NETOS

NETOS

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

JOÃO - MARIA ANA - PEDRO

REMARKABLE PEOPLE



FERNANDO PESSOA

(Lisboa, 1888 - 1935, Lisboa)


"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


************
"I am nothing.
I will never be anything.
I cannot want to be anything.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."

or...

"I am not nothing.
I will never be nothing.
I cannot want to be nothing.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."


(Álvaro de Campos in "Tabacaria")




LISBOA - Chiado

LISBOA - Chiado
"Fernando Pessoa" by Lagoa Henriques. The place: "Café A Brasileira" (Brazilian Café) - 1905.

PLAYLIST TODAY




MUSIC IS THE PASSION REPORT



♥ ♥ ♥


PLAYING SOFTLY WHILE SOMEONE SANG THE BLUES



Saturday, Jul 22, 2017 - 17:57





SALVADOR SOBRAL - NEM EU [DORIVAL CAYMMI]



YouTube – "Salvador Sobral"





ANTONY HEGARTY + LEONARD COHEN - IF IT BE YOUR WILL [COHEN]



YouTube – "Oggmonster"





CHAN MARSHALL (CAT POWER) - I'VE BEEN LOVING YOU TOO LONG [OTIS REDDING]



YouTube – "anaruido"





JANIS JOPLIN - ME & BOBBY MCGEE [CHRIS CHRISTOPHERSON]



YouTube – "ThE DuCk"





JEFF BUCKLEY - LILAC WINE [JAMES SHELTON]



YouTube – " roberta panzeri"





DAVID BOWIE - WILD IS THE WIND [JOHNNY MATHIS]



YouTube – "Peter Music HD"







_____________________


LEANING INTO THE AFTERNOONS by PABLO NERUDA

«Inclinado en las Tardes»



YouTube - "FourSeasons Productions"






CHANGING BATTERIES - OSCAR WINNING ANIMATED SHORT FILM



YouTube - "Bzzz Day"





DIALA BRISLY - A BEAUTIFUL YOUNG LADY

(a huge thanks to my daughter who e-mailed this video to me)



BBC Newsnight

«Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman - artist Diala Brisly - who is trying to make life that little bit more bearable for Syria's kids.»

Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman -...

Publicado por BBC Newsnight em Domingo, 20 de Março de 2016






A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT

A JOURNEY BACK TO ENDEARMENT



FLYING A SECRET



I got here to hide. From equations and patterns. From repetition, after all.
Closed the door and got me a special place where I thought I could
somehow sit close to the stars. But I soon found out that the sky was
still opaque, no matter what the steps. And so I left. Again.

I thought, then, I could build me a different ceiling, a new-coloured scrap
of highness. And then make it work. Where I could dream, more than I sleep.
I have long decided that sleeping is overrated - that I know for sure. So I
take that time instead to travel the night alone and in the meantime I allow
myself to fly, unlike stated before... Yes, I like playing with paradox, to
expose the inside of words and the revelation of writing down the voice of a
silence. My adventurous, ever-walking silence.

So I came back. Here, within this quiet world, I intend to gather all my
things usually kept hidden or inactive. They are here to speak.

And since the future is a stand-by secret, I want to live by a precocious
clock, at every running instant of every entering second.

And I will not slow down until my "future exists now" - kind of reverse
quoting Jacob Bronowski.


Ana Vassalo
in my site "CAFEÍNA"(former "No Flying Allowed")
Nov 11, 2010 - 11:54




THE WALK OF TIME

THE WALK OF TIME

domingo, 31 de maio de 2015

DO ESQUECIMENTO



























Revelações.

Notícia de antiguidades, de um género mesmo muito antigo - quanta ironia.

Verdades de arraso, em tropeço e atropelo do acaso – a tradição ainda é. Vêm sempre ter comigo, assim, de raspão, e atiram-se-me à cara, como murro no estômago. Sem um frémito.

Mas coisas há que não precisamos de saber. Jamais. E que também não queremos saber. A custo nenhum, em tempo de vida.  Ignorantes até ao fim, podia ser? Nada de tão difícil, porra!

Não.

Minas. São essas coisas que ficam para aí, soterradas por décadas, até à destruição final. Em modo de espera e guerrilha, para que as pisemos em desaviso.

Não sei de nada, deus, não sei. Que espécie de burla multiplicadora entornaste, certo dia, na minha vida? Quantos patacos vale uma promessa de Vida? E a eternidade, compra-se ?

