NETOS

NETOS

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

REMARKABLE PEOPLE



FERNANDO PESSOA

(Lisboa, 1888 - 1935, Lisboa)


"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


************
"I am nothing.
I will never be anything.
I cannot want to be anything.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."

or...

"I am not nothing.
I will never be nothing.
I cannot want to be nothing.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."


(Álvaro de Campos in "Tabacaria")




LISBOA - Chiado

LISBOA - Chiado
"Fernando Pessoa" by Lagoa Henriques. The place: "Café A Brasileira" (Brazilian Café) - 1905.

PLAYLIST TODAY




MUSIC IS THE PASSION REPORT



♥ ♥ ♥


PLAYING SOFTLY WHILE SOMEONE SANG THE BLUES



Saturday, Jul 22, 2017 - 17:57





SALVADOR SOBRAL - NEM EU [DORIVAL CAYMMI]



YouTube – "Salvador Sobral"





ANTONY HEGARTY + LEONARD COHEN - IF IT BE YOUR WILL [COHEN]



YouTube – "Oggmonster"





CHAN MARSHALL (CAT POWER) - I'VE BEEN LOVING YOU TOO LONG [OTIS REDDING]



YouTube – "anaruido"





JANIS JOPLIN - ME & BOBBY MCGEE [CHRIS CHRISTOPHERSON]



YouTube – "ThE DuCk"





JEFF BUCKLEY - LILAC WINE [JAMES SHELTON]



YouTube – " roberta panzeri"





DAVID BOWIE - WILD IS THE WIND [JOHNNY MATHIS]



YouTube – "Peter Music HD"







_____________________


LEANING INTO THE AFTERNOONS by PABLO NERUDA

«Inclinado en las Tardes»



YouTube - "FourSeasons Productions"






CHANGING BATTERIES - OSCAR WINNING ANIMATED SHORT FILM



YouTube - "Bzzz Day"





DIALA BRISLY - A BEAUTIFUL YOUNG LADY

(a huge thanks to my daughter who e-mailed this video to me)



BBC Newsnight

«Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman - artist Diala Brisly - who is trying to make life that little bit more bearable for Syria's kids.»

Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman -...

Publicado por BBC Newsnight em Domingo, 20 de Março de 2016






A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT

A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT



FLYING A SECRET



I got here to hide. From equations and patterns. From repetition, after all.
Closed the door and got me a special place where I thought I could
somehow sit close to the stars. But I soon found out that the sky was
still opaque, no matter what the steps. And so I left. Again.

I thought, then, I could build me a different ceiling, a new-coloured scrap
of highness. And then make it work. Where I could dream, more than I sleep.
I have long decided that sleeping is overrated - that I know for sure. So I
take that time instead to travel the night alone and in the meantime I allow
myself to fly, unlike stated before... Yes, I like playing with paradox, to
expose the inside of words and the revelation of writing down the voice of a
silence. My adventurous, ever-walking silence.

So I came back. Here, within this quiet world, I intend to gather all my
things usually kept hidden or inactive. They are here to speak.

And since the future is a stand-by secret, I want to live by a precocious
clock, at every running instant of every entering second.

And I will not slow down until my "future exists now" - kind of reverse
quoting Jacob Bronowski.


Ana Vassalo
in my site "CAFEÍNA"(former "No Flying Allowed")
Nov 11, 2010 - 11:54




THE WALK OF TIME

THE WALK OF TIME

segunda-feira, 6 de junho de 2016

DO AMOR FELIZ






                            Art by Amy Marie Adams, Embrace



                                                                      I don’t suppose I really know you very well - but
                                                                      I know you smell like the delicious damp grass
                                                                      that grows near old walls and that your hands
                                                                      are beautiful opening out of your sleeves and
                                                                      that the back of your head is a mossy sheltered
                                                                      cave when there is trouble in the wind and that
                                                                      my cheek just fits the depression in your
                                                                      shoulder.
                                                                                                                    ― Zelda Fitzgerald






Pedem-me verdade, todos os dias. O que não deixa de ser curioso, como se há-de notar...


 
Se tenho saudades do amor?...

Mas seria possível não ter?

 
Amar e ser amado é um dos campos da questão e está preenchido. Exercer-se nesse amor, é um outro. Ao Tempo falta a coesão numa ideia de Amor, da generosidade que ele comporta. Chegar ou não, vencer, eis a questão.


Porque, de amor, o que eu espero hoje é, exactamente, essa mesma “verdade”, toda a verdade e nem um malabarismo mais que a verdade.

Terna e simples, praia ou desassossego, fria, chama, talvez crua, até naufrágio. Mas é o que espero e o que sempre pedi, como requisito único: a verdade por horizonte.

