,
a guitarra embriagada
nos dedos a que se entrega,
se calassem desolados
na amnésia do tempo?

e se ao acordar de alvoradas
já mais nada em mim soasse
que a voz fraca e indigente
dos inquilinos da poeira?

e se os meus olhos de ler
que não aprenderam poemas
fossem somente naufrágios
neste mar sargaceado
que me fez desaparecer ?

e se todos os futuros
que me inventei pelo sonho
me acenassem acordados
ruindo na noite eterna?

e se dos mundos que anseio
e pinto em manhãs de branco
escureceram entretanto
as tintas que eram da luz?

e se na palma das mãos que cerro,
estas minhas, tão vazias,
por tanto tempo de vidas
estendidas para a surpresa,
se esmagasse o dia novo?

tenho essa tal, sem as penas,
que julgo ainda ser minha,
numa pausa de compassos
e tempos em desacerto
de canção inacabada

vou... acender um deserto
onde me perca no vento
a buscar lugares de nunca
nesse além que abriga o nada
pra cá de coisa nenhuma

sou... esse vulto perfeito
que se move pela bruma
onde o nome dos sem jeito
perfeitamente se arruma

sou a própria:
um certo andar navegado
sem carta, ou céu adiante

ausente de todo o medo
refugiada em degredo
numa gruta marinhante...

afagada pela saudade
num beijo cheio de mar

que não me canso de ousar...


Ana Vassalo
03-06-2010 – 05:28


Origem das Imagens: site Webshots.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

CRATO




António Zambujo, "Trago Alentejo na Voz"



(Já eu, trago Alentejo em mim...)



Crato



E então a noite chegava, no desencontro das estrelas, e eu sabia que ali morava uma parede de céu forrada de preto e prata, que sempre me consolara.

Ficava ali, nas minhas horas de esquecer, a ensaiar a fuga real que vivia nos meus sonhos. E os olhos fugiam a rasar a planície escondida de escuro, onde as estrelas ajudavam. Ajustava os binóculos, a desenhar a Lua perfeita, gigante e de branco, como a via na vontade. E em tamanha ambição, seguia pelo contraste para depois a desfocar, tornada em plano irreal, onde me apetecia entrar.

Naquela terra, sonhar era uma possibilidade presente, potencial nosso em formação pelo interior do silêncio.

Amanhecia. Rumar ao mosteiro era um presente matinal que me concedia. Instalava-me no Bar, vazio e imponente, catedral da paz no espírito mais desencontrado. Em fundo, Madredeus soavam, correndo arcadas, vitrais, rosáceas, a lembrar um encontro com os anjos, a pedido, de Segunda a Domingo.

Era feliz, entre a memória dos ritos, a altivez das colunas, e a música, a agarrar o passado num dia fora de tempo.

Vinha de lá, daquelas ruas caiadas de branco e estreiteza, canteiros suspensos e janelas pequenas, onde o bom gosto soletra a simplicidade, pórticos restaurados na pedra picada por artesãos aprendizes, de outros, ancestrais artistas da obrigação onde o talento vencia!

Vinha dali, de um lugar onde o sino repicava as cinco da tarde, do alto do campanário de uma igreja sem idade, entre o cemitério calado e a planície atrevida, registando proximidades. A lembrar como é real a união das almas no universo da ideia, seja na vida ou na morte.

Sei que o meu tempo ali se entendia. E estendia, para lá do relógio ensinado, e ganhava corpo e voava pela terra dos sentidos, elevando pelos céus uma outra vida que a memória genética parece já ter esquecido.

Apercebia, enfim, a imaginação como um poderoso alucinogéneo, capaz de criar horizontes fora de contexto logo que nos propomos lançar o olhar, despojados de pré-noções sobre o que deve ou não estar certo no seu devido lugar.

Não existe um lugar para as coisas da memória. Temos de ser nós arquitectos, de uma cidade de recantos por achar, inventores de mais céu no fim do mar, para que as asas batam luares e a vida seja, por fim, a viagem a cumprir do olhar insatisfeito.

Lá, o poente é uma tela impressionista, em que o azul perdeu a sua importância de céu.

Do alto de qualquer torre, escadaria de jardim, ou miradouro natural desavisado, a cor brinca com o olhar em tons difusos e dispersos, como crianças brincando um sonho que nunca havíamos sonhado, mas gravam no céu poesia que desprevenidamente carregávamos dentro de nós.

Porque o silêncio inspira as almas achadas no desencontro do ruído inexpressivo e é nele, silêncio maior, que a natureza se aplica a revelar o que de nós é essência. Somente no centro do nada que o desconhecido representa pode despontar aquele todo que somos nós antes de nos dispersarmos pelas avenidas do progresso.

