"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
************
"I am nothing.
I will never be anything.
I cannot want to be anything.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."
or...
"I am not nothing.
I will never be nothing.
I cannot want to be nothing.
Apart from that, I have in me all the dreams in the world."
(Álvaro de Campos in "Tabacaria")
LISBOA - Chiado
"Fernando Pessoa" by Lagoa Henriques. The place: "Café A Brasileira" (Brazilian Café) - 1905.
PLAYLIST TODAY
MUSIC IS THE PASSION REPORT
♥ ♥ ♥
PLAYING SOFTLY WHILE SOMEONE SANG THE BLUES
Saturday, Jul 22, 2017 - 17:57
SALVADOR SOBRAL - NEM EU [DORIVAL CAYMMI]
YouTube – "Salvador Sobral"
ANTONY HEGARTY + LEONARD COHEN - IF IT BE YOUR WILL [COHEN]
YouTube – "Oggmonster"
CHAN MARSHALL (CAT POWER) - I'VE BEEN LOVING YOU TOO LONG [OTIS REDDING]
YouTube – "anaruido"
JANIS JOPLIN - ME & BOBBY MCGEE [CHRIS CHRISTOPHERSON]
YouTube – "ThE DuCk"
JEFF BUCKLEY - LILAC WINE [JAMES SHELTON]
YouTube – "
roberta panzeri"
DAVID BOWIE - WILD IS THE WIND [JOHNNY MATHIS]
YouTube – "Peter Music HD"
_____________________
LEANING INTO THE AFTERNOONS by PABLO NERUDA
«Inclinado en las Tardes»
YouTube - "FourSeasons Productions"
CHANGING BATTERIES - OSCAR WINNING ANIMATED SHORT FILM
YouTube - "Bzzz Day"
DIALA BRISLY - A BEAUTIFUL YOUNG LADY
(a huge thanks to my daughter who e-mailed this video to me)
BBC Newsnight
«Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman - artist Diala Brisly - who is trying to make life that little bit more bearable for Syria's kids.»
Syria is devastated by five years of war - and it's taken a huge toll on the country's children. Here's one woman -...
I got here to hide. From equations and patterns. From repetition, after all.
Closed the door and got me a special place where I thought I could
somehow sit close to the stars. But I soon found out that the sky was
still opaque, no matter what the steps. And so I left. Again.
I thought, then, I could build me a different ceiling, a new-coloured scrap
of highness. And then make it work. Where I could dream, more than I sleep.
I have long decided that sleeping is overrated - that I know for sure. So I
take that time instead to travel the night alone and in the meantime I allow
myself to fly, unlike stated before... Yes, I like playing with paradox, to
expose the inside of words and the revelation of writing down the voice of a
silence. My adventurous, ever-walking silence.
So I came back. Here, within this quiet world, I intend to gather all my
things usually kept hidden or inactive. They are here to speak.
And since the future is a stand-by secret, I want to live by a precocious
clock, at every running instant of every entering second.
And I will not slow down until my "future exists now" - kind of reverse
quoting Jacob Bronowski.
Ana Vassalo in my site "CAFEÍNA"(former "No Flying Allowed")
Nov 11, 2010 - 11:54
No lugar do costume, cá
estou, aquietada em recolha pela multidão em ruído. Café por
parceiro, amigos em passeio de amores, e muita água de azul. O meu
Tejo posto em frente, na Lisboa que mora em mim. Já ali, rio em
marcha, no outro lado destes escassos dez metros que nos separam.
De tudo o que vivo aqui,
não sei nunca como o dizer, as palavras tornam-se arredias, por inúteis,
num lugar que me conhece de raiz. Tudo o que é preciso para ser Vida
está cá, ao pé de mim. E estende-se pelo olhar sem descanso, mesmo
em frente à confusão, que se desfoca.