Talvez por sentir que nela se guarda a secreta morada da união, a casa que nos soma consecutivamente como um.


Agora... Se tenho saudades do amor? Sempre.
 

De amar sem equação nem fronteira, do sentir desordenado, de correr com o coração, sem gps, por um outro que se perdeu no meu.

De pensar o amor como criança: não o pensando.

Tenho essa imensa saudade de fusão, de rir, sonhar, disparatar, escrever traços de vida a dois.


Como um dia, outros dias, aconteceram todos os princípios.
 

Mas não da dor que comparece, tomada de pressa e inflada de poder, para nos despenhar, sem aviso, no chão da nossa inocência, quando a razão se perfila e nos estampa no coração aflito a transitoriedade da coisa certa e verdadeira, selada a mãos juntas sobre o livro dos afectos que um dia nasciam vida.

Não da mentira que a culpa faz chegar-se à frente, em nome de uma qualquer distorcida noção de protecção.

Ou do lento homicídio daquela cumplicidade que pensáramos inesgotável e nos fazia militar na construção de cada maravilha, que era o pensarmo-nos arquitectos de um só mundo, feito de nós.

Não do desespero, da busca insana, errando a vida por uma explicação que reponha a ordem no caos da memória, rasgada de sentir.

De ter de partir sempre, de largar tudo querendo ficar, porque o sonho que pensámos não era e não foi, afinal, e esse amor tão recitado só já se reconhece nas avenidas omissas de caminho, juncadas de esquinas de indecisão e rotina.

Não dos silêncios opressores, afundados na tv, no jornal diário ou no pc, das pantufas fabricadas nas usinas do deixa andar, o mesmo tanto faz que se abisma depois com o nosso próprio e imprevisto silêncio, ou, menos ainda, do moribundo beijo na boca com até amanhãs que ansiamos acordem ontem.

Saudade nenhuma da falácia que de repente nos cerca as horas e quer fazer-se ouvir por entre a dormência que nos pára, a fraude desse outro que nos chora ao ouvido – e como chora... - lutando por se renovar em votos de amor eterno, há muito perdido na negligência dos cansaços da imaginação, do apreço arquivado, da atenção agendada.

Tampouco do ciúme irracional, ou do cuidado que acorda tarde e a más horas, em retoma perdida, para perceber que não somos, jamais fomos, não queremos ser item garantido de ninguém.

Ou da fuga da lealdade, transviada por becos escusos, que no mais etéreo dia de promessas nos juraram para a vida e logo morre em segundos às mãos indiferentes da cobardia, convocada por uma qualquer leviandade de serviço.

Menos, muito menos, de ser secretamente exibida como montra, a imagem e a juventude tomadas como asset, o cérebro usado e abusado em projectos culturais “comuns” de proveito unilateral, adivinhe-se para que lado, e de repente somos só mais um nome nos livros editados, perdido numa infinda lista de agradecimentos, em jeito de recompensa final, mas nunca uma palavra de apreço, a “inteligência” sempre reclamada e exibida a serviço, explorada mas inibida logo que destacada pelos pares...

Não, nunca mais, utilitário vivo de multitarefa que consta - involuntariamente porque ingénuo - ordeiro e funcionário “por detrás” do homem de sucesso, ou seja, no único lugar que alegadamente lhe compete.

E que saudade pode subsistir de palavras que nos trespassam de dor, o insulto demolidor armado de luva branca e crueldade, fazendo-nos questionar a legitimidade da própria existência?


Nada carece de promessas de eternidade, desse fictício mas arrogante desejo de controlo sobre algo que não nos pertence, como pretende o casamento ou qualquer tipo de união reclamada na posse.

O amor sobrevive de verdade eterna, enquanto dura. Há que honrá-lo até ao fim.

 
Mas sim, tenho saudades, sempre tive saudades do amor.
 

Desse que se mostra em puro rosto, nos fixa a perder de vista, branco e amigo, a cada momento de vencer a vida.

Dos olhos que projectam céu a cada porta de uma galáxia sem fim, das bocas unidas em fome e ternura, urgência e poesia do coração que pulsa um outro peito e para sempre se embala na mesma canção.


Saudade, assim.

De um certo, imagético, amor feliz, que projecto em verdade mas ainda não conheci.



Ana Vassalo
Jun 6, 2016


quarta-feira, 1 de junho de 2016

ONE ART ou TEORIA DO RISCO

 
 
 
 
 
 
 
                                                                                 The art of losing isn't hard to master;
                                                                                 so many things seem filled with the intent
                                                                                 to be lost that their loss is no disaster...
 
                                                                                                                     - Elizabeth Bishop
 
 
 
Porquê pressa, decisões, stress, para quê acção?
 