Lá, onde o tempo não se mede, acorda um dia de horas plenas, que habitam dentro de nós.



Ana Vassalo
22-Abril-2010 – 22:35H

Posted: 2-Maio-2010

quinta-feira, 29 de abril de 2010

DO TEMPO QUE É NAVEGANTE















(A Via Láctea - região centro)
(Milky Way Galaxy Center)



Do Tempo que é Navegante


[Para alguém, com quem nunca me encontrei, mas que há-de cruzar o meu tempo e entendê-lo para mim…]

Se um dia eu fosse um passo certo na jornada, tu serias o caminho na descoberta do meu tempo.

Mas esqueci o trilho, limpei, da memória que sou, essa rota dos enganos. Aqui, neste agora que me acolhe, sou a poeira que resta de um vôo que despenhei, na vertigem de chegar. E nessa pressa de ser, matei os meus dias de vir e estou por aqui, sem morada, ancorada num silêncio demandado, onde me escondo das horas que deixei por navegar.

Tu, és aquele que transporta o vento e a estrela, a vela, que hão-de saber o meu mar…




Ana Vassalo

29-Abril-2010 - 21:16 

Origem das Imagens: Wikimedia Commons.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

ACABARAM-SE AS CANÇÕES...



Sunrise at 30K Feet




acabaram-se as canções...


vivo na sombra dos dias
naquele buraco mais negro
das existências perdidas
que se arrastam pela vida
a cumprir um velho uso…

sou fogueira de um passado
onde a chuva ganhou espaço
e me afogou na paragem

agora…

sou pausa eterna de mim…
por mais que o sol das manhãs
se aventure pelas janelas
ferem-se os olhos na luz
que jamais deixei entrar

espreito as frestas de mil portas
que entreabri no silêncio
e nesses rastos cansados
que vislumbro pelas nesgas
num raiar desencontrado

respiro um pouco de sol
o tanto que me consinto
para rumar tão mais certa
escondida dentro de mim
à noite, que me entontece

sou a miragem esquecida
força detida no tempo
que se retrata nos becos
onde as horas se aconchegam
pra não terem de passar

e se um dia me acordar
de um certo rasgo de esperança
a tactear-me o encontro

certamente que estes olhos
ancorados na ausência
p’los passos da demissão
se hão-de esquecer do caminho
que sabe a luz nas veredas

não…

não é na sombra dos dias
neste avesso onde me agarro
que hei-de saber de voltar

de tanto me escurecer
sei lá se morri há muito
e me esqueci de notar…


Ana Vassalo

7-Abril-2010 – 13:06H

Origem das imagens: site Webshots

segunda-feira, 22 de março de 2010

BARCA DO TEMPO DE LONGE ...


























Lonely Ship

by


4Seasons





barca do tempo de longe…


eu queria… conhecer a fé perfeita
do lado avesso das flores
que esconde do sol temores
e em inocência se deita!
e queria… numa pátria do amor,
que um sabre de luz rompesse
e nos olhos já sem cor
janelas de brilho ardesse…

acho-me por aí, nos quintais
onde os sonhos se adormecem
- sementes do dia, vitais,
que pela noite se tecem…

e eu colho, e corro o mundo,
e volto no mar mais profundo
sem ponte nem cais de abrigo!
terra à vista, por lá sigo…
não me encontro na cidade
- é sempre velha a saudade
dos campos fartos de gente
que o silêncio não consente…

Lisboa de mim, que amei,
meu Tejo da ventania,
tanto verso em vós chorei
sem saber o que doía!
não, não creio ser desamor
o que de mim vos calou:
é que a paixão que queimou
morreu num grito de dor
que a espera desencantou!
e se hoje sou este peito
deserto de coração,
é que vos sonhei perfeitos
no bater da emoção,
mas…

sei que mais do que é previsto
vence o sangue que é mais quente!
por ti, cidade, persisto,
és mais estrada que o presente…
e o rio, esse meu rio, adiante,
sabe de mim o instante
em que o tormento já morre,
e vem…
tão certo de mim, ele corre
a levar-me contra o vento…
ao largo,
onde se agita, mirante,
a tal barca que é do tempo…

lá, onde as águas se abraçam,
eu sei de cada lugar,
fossos e grutas de encanto,
sereias, “meninas do mar”!
encontro-os em sonhos que passam
a lembrar cada recanto
deste velho navegar…

eu queria…
ser esse conto de fé
no livro que escreve a vida
a voar tudo o que é!



Ana Vassalo
22-03-2010 – 01:48H


Origem das Imagens: site RedBubble.