Lisboa com Tejo é Casa
feliz, casa minha, memória de todos os pedaços de mundo bom que me
agarrei pelos anos. É dança nos olhos, música em festa, presença
de África já aqui, no imaginário criança que se revive em mim a
cada palmeira, o cais, o espaço largo e branco, a luz alta que pinta
o mundo mais comprido. E o rio que é mar, o Mar tão perto da
verdade que fomos ao primeiro fôlego, o choro primordial.
Lisboa é isto, assim,
que nunca se explica em razão, unidade e diferença, o Tejo quase mar, o mais longe feito aqui, pelos barcos, pela corrente, pela alma solta
em expansão. Lisboa é encontro de Povos em casa boa, e é logo
depois o partir: por isso a saudade, um fado vadio na garganta que anseia
por inconhecido.
É mercador na Tormenta,
que se conquista e paga o pão e apaga o medo, e agarra o mar e logo
é cais, cais da Boa Esperança, encontro de pátrias, de amigo,
esquina de amores.
Lisboa é romance da
noite, com Tejo negro ao fundo e Cais das Colunas em luz, amarela de
pinturas e de artistas em verso, de muitas fugas sem volta e
ausências gravadas no rasto longo das águas de sentir.
É chão de gritos com
sal, em Belém, como é retrato de uma saudade ainda sem nome, dessa
África que um dia nos entrou o coração, e com ela o guarda em
eternidade.
Lisboa canta brancas
casas pequeninas de ser paz, pelo olhar que se encontra com o mais
antigo registo de belo, janela rasgada ao rio, contos de muitas
maravilhas no ar.
É terra molhada de
lágrimas que se evadiram do mar zangado, a vida em entrega total sem
consulta de futuros. É improviso e trabalho, e um descanso tardio
que se inventa pela noite.
E é poema de abrigo,
como é de raiva presa e deglutida, que um dia acorda na força e
cresce na flor das armas. Lisboa é imprevisto, sem agenda ou
calendário, vive ao momento da alma. Um ritmo que se aprende para a
Vida, e nunca mais o mundo será antes, depois dela.
Lisboa é rampa no futuro
que nos espreita, o navio ali em guarda, que conhece o mar profundo,
um que nos pertence sem porquê.
E Tejo é ponte, ponte de
mar que traz o mundo preso ao peito, namoro eterno dos encontros, o
azul que lava e amanhece olhares.
É esse amor que não
sei, que me escrevo para saber, eterna surpresa dos dias que correm
devagarinho na mão aberta ao devir.
Lisboa com Tejo é vida
de branco como crianças, que brinca e cai e tropeça, que levanta e
sorri a lágrima, com o sangue do joelho já esquecido.
É tudo o que não se
arrepende, que vive à flor do abismo com uma asa sempre aberta na
coragem. É a vida que gira e que dança, um sopro de lume na noite,
o dia mais claro do amor, um sossego de mar que dá cama ao rio sem
freio.
Nada e tudo, menos quase.
Lisboa é.
Assume e desafia, acorda no Tejo,
oferece-lhe o pé, em luz se despe e é
ousadia, o beijo de mulher ao Sul:
pele tatuada de Vida,
sem alfabeto ou medida,
que se entontece de Azul.
one of the portuguese bands at the
festival’s 1st edition.
Oh tender sweet Generation of mine...
My oh my, we’re still
here!... And I’m 56 now. Older, hopefully wiser - though not
granted. Still can’t figure out how and where this is my world. But
I’m getting there, restlessly chasing the answers. Can’t stop at
all.
Let me tell you how I grew
up: censorship, forbidden books, movies and records, even comics
books, forbidden words, conversations and “groups” of more than
one person walking on the street or else it could be considered a
“gathering”, a riot attempt; and friends getting arrested before
my very eyes: some getting wounded, some killed, the rest of us
reaching today, free and alive, because a certain, special month of
April once happened around here.