É-me urgente, sim, que alguma coisa de muito bom aconteça neste abortado hoje. Uma visita de algo aparentado com o BEM. Preciso desesperadamente de um pouco de luz, tem de acontecer.

Não posso, não quero deixar passar este dia com apenas isto a envenenar-me o resto da existência. Faz-me falta respirar um vestígio de inocência. Preciso de acreditar que acreditar não é, definitivamente, uma impossibilidade.


Ou é.

Nunca hei-de perceber esta óbvia necessidade que a vida tem de se tornar em tão reles anedota, uma vez demais.

Dia final, asco, o absoluto miserável.

Agora já sei do peso real que tem o céu. Mata, se o salto de desvio não for rigoroso.

O dia em que, por fim, entendi Bukowski, ao bater da perfeição: será possível gostar de pessoas?... Pior, medito: será humano gostar de pessoas?

Certo é dar de costas a virtualidades de vida, qualquer que seja o dress code eleito. A verdade que sai nua é mais do que suficiente.

 
E há o riso. Mas há também a demissão. Gritar, soar por aí a loucura de ousar estar vivo, até que me torne em descanso ou afonia. Ecoar um berro de desvio, o esquecimento que me traga, enfim, a implosão.


No apagão da verdade, janelas são acessório.

E o tempo é de raiz anacrónica. Não se toca. Age.

Só ele conhece o segredo mais escuso. E decide o mais certo instante para entregá-lo.



E no entanto, um inacreditável átomo de resistência paira ainda por aqui.

E lembro o dia, aquele em que alguém muito jovem me disse: - a Ana é um bocado do mundo. - E isso é bom ou mau? - céptica, para variar... - O melhor possível, acredite. 
 
 
Fim de reflexões.
 
É de um bocado de mundo que eu preciso agora. Um bocado fora de mim. Preciso do Esquecimento que só as boas almas podem emprestar. Da palavra certa do seu tempo.

 
 
Do BEM que resiste. E sobrevive.



                 Amanhã tem de ser verdade possível.

 
 
Era uma vez...


 
 
Ana Vassalo
Mai 31, 2015


segunda-feira, 18 de maio de 2015

GAIVOTA




Lisboa, gaivotas do Tejo, by Markus Lüske





Amália.
 
Hoje acordei com Ela.
 
E com O'Neill. Que não gostava de fado e - contam por aí - muito resistiu ao convite, cedendo apenas por Ela. 
 
Fado é Amália, também para mim. Com mais duas ou três excepções, somente e quase todas recentes - onde o fake mais mediático não cabe, não.
 
E hoje o dia começa assim, sabe-se lá se triste se cheio.
 
Somos isto, talvez.
 
Ou sou isto, certamente.
 
Criança, sentada no chão frente ao televisor, como que em fascínio de hipnose, mergulhava  num silêncio de prantos, ouvindo-a, a Ela, de um país bem longe saído de mim, que só partindo saberia do encontro.
 
Que pensava os mares dos muitos lugares da Terra, Gaivota sorvendo alturas de vento pela vida,  a Saudade de acontecer no futuro,  cais imenso de uma cidade em descoberta, onde voltar se fez destino.
 
Lisboa.
 
Do eterno retorno, a asa.  



Ana Vassalo
Mai 18, 2015



GAIVOTA
 
Alexandre O´Neill
 
 
Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.


 
 
AMÁLIA RODRIGUES - GAIVOTA
 
 
YouTube - "rodvr"
 
 
 

domingo, 17 de maio de 2015

PÓS. «É o que fazem... as invenções.»



Colored Powders, by Nila Newsom
_______


Isso.

Tudo certo, indesmentível, cristalizado. Final.

(olha, mulher, tu vê lá mas é se te controlas com essa coisa dos adjectivos, que isto de acumular, para além de imoral, está completamente démodé, como dizia o célebre Manel da pastelaria lá no Campo Grande com bigode, hã?... não, o Manel é que... qual pastelaria?... deixa.)
 
Senão, vejamos:
 
  • a teoria geocêntrica continua de pedra e cal, lá por paralelos etiópios da Lentolândia;

  • Lisboa mantém-se gloriosa e fresca capital do Império, por aí, num qualquer, perdido de tonto, anel de Saturno;

  • estes romanos nem são loucos, qual quê!, Obélix, sim, é que tinha um leve problemazito de caldeirão com poção... coisa de pós, e logo de tão novo, coitado...