Relax! Afinal, tempo é o que não nos falta e até há quem arrisque provar que a morte chega só depois da notificação. Mentira, nós nem morremos nem nada.
 
E é por isso que podemos protelar. Amanhã será sempre o melhor dia, nas consecutivas extensões temporais que vamos acrescentando ao momento que já chegou.
 
Artisticamente, mascara-se o medo de muitas caras,  que tem sempre muito tempo e pouca culpa na omissão, e sofre de mania de transferência para o incauto mais próximo.  Inverte-se-lhe todos os valores que convêm à renomeação, chama-se-lhe  coragem no livro dos  assentos e respira-se, por fim, aliviado de poeira. 
 
Caminhemos, pois, com muita calma.
 
Aguardemos a oportunidade que supomos cíclica e inesgotável só porque o tempo continua.
 
E se, inesperadamente, nos faltarem uns míseros segundos, há que resignar. As formulações espirituais e os arranques teóricos da positividade hão-de, garantidamente, compensar todas as perdas.
 
Só não vale é chorar no epitáfio dos adiados...
 
Do Tempo, sabemos-lhe o registo, por repetição. Por cada acerto nos relógios da convergência é garantido um recuo de conveniência, que não se anima de razões. 
 
Foi solicitado, simplesmente comparece. Para nos atrasar de vida o que nos adianta de morte.
 
E deve estar certo - não que importe apurar.
 
Temos todo o tempo do mundo.



Ana Vassalo
Jun 1, 2016


quarta-feira, 25 de maio de 2016

THE BOOK OF LETTERS – “No sound but the wind”



























Train Station, by unknown





Cartas de Fuga e Solidão

[ La solitude, ça n’existe pas... ]
 

                                                                                                We can never go home
                                                                                                              We no longer have one...

                                                                                
 
Num extenso mundo de papel branco pela frente, a que a palavra se furta em abandonos cíclicos, podia caber o tamanho da noite para os que lhe traçam no percurso manhãs abertas de universos por experimentar. É terna, eterna e global a noite de quem não acha um fim maior para o sono e lhe guarda o mistério de cada ponto de luz. Que há-de ser caminho de dois, floresta ou savana que hão-de vencer.

Rouba-se um mundo que vibra, expectante de impaciência num quarto virado a sol, exultando já pela hora tardia que não se rende ao horizonte. A noite é um lugar de sombras bonitas carregando luzes por descobrir, que tecem histórias de vida a começar, onde todos os passados do futuro convergem no coração.

E na velha estação desactivada, obra de artes anciãs em amor e talentos escravizados, está ele, que espera por ela junto à coluna dos tempos, olhos brandos e mão estendida com luares de caminhar. Depois, fogem pelos carris ao encontro de um outro princípio a nascer, que se vence num laço, o beijo primordial dos lábios em gestação tacteando um amor com gosto de zimbro e amanhecer.

Era assim, chegavam sempre sem nunca ter partido. Mapa nos olhos, o foco extenso de terras de longe onde os sonhos habitam casas de montanha, abrigos de chão amigo e janelas a poente, café quente e pão fresco, como regaço da saudade de um abraço milenar em fusão nos dias a chegar, e um fantasma de estimação, marcando o lugar cativo num calor antigo de mãos errantes. Aconchegados de sombras no escuro que sabe o pulsar certo do encontro, lá seguiam por uma rua de amor que conheciam desde o princípio dos tempos.

Ancorados em regresso, por fim, sobem à vida num mundo feito de dois e mar-chão. Deitados na noite do cansado banco da estação, ele ajeita-lhe o casaco contra o frio, num toque macio que em ternura se desvenda, enquanto ela, clandestina por talento e condição, lhe rouba da boca o último cigarro sobrevivente. E escoltados pelo céu negro de um novo acordar, soltam pela madrugada os ecos de um riso quente, agora, que dissertam pelo latim complexos sistemas galácticos por nomear.

Pode-se ouvi-lo depois, num íntimo silêncio de ventos, cantar-lhe baixinho uma história de amantes felizes que se perderam de estrelas.





Ana Vassalo

Fev-2013


___________


 


NINA SIMONE – STARS

A story of disbelief. Sad, beautiful Nina, so powerfully truthful.


YouTube: “Bernardo Santos Carmo”

 

domingo, 15 de maio de 2016

WHY BOTHER...






Finalmente, o registo actualizado para o blogue. Em modo de chapelada ao futuro, do tipo «sou eu, não fui?», ou «memórias com arsénico», mais propriamente.
 