My friends used to joke
about my luck saying I had a revolutionary angel watching over me. I
was the lucky one, indeed, and only because I was too young, just a
child in ‘their’ own words, which did not protect me from getting
expelled twice from the bus, by ‘them’, with a guy grabbing me by the
arm since I refused to get out, and also deprived from my (forbidden)
books while coercively being “sent home” with a final and
threatening warning. No news, since I had already been expelled
before from my first High School, after 4 years there. I was 14
then... Yep, it happens. Couldn’t care less - I was a child indeed.
Never mind.
Even so, all this being
said, someone, somehow always managed to get the latest news into the
country, which survived for about 1 week before censors got alerted -
by a crew of informers ‘mingling’ with the crowd everywhere -
and act on it.
Music was the messenger
and it all started when I was just a kid, at 8 (see Dylan), 10
(Hair), 12 (Marmalade), and obsessively listened to the radio, my
greatest companion in a recent solitude caused by my parents
divorce. But also had those older cousins that got me fully updated.
They used to borrow my smallSony tape recorder (small was a huge innovation at the time, ok?)
my father had bought in Cape Verde when we were living in Africa
(Guinea-Bissau) in order to have their favorite hits recorded. So,
when returning that heck of a machine to me everything was right
there for me too and I got to know them all! Truth is I couldn’t
understand a word ‘till I was 12, but some songs just moved me so
much that they stayed with me until this very day.
Vietnam & Flower
Power: these were the 60’s and they hit us here in force during the
70’s. No wonder then that mine is a totally messed up generation:
drugs took most of my best friends and schoolmates. I was the only
one sober among them but clearly remember no one ever bothered me for
that. I did try it later, some minor stuff, for 2 weeks, just hoping
to understand my (ex)husband’s ways: it was an experience indeed
but unable to convince me it was better than my mind’s
independence, which means freedom, my most powerful drug.
Well, the thing is that
early too soon the mess began: I was 17 when Manel died, at 15, just
cause he wanted so much to fly and heroin convinced him he really
could... He was my best friend and protector since I was 14... (and
yes I’m smiling right now). Then, Luis, at 20, when I was 18. We
were starting a band, had already auditioned to a record company. All
vanished suddenly so I just gave it up right there, all accounting to
nothing but terrible memories, I simply didn’t want to go on.
Lately he had decided to create his own sound, so he had very
recently composed a song, a beautiful homage to the revolution, which
we sang at his funeral. And life went on, anyway. The last one I
heard about, Zé S., passed away at 38.
But many, many more
disappeared. When I met Manel he had 8 or 9 brothers and sisters left
from an initial total of 14 kids, for some had already died. They
came from an upper-class family, were very popular and incredible
good friends, smart, tender, generous people.
But they were all crazy
too. And all amazingly beautiful! People used to say Manel looked
like a young Jesus Christ. I knew his brother Pedro first, who was
older than us, and later moved to Amsterdam; then Tozé, the oldest
one alive, who became an icon on account of a poster someone made of
him at The Vilar de Mouros Music Festival: that was indeed a great
picture, showing him playing the flute, with his long, long beautiful
hair, sitting on the floor with his legs crossed and wearing a long,
foot-length white roman tunic, and leading everyone to believe that
it was Ian Anderson from Jethro Tull in the photo; and finally,
Antónia: our faces looked so much alike that no one at a first
approach ever knew for sure who was who. So here’s to it: these are
Manel’s brothers and sister I knew who died shortly (3, 4 years)
after him, plus one I didn’t know.
And yet all we wanted in
life was to be damn freakin’ happy! An impossible mission since we
had our own war going on in Africa and our beloved ones kept dying on
us. We were all so young, just trying hard to forget and move on. And
so we did. On and on. Loving and playing music for fun, “devouring”
resistance literature and poetry, laughing insanely with Quino’s
sweet revolutionary comics books “Mafalda” (also forbidden),
getting active in all sorts of political confrontation and
believing in a fantastic, liberating future.