  • e eu... bom, eu sou um clone de nêspera, daquela casta em espera, como em Mário Henrique-Leiria; uma épica circunstância em que, de resto, sou inexcedível perita: resignação - como se sabe – foi, continua sendo E prevalecerá, indómita, a minha mais conceituada aptidão – nesta e outras eventuais encarnações, venham elas.
 
Explicar, não. Não se explica. Mas eu diria que podemos, com escassa margem de erro, organizar todos estes mistérios, que se sucedem impositórios mas felizes, numa categoria sistemática de Lineu, de tão reconhecidamente simplificável. Ou seja, cada qual acredita no seu conforto de estimação, engendra o seu próprio agente térmico para os dias e está, sem vestígio de sombra, no seu inalienável direito. E assim nos surpreendemos encontrados com mais uma das inesperadas conquistas da ciência.
 
 
Como a invenção da água, lá está.
 
Depois, não será de todo extemporâneo recordar que, em tese geometricamente demonstrada, podemos também contar com o elefante, que é, naturalmente e para todos os efeitos, um animal portátil.
 
E para o mundo, nascem, então, os contos do absurdo com alegrias sintéticas.
 
Sem alarmes.
 
Quem sou eu, romeira, para contrariar tamanho display de sabedoria cósmica?
 


( ENTÃO?! )

- Ah!... ninguéeem


 Twinkle, twinkle, little star
how I wonder what you are...

Cai o pano.

 
 
 
Ana Vassalo
Mai 17, 2015

MÁRIO VIEGAS ( ) – A INVENÇÃO DA ÁGUA

Contos do gin-tonic, de Mário Henrique-Leiria
  
 
YouTube - "FM"


sexta-feira, 15 de maio de 2015

OLD DOORS






























 
I try. Really, I do.
 
But lately I've become seriously deaf... And I believe it has something to do with the crowd display, those too many voices around my silence.
 
That's definitely not for me, you see, crowds are not my thing. 'One's company two's a crowd' -  I guess the man was right.
 
Well, I am old. And I figure that must be what's keeping the sounds away. Far, far away...
 
Still, the memory's good: somethings don't ever leave - as others do never change. That's what old people do, they remember.
 
And like I said, I am old. Truly. And I distinctly recall once hearing someone say that can only be a good thing when it comes to choosing whiskey casts.
 
Me, I like gin. Lemon. And black coffee. Full things, straight and daring.
 
Like the taste of truth. Face to face.
 
It's been long ... though I admit deafness must be to blame - that stupid  age thing...
 
So, remind yourself to never get shut on the outside:  locked doors become walls - unless you find the key.

I try. I really do. But I am old...

Just too many voices behind the walls, no sound coming across.


Ana Vassalo
May 15, 2015

sexta-feira, 8 de maio de 2015

THINGS YOU DON'T WANT TO FORGET




 
artwork by Mai Nguyen




Those who love you are not fooled by mistakes you have made or dark images you hold about yourself. They remember your beauty when you feel ugly; your wholeness when you are broken; your innocence when you feel guilty; and your purpose when you are confused.

—Alan Cohen
  

in Berlin-artparasites (facebook)

 
Ana Vassalo
May 8, 2015

terça-feira, 28 de abril de 2015

2015, 25 DE ABRIL - «QUANDO UM HOMEM SE PÕE A PENSAR...»

























DEUS QUER, O HOMEM SONHA, A OBRA NASCE
                                           - Fernando Pessoa




On facebook, Apr 24 :

Uma mensagem com destinários concretos, cujos nomes me dispenso, por pudor, de mencionar. No dia 24 de Abril, porque é aquele dia que lhes fica bem. Só que amanhã, amanhã... foi, e será de novo, outra coisa. Para sempre, no coração e na força de quem se conhece Livre: contra quem, meus senhores, censura ou grades, comprovadamente, nada puderam. E foram eles, os cravos da PAZ, que vos pouparam sangue e morte. É essa a colossal diferença.

- Ana Vassalo


« LIVRE
 
Não há machado que corte 
a raíz ao pensamento
não há morte para o vento
não há morte
 
Se ao morrer o coração
morresse a luz que lhe é querida
sem razão seria a vida
sem razão
 
Nada apaga a luz que vive
num amor num pensamento
porque é livre como o vento
porque é livre »
 
—Carlos Oliveira
 
 
 
MANUEL FREIRE - LIVRE
 
 
 
 
Ana Vassalo
Apr 25, 2015
 
 

STAIRWAY

























 Vincent Van Gogh, Starry night over the Rhone,  1888                
 
 
 
(written on April 25th, late evening)
 
 
 
 
 
                                                                                        [ all the white horses are still in bed...