Pensei que ajudaria, uma vez que tenho, para já, de assimilar a interessante idade que o último Janeiro me ofereceu e consta despudorada, estúpida de fresca e airosa, do meu cartão de  cidadacoiso. Para digeri-la, há que mastigar verdades, com gosto em processo. Tentando aprender a olhar com foco, sem lentes de correcção.
 
Assumir todos os nós que se cansaram de laços. Descabelada, brancas em destaque ("cãs" é uma palavra dolorosamente feia - com a devida licença, está dispensada) e, last but not least, de cara lavada. Monocromática, como a crise. Assim, espécie de qualquer coisa por identificar. Nada de grave, adiante-se, um dia destes passou-me.
 
Enquanto, algures pelos intervalos, se vai recitando uns clichés amigalhaços: menos é mais, e tal, então pois. Já me tinham dito.
 
Porque, afinal, aos 59 é realmente muito pouco o que importa. E o que importa passa pouco por bouquets, é mais chegado a canteiros. De resto, não é novo, a arte rupestre da fácies sempre foi aquela coisa torta de chata, como que arraçada de trabalhos forçados.
 
O próximo, lá está... Às vezes ainda penso nos dígitos subsequentes e respectivas classificações oficiais - e oficiosas, também, essas modernaças. Uma simpatia, claramente. Ou digamos que tem dias... Mas será pior do que a antecipação? Dificilmente, desconfio.
 
Vamo-nos especializando em estranhas aptidões, entretanto, e aplicamo-nos a enganar os tempos: ganhamos pouco, sim, mas rimo-nos muito, perdidamente de amarelos.
 
Chove que se farta.
 
Why bother?...



Ana Vassalo
Mai 15, 2016




BOWIE & JAGGER - DANCING IN THE STREET
 
 
 
YouTube: "Gonzalo Silva"


segunda-feira, 9 de maio de 2016

É assim.





































As flores nos telhados


Miguel Esteves Cardoso

in Público, 09/05/2016 – 00:30




Maio chora e chove o Verão que aí vem. Maio é um raio de um mês e está contra nós.
 
Descem cataratas do céu, de água má, que nos tinge a pele da cor daquilo que vestimos para nos proteger da chuva.
 
As flores nos telhados não querem saber. São altas e cor-de-rosa. Levam com a chuva toda mas bebem-na. Ajuda-as a crescer. Jogam como ela, como psicopatas, que todas as plantas são.
 
Hei-de morrer sem conhecer a inteligência da primavera. A arma secreta é enganar-nos que, com cada ano que passa, ignoramos um bocadinho menos. É mentira. Não. Nem sequer tem a dignidade intencional de uma mentira. É um sucedâneo da nossa estupidíssima ambição de compreendermos onde estamos metidos.
 
Que sonho seria – que bom para as nossas garagistas auto-estimas – podermos pensar que Maio, como o único mês totalmente primaveril, é um embuste inventado para nos dar a volta.
 
As flores nos telhados da nossa casa e das casas à nossa frente crescem porque não precisam de nós. Ajudam-nos a sermos humildes, se tivermos juízo.
 
Ter juízo é aprender a pensar que, por muito indiferentes ou importantes que sejam as nossas fantasias do que valemos e das razões porque nascemos, tudo o que aconteceu, acontece e acontecerá não depende nunca de uma única pessoa: sobretudo daquela que todos pensamos ser.
 
As flores no telhado singram. As cores sangram de tanta vida. Os pombos conspiram com elas. A beleza é a única justificação. O amor existe. Mesmo sem seres humanos. É assim.
 


Ana Vassalo
Mai 9, 2016

domingo, 1 de maio de 2016

MENINA DOS OLHOS BELOS































Bom dia, Mãe!


Já não tenho os poeminhas, como em criança, que garatujava em papeis bonitos para te oferecer neste dia, dividida entre entusiasmo e ansiedade pelo teu beijo de gratidão. Hoje, tenho os gestos, os poucos que sei. Que não chegam para te agradecer.
 
Trago notícias, sabes? A tua mana Rosa foi-se embora. Despedimo-nos dela há dois dias. Não, não sabes e ainda bem que não, querida Mãe. De certo modo, acaba por ser melhor para ti essa margem que te abriga do real. Não sei como suportarias o mundo se cada hora destes últimos oito anos te fizessem saber que te levaram as asas, o passo, a voz, meu Passarinho de todos os céus, que foste e serás para sempre.
 
Contavam-me as tias, quando eu era pequenina, que o vosso pai, avô que nunca conheci, te chamava “minha menina dos olhos belos”. Sábio homem, quanta sensibilidade. Sabê-lo habituou-me desde cedo a olhar-te bem, nesses olhos feitos de terra e água, verdes ou mel, acompanhando os dias. De raizes bem firmes, com sonhos de navegar.
 