Well, Yes!, we finally had
our day in April 25, ‘74. Our own, special ‘D’ Day, the dawn of
all possible Dreams. And we were in fact chasing the dream for a
while.
All gone now.
Happiness remains on hold
while ‘belief’ is still the word. But we got some deep wounds we
keep trying to heal. Yes we look like normal people, well fitted in,
some of us even went back to school and finished college while
already working, made our paths, got our good jobs, married and had
our children, earned our good money... and spent it all by the
minute. That’s who we are. But despite all that we somehow managed
to keep our better, child’s soul. Haven’t lost it in the way, not
yet.
Some great songs remain from those times, when mother
hope was the key.
Let me lend you some of
them. These are special to me ‘cause they’ve always made me cry.
And still do.
So, treat them gently for
they own a powerful history of the contemporary world.
BOB DYLAN + KEITH RICHARDS
+ RON WOOD – BLOWING IN THE WIND
introduced by JACK
NICHOLSON
This is my song - even sang it in a Company's Christmas dinner, a huge success! ;)
in YouTube - "SuperVoyager2011"
HAIR – LET THE SUNSHINE
IN
I absolutely love this song and this video, they're so powerful, specially at the end!
in YouTube - "suavis"
THE MARMALADE –
REFLECTIONS OF MY LIFE
This might as well be a video for the Portuguese war in Africa, only the music would be different...
Tempo andado, que vê mais longe, escolhemos por dentro dela apenas a que reconhecemos. E então, sabemos: família é a que entrou no coração. Que cresce depois, ou não, quando a ela se juntam, mais tarde, os que vêm agarrados quando os nossos filhos voam.
A minha, que era já grande, ficou mais alta. E é nela que sou feliz.]
in facebook, 22-Ago-2013 - 01:35:
Para a Bi, com um beijo grato. Parabéns, minha querida. Um dia
lindo para si, com todos os nossos queridos. ♥
ladrões de
estrelas
amor é água de rios que conhecem o regaço desde
o berço ao fim dos tempos. tem mãos brancas de criança e
olhos rasgados no longe que guarda mais entender.
é o
coração mais largo, bate virado a nascente e abre a janela
de mundo que sabe o canto dos pássaros pelo caminho dos
ventos a correr por cais de abrigo.
amor é rosto de
alguns que traçam rotas no céu e vão depois tocar a
estrela que desprendem de mansinho para acender por alguém que
em terra sonha com a luz.
(AV)
[E por fim, inevitavelmente, a música: esta.
Porque gostamos.
Porque há sorrisos com força tamanha, que pedem contas ao frio dos mundos...]
JOSH GROBAN & THE AFRICAN CHILDREN CHOIR – YOU RAISE ME UP
«Born Rolihlahla Mandela on July 18, 1918, into a royal family of the Xhosa-speaking Thembu tribe in the South African village of Mvezo, Nelson Mandela led a decades-long struggle against the oppressive restrictions of apartheid in South Africa.
Released from prison in 1990 after spending 27 in years in jail, he was elected the country's first black president in 1994.
He retired from politics in 1999, but has remained a global advocate for peace and social justice.
As luzes, tristemente baças, confirmam
enganos ópticos no desarrumo das almas.
Ainda.
Mas o café há-de chegar, muito e
quente, celebrando extremos endógenos. Eu.
Ainda.
Jantar à direita, super bock em frente
e caderno à esquerda, de uma mesa ínfima e sobrelotada de
ansiolíticos de recurso, por entre multidões da bola no habitual e
cúmplice café da rua, assim, de um nada saído sabe-se lá de onde, apercebo-me pairante pelos meandros antigos de um casamento roubado
à utopia, com garra e fé, e vontades invencíveis por discordâncias
paternas. Vontades combatentes, nuns dezassete anos meninos,
decididos à “felicidade, por fim”, de uma claridade a
transbordar de sonho. Antes.