                                                                                          - Tori Amos ]


 
and yet, here i am...
 
‘cause i have known you always
from the big house of eternity
where you once built us a home
- a silent place with no walls
and a thousand open windows
shaped within love
for so many timeless hours.
 
on a careless day of mine
all winters distracted by the light
of a million unspoken suns
i found you at last
and with that one glimpse i saw you
like noone ever would
and forever shut the universe into your eyes.

and i know i'll always meet you
in the heart of all things beginning.
you carry the voice of a wind
blowing a song that’s unwritten
from a quiet sleepy ocean
in a distant land we’ve conquered
through the silence of agreement.
 
i can always watch you there
master of the waves in whisper
for every secret we shared
and you carried light inside your heart
 
‘till that one day
when you and i will learn to rise
together
all way
up to the invulnerable shelter of Trust
where all things have a name with no time
and all the white horses are wide awake
 
and they run, sail, and they soar
searching for a higher breeze,
leading their journey onto the winds of freedom
 
riding a star so wild
it lights up your heart in mine.

 

Ana Vassalo
Apr 25, 2015 – 22:38



Ann & Nancy Wilson (Heart) - Stairway to Heaven (Led Zeppelin)
 
Just because ... it's beautiful.

 
YouTube - "ArchiducDeBelgrade Divas"
 

sexta-feira, 17 de abril de 2015

CAJÚ






Cajú amarelo


 
 

> Escolinha minha, no mato, em Teixeira Pinto - hoje Canchungo. Vagas na cidade, em Janeiro, nada. Lá fui. Era a única pele branca, por ali. De longe, a minha melhor escola: a feliz.

> Ao fundo da nossa rua, a minha segunda casa – a esplanada. Era, então, o “Café Portugal”. Aqui conheci Ruy Mingas, pela mão de meu pai. E no terraço, conheci "Amélia, no meio do rio, tão pequenina, cheia de frio", pela voz de Luiz Goes, presente em serão de tertúlia.

_________________



Zezé é um nome encostado à eternidade, no pedacinho de mundo em memória que me pertence.

É o nome de meu pai - José. Do menino que tinha um amigo, o seu pé de laranja lima - presente de aniversário aos 18 anos, com dedicatória amiga [“tem tudo a ver consigo”], que me marcou para a vida. Nome do meu primeiro namorado. E do meu amigo de infância, mesmo do outro lado da parede, na vivenda geminada: Zezé.

Tal como o menino triste mas incansável de esperança e vida, era no quintal que guardávamos os maiores amigos: árvores, telhados; aquela tina com um banquinho dentro e uma tábua a fingir-se volante que, à vez, nos levava em corridas motorizadas invencíveis; o cantinho da laranjeira, que se erguia mesmo ao lado da escada para o quintal, com quem tínhamos inventado um refúgio, os ramos a ajudarem e a casa-no-telhado a nascer; e tínhamos o cajueiro.

O cajueiro era grande, enorme, alturas de céu, sem muros de acesso ou telhados. Como um deus, inacessível - a nós, tão pequeninos. Pedíamos ao Joaquim, especialista trepador, que nos arranjasse uns quantos frutos proibidos – sim. A nódoa de cajú era para a vida, coisa pouco interessante aos olhos de minha mãe ou de vovó Firmina, já para não falar na dor de barriga, aguda e prolongada, que não falhava uma oportunidade.

Estava lá, ao fundo, no canto esquerdo. Virado para a Escola Berta Craveiro Lopes, mesmo em frente, na nossa rua-como-avenida com estórias de chuva e danças. Completamente isolado dos seus pares, o cajueiro erguia-se, frondoso e altivo, para o Sol, e não cedia um milímetro. Era preciso chegar mesmo lá acima, coisa que, de resto, não era impedimento de monta para o Joaquim.

Joaquim e Zezé eram meus irmãos. Irmãos de sangue, com pacto de união. Mas enquanto Zezé era companheiro de brincadeiras insanas, Joaquim era o mano mais velho, que passava a vida lá em casa, ofegante e ansioso, apresentando-se de frase-pretexto - Siôa, Joaquim veio ajudar – que, traduzida, resultaria em algo mais claro, qualquer coisa como “estou a precisar de umas massas”.