Grandes, imensos, de amor e renúncia. Jamais conheci outro alguém com tamanha capacidade de amar, de tudo compreender e perdoar. Estás em paz com o mundo, não lhe deves nada. Já ele, tudo te deve.
 
Não sei, mãe, já não sei como dizer-te o amor. Estás tão longe do universo das palavras... Só os olhos tudo abarcam, a guardar momentos, que eu sei. Essa ternura criança, espantada de inocência, que me olha sem me saber... És outra vez menina, sou eu a tua mãe, agora, para ti, nestes anos de ausência que não procuraste. Ou era, porque as palavras, hoje, para sempre te perderam, em som e alcance. Por isso, não vale dizer-te a saudade funda que tenho do teu abraço de conforto, dessa asa de abrigo incondicional, ou de chamar-te Mãe, pensando que sentirias o enorme significado que o teu nome tem para a Vida.
 
Mas nada importa senão o saber-te aqui, que continuamos juntas, de mãos unidas rumo ao incerto. Sempre assim foi, não é? E há-de ser. Unidas, mesmo que num tempo de longe que é hoje o teu dia de cada dia.
 
 
‘Ó minha mãe, minha mãe,
Onde estás que estou sozinho

Estou sozinho no mar largo
Sem medo à noite cerrada.’
 
 
Sem medo, foi o tanto que aprendi, pelo teu gesto de uma vida. É o que me vale, mãezinha. Não sei como agradecer-te, não encontro nada de suficiente grandeza e justiça para o expressar. Amar assim, tanto que me fere os dias, é mais fácil, apenas porque é o natural, em ti, para ti. Sentir-te. Gente maior que sempre foste, até ao último dia de te saberes mãe de alguém, mulher de alguém, vida de todos.
 
E apesar de tudo, eu sinto que estás agarrada à vida. E por isso peço que continues comigo, a zelar pelas minhas horas de menina, perdida que seria sem ti. Tudo no teu olhar torna mais fácil o mundo de outros. Caminhar é tudo o que não podes mas ensinas todos os dias. Gente maior que és, até ao fim.
 
Que de Amor jamais te esgotaste, Minha Menina dos Olhos Belos.

 
 
 
MINHA MÃE (ZECA AFONSO) 
Cover: Serenata Monumental‪ - Queima das Fitas Coimbra 2013
 
 
 
YouTube: "Coimbra Canal"
 
 
Ana Vassalo
Maio 1, 2016
Dia das Mães

sábado, 30 de abril de 2016

SOFIA MARTINHO








Ana Sofia Martinho...

Pela idade da minha filha, mais coisa menos coisa. Coleguinha de todos os momentos, de trabalho sem tréguas, gargalhada de ferver, copos à noite, aqui ou lá, na outra margem, de diversão, sempre juntos, todos, até ao fim.

Amizade genuína, companheirismo. Divertida, generosa, doce. A melhor das colegas, daquela casta genuína, que nos marca.
 
Ainda há uns 3 anos, em pleno jantar de Natal, quando um dos meninos do software em on-call recebeu uma chamada da Banca, e não sendo já colegas há uns largos anos, imediatamente lamentaste o facto de já não poderes ajudar, como antes, em que todos se faziam presentes mesmo que não solicitados. Para entrarmos, de seguida, num longo momento de memórias e saudade. Eras assim...
 
Menina da matemática, números e lógica, programadora de software para complexos sistemas, craque, dos melhores na tua área, tinhas o mais terno dos olhares nos teus imensos olhos azuis. E um sorriso feito de coração. Eras amiga a valer.
 
Um dia, vindas da margem sul, depois de uma noite de choco frito, copos, discoteca e karaoke a rematar, tu, que estavas praticamente em casa mas fizeste questão de nos vir trazer, a mim e uma outra colega, vivemos mais um daqueles episódios inesperados que o fim da noite gostava de nos apresentar. Se bem te lembras, eu fazia parte do grupo que raramente levava carro para estas andanças, queria, sim, estar sem cuidados de maior  e havia sempre gente boa de serviço para transportar os mal-comportados. Tu? Estavas sempre na primeira linha.
 
Segue-se que, no caminho, tivemos de parar na ponte: estavas mal disposta. Tudo aflito, que é que fazemos, conduzo eu agora, que é que tens?, e tu... voilà, dedos à boca, problema pragmaticamente resolvido. E lá seguimos, como se nada fosse, em retoma de cavaqueira e gargalhada. Ficaste melhor, lá veio a cantoria também. Lembro que, quase a chegar, gritava eu, desalmada, em face da velocidade que te animava, “Sofia, tens de virar, o túnel não, não!, é à esquerda, Sofia, nem sei onde vai dar o túnel, vira!”; e tu, “na boa, não stresses, Ana”, vá de te enfiares túnel adentro, 5 da manhã, aqui vamos nós rumo a sabe-se lá que planeta, tudo sem pio. E afinal, resolveu-se, pois claro, era bem mais simples do que parecera: inversão de marcha, caminho retomado.
 