Antes.
De um depois agarrado ao
desequilíbrio. A vida no arame. Em vertigem de queda. E a fuga
reparadora, os esconderijos, de trevas no avesso de mim: o cíclico
isolamento de reciclagem. Que ganhou força de hábito e, eterno, se
fez companheiro até sempre.
...
Era ali, sim, aquele, o lugar fechado
de horizonte e terras, com lógica de nunca mais e tópica inagendada
de promessas, que me tinha acolhido em regime de chão e
pequeno-jejum por umas férias sem prazo. Nada de Tibete ou
romantismos existenciais, apenas fuga e dormência intentada em casa
de coisa alguma. Ali, no fundo do mundo mais fundo: eu.
Os muros, em ruína, transmutavam-se
com a noite e os intervalos de cal cansada de sombras projectavam
vultos inesperados, olhos vigis e dinâmicos à espreita de todos os
medos conhecidos, e mais os outros que assim se faziam chegada.
O espaço era largo e abrangente de
acantonamentos procurados. Por isso me escondia ali, no inferno
estático de um futuro que grita a urgência de uma paz de grutas.
Onde o mar se guarda de luares e se furta a marés rejeitadas, por um
vestígio de descanso.
As palavras não tinham como evadir-se,
por lá, onde a possibilidade perdia significância de expressão.
Atropelavam-se, amontoadas de pensamento. Galgando lugares à frente
na fila de chegar cedo e, curiosamente, não para morrer. Buscavam o
som, o eco ou o grito, a tinta escura da solidão em marcha ou o
écran da debandada em libertação. Inevitável mas escusadamente.
Os ventos, desencontrados, entravam
desenfreadamente, evocando que ouvir sugere a existência de vida num
qualquer lugar do tempo - que se perdeu. Por vezes, até, rompiam
silêncios uns dias de barcos e trompas, abrindo vagas ao caminho no
esquecimento do mar.
Chegavam ruídos de códigos, de SOS,
sonhos de náufrago inconformado, em Morse, que um dia de há muito,
muito tempo, adaptei para os sentidos: para o ‘traço’, o
pestanejar demorado; rápido para o ‘ponto’; olhos bem abertos,
para o ‘espaço’.
Assim, uma arte exclusiva, de comunicar
pelos olhos desenhando letras na luz... Lembro que “amo-te, Ana”
tinha muitos traços, muitos olhos fechados longamente, tal como
“mentira” muitos pontos, de olhos céleres e fugitivos.
Fatalmente desencontrados no encontro. Um certo tempo que hoje me
escapa, mas me identifica como esposa convicta de um
vagamente-marido, que me (des)acompanhava, etéreo, em traços e
pontos de inventar a vida, a mesma que nunca logrou entender, dela se
demitindo sumariamente, a cada segundo, mas tentando, sem tréguas,
arrastar-me consigo, em roubo contínuo de ar e esperança, ou
somente de sobrevivência, sem nunca o assumir ou sequer aperceber.
Talvez por isso, a memória desse ‘eu’ se torne hoje,
instintivamente, em terceira pessoa do singular, por imperativo de
subsistência.
Por tanto ou tão pouco, então, as
fugas recorrentes, de um inferno por outro, da superfície de outrém
até ao fundo de mim, descendo para me achar.
E ali, naquele lugar de vácuo, com
contornos de noite e curta-metragem a preto e branco, o incontornável
protagonista de mistérios, que agora era eu, sentia o adensamento de
cada partícula de não-evento, do nada tornado coisa. Coisa de se ir
vivendo, ou algo aparentado que lhe suceda.
E pensava, tantas vezes, que os mortos,
em matéria flutuante e invasora, intangível mas pesada, deviam ser
a própria antecipação de mim nesse presente de identidade
silenciada. Eles e eu, eu e os mortos em comunhão de idades, eras de
ausência.