Conheci-o assim, lá em casa, quando eu tinha 5 anos e ele 15. Concorríamos ferozmente por umas colheres clandestinas de açúcar para depois nos acusarmos sem trégua e mutuamente, por entre gritos e encontrões, quando descobertos. Éramos ávidos, logo pouco espertos: íamos tirando, roubando, até que o açucareiro desfalcado nos denunciasse. Ano após ano.

Foi ele quem descobriu a cobrinha cor de rosa de barriga branca, bebé recém-nascido, no caixote dos meus brinquedos. Que não, era uma minhoca, dizia a mãe. Qual quê, nada disso, cobra mesmo, tem barriga branca, refilava o Joaquim. E era nele que eu acreditava, porque ele sabia tudo. Montou-se na bicicleta e passou por cima da cobrinha. Eu fiquei horrorizada mas ele calou-me, carregado de justiça: Nita, a mãe tem de ver que é cobra. E claramente, a cobrinha, dimensões de dedo anelar, não morreu, e nem sequer se partiu.

Começou então o dia do juízo, ali, vizinhança mobilizada num raio alargado, o pai tirado da Defesa à força, que é que se passa, perguntava eu, olhos arregalados, não é nada não te preocupes vai para o quarto e leva o cão. Era - percebi muito tempo depois, quando o assunto tornou a visitar-me ideias perguntadoras - a caça à cobra-mãe. Que sim porque sim, tinha de estar lá em casa. Nunca soube se estava ou não, ninguém me disse. Cobra era assunto de pavor, por ali. As espécies residentes - surucucu e cobra-verde na liderança - eram todas letais. As conversas ao serão - fuzileiros e tropas aos molhos lá por casa, mais os casais, uns do continente, outros locais, tudo de filhos agarrados e respectiva chinfrineira associada, uma imensa cegada de confusão e alegria - acabavam invariavelmente em contos do maravilhoso, com cobra e crocodilo à lapela.

Por isso, o pai dedicou-se a construir um jardim e uma hortinha, no quintal enorme. Só do nosso lado, porque o de Zezé era árido, ali não crescia nada. Apenas, como memória da natureza, uma árvore pequena e seca, mesmo ao centro. O que era óptimo para nós, os mais pequenos, desenfreados em correria, do raiar ao poente do sol. O lado de Zezé era muito mais largo e eles já lá estavam quando o pai chegou e alugou a casa. Do nosso lado, moravam as árvores companheiras de desatino: mangueiras, papaeira, coqueiro, laranjeira e limoeiro ladeando as escadinhas, mangueira da índia, palmeiras e muitas outras selvagens, e o cajueiro.

Só faltavam as goiabas, manjar dos olimpos, que roubávamos do quintal de um amigo dos meus pais e me valia sempre castigo a condizer. Mas goiabada é coisa do outro mundo, e eu enchia bolso e chapéu para pedir à mãe que as transformasse em doce. Que agora, durante uns largos anos, eu comprava, de saudade, ali para a João XXI.

Porque é que nasceram, então, jardim e hortinha? Muito menos como hobby, que o pai tinha muito pouco tempo livre e andava muito por fora, mas como prevenção. É que o capim crescia à velocidade da luz e cobria um adulto, completamente. Escusado será dizer que era o esconderijo preferido no jogo das escondidas, por mais que proibido coercivamente, explicando-nos que era também o refúgio preferido de... cobras. E quem queria saber de tal coisa? Nunca tínhamos encontrado nenhuma, ora, coisa de adultos delirantes e medrosos, só podia, estava decidido: capim era amigo também.

Gafanhotos, enormes, coloridos ou verdes conforme se camuflavam, minhocas, lagartixas, aranhas, completavam o quadro de amigos restantes. Não lhes fazíamos mal, nunca fizémos. Apanhávamo-los para brincar, colocando-os artística e sorrateiramente em cima da cabeça do parceiro. Era coisa antiga, de resto – que eu era mázinha.

Tinha-se revelado muito cedo, esta empatia com os bichos. O que talvez explique em muito o emaranhado pedaço de mato que me compõe e que agora não vem ao caso.