Como programadora, eras uma das eternas almas quase sempre presentes naquilo a que chamávamos “O Turno da Noite” - Elsinha, Fátima, eu, mais uns quantos workaholics comerciais e programadores, e tu, claro, tantas vezes, quando não estavas nos clientes, pois mesmo que não chamassem ias ficando. Acabávamos por ir ficando, e ficando, tal era o vício de trabalharmos juntos.
 
A companhia era divertida, a loucura instalava-se por volta das 2 da manhã, café na cozinha/bar, pernas esticadas em cima da mesa, conversa da treta para acordar, meia-hora de relax; lá pelas 5 íamos até Alcântara, ao Caldo Verde, onde já nos conheciam, voltávamos; pelas 7 e tal fazíamos uma breve corrida de cadeira de rodízios que encantava a brigada das limpezas, dormíamos depois no sofá da recepção uma boa meia-hora - eu, por exemplo, tinha sempre uma providencial muda de roupa e iniciei aquela moda de tomarmos duche nas instalações do Suporte Técnico - e seguíamos, frescas e airosas, para mais um dia de trabalho. Vantagens e desvantagens dos horários flexíveis, que rentabilizávamos da melhor maneira que conheciamos. A criar momentos para uma vida.
 
Porque é tudo isto que não se esquece, aquilo que não voltei a ter depois, em empresas nacionais, onde não mais encontrei este conceito de equipa de trabalho, bem pelo contrário.
 
Hoje é um dia terrível para nós, Sofia. Para mim, que estou para aqui, incrédula, mergulhada em tristeza e desânimo. Sei que o sabes, a tua alma pura fazia-se de acreditar.
 
Já só nos encontrávamos nos jantares de Natal, todos nós, que as vidas acidentadas por motivos tão diversos mais não permitiam. Mas era sempre igual, como se nos tivéssemos visto ontem. E mais a tua ternura, imutável, para com todos os teus colegas (ex-colegas, é verdade) que vias, tal como eu, como amigos de longa data.
 
Não é fácil encontrar uma equipa assim mas nós fomos tudo e muito mais, uma imbatível equipa de amigos que por acaso até trabalhavam juntos. Anos e anos a fio. Sem concorrência.
 
A mensagem que o Rui nos enviou é de tudo isso testemunha.
 
E sei que também Angola vai sentir a tua perda. Maldita malária, ano maldito.
Nós, nós estamos aqui, Sofia, à espera que regresses, para aquele beijo especial que nos falta.
 
Vou ter tantas saudades tuas, minha querida, dos teus “beijinhos, Ana!” acompanhados da foto, ao lado, com o teu sorriso bom, sempre presente no dia do meu aniversário; dos risos, abraços e loucura no jantar de natal.
 
No último, tiveste azar, lembras-te certamente melhor do que nós: partiram-te os vidros do carro, perto do Café In. E tudo o que tu lembravas e nos escrevias, dias depois, era que “parecíamos a velha equipa de sempre, todos juntos até ao fim, ninguém arredou pé!”. Mas então, Sofia, podia ser de outra maneira? Assim será, onde quer que seja.
 
Foi há pouco que percebi. O céu está hoje tão mais bonito!
 
Até já, minha querida, espera por mim.
 

__________________
 

Tu já não estás, foi o Rui que nos contou, assim. Entendes que continuamos todos juntos, não é? Pois é, Sofia querida, tu sabes. E hoje, mais do que nunca, sei que a Vida é só um instante. Onde os Amigos fazem toda a diferença. Obrigada por tudo.
 
 
« Rui Fernandes:
     
    Meus queridos amigos e amigas,
     
    Venho a vós não pelos motivos mais agradáveis, mas penso que todos gostariam de ter conhecimento do sucedido. A nossa colega e amiga Sofia Martinho, infelizmente faleceu ontem, sexta-feira, em Luanda. Estão a ser tomadas todas as medidas necessárias para a transladação para Portugal e logo que tiver mais noticias dar-vos-ei nota disso.
    Penso que em tempos todos juntos formamos uma equipa imbatível e onde também reinava uma amizade. A Sofia esteve sempre presente e a todos com certeza marcou de alguma forma pelo que acho que devemos prestar-lhe uma ultima e merecida homenagem.
    Abraço Forte para todos. »
     
     
     
     

     
     
    Ana Vassalo
    Apr 30, 2016
    sobre 29-04-2016
     
     

segunda-feira, 11 de abril de 2016

PROBLEMA DE EXPRESSÃO


 
 
Lights. Lisbon by night, 25 April Bridge - photo by Jo-Igele
 
 


Não há palavras, só deserto.  Calei-me, sem explicação. Tudo jaz, de morte assistida,  no secreto descanso das gavetas digitais.
 