Ocorria-me, depois, que mais fundo que
a morte era aquele fosso imenso e temporariamente intransponível,
onde descia ciclicamente, sem presunção de amanhãs, tão-pouco a
vontade, buscando protecção contra interrogações imobilizantes –
o absoluto do paradoxo para quem se autoentorpecera no confortável
conhecido de uma escuridão protectora, sem horas. Cinco anos,
buscando momentos sem horas.
Clandestinamente, contudo, uma nesga de
luz, a querer filtrar-se por entre rochas e negação, ferindo-me os
olhos de Vida. E depois, sabe-se lá como ou porquê, num qualquer
raiar de sol por entre praias, inquiri de areais e arrisquei saudade.
Pus o pé curioso mas em cuidado do lado de fora, e um sussurro de
brisa tomou o coração de regressos.
Saí. Cobrindo o olhar com mãos certas
de abdicar a esperança. Mas saí.
De quando em quando, entro o mar, que
acarinha o melhor de mim, e afoito-me a novas visões de construção,
ou de renovação, em oxigénio de mundo. De quando em quando, tento
a Vida. Que intercalo com fugas por abrigo, que respiram em grutas. O
espaço que me concedo entre lugares de ser e outros de sobreviver é
aquele em que me perco no mundo, sem casa que me conheça.
Acredito-me na luz, como na escuridão.
É outro, a que ainda não dou nome, onde me perco em fragilidade de
procura e mudança, o lugar que me escurece a fé. Porque não me sei
no limbo. E ajoelho e soçobro como prece em terra surda. De um deus
que não me resolve.
Acordo de mim a cada dia como se o
mundo começasse aqui, exactamente em mim.
Cá dentro, na mente, converso com a
memória os momentos, os rostos que sei ou imagino e me trazem para a
vida.
Por mais que essa força indomável que
me asfixia me empurre para baixo, existe uma outra, poderosa e
completamente desconhecida que me impulsiona para cima. Não lhe sei
o nome, mas imita tudo o que não tenho, no momento em que não
tenho. Passa por dentro de mim, sem testemunhas, e ensina-me o
caminho da saída. Para a Liberdade que não tenho, que me falha, o
ar que tenho preso há eternidades, como que em redoma.
Penso que se o amor me escolheu a dado
momento e por ele eu escolhi abdicar de tudo o que preciso a cada
microinstante para respirar, então, deve estar certo e não o
contesto. A escolha é minha e sei que faria tudo de novo se um
qualquer mecanismo temporal me levasse ao mesmo lugar. Esse, que me
fixou há quase seis anos e todos os dias me faz questionar as
razões da Vida e de Deus mas me traz sempre de volta à mesma
verdade – a minha.
Tem um nome e chama-se Mãe. Uma mãe
que foi lindíssima e hoje é bela, ainda, na doença, que voava e hoje está
presa no corpo. E na mente também. Que amava tudo e todos por dentro
de um sorriso de açúcar e olhos líquidos de ternura, e agora nem
sabe sorrir, já não fala, apenas articula palavras sem som,
porque o corpo desaprendeu o básico. Uma Mãe que me chama mãe...
e isso diz tudo. E que eu amo até ao limite do insuportável, que
olho todos os dias com a dor terrível da frustração por não poder
ajudar mais. Mas que escolhi, ou que, por tudo isso, escolhi acima de
mim.
Mas acontece que eu preciso de espaço,
ou de espaços, amplos e abertos, com céu e mar e verde e horizonte
bem longe. Preciso de correr ao vento de braços abertos, de respirar
o mar, de me deitar na terra, no verde dos prados, dançar na chuva,
sentir os cheiros e ver a luz. Não tenho. Perdi-os para muitas
paredes que me cercam quase vinte e quatro horas por dia. Então, eu
que sou incapaz de viver uma porta fechada à chave se não for eu a
rodá-la na fechadura, morro, pedacinho por pedacinho a cada momento
que entra nos meus dias. (Não será por acaso que alguém que amei e me
amou ao longo de 18 anos me chamava bandagas passarinho...)
E de repente, esse tal que é "não sei
quê, nasce não sei onde e dói não sei porquê", traz-me de volta,
reinspirada, como quem absorve todo o ar do universo, e vence por
dentro de mim.
Amo. Amo desalmadamente tudo e nada.
Pelo pensamento construo mundos, de insanidade ou de sossego, do que
preciso para continuar. Abraço silêncios de conciliação comigo
para depois partir ao vento com asas recosturadas que tudo sabem dos
lugares de nascer livre.
E é como se me sentasse aqui, frente à
janela aberta para um Alentejo sem fim, de sinos às cinco e
planícies amarelas, restolhando no vento segredos de terras de
outras vidas. Ou de um sol a deitar-se em África com cheiro de terra
molhada e a luz branca das avenidas largas que me soltam no caminho
em partida, além-mar, pelos navios, além-longe, um além-sempre.
Ao lado, talvez o meu melhor amigo, que
me escuta na palavra e no silêncio, que sabe o momento que é do
Outro, o momento de ficar apenas, como rocha, ou como ombro, ou como
porta aberta para a luz. Sei-o ali. O que penso quando falo por
dentro de mim não o olha, mas sabe-o e é importante. É bastante.
Perco-me, sim, pelos aléns que
construo na minha janela de viagens. E enquanto os olhos fogem mundo
afora, eu entendo, num lugar bem mais fundo de mim que eu própria,
eu entendo que amo. Que a olho nos olhos, em aventura de conquista,
em passo de roubar futuros, e a puxo para mim no mais profundo beijo
que a memória guardou de tempos de beijar. Amo-a com força e com
raiva, amo-a com regresso. E os abismos que venço, as noites sujas
de morte que me acenam com lenços de paz e alívio, capitulam e
assinam a rendição. Volto por dentro de um dia mais branco que me
carrega de Vida. Essa, que amo até à loucura.
Porque amar é a minha condição
natural, tão simples, genética, minha.
Pelo emaranhado que se vai desatando
nesta cabeça em permanente desalinho, surpreendo-me a concluir que
jamais odiei. Não há na memória registo do mais pequeno vestígio
de ódio por alguém. A raiva sim, compareceu, tantas vezes de partir
sem opção, tantas vezes de verdade subvertida, amarfanhada e
indigna, que nos quer sitiar, roubar identidade e submeter,
arrancando à inocência pedaços irrecuperáveis. Essas tantas
vezes de bater a porta com estrondo e deambular pelo mundo sem rede.
Mais uma vez. Mas provisória. A raiva é provisória e sucumbe logo
que nos reencontramos na nossa pele, que responde ao toque da
autoestima (re)conhecida.
E eu amo, de novo. Tenho amores de uma
vida, de eras partilhadas e construção de futuros eternos, enquanto
duram... Comigo é sempre para sempre. Com a vida não. Ela escolhe e
actua, sem cuidar de opiniões. Acato, depois de muita luta inglória
e parto. Não deixo a ninguém a tarefa de fazer as malas. Não
deixo. Saio sempre pela porta grande.
Mas amo.
Tenho amores outros que nunca sairam da
mente, que não foram, sendo tanto. São aqueles de uns tempos de
renúncia pelo encontro dentro de mim. E posso amar muito, assim.
Porque idealizo e abraço o imaginário. O perfeito imaginado que
agarro do Outro e guardo calmamente até que a vida se revele e
decida se o perfeito é sonho de cristalizar ou se é vida e
acontece.
No peito estouram tempestades e a
surpresa, que se arrasta e não define, dói como grades apertadas na
alma. Mas acredito que há um tempo de verdades e de fins. Espero por
ele, porque enfim, aprendi.