Na viagem de barco, de 11 dias, a bordo do velhito mas interessante e operacional Manuel Alfredo, tínhamos parado em Cabo Verde, não recordo em que ilha, por muito pouco tempo. Sentadas no jardim à beira-mar, mãe, mana, amigas, conversavam descontraidamente, ladeadas por uns quantos colegas do meu pai, que tinham a missão de nos proteger durante a viagem – a pedido e por estrita razão de amizade.

A mana, adolescente, era ruivíssima, sardenta e bonita, e os pretendentes sucediam-se, ainda que sem grande sucesso, ao que parece, que os tempos eram outros e os avisos prévios paternos tinham sido claros. Quem ganhava era eu, por correspondência, já que me enchiam de atenções. Independentemente disso, acresce que eu era, alegadamente, um completo terror - porque fugitiva reincidente - e eles andavam constantemente no meu encalço, verificando se ainda mexia, desde o dia em que me apanharam pendurada, quer dizer, escarranchada num larguíssimo cabo, já meio fora do navio. Uma cena de filme, que recordo como se fosse hoje, tudo muito assustado e eu sem perceber porquê, não tenhas medo, espera por mim que eu chego aí, sim?, para quê, perguntava eu, estou bem aqui, etc, um drama maior que nunca consegui validassem como perfeitamente dispensável.

A mãe, 11 dias no camarote, de quarentena, como quem diz enjoada de morte: mal punha o pé cá fora regressava quase em braços - culpa de vacinas, e mais os balanços, rematados a comidas com cremes estranhos. Restava a mana Zita que, por mais que fizesse, nunca sabia onde raio parava eu. Podia estar na cozinha, onde os cozinheiros me ensinaram a decorar bolos enormes e lindíssimos; ou no bar, durante o dia, a ouvir música “estrangeira” - que adorava; algures, numa esplanada qualquer, a beber um Canada Dry oferecido, polarmente gelado, como sempre gostei e gosto; ou muito bem instalada no colo de um dos amigos, à noite, a ver cinema por entre sonhos e vigília – quase todo de guerra; por fim, o mais provável, a “descobrir terreno” para o mar, que me fascinava com uma intensidade que nunca saberei explicar.

Então, lá por paragens de Cabo Verde, como dizia, um desses “salvadores” juntou-se a mim numa das minhas habituais sádicas iniciativas. E muito convenientemente, num desses momentos únicos e memoráveis em que a minha mãe tinha posto o pézinho cá fora. É que ele tinha um lagarto... verde, de borracha, em pedacinhos unidos como plasticina, tão real que eu própria confundi com o original, em primeira abordagem. Ou seja, tentação incontornável, sim: “lampadinha” acesa, voilà!, pedi-lho emprestado.

Mas ele... Ele quis saber porquê, ou melhor, para quê. Tive de lhe explicar que a mãe tinha terror daquilo e tínhamos de lhe tirar o medo. Ele deve ter achado razoável, porque emprestou. Mas também se ria.. Então, aproximámo-nos por detrás do banco que as abrigava e, com uma perícia irrepreensível, espetei-lhe com o lagarto ao ombro, assim muito, muito devagarinho. Tão devagar que, infelizmente, ela não deu por nada. Pelo que lá tive de começar aos gritos, ó mãe, mãezinha, tem um lagarto aí, no ombro, veja lá, veja lá! Fim do mundo. Arrependi-me. Ia-lhe dando um treco, coisa má – e isto eu não previra, que afinal, ainda que retorcidos, eram só 5 anos de saber, na minha desatinada vida. Pouco tempo depois, ria-se, a mãe, quando lhe recordavam o episódio. Olhava-me de sorriso reprovador artilhado, ramatava com o habitual és mesmo uma peste acabada e o assunto arquivava-se até novas ordens.

Enfim, genes.

Não falávamos com o cajueiro, como o outro Zezé, mas com Joaquim, enquanto ele subia. O cajueiro era a nossa árvore proibida - a preferida, portanto. Muita gente aprecia a castanha de cajú, que será, provavelmente, o melhor dos aperitivos e eu, como não podia deixar de ser, rejubilo por uma latinha daquelas bem grandes, carregadinha de castanha, que desaparece em menos de um sussurro: “caju o quê?” Mas poucos conhecem o fruto, que a mãe dizia saber a aguarrás – não que ela tivesse provado a dita, mas era bastante convincente. Tem sumo a rodos como lagos, e nós matávamos com ele a sede para não termos de entrar em casa - ou já não nos deixariam sair, tal o mau aspecto, terra e suor agregados ao cansaço, que exibíamos sempre que a sede nos levava a melhor.