Talvez por isso, arrisco, há essa deixa de Julia Roberts, em Pretty Woman, que ciclicamente me ocorre.
 
 
 
" Lights. Lights would be good here. "
 
 
 
Porque lhe acho graça, sim.  Depois, essa circunstância única que me compõe, me toma em estranhos momentos, dá de costas ao inesperado e tende para rir a agressão.
 
Feitas as contas, importa que é questão de ver. Bem visto. Ou de como não ver. Também.
 
 
E por hoje, chega de dissertação óptica.
 
 

Ana Vassalo
Apr 11, 2016

sábado, 19 de março de 2016

PAI








Sempre roubaste coisas dos dias simples para me dar.

Continuas a fazê-lo com o mesmo gosto e inspiração, o mesmo sorriso de vida.

Eram as letras do jornal, para eu juntar, tão pequenina ainda. Os botões, subtraídos das costuras da mãe, para eu contar. Aprender, coisa importante, dizias.

Mais tarde, ainda antes da Guiné, de mão dada pela Liberdade que corre uma avenida, eram os néons dos anúncios. Aquele de A Confidente que, já no Rossio, corria redundante em piscadelas cíclicas, ou o outro, tão misterioso para mim, o homem de capa do Porto Sandeman, lá bem alto, mesmo à esquina de chegar. Tinha de ler tudo, de passeio, com a tua ajuda e os anúncios como livros.
 
 
 


Já em África, eram as letras maiores da bomba de gasolina, das lojas e restaurantes, que eu agora repetia com a familiaridade dos amigos. E os números sempre ao lado, presentes também, com as sucessivas multiplicações por 2, até ao infinito que a minha ignorância permitia – exercício que continuo a usar quando o tédio de certas reuniões ameaça vencer-me.

Foi lá, nessa terra do longe aparentado com os sonhos, que fui à escola pela primeira vez e, sabes, tenho largas dúvidas de que algum menino tenha sido mais feliz do que eu nesse dia. Porque hoje, quando agarro o papel, os lápis, a borracha, é dos cheiros desse dia fantástico que me lembro. E mal sabia eu que tantas, tantas coisas diferentes, divertidas e inesquecíveis, me esperavam naquela escola em pleno mato, nos intervalos das letras e dos números.

Depois, em paralelo, e quase desde as fraldas, o desporto!, para a “higiene mental”. Eras demais! Ginástica diária, 1, 2, esquerdo, direito, acima, abaixo, por entre gargalhadas, os jogos de bola na rua ou, já por cá, eu lá pelos meus doze anos, o badmington no jardim, à noite, a coisa bem a sério e a preceito, com o requinte de uma longa cordinha, que improvisaste, com pregos a marcar os cantos para delimitação de campo, as jogadas a doer, a puxar, com garra e direito a visitas alucinadas ao chão, por entre os aplausos da assistência que, entretanto, se tornara aficcionada. O incentivo, vida afora, o gosto continuado, os saltos na cama elástica, que eu adorava, o andebol, o futebol... e o basket!, com os treinos no Técnico e os jogos no Estádio Universitário, seis anos ininterruptos, defendendo as cores dos dois Liceus, a que a minha, alegadamente excelente, meia-distância somava uns pontinhos valentes.

Uma rotina boa que tem acompanhado as gerações. Aos 3 anos, já a minha menina estava, também ela, a caminho da Ginástica, com o seu saquinho da pantera cor de rosa ao ombro, maillot e sapatilhas lá dentro, tudo a preceito, lembras-te?, que eu escolhera com entusiasmo e carinho na Sempre em Festa! E sabes, pai, os pequenos pestinhas também já trilham o mesmo caminho, sim, esse de letras e saltos.

Correm para a salinha infantil sempre que vamos à Fnac, escolhem os livrinhos, sentam-se e pedem-nos para lhos lermos. E a estante, nos seus quartinhos, está bem recheada: livro é amigo dos bons, uma historinha para dormir, sempre. O João, então mais pequenino, pedia sempre a mesma, a do Capuchinho!, pai, que eu detesto - e nem as explicações eruditas das suas origens medievais me aumentaram o coração - e que na maioria das vezes conseguia substituir com mestria mas, dada a fixação, de vez em quando lá me resolvia a perder e aceitava a tarefa. E enfim, para que saibas, ainda jogo futebol com o João – na rua, sim – e bem! O rapaz é um craque e eu só posso incentivar, não é? Diz que sim. E como é bom de letras e número também, a coisa dá-se, vais ver.