Nunca aprendera a espera, até não ter
opção e ela me tomar a mim, por domínio. Arruinei bocados largos
de vida por não saber esperar, por não querer esperar. Em todas as
frentes. E ainda assim, passando por entre os destroços,
reconstrui-me e venci, em todas as mesmas frentes.
Hoje, é um tempo de sossego por fim,
aprendido por inerência, não por que o procurasse. Nunca me dei
espaço a respirar entre eventos, entre amores, entre caminhos. A
pressa, a pressa de saber o que está no ponto-espaço seguinte, como
me torna esse lugar, o que traz de saber e emoção! A surpresa
perseguida, isso sim, que é inimiga da espera e dos dias todos
iguais. E depois, às vezes, a dor fina e paralisante da resposta que
não se antecipou...
Sempre quis viver depressa, em
velocidade. Até dormir, como em tempos um colega me sugeria, era
“depressa”, para ganhar tempo de vigília para a vida. Mais
tarde, lá pelos 35, resolvi o assunto, deixando de dormir, como quem
diz reduzindo ao mínimo a inevitabilidade. Por entre directas a
vencer deadlines, intercaladas com 2 ou 3 horas de sono, agarrei o
tempo e fintei-o, ou as habituais 16 horas de trabalho, seguidas de um
sono reparador em dose normal, matar-me-iam por falta de tempo para
acordar.
Agora, este tempo que vivo e tudo me
relativiza, que me rouba oxigénio e me retrata de cara para a
parede, encarcerada dentro de uma opção assumida e inquestionável,
sem volta nem solução à vista, ensinou-me muito, senão quase
tudo: que para sobreviver é preciso também validar os tempos de
calma, essa que nos pensa para nos recuperar. O que não tira tempo
para pensar não subsiste. Não há como viver o improviso
eternamente. Mata. As finanças, a confiança, os amores, o futuro. A
inocência. O improviso indiscriminado aniquila tudo à sua volta.
Mas também nos renasce: ensinando.
Volto a hoje, este dia de terça feira
que me acordou flutuante. Guardo em mim um amor imenso, neste tempo
de renúncia. Que não validarei. Há vidas que não se podem
partilhar ainda que se queira. Conduzem somente à destruição: de
um e de outro. E assim, do amor. E ficamos, depois, despojados de
sentir durante épocas, eras, que nos minam por dentro e explodem no
momento errado, na pessoa errada. Sei disto, como estudante aplicada.
E se doi, persistentemente, se teima em
vingar, se não abdica e se torna presente nos dias, eu sei também,
do muito que já o vivi, que o tempo mostra. Não é a fuga repetida
de algo ou de alguém que nos afasta seja do que for. Oh Deus, como o
sei! Podemos sequestrar o fim do mundo para nos guardar, sem aviso, e
ali nos escondermos meticulosamente, que quem nos quer encontrar,
encontra sempre. Então, por mais estranho e pequenino que possa
soar, sei-o, de há muitas fugas atrás, que o que é para nós a nós
chegará. A seu tempo.
Assim, muitas estradas sem Ítaca
depois, aprendi a espera. E por isso agarro a Vida todos os dias,
como beijo, como sopro, como universo, por mais que as noites se
insinuem. Amo a Vida sempre que amo gente. E amo gente. Às vezes,
muito poucas, nuns momentos de inspiração, de luz mais ampla, amo
mais estreitamente, mais perto, mais corpo e alma, mais eu. Amo essa
metade platónica, perdida, que corre os tempos de todos os universos
pela unidade, pela reconstrução.
E então, apaixono-me pela vida, ainda
uma vez mais. Como música, porque caminho com ela. É ela a maior
parte de mim, a que me regenera e me sabe. Porque só há Vida quando
há paixão, e a música nasce em paixão. Por cada ponto do cosmos,
por todos os Seres, pelas Gentes, pelo Amor. A paixão pelo Amor, que
é insuperável!