Era alto, muito alto, e olhá-lo cá de baixo, magicando que era, com o coqueiro (também sem acessos), dos poucos redutos inconquistáveis daquele quintal, enchia-nos de uma certa reverência para com ele: o nosso cajueiro. E Joaquim era o herói. Escondido, porque a mãe não o queria lá em cima. Escondido, como tudo o que fazíamos: os perigos mil que não víamos, a tentação de desobedecer, sempre, só para ser feliz.

E acontecia. Éramos felizes.

Joaquim não pôde vir connosco. A saída foi à pressa e não houve tempo para tratar da burocracia. Chorámos baba e ranho, agarrados um ao outro, 3 anos de peripécias vividas entre riso, estalo e abraços. Adorávamo-nos. Separar-nos, foi das coisas mais cruéis que vivi, aos 8 anos. Mas nada se podia fazer.

Lembro-os a todos, mas Joaquim e Zezé - este da minha idade, que recordei por aí numa estória de “portões” - moram comigo num lugar muito especial do amor, que é o das crianças. E às vezes penso... será que me lembram como eu a eles? Nem sei se ainda vivem, sequer...

A não ser no meu quintal, gargalhada solta, almas em voo, sentados na sombra do cajueiro, donde nunca sairão.

Lugares felizes não morrem.

 

Ana Vassalo
Apr 16, 2015

Nota: “A copa do cajueiro-comum pode atingir até 20 m de altura, sendo, por isso, também chamado de gigante. No entanto, é mais comum os cajueiros entre 8 m e 15 m de altura, com diâmetro da copa (envergadura) proporcional ou superior à altura.”

sábado, 21 de março de 2015

POETAS








Dylan Thomas

1914 - 1953


Poetry is what in a poem makes you laugh, cry, prickle, be silent, makes your toe nails twinkle, makes you want to do this or that or nothing, makes you know that you are alone in the unknown world, that your bliss and suffering is forever shared and forever all your own.




Bob Dylan

May 24, 1941


I think a poet is anybody who wouldn't call himself a poet.

 
 

Fernando Pessoa

1888 – 1935

(Alberto Caeiro)

Quando vier a Primavera

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
 


Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.


in Poemas Inconjuntos
Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa
 
 
Daniel Faria 
Apr 10, 1971 – Jun 9, 1999

Homens que são como lugares mal situados

Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas

Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar

in Homens que são como lugares mal situados
Fundação Manuel Leão
1998




Sophia de Mello Breyner Andresen
1919 - 2004

Nunca mais

Nunca mais
Caminharás nos caminhos naturais.
Nunca mais te poderás sentir
Invulnerável, real e densa -
Para sempre estará perdido
O que mais do que tudo procuraste
A plenitude de cada presença.

E será sempre o mesmo sonho, a mesma ausência.

in Poesia I
1944




Ana Vassalo
Mar 21, 2015

segunda-feira, 16 de março de 2015

COISAS DA TERRA



 
 
 
                                                        [ No mar o tempo não morre. (…)
                                          As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar.
                                          No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres.
                                          Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas.

                                          in A Menina do Mar, Sophia de Mello Breyner Andresen ]

 
 


Há em tudo o que me conheço um universo faz de conta.

O tempo correu bem e mal, e eu tratei-o sempre da mesma forma. Afrontando-o. Arredando de mim um conceito que dizem concreto: esse, o mundo.

Olho em volta e tudo reflecte um conto. De crianças, sim, que inventam tempo à sua medida para poderem brincar com ele.

Há por aqui os van gogh, gauguins, cézannes, kandinskis, picassos e mirós reproduzidos, e mais uns quantos, uns de origem, a maioria não, todos instrumentos de ilusão. São mentira, naturalmente, bogus, como quase tudo a que me agarro. Mas há também João e Zita, nas telas que a parede carrega para bem mais fundo, no coração.

Enganei a vida com arte, fosse nos perfumes que me iludiam de glamour, nos lenços e écharpes como peças artísticas de um pintor genial e louco, ou nas porcelanas e cristais de pintar um mundo sublime, em pequenos enormes momentos arrancados de existências repetidas. Viajei galáxias de mil e um dias, pelos livros. Vivi irrepetíveis aventuras de maravilha, pela música. E amei desalmadamente. Sempre sem condições, e o incontornável espectro do erro em presença.