Resta-me confessar-te que há esse momento único que me visita, sempre que penso em infância. Aquele repetido, também em África, em que te ouvia aos gritos lá do fundo da varanda sem fim, «ó Nita, Nita, anda cá depressa ao pai, corre, filha, anda cá!», e eu, já diplomada nas boas notícias, corria mesmo, desalmada ao teu encontro, para receber das tuas mãos ensopadas o gelado, aquele maravilhoso gelado feito de muitas frutas e amor, agora já quase todo derretido após o longo caminho da Defesa até casa, que vencias a correr.

Tempos, muitos tempos na nossa vida, de diferente cadência, de desfechos amigos, ou de rumos imprevisíveis.

Como aquele, pai, que dificilmente percebeste, aquele tempo de mudança súbita e radical nos últimos anos do novo liceu, e que eu nunca expliquei, também. Mas sabes, os meus 14 anos gostavam dos 18 e 19 de alguns dos meus novos colegas, que tinham coisas interessantes a dizer; e de repente, a escola tornou-se insuportável na directa proporção em que me apercebia que essas coisas cativantes não faziam parte do curriculum, mas sim uma cultura a metro - a quilómetro, melhor dizendo – um saber por encomenda, que retira qualquer gosto à aventura do encontro.

Era com apreensão que, nos últimos tempos, me vias passar de ano a rasar. Não percebias, nem eu. Porque, acima de tudo, o número de faltas era constrangedor e ameaçava tudo fazer ruir mas as visitas ao notário para validar os pedidos de relevação de faltas acabavam por resolver tudo e sempre com a tua ajuda. Safavam-me as intermitências, nos seus pontos altos, aqueles 19 e 20, depois dos muitos 5 e 7, que criavam alguma compreensão nos professores, mas estudar, pai, é diferente de ler e eu nunca gostei, nada, nem mesmo quando, por iniciativa própria, voltei à faculdade. Aprender tem de ser livre, a obrigação cria um tédio imenso, que me é difícil descrever.

Será que me percebes, paizinho? Sempre conseguiste, não é? Tiveste sempre essa incrível vontade de tudo tentar entender, ainda que te zangasses às vezes e a sério, mas havia em ti uma imensa capacidade para acolher o novo, o diferente, o que faz com que, ainda hoje, os meus amigos de então te recordem com gosto e pormenor: o pai diferente, compreensivo, um “amigo fixe” para desabafar os males de juventude, essa que se sentia sequestrada numa sociedade castrante de sonhos e liberdades. E tu, tu sempre estiveste lá, para os ouvir, para conversar, sem julgamento.

 

(Pai, mana Zita, alguns dos sobrinhitos)
 
 
Hoje, são as quarta-feiras, às vezes quintas, que dedicas aos nossos almoços semanais, antes jantares, de tertúlia e novidades em dia, de risos e animados debates políticos, daquelas histórias de vida e viagens que surgem sempre a propósito de qualquer coisa, porque são inúmeras e imensas. Se soubesses, meu pai, o bem que me fazem esses momentos, dos escassos que a liberdade ainda me reserva, os mais queridos momentos, porque são de ti para mim, incondicionalmente, que tentas por todos os meios que conheces – e são muitos - fazê-los brilhar.


(Pai e sobrinhito Hugo)
 
 
O teu espírito menino ainda me ensina tudo. Que vale a pena estar vivo quando se faz da vida um instante pleno.

É bom saber que, nos teus 90 anos, acabaste de te inscrever num ginásio lá para os teus lados, uma vez que as duas sessões de ténis por semana já não chegam e há umas dorzitas incómodas que te andam a aborrecer. Como também é bom perceber, de caminho, que podemos queixar-nos a rir. Dos males que insistem em acompanhar-nos em visitas periódicas de “olá, cá estou eu!”, reduzindo-os, sem dó nem hesitação, à sua insignificância própria, que é a dos intrusos.

É bom, paizinho, saber-te sempre presente, acima de qualquer dúvida, nos tantos, imensos erros, nos quantos sucessos, das muitas vidas que tem sido a minha vida.


Há-de ser sempre, eternamente reconfortante, onde quer que tenhas morada.

Obrigada, por me ensinares a alegria.
 
E antes de tudo, pelo mar, pelos navios, por esse mundo sem fim.
 
"Navegar é preciso".


Gosto tanto de ti, Pai.


Ana Vassalo
Mar 19, 2016