Ancorei-me no belo e asfixiei-me dele.

A quase penúria que hoje sou vive o fôlego dos passados onde me arrumei ao pé da beleza para não pensar o feio dos dias.

Gosto de «coisas», continuo a gostar, para meu inferno secular. Como gosto de pessoas, por mais que a rotina confirme o ouropel, bijuteria das escolhas em que sou versada. Mea culpa, somente, que nada se atrai por acaso.

Olho o meu espaço pontilhado de belos, vulgo absolutos nadas, e penso: um terramoto acabaria com tudo isto... e deixar-me-ia a sós comigo, sobrevivente. Não de agora, que a revelação é antiga de décadas mas surge renovada e omnipresente nos dias, como esse deus que inventei só para mim e não encontro no mundo Outro.

Só os relógios continuam coerentes. Marcam o tempo que desconheço desde sempre, em que me perco todas as semanas, pelo menos durante dois dias e com tendência de incremento. Mas são belos, os relógios que escolhi, e é por isso que os quero. Validam a minha noção de estética, por mais que seja privada e discutível. O belo agasalha-me de mentiras procuradas, que confirmam o inevitável: “everybody lies”...

Essa mesma estética que me dizia os amores com rasto de cinema, em eternidade: invencíveis, irreparáveis, maravilhosos de contradição. Poucos, de resto, e ainda bem. Mensageiros de uma verdade que teimei em pensar diferente e leal.

Não há na vida mais que uns momentos de abandono. E temos a verdade, a nossa, que construimos como irrefutável e imperecível. A vida farta-se de nós, no momento em que a despedimos. Olhe, desculpe, era só por um bocadinho... Não. Há que entrar o reino da consequência. E depois, já tudo é silêncio e ausência demandada. Não queremos jangadas de salvação, senão as que nos carregam por mares de arribar a um porto que é nosso, apenas nosso, desconhecido das rotas marítimas. A nossa verdade escusa-se ao racional acrescentado, pensa que sabe, navega pelas estrelas.

Caminhamos descalços por um lugar de encontro com a promessa que se faz tarde. E que sabemos lá, perto do que somos e não validamos. «Ser» é um lugar difícil de manter, que ansiamos ao segundo e demitimos ao minuto. Nada nos encontra na verdade que defendemos. Porque o sucesso tem face, vive de imagem reflectida. É espelho polido de nós como photoshop da existência.

Mas eu, eu não sei de aprender, de como seguir os passos da conveniência. Arrumam, é certo. Mas será que me quero arrumada? Há uma espécie de caos em mim que me sitia, quando tudo parecia correcta e finalmente organizado. É que a ordem mortifica-me, na mesma proporção em que preciso dela. Vivo intercalarmente.

Não sei, jamais soube por onde seguir, apenas percebi os atalhos que recusei. Sei de tudo o que não quero - porque não me reflecte. Seguir adiante é uma outra coisa, despojada da ideia de cerco. Que não me larga os dias. Ressaco por um mecanismo de off a pedido. Largo as vantagens por aí e sonho-me límpida como cristais, buscando a estrada que me reconhece e sabe aonde vou. Onde quero ir.

Mentira. Sou um mapa confuso, de avenidas, alamedas, ruelas e becos, que se intersectam e adiam o destino. Não sei como se gera uma construção. Uma vida sustentável. Não a de «coisas», que bem fundo desprezo, e não apenas por demonstrada incompetência. Uma outra vida, talvez outro nome, onde um olhar de criança reviva sem a decepção.

Por isso, aceito o tempo que já foi, onde me reconheço minimamente num lugar de partir, que sei procurar e acredito, um dia, alcançar. É o tempo combustível, que me põe em marcha. Porque, paradoxalmente, não paro nunca.

Até lá, onde todos os pontos convergem num bom ângulo de construção, as «coisas» sossegam-me. São a minha Ordem. Numa overdose de belo, que já me iludiu de tempo, como certo.

Hoje, tento com empenho semeá-lo de mim: um tempo que me ensine a posicionar o Outro, que sempre privilegio e tendo a proteger, mas agora num patamar justo, que não me desfavoreça.

Até que, por fim, me reconheça, num lugar de vida ou de morte, no futuro que sempre fui.

E o amor vença nas coisas bonitas da terra.



Ana Vassalo
Mar 16, 2015 – 